Rota Zero

15 Perdendo coisas, Ganhando coisas


Notas iniciais
Cá estamos para mais um capítulo da fic "Rainha do Floop", ok, temos leitores fantasmas e alguns comentários, então somos só os Princípes do Floop ainda. Bom, Deedee perdeu seu primeiro contest, o que já era de esperar e miou o dinheiro deles, e agora? Leiam e descubram!!! Boa leitura!

December

PERDENDO COISAS, GANHANDO COISAS

Eu me sentia péssimo, como poucas vezes havia me sentido. Chiclete estava bastante machucado, eu tinha sido humilhado publicamente, gastado meu dinheiro com a inscrição e agora, como se tudo não bastasse, ouvia comentários maldosos no vestiário.

Eu deveria recolher minhas coisas e sair, afinal, tinha sido eliminado e meu lugar não era mais ali. Mas eu estava chorando, eu não sei quando começara, mas quando dei por mim, o rosto estava todo molhado e eu não queria que Haila me visse daquele jeito, não queria que ninguém visse.

O problema era que os aprovados comentavam da minha batalha como se eu não estivesse ali, um garoto dissera que nunca vira desempenho mais ridículo e que os ataques de David não derrubariam nem um Magikarp. Alguém completou dizendo que nem amadores lutavam daquele jeito, para uma terceira voz desconhecida dizer que era burrice entrar na arena sem conhecer minimamente os ataques do oponente.

Por mais que me irritasse ouvir tais coisas, o último garoto estava certo. Eu mal conhecia os ataques dos meus Pokémons, quanto mais os dos outros. Nunca imaginei que um Pokémon planta pudesse ser tão ofensivo, meu Sunkern só sabia se regenerar e drenar a energia de outros monstrinhos.

Quando finalmente consegui controlar minhas lágrimas, achei que era hora de dar o fora, mas cruzei com David no corredor de saída do vestiário. Ele não disse nada, apenas me encarou e sorriu presunçosamente. Também não havia mais o que dizer, durante nossa batalha, ele tinha dito que iria me fazer engolir aquela apresentação ridícula de movimentos e no final, o tinha feito.

Ao sair do vestiário, me deparei com Haila. Ela parecia entediada, como se estivesse me esperado por muito tempo. Leaf, Simisage e Bacon estavam com ela, o porquinho correu na minha direção e pareceu meio triste, meio preocupado.

– Chiclete está bem. – Disse tentando animá-lo. Por mais que os dois vivessem em pé de guerra, haviam desenvolvido um forte sentimento de amizade. Ele pareceu não acreditar muito, mas deu alguns pulinhos, animado.

– Você esteve chorando? – Haila questionou, a sobrancelha curvada de modo indecifrável. A expressão lembrava muito a que Leaf me lançava. Instintivamente passei a mão pelos olhos, o que só confirmou seu questionamento.

– Eu sinto muito por arruinar tudo. – Me desculpei. Não era a primeira vez que alguém me ajudava e eu não retribuía como deveria.

– Você não arruinou nada. – A voz saiu calma e calorosa. Achei que ela estaria terrivelmente irritada e soltado Leaf para cima de mim. O problema é que toda essa compreensão fazia me sentir ainda pior.

– Claro que sim! Você gastou todo o seu precioso tempo me treinando e ensinando. E eu não cheguei nem as semifinais.

– Não se preocupe com isso. – Embora ela mesma parecesse bastante preocupada.

– Mas eu arruinei tudo e te envergonhei, não fiz jus ao seu esforço e... – Ela me puxou pela gola do moletom e rangeu os dentes, assumindo uma expressão assustadora.

– Se você vai ficar choramingando, eu realmente vou achar que perdi meu tempo com você. – As sobrancelhas estavam arqueadas e a testa franzida, os olhos brilhavam que achei que fosse sair fogo deles. – Agora se recomponha! – E me deu outro sacolejo antes de me soltar. – Você fez um ótimo trabalho! – Ela ainda estava meio irritada.

Ajeitei a gola da blusa e a encarei. Se não fosse por ela, eu nunca teria ido tão longe, talvez nem tivesse coragem de aparecer diante de todas aquelas pessoas. – Nós fizemos um ótimo trabalho! – Frisei. Ela pareceu confusa por um momento antes de sorrir e concordar com um aceno de cabeça.

– E Chiclete? Como ele está? – Dei de ombros, mas ela entendeu pelo meu olhar que a resposta não era das melhores. – Tem uma unidade móvel do Centro Pokémon no final do portão 2, podemos passar lá antes de voltarmos para o hotel.

– Você não vai querer ver a final? – Eu definitivamente não queria, mas se fosse desejo dela, o mínimo que poderia fazer era acompanhá-la.

– Não realmente. – E me indicou qual saída deveríamos pegar para chegar ao portão 2.

O caminho não foi dos mais fáceis, era intervalo entre as eliminatórias e várias pessoas transitavam pelos corredores, indo ao banheiro, comprando lembranças ou devorando sanduiches nas barraquinhas. Haila parou de repente e acabei esbarrando nela. Ela encarava um homem de cabelos longos e castanhos trajando uma roupa bem extravagante que conversava animadamente com a garota de vestido amarelo que também estivera no Contest.

– Haila, o que foi? – Questionei ao ver como ela o encarava. Ela murmurou alguma coisa, mas não entendi nada por causa do barulho. E perguntei de novo.

– Aquele é o Burgh! – Os olhos brilharam de um jeito estranho, não era de ódio nem de empolgação, parecia a chama do desafio.

– Certo, e?

– Como assim e? Ele é líder de ginásio aqui em Castelia.

– Mesmo? – Ele não tinha pinta de líder de ginásio, parecia mais um artista circense com aquelas roupas exageradas.

– Ele foi jurado da sua apresentação, como pode não saber disso? Foi anunciado e tudo... – Achei que não veria mais aquele olhar descrente, mas ali estava ele, adornando o rosto arredondado.

– Eu estava tão nervoso que nem me ative a esses detalhes. – E era verdade.

– Detalhes? – Era impressão minha ou ela estava ficando irritada de novo? – De qualquer forma, pensei que talvez eu pudesse enfrentá-lo e conseguir uma insígnia.

– E você vai vendê-la?

– Por que eu faria isso? – Ela encarou confusa.

– Porque precisamos de dinheiro e já que não ganhei o torneio...

– É ilegal vender insígnias. – Ela parecia séria.

– É mesmo? – Então por que ela queria uma? Não poderia ser só porque achava bonitinho. – Mercado negro então?

– Deedee!! – Ela gritou tão alto que encobriu o barulho ao redor e várias pessoas nos encararam. Ao perceber, tentou se recompor e fingir que nada acontecera, mas já era tarde.

– Você é December, certo? – Uma voz enjoada e estridente chegou aos nossos ouvidos. Diante de mim, Burgh estava parado com um sorriso abobado no rosto. De perto, ele parecia bem mais alto e ainda mais estranho. Me estendeu a mão como cumprimento, mas antes que eu pudesse retribuir, ele pegou meu braço e começou a balançá-lo em uma saudação bastante bizarra. – E você deve ser? – Indagou se voltando para Haila.

– Haila... – Achei que ela fosse dizer o nome todo, pelo embalo que deu na frase, mas parou na metade.

– Você deve ser a adorável namorada que o acompanha em todos os eventos... – E sorriu de maneira afetada.

– Eu não sou namorada. – Ela corou até as orelhas. – Eu sou... orientadora dele. – Revirei os olhos, ela tinha feito careta quando eu usara o termo.

– Oh, são apenas negócios então?! – Haila corou novamente, não sei se ela estava envergonhada ou com raiva, mas ele se não se calasse não duvido que ela o faria com um soco. – Bem, mas você está de parabéns, rapaz. – Se voltou para mim. – A apresentação do seu Riolu foi bem interessante. – Agradeci, porque não havia mais o que dizer. – Na verdade, na sua ficha diz que este é seu primeiro torneio, certo? Fiquei bem impressionado com sua apresentação, a maioria dos novatos se foca na etapa de batalha e esquece que Contest é uma avaliação de habilidades e não de força. – Sorri, porque eu não fazia ideia se isso era verdade, fora minha mãe, eu não conhecia nenhum coordenador. – Os movimentos do seu Riolu foram fantásticos, até eu que não me interesso por Pokémon lutadores fiquei impressionado. Seu desenvolvimento na batalha deixou a desejar, mas você se saiu muito bem na primeira fase, para um iniciante. – A voz afetada estava me enjoando.

– Obrigado. – Agradeci sem jeito e a Haila pareceu feliz em me ver cortar toda aquela ladainha. – Mas eu preciso ir...

– Oh, que pena! Eu ainda tenho alguns minutinhos de intervalo, pensei em convidá-lo para um café. – Aquilo soou estranho de todas as formas possíveis e eu tive vontade de sair correndo.

– Desculpe, mas mesmo que eu quisesse, não tenho dinheiro nem para pagar o açúcar do café. Eu contava com o dinheiro da premiação, mas... – Dei de ombros, com uma pequena mesura fiz menção de me retirar, mas ele me agarrou pelos ombros.

– Quer dizer que você está livre? Eu tenho um grande uso para sua veia artística – Ele tinha um olhar sonhador. Eu estava começando a ficar apavorado enquanto Haila me encarava com um olhar de ‘que veia artística?’

=8=

Era de manhã e eu estava correndo de um lado para o outro no quarto, tentando ajeitar meu cabelo e procurando alguma roupa discreta que não tivesse nenhum maldito detalhe em roxo (todas as minhas roupas tinham algum). Haila estava acordada, mas ainda estava na cama e trajava pijamas.

– Ainda não acredito que Burgh te ofereceu um emprego... – Comentou sonolenta. Na verdade nem eu acreditava. O líder acreditava que eu possuía uma misteriosa veia artística e me convidou para ajudar em sua nova exposição na galeria de arte, mas a verdade é que eu não entendia nada sobre o assunto. Pensei em recusar, mas eu não tinha mais nenhum dinheiro e não poderia me dar a esse luxo.

– Pelo que entendi, o cronograma da exposição está atrasado e ele precisa de mão-de-obra extra. – Ou seja, era um emprego temporário, mas era melhor do que nada.

– Quero só ver quando ele descobrir que você não sabe nada de arte. – Provocou mordaz. A verdade é que Haila não estava irritada com isso, mas infeliz porque ela ainda não havia arranjado um emprego.

Quando saímos do Contest no dia anterior, passamos em uma banca e ela comprou um jornal. Ela passou o resto do dia circulando anúncios nas páginas de classificados. Eu tentei ajudá-la, mas ela me disse que melhor seria se eu desse um pouco de atenção a Chiclete.

– Você não precisa se preocupar com isso. – Tentei tranquilizá-la. – Algum emprego irá dar certo e enquanto isso, eu posso nos sustentar. – Sorri confiante, terminando de me arrumar.

– Não fale desse jeito, fica parecendo que somos namorados. – Ela me lançou um olhar atravessado. Na verdade, era o mínimo que eu poderia fazer, afinal a garota andava pagando minhas refeições desde que eu torrara meu dinheiro na inscrição do Contest.

– Ah, é mesmo. São apenas negócios. – Provoquei. Ela atirou um travesseiro em mim e praticamente me expulsou do quarto, me chamando de idiota e me mandando não fazer nada de estúpido.

Sai do hotel e fui para meu novo emprego. A galeria era enorme e ficava bem no centro de Castelia. Quando cheguei, achei que seria recebido por Burgh, mas era uma garota quem me esperava na porta. Ela apontou para o relógio no pulso, me mostrando que eu estava atrasado, enfiou um embrulho na minha cara e apontou para um vestiário no final de um longo corredor.

No embrulho havia um horrendo uniforme laranja (igual ao que a garota usava), um crachá e um kit com pinceis, luvas de látex e uns frasquinhos coloridos, que eu não sabia o que era. Quando sai, devidamente arrumado, ela me esperava e saiu marchando na minha frente, após fazer sinal para que eu a seguisse.

Apesar de ter uma voz doce, ela era bastante séria e autoritária e me explicava minhas funções maquinalmente. Eu a ajudaria a desembalar os quadros, limpar as molduras e escolher os lugares adequados para cada quadro, além de verificar se a iluminação era suficiente e se tudo combinava harmoniosamente com a estrutura do lugar.

– Eu não sei o que o mestre viu em você para contratá-lo, você é um idiota. – Ela finalizou me encarando. Só então percebi que ela era a garota do vestido amarelo. – Sua batalha foi ridícula, e enquanto eu fui repreendida pela minha derrota, você ganhou um emprego. – Ela saiu batendo os pés.

– Não se preocupe com a Clarice. – Um garoto usando o mesmo uniforme parou ao meu lado, pude ler Louis escrito em seu crachá. – Ela quer ser a preferida do Burgh e odeia todo mundo de quem nosso líder gosta. – Sorri sem graça. Ótimo, tudo o que eu precisava era criar inimizades porque meu chefe gostava de mim. E isso soava muito estranho.

O trabalho era terrivelmente tedioso, passei boa parte da manhã apenas tirando o pó das molduras com pinceis. Embora Clarice fosse encarregada de me orientar, foi Louis quem me auxiliou. Ele era engraçado e comunicativo e até me convidou para almoçar com ele.

Quando perguntei sobre Burgh, ele me explicou que o líder vinha à galeria apenas em casos especiais e passava o resto do tempo pintando ou cumprindo suas funções como líder de ginásio.

No final do dia, Louis me arrastou até o ginásio, que ficava no mesmo prédio, no segundo andar. Burgh estava batalhando contra um garoto aparentemente mais jovem que eu. A batalha já estava no final e o garoto ordenou que seu Tympole atacasse com Bubble Beam, o que derrubou o já debilitado Dwebble de Burgh.

Apesar da derrota, ele não pareceu nem um pouco chateado. Parabenizou o garoto e lhe presentou com a insígnia. Quando o rapaz saiu, Burgh acenou animadamente para a direção onde estávamos gritando meu nome. Louis deu um sorriso de canto, enquanto Clarice, do outro lado do ginásio me lançava um olhar mortal. Como eu tinha me metido naquela situação?

Enquanto voltava para o apartamento, pensava na batalha que vira. Mesmo vendo só o final, Burgh não me pareceu nada impressionante. O garoto parecia ter habilidades tão pífias quanto as minhas e até onde eu sabia (depois de ler no livro que minha mãe me dera) Tympole não era lá dos melhores Pokémon. Quando cheguei ao quarto, Haila estava lendo, o semblante carregado, mal me olhou quando entrei. Simisage e Leaf estavam nas pokéballs o que só demonstrava que seu humor não era dos melhores. Mas isso não importava, já que eu sabia como fazer aquela feição carrancuda desaparecer.

– Você vai vencer! – Falei animado. Ela me encarou sem entender. – Burgh, você vai dizimá-lo!

– Do que você está falando? – A voz saiu desanimada.

– Você vai enfrentar o Burgh, não é? Você tinha dito...

– Sobre isso, andei pensando melhor e talvez eu devesse treinar um pouco e...

– Eu o vi em ação hoje, e tenho certeza que você vai vencer. – E realmente acreditava nisso, Haila era a treinadora mais habilidosa que eu conhecera. Cassie era boa, mas Haila parecia levar muito mais jeito para coisa. O Simisage dela enfrentara ladrões e colocara meu Riolu na linha. Alguns socos dele seriam suficientes para tirar o Dwebble de combate.

– Deedee, Burgh é um treinador tipo inseto, eu tenho Pokémon tipo planta, há uma certeza desvantagem para o meu lado... Além disso, eu tenho outras coisas para me preocupar agora. – Fechou o livro.

– Isso não importa. – Bradei animado. Eu sabia que havia esses lances de desvantagem, mas a própria Cassie havia me dito que eu não deveria me ater apenas a isso. Afinal, meu Tepig não derrotara um Panpour? E eu nem era bom. – Você vai vencer! Eu tenho certeza que vai! Seu Simi irá tirar aquele sorrisinho idiota da cara daquele fresco. – Eu só poderia imaginar Haila sambando na cara de Burgh após tê-lo derrotado. Era meu chefe, mas eu queria presenciar isso de camarote.

– Simi?

– É seu Simisage, achei que soava bem, um apelido sabe. – Ela fez uma careta e se levantou, ficou parada diante da janela encarando o final do dia. Haila estava bastante brava. – E a entrevista de emprego, como foi? – Perguntei.

– Ruim, eles queriam alguém com experiência. – O rosto assumiu uma expressão abatida, pensei em dizer algo consolador, mas ela me encarou. – Não é justo que você tenha arranjado um bom emprego depois de tudo. – Achei que iria bater o pé como uma criança contrariada, mas não o fez. – “Veia artística” – Ela fez aspas com os dedos. – Que piada! Eu que dei a ideia para os movimentos do Chiclete e eu nem fui recompensada. Qual o lance para o Burgh contratar você?! – Eu pensei em um milhão de coisas, mas definitivamente não queria externar nenhuma delas.

– Meu emprego não é tão legal...

– Eu não quero saber! – Me interrompeu.

– Tá, mas nem da batalha que o Burgh travou? – Arqueei uma das sobrancelhas. Haila fez uma careta, mas me deixou contar. Não havia muito que dizer, mas ela ouviu tudo atentamente e fez algumas expressões indecifráveis. No final, sua confiança e determinação pareciam renovadas e ela não parecia tão chateada. Eu não esperava a hora de vê-la ganhar sua primeira insígnia.

– Aquele idiota, no final das contas...Tá certo, mas não espere que eu acene pra você da arena. – Ela fez uma careta e deu um pequeno soco na janela. – Vou esfregar essa insígnia na cara daquele fresco.

=8=

Na manhã seguinte, quando cheguei ao emprego, Clarice já estava me esperando com uma cara não muito animadora.

– Que incrível, não está atrasado. Mas isso não quer dizer que você possa trazer sua namorada. – Disse lançando um olhar torto para Haila que me acompanhava.

– Eu vim desafiar o líder de Castelia. – Haila respondeu determinada, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Eu achei que ela estaria mais nervosa, e talvez até estivesse, mas estava escondendo bem.

– Certo. – Respondeu Clarice. – Mas ele está em batalha contra outro treinador e você terá que aguardar. É por ali. – E apontou para o corredor que a levaria ao segundo andar. O mesmo caminho que eu fizera com Louis.

Haila agradeceu com um aceno de cabeça e seguiu pelo caminho indicado, fiz menção de acompanhá-la, mas minha colega de trabalho me parou.

– Onde pensa que está indo?

– Vou ver a batalha da Haila.

– Você veio aqui para trabalhar e não ser plateia. – Ela curvou as sobrancelhas, encolerizada.

Encarei Haila, que estava parada no corredor sem saber se me esperava ou partia sem mim. Eu queria muito ver sua batalha, mas não queria por meu emprego em perigo. Eu teria que tomar uma decisão rápida, mas antes que desse minha resposta, Louis apareceu dizendo que precisava da ajuda de Clarice para resolver um problema e ela o acompanhou, não sem antes me ameaçar, caso eu não estivesse fazendo minhas obrigações quando ela voltasse.

Aproveitei a oportunidade e segui com Haila até o ginásio. A garota parecia confusa com tudo o que tinha acontecido, mas não me questionou. Quando estávamos próximos a entrada, as portas se abriram e uma garota de cabelos claros saiu do ginásio. Ela trazia um sorriso brilhante nos lábios e a insígnia nas mãos.

Ela parou e nos encarou demoradamente, só então percebi que ela não olhava para mim, mas para Haila e que a encarava de volta, com a cara amarrada.

– Haila! Que bom ver você! – Parecia demasiado alegre e forçado. A loira não respondeu. – Você não se lembra de mim? Sou a Kara, Tom nos apresentou. – Disse afetada. – Mas o que faz aqui, minha querida? Oh, que boba eu. Claro que se você está aqui, veio enfrentar o líder de ginásio de Castelia, certo?

– Certo. – A frase saiu carregada e eu poderia jurar que via uma aura negra emanando de Haila. – Pelo visto, você se saiu bem. – E lançou um olhar fuzilante para a insígnia esverdeada que a outra exibia.

– Fico feliz que tenha escolhido um rumo. Tom me disse que você ainda não tinha se decidido. Embora, não consiga te ver como treinadora. Uma criadora ou coordenadora, talvez. – E deu um sorrisinho que até eu me irritei. Ela parecia o tipo que colocava os treinadores no topo mais elevado da cadeia.

– O Tom disse? – Haila tentou parecer indiferente, mas a voz saiu carregada de raiva e algo mais, mas eu não sabia o que era.

– Ele me disse muitas coisas interessantes a seu respeito. – E deu aquele maldito sorrisinho de novo. – Boa sorte com o Burgh, tenho certeza que seu Leafeon será o suficiente. – Havia um tom bastante irônico na voz dela, como se ela não acreditasse nas habilidades da Haila.

Ela cruzou por nós e passou a mão na cabeça da Haila, como se faz com crianças pequenas e só então percebi que ela era tão alta quanto eu. A menina estremeceu e achei que fosse dar uma voadora com os dois pés na tal Kara, mas ela se restringiu a resmungar algo incompreensível.

– Aliás, você não tem falado com o Tom, não é? – Perguntou nos encarando por cima do ombro. – Então não deve saber que o museu da Lenora foi roubado. – A garota jogou a informação no ar.

– Como assim? – Haila se virou para encará-la. Os olhos azuis arregalados. Toda raiva e irritação pareciam ter instantaneamente sumido.

– Eu não sei ao certo, e nem me interesso. Tom disse que foi um livro raro sobre Pokémon lendários, mas isso é ridículo, quem se importaria com o livro além daquela velhota? – Informou com um tom debochado.

– Quem você está chamando de velhota, mais respeito com a Lenora, sua... sua Miltank! – E toda raiva e irritação que haviam desaparecido, retornaram com a intensidade redobrada. Os punhos estavam fechados e achei que ela fosse descer o braço na outra. O que eu iria fazer se elas se pegassem?

– Quem você está chamando de Miltank?! Olhe para você e cresça alguns centímetros antes de me falar alguma coisa, sua anã de jardim! – Kara perdeu a pose, toda a ironia foi pelo ralo e pareceu muito irritada com a ofensa de Haila.

– O que está acontecendo aqui? – Clarice apareceu no corredor, atraída pela gritaria. Kara aproveitou a deixa, se recompôs e saiu andando como uma princesa. Haila continuou fitando a oponente esperando que um raio a dizimasse. – December, o que está fazendo aqui? Eu não disse que era para você voltar ao trabalho? – Kara já tinha sumido no corredor, Clarice me olhava com ódio e estava pronta para dar outro chilique quando a porta do ginásio se abriu de novo e Burgh apareceu.

– Ora, ora, o que está acontecendo aqui? – A voz estridente e alegre contrastava com todo o resto.

– December está fugindo do trabalho. – Clarice me dedurou.

– Eu não. – Falei depressa. – Só vim acompanhar Haila, ela veio para desafiá-lo.

– Oh, mais um treinador, esta manhã está tão cheia. – Haila ainda parecia presa a briga que tivera com Kara porque demorou a perceber que Burgh a encarava e só conseguiu sorrir sem jeito.

– Se sua amiga já está entregue, hora de voltar ao trabalho. – Clarice me puxou pelo braço.

– Mas eu queria ver a batalha... – Protestei debilmente, sabia que ela não me deixaria ficar.

– Que fantástico! – Burgh exclamou tão alto que ecoou pelo corredor. – Deixe-o ficar. Será bom para ele aprender sobre batalha Pokémon. Além disso, são só alguns minutos, ninguém vai morrer se ele não estiver na galeria. – E me lançou uma piscadela cúmplice que até Haila percebeu.

Antes que Clarice pudesse protestar, ele nos arrastou para dentro do ginásio e fechou a porta. O ambiente era espaçoso e tinha um formato hexagonal, lembrando um favo de colmeia. As paredes eram decoradas com grandes painéis reproduzindo Pokémon inseto e raios do sol entravam por uma claraboia no teto.

– Vocês podem esperar só um segundinho para eu me ajeitar? – Burgh pediu antes de sumir por uma porta lateral.

– Aquela garota é sua amiga? – Perguntei. Haila me olhou de um jeito engraçado como se a pergunta fosse totalmente absurda e eu entendi pelo franzir nos lábios que a resposta era não. – E Tom? Quem é?

Ela corou e encarou o chão antes de me responder. – Um amigo. – Mas não parecia ser realmente só isso, mas já que ela não queria me contar, eu não poderia obrigá-la.

– E Lenora?

– Uma amiga, foi ela quem me deu o livro da folha. – E a preocupação pareceu deslizar por seus olhos novamente. – Mas eu não quero pensar nisso agora. – Ela balançou a cabeça como se com isso afastasse as sensações ruins. – Eu preciso me concentrar.

Burgh voltou trazendo suas pokeball e se apresentou formalmente. Fez sinal para que Haila fosse para o centro da arena enquanto eu ficaria perto da parede. Haila me viu se afastando e então me chamou.

– Ei, você não vai me desejar boa sorte?

– Eu não preciso. Tenho certeza que você vai ganhar. – E fiz um sinal positivo com o dedo. Ela sorriu um pouco e concordou com um aceno de cabeça.

Haila se encaminhou até a arena, Burgh explicou que batalharia usando três Pokémon. Ela me pareceu vacilar por um momento, então respirou fundo e aceitou o desafio. Pegou uma das pokeball e libertou seu parceiro.

Em meio ao raio avermelhado, Leaf tomou forma e ficou em posição de batalha. Burgh liberou seu Pokémon. Parecia um Beedril, mas era ainda maior e com uma cara muito mais invocada. Eu não sabia o qual Pokémon era, mas este parecia muito mais feroz que Dwebble do dia anterior. Eu estava começando a não gostar disso.

Notas finais
N/T: E aí o que acharam? Comentem, gostamos de saber o que vocês pensam, o que funciona, o que está uma droga.