Rota Zero
9 Por Alguns Trocados
Notas iniciais
December
POR ALGUNS TROCADOS
– Você o quê? – Minha mãe gritou tão alto do outro lado da linha que eu me perguntava como não ficara surdo. Estava no final da rota 20 e tinha aproveitado que meu telefone finalmente tinha um pouco de sinal para ligar para a mulher. Mas pela reação dela, começava a me arrepender disso.
Pude ver a expressão dela, bem descontente, através da telinha do Xtransceiver que ela tinha me dado no último natal.
– Como, apenas me diga como, você gastou todo o dinheiro que eu te dei? – Uma veia estava pulsando em sua testa.
– Eu comprei algumas pokéball.
– Bianca já não tinha te dado algumas? – Retorquiu.
– Sim, mas eu precisei usá-las para capturar os Pokémon – expliquei. Ela bufou e levou a mão a testa.
– December – ela me chamou pelo nome todo, ou seja, estava muito, mas muito brava – quantos Pokémon você capturou? – Eu demorei alguns minutos contando.
– Um Sunkern e um Pidove. Eu tentei pegar um Patrat, mas não deu muito certo.
– Bianca te deu cinco pokéball. Você tem só pegou dois Pokémon. Como você gastou todo o dinheiro que eu te dei? – Ela gritou tão alto que até um Sunkern selvagem que passava despreocupadamente pela rota, se assustou.
– É que eu não sou muito bom com esse negócio de captura, então demorou para eu pegar o jeito – eu não tinha gastado todo dinheiro apenas comprando pokéball em Flocessy Town, eu tinha pagado minhas refeições e o médico que examinara meu pé.
Ela revirou os olhos e tenho certeza que se nós estivéssemos nos falando pessoalmente, ela me esganaria.
– Pois se vire. Eu não vou te dar mais nenhum centavo, seu moleque irresponsável – o rosto dela estava vermelho de raiva. – Se você usasse os conselhos do livro, isso não teria acontecido.
– Que livro? – Perguntei, não fazia ideia do que ela estava falando. Ela me olhou, piscou várias vezes como se quisesse ter certeza que eu não estava brincando.
– Eu coloquei um livro na sua mochila – falou em tom baixo e terrivelmente ameaçador.
Joguei a mochila no chão e revirei o conteúdo até achar um livro que eu nem fazia ideia que estava ali.
– Esse livro? – E mostrei a capa através do Xtransceiver. Ela ficou ainda mais brava, se é que era possível e desligou na minha cara.
O título do livro era Guia de Como ser um Coordenador Pokémon de Sucesso e tinha sido escrito por Adizia Charleston. Eu sabia que desde que minha mãe tinha abandonado os Contests, ela escrevia livros, mas nunca tinha me interessado minimamente para saber sobre o que eram. Dei uma folheada rápida. Havia alguns capítulos sobre captura de Pokémon, treinamento, alimentação. Quase no final, havia um capítulo que falava de adereços e enfeites. Definitivamente, eu não estava interessado em nada daquilo. Enfiei o livro no fundo da mochila e retornei meu caminho.
Era mais de meio-dia quando cheguei a Floccesy Ranch. Não era meu objetivo parar por ali, mas eu estava cansado e Cassie havia me dito, quando liguei para ela no início da manhã, que eles sempre precisavam de ajuda para cuidar do rancho e talvez eu conseguisse alguns trocados.
O lugar era amplo e agradável. Havia um grande cercado cheio de Mareep que pastavam calmamente, uma coxia enorme e a casa principal ao fundo. Atrás da casa havia um bosque alto e denso e um vento leve balançava as copas das árvores.
Antes que eu pudesse chegar até a casa principal, uma simpática senhora surgiu do campo, trazendo uma grande lata nas mãos e desviando das Mareep que pastavam.
– Pois não, meu jovem? – Ela limpou o suor da testa e sorriu. A lata parecia muito pesada, mas ela carregava com grande facilidade.
– É, bem... – eu nunca trabalhara na vida. Sequer arrumava minha gaveta de cuecas em casa, eu estava envergonhado de ter que pedir emprego, mas eu precisava de grana já que minha mãe se negara a me dar mais. Talvez, eu devesse ter ligado pro meu pai, ele era muito mais mão aberta. – Uma amiga minha disse que a senhora precisava de ajuda na fazenda.
– Amiga? – A velha deveria estar desconfiada, afinal eu não era das redondezas.
– Cassie. Foi ela quem me sugeriu vir até aqui.
– A pequena Cassie. Ela é adorável, não? – Se você diz por adorável uma pirralha sabichona de dez anos que tem voz de vitrola enroscada, então ela, com certeza, era adorável. – Bem, não estamos em época de tosa – e indicou as ovelhinhas – mas como meu marido está resfriado, estou cuidado de tudo sozinha. Não seria bem um emprego, mas pode me ajudar até meu velho melhorar.
O velho deveria ser o mesmo que o doutor Eliot tinha vindo consultar. Eu sabia que era maldade minha ficar contente pela doença do homem, mas se não fosse por isso eu estaria sem nenhum centavo.
A mulher me acolheu e mostrou um pequeno quarto no fundo da casa, onde poderia guardar minhas coisas. Depois me ofereceu almoço e me apresentou ao marido. Senhor e Senhora Tomy. Era um casal gentil e simpático, sem filhos, que amava a vida no campo. Depois, a senhora Tomy me instruiu o que fazer e foi cuidar do marido.
Não era nenhum serviço complexo. Dar feno para as Mareep, limpar os comedouros e as coxias que ficavam do outro lado do cercado, abastecer os bebedouros e garantir que nenhuma ovelhinha fujona pulasse a cerca e se perdesse no bosque. Apesar da facilidade, era algo cansativo e desgastante, ainda mais para mim, o rei do comodismo.
Bacon me acompanhava, saltitando ao meu lado, enquanto um dos Herdier que a senhora Tomy tinha me emprestado avançava toda vez que uma Mareep se aproximava muito da cerca.
No final do dia estava tão exausto que mal sentia minhas pernas e nem tinha força nos braços para levar o garfo com comida até a boca. Tomei um banho, analisei meu pé, que já tinha desinchado quase que completamente e desabei na cama. Bacon, que agora passava boa parte do tempo fora da pokéball, se aninhou ao meu lado e dormiu quase que imediatamente.
Apesar do cansaço, eu não estava com sono. Peguei minha mochila e retirei o livro que minha mãe me dera. Imaginei que a leitura maçante fosse me dar sono, mas quando dei por mim, tinha lido três capítulos inteiros e estava achando muito útil e interessante as coisas que a mulher escrevera. Eu nunca imaginara que minha mãe fosse tão inteligente. Olhei no relógio e já passava das duas, marquei o ponto da leitura dobrando a página, coloquei o livro sobre o criado-mudo, ajeitei os travesseiros e dormi.
Estava imerso em sono profundo quando ouvi um estrondo gigantesco que fez até as paredes da casa estremecerem. Caí da cama e Bacon me encarava no escuro, com um olhar muito assustado. Pensei em me vestir, mas quando ouvi uma gritaria lá fora, desci as escadas de pijama mesmo com meu parceiro no encalço.
Do lado de fora da casa, o senhor e senhora Tomy olhavam para o horizonte, na direção de Floccesy Town. Apesar do barulho ensurdecedor, não havia nada naquela localidade que mostrasse que algo estranho acontecera. No rancho, as Mareep tinham saído das coxias e corriam assustadas de um lado para o outro. Os Herdier do casal conseguiam mantê-las unidas, mas um grupo mais velho de ovelhas elétricas conseguiu destruir parte da cerca e fugir para o bosque.
O senhor Tomy fez menção de ir atrás delas, mas foi impedido pela esposa que estava preocupada com seu estado de saúde. Eu sei que esse seria o momento heroico onde eu me ofereceria para resgatar os Pokémon perdidos, mas estava escuro, algo estranho estava acontecendo em algum lugar e eu estava de pijamas. Entretanto, o destino não seria benevolente comigo e a senhora Tomy lançou-me um olhar de ‘sua responsabilidade’ que eu não tive como fingir não ter visto.
Só tive tempo de me vestir. A velha me deu uma lanterna e ordenou que um dos Herdier me acompanhasse. E ali estava o destino me sorrindo como uma vadia, zombando do fato que eu teria que adentrar em um bosque denso e desconhecido na companhia de um Pokémon que não me obedecia e um Tepig medroso.
Não sei por quanto tempo andei, mas me pareceu durar uma eternidade. O céu ainda estava escuro e não havia mais nenhum barulho na floresta, fosse do estrondo que me acordara, do farfalhar das árvores por causa do vento ou o ruído de algum Pokémon. Se era assustador estar preso em uma floresta cheio de animais selvagens, mais assustador ainda era estar em um lugar que parecia não respirar vida.
O Herdier tentava farejar o cheiro das Mareep perdidas, mas ele parecia confuso de que lado seguir. Estava quase desistindo e voltando sem as malditas peludas quando cruzei com um Pokémon, mas infelizmente não era nenhum dos que eu procurava.
Era um Riolu. Eu só sabia o que era porque tinha aparecido no livro da minha mãe, eu nunca tinha visto nenhum até então. Ele parecia perdido e atordoado pelo barulho misterioso, mas ficou em posição de defesa quando nos viu.
Pelo que eu lera no livro, o Riolu era um bom parceiro para Contest. Considerando que nenhum dos meus outros Pokémon tinham skills suficientes para participar da competição, me parecia uma boa ideia capturar o monstrinho. Entretanto, eu tinha apenas uma pokéball sobrando e se quisesse pegar o bichinho teria que ser um ataque perfeito. Mas eu não tinha habilidade suficiente para isso.
Enquanto eu ficava filosofando se capturaria o Riolu, o Herdier o considerou uma ameaça e avançou. O Pokémon peludo tentou morder o bicho azulado que deu um soco poderoso, fazendo o Herdier ganir e recuar. O problema era que o Pokémon dos velhos estava fugindo do combate, mas o Riolu, enfurecido queria acertar contas com qualquer um e avançou para cima do meu Tepig.
Bacon conseguiu desviar de uma sequência de socos, mas não foi ágil o suficiente para desviar de um bem no meio do focinho. Resmungou de dor e tentou acertar o Riolu selvagem com uma cabeçada, mas o golpe não teve muito sucesso. Meu porquinho tentou golpes de fogo, mas além do Pokémon lutador ser muito ágil, a grama estava úmida por causa do orvalho noturno e não queimava.
Para piorar, Riolu estava muito mais adaptado a baixa luminosidade e conseguiu derrubar Bacon no chão e passou a socá-lo como um lutador treinando em um saco de areia. Eu estava quase desistindo da batalha quando senti o chão estremecer. Riolu parou e Bacon aproveitou a oportunidade para se esquivar. Eu achei que fosse algo relacionado ao barulho com o qual eu despertara, quando de repente uma manada de Mareep surgiu através do mato alto, pisoteando tudo pelo caminho, incluindo o Riolu (e eu, se não tivesse pulado para o lado), fugindo de um Patrat furioso. Sério, eu não sei o que há de errado com esses bichos, mas eles sempre estão muito furiosos.
O grupo de Mareep sumiu no meio da grama alta e o Patrat passou por mim como se eu fosse invisível. O Herdier correu atrás do grupo, me deixando sozinho com Bacon e um Riolu bastante avariado. O bicho estava zonzo após ter sido atropelado pelas ovelhas e parecia mais preocupado em fugir do que terminar de me dizimar. Qualquer pessoa normal deixaria o bicho em paz, mas eu não era muito certo das ideias.
Lancei a única pokeball que tinha e rezei. A bolinha vermelha e branca se revirou e vibrou até que finalmente o clique de captura pôde ser ouvido. Fiquei parado no escuro, a lanterna caída de lado e Bacon se esfregando em mim, como um gato feliz. Havia uma sensação estranha de excitação que não existira em nenhuma das minhas outras capturas. Era como tirar dez em um teste que você não estudou e não sabia quase nada.
Peguei a pokéball, a lanterna e chamei Bacon. Minha vontade era correr para casa, ligar para minha mãe e para Cassie e me vangloriar da minha captura (talvez eu pulasse a parte de ter sido salvo pelas Mareep), mas eu ainda tinha que cumprir minha parte e recuperar as ovelhas perdidas.
Era de manhã quando retornei a fazenda. Estava sujo, enlameado e cansado, e com várias escoriações por tentar me livrar daquele maldito Patrat, mas as últimas Mareep fujonas tinham voltado para as coxias. Bacon estava exausto e parecia um pequeno e roliço zumbi andando ao meu lado. Herdier ia a minha frente, rosnando para as ovelhas, para que elas não desviassem do caminho. A senhora Tomy me esperava com uma fumegante caneca de café, que aceitei por educação. Tudo o que eu queria era desmontar na cama e acordar só no ano que vem.
Acordei com meu Xtransceiver tocando. O sol que entrava pela janela do quarto, já estava baixo e alaranjado e Bacon dormia enrolado aos pés da minha cama. Era Cassie. Ela pareceu surpresa ao me ver descabelado e de pijamas.
– Você estava dormindo? – A voz aguda ecoou nos meus ouvidos, me obrigando a despertar.
– Eu tive uma longa noite – respondi com um bocejo.
– Você diz por causa da explosão?
– Sim – concordei e só então me liguei – espera, você também ouviu?
– Claro que sim, foi nas imediações de Flocessy Town. Alder saiu para investigar a localização correta e descobrir o que era, mas ele ainda não voltou – ela revirou os olhos – espero que não seja a Team Plasma – resmungou mais para si mesma.
– Quem? – Eu não fazia ideia do que ela estava falando.
– Um grupo de bandidos, mas eles foram presos e estão fora de atividade, bom nunca os conheci, isso foi o que minha mãe disse – não me pareceu muito convincente, mas eu estava morto de cansado e decidi deixar passar. – Bom, você está cansado. Então nos falamos depois...
– Eu capturei um Riolu – anunciei me lembrando do fato, antes que ela encerasse a ligação.
– É mesmo? – Cassie pareceu não acreditar muito.
– Sim. Foi uma batalha muito difícil, eu quase não consegui – o que era em partes verdade.
– Que nome você deu a ele? – Me questionou de repente. Curvei as sobrancelhas e me ajeitei melhor na cama. – Você parece muito mais empolgado com essa captura do que as outras, então ele deveria ter um nome especial. – Cassie tinha razão. Riolu não era minha primeira captura, mas eu sentia com se fosse único. Eu tinha dado nomes para meus outros Pokémon, mas eram coisas genéricas. Apenas Bacon eu tinha me dedicado a achar um nome que combinasse. Pensei um pouco, então me lembrei das formas simétricas e da cor metalizada.
– Chiclete.
– Que raio de nome é esse? – Ela fez uma expressão curiosa.
– Sei lá, a cor me lembrava de um chiclete que minha mãe sempre comprava quando eu era criança – sorri sem jeito.
Conversamos mais um pouco, sobre minhas atividades no rancho e o novo Pokémon que capturara, então Cassie desligou, eu me vesti e desci. A senhora Tomy tinha feito uma refeição caprichada, o marido já estava na mesa e me convidaram para sentar e jantar com eles.
No final da refeição, o senhor Tomy me estendeu um envelope com o pagamento dos dias que eu tinha trabalhado. Ele me agradeceu diversas vezes por ter recuperado as Mareep e disse que sempre que precisasse, o rancho estaria de portas abertas. A senhora Tomy me fez uma marmita com refeições para minha próxima viagem e lanchinhos especiais para Bacon e Chiclete. Eu passaria minha última noite ali e partiria no dia seguinte.
Naquela última noite confortável, gastei meu tempo tentando me socializar com Chiclete. Diferente do que imaginara, ele não era valentão, apenas extremamente impulsivo. O azulado tinha um jeito extravagante que deixava Bacon receoso e eu não tinha muita certeza se conseguiria lidar com uma personalidade tão esfuziante. Ao menos ele não estava chateado com a maneira deprimente que tinha sido capturado e isso já era um grande começo.
Peguei minha pokedex e comecei a conferir os golpes que Riolu possuía. Era um bom set, eu estava bastante ansioso para vê-lo em ação. Então passei a dar os comandos apenas para vê-lo exibir suas capacidades. A maioria eram socos e chutes, mas então li um golpe que não fazia ideia do que significava e vi Chiclete dar um grande rodopio no ar e aterrissar com um chute no meio da minha cabeça. Não sei se realmente doeu, já que antes de apagar, só deu tempo de ouvir uma exclamação produzida por Bacon.
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