Rota Zero
77 Perda
Notas iniciais
Haila
PERDA
Respiração ofegante, um passo após o outro. Eu tinha que correr, tinha que continuar enquanto pudesse. Havia Team Plasma rondando com Pokémon voadores e eu não podia ser vista. A essas alturas Guerra sabia que eu já tinha fugido e ele já tinha provado que estava disposto a fazer qualquer coisa para me ter de volta.
Agarrei um pedaço de grama e ele começou a se romper. A escalada agora exigia muito mais de mim do que eu podia imaginar. Eu não tinha sequer me questionado se teria ou não chance de enfrentar as cavernas da Victory Road sem Pokémon. Não tinha.
O único modo de alcançar o topo, ainda mais difícil, era uma subida íngreme e traiçoeira. Meu corpo ardia sob o sol escaldante daquela montanha recoberta por plantas rasteiras. O sangue tina secado nas minhas costas, mas o contato com o pijama que eu ainda vestia o fazia arder com intensidade.
Um puxão atrás de outro, centímetro a centímetro daquela montanha eu me arrastei para cima. Minha visão vez ou outra vacilava me deixando completamente no escuro nas alturas por segundos indeterminados, meu coração batia depressa demais, minha cabeça doía acompanhada por todos os ferimentos do meu corpo.
A firmeza dos meus dedos estava partindo, as juntas tremiam. Quando finalmente avistei os enormes portões para a Elite Four consegui dar apenas dois passos, com um sorriso torto no rosto, antes de perder a força das minhas próprias pernas e ceder.
Tentei rastejar, mas não consegui. Devia estar imunda, exausta. Tinha acabado pra mim. Aos poucos senti a escuridão me envolveu, quando vi alguém se aproximando, eu provavelmente seria levada de volta e agora meu querido irmão não seria tão bondoso. – Tenho que avisa-los.
=8=
Eu estava em meio ao fogo e ao gelo. Sangue manchava o chão branco gelado, sob meus pés descalços. Meus braços iam de um lado para outro, em cima da minha cabeça, enquanto Unfezant me atacavam. Sons de gritos, morte e destruição estavam a minha volta.
Senti algo frio e úmido tocando minha pele. Reagi saltando, sentando depressa na cama. Esbofeteando tudo que estava em meu alcance. Era só um pesadelo, somente mais um pesadelo.
— Calma, está tudo bem! – Alguém me agarrou, segurando meus braços com delicadeza.
Minha visão foi voltando aos poucos e um garoto de cabelos castanhos e barba por fazer foi tomando forma. – Desmond? – Perguntei voltando a me deitar. Tudo não passou de um pesadelo?
— Ashiley, na verdade, – respondeu e voltei a sentir o toque úmido.
Minha visão foi tomando forma e eu consciência de tudo o que tinha acontecido, tudo o que estava a minha volta. Aquele definitivamente não era Desmond, era bem mais velho. Deveria ter quase trinta anos.
E eu precisava avisar a Elite Four do que estava por vir. – Onde eu estou? Por quanto tempo apaguei?
Só então me dei conta de que homem estava limpando minhas feridas com um pano molhado, isso explicação à sensação. – Eu trabalho no Centro Pokémon da Elite Four. Eu costumo ajudar os treinadores que acabam se machucando nas trilhas para enfrentar os quatro, e mesmo aqueles que ainda não tem as insígnias e decidirem se aventurar por aqui. Em todos esses anos, nunca vi ninguém de pijama chegar aqui, ainda mais uma garota sem Pokémon.
Me levantei em um salto, ignorando minhas vestes e a dor que voltou a gritar em meu corpo. A tontura me bateu de uma vez, ainda não tinha conseguido me recuperar. Eu precisava me ligar no automático, me agarrar às ultimas fontes de energia. Precisa fazer o que eu tinha que fazer, – quanto tempo eu apaguei?
Ele pareceu se assustar com a minha reação, então respondeu depressa, meio vacilante, – não sei, pouco menos de uma hora.
— Preciso ver os membros da Elite Four, a Team Plasma atacará o Victory Road em menos de duas horas.
— Isso não é possível, – ele pareceu se assustar com a minha informação, se levantando da cadeira onde estava sentado depressa. Mas eu não tinha tempo para isso, não tinha forças para lidar com um descrente agora. –A Team Plasma nunca se atreveria a vir até aqui.
Olhei em volta e encontrei uma blusa de mangas compridas dobradas em cima de um criado, a agarrei e vesti depressa, ignorando as indagações do enfermeiro. – Posso pegar?
— A Team Plasma está vindo mesmo? – Ele perguntou parecendo ainda não ter digerido o que tinha ouvido. E por um segundo o pensamento de que uma pessoa comum realmente teria dificuldade de aceitar um ataque eminente passou pela minha cabeça, o que me fez perceber que eu nunca mais seria uma pessoa comum.
Suspirei e coloquei a mão sobre o ombro dele, um ombro normal, que provavelmente nunca tomaria um tiro, seria mordido por um Serperior ou teria sido imobilizado num sequestro por Pokémon Psíquicos. – Se tiver mais gente aqui é melhor que todos saiam o mais depressa possível. A Team Plasma irá atacar o Victory Road por volta das quatro da tarde e isso aqui deve virar uma zona de guerra. – Ele balançou a cabeça afirmativamente. Bom garoto. – Agora, onde eu consigo falar com os quatro?
=8=
O portão se abriu pesadamente, revelando o enorme saguão principal do castelo ou palácio, ou fosse lá como a Elite Four gostava de chamar aquele lugar. O sinal havia sido dado por Ashiley e os membros da Elite convocados.
Marshal foi o primeiro a aparecer, saindo do primeiro lance de escadas à direita. Vestia apenas calças largas e faixas enrolavam seus punhos. – O que está acontecendo? – Ele perguntou confuso, descendo rápido. – Você que nos convocou Ash? – Até que seus olhos correram até mim. – Você é a pupila de Skyla, o que está havendo?
— Haila? – Ouvi uma voz familiar me chamar. Olhei para o primeiro lance de escadas a esquerda e me deparei com Skyla correndo por elas abaixo, acompanhada por Shantal. Ela praticamente saltou sobre mim, fazendo meu corpo todo gritar de dor, mas eu não me afastei. – Você está bem? Como chegou até aqui? – Correu o olho por mim, analisando com mais pavor cada ferida que encontrava. – Haila, você está péssima, precisa ir para o hospital.
— Não temos tempo para isso, – a afastei. Falando em alto e bom tom, de uma forma como ela não teria como retrucar. – A Team Plasma está usando o mesmo barco voador como base e está nos arredores do Victory Road. Eles pretendem atacar em no máximo duas horas.
Shantal riu, se juntando a festinha que tinha se formado ali embaixo, – eles nunca se atreveriam, somos a Elite Four. Nunca fomos atacados.
— Iris era uma treinadora melhor do que você, a melhor da região e agora está morta. Acho que eles não estão muito preocupados com seu titulo. – Olhei para Skyla e em seguida Marshal. – Não sei Grimsley, mas Caytlin já fugiu. Vocês vão fazer o mesmo ou lutar? – O olhar dos três se endureceu e Ashiley abaixou a cabeça, mas ninguém se atreveu a falar alguma coisa. Eles sabiam que eu estava certa. – Guerra me levou para a barca e eu consegui me soltar das amarras. Vi Deidran enfiar um bisturi no olho de Lenora, – a expressão de todos mudou novamente, espanto, raiva, duvida. – Ghetsis está lá também e o plano deles está quase sendo executado. O primeiro passo é destruir vocês.
— E você ouviu isso do seu irmão? – Shantal perguntou e eu olhei para Skyla, seu olhar apenas confirmou o que eu pensei. Meu envolvimento familiar não era mais segredo. – Desculpe se eu não confio em você e no seu amigo de cabelo colorido, mas toda vez que algo acontece um de vocês dois está por perto.
— Talvez se você fosse mais competente também estivesse onde as pessoas precisaram todos esses meses – Rebati olhando nos olhos dela. Ela era maior, eu estava ferida, cansada, poderia apanhar. Provavelmente iria. Mas pelo menos um soco bem dado eu daria.
Skyla resolveu intervir, – se você não confia nela também não pode confiar em mim. Eu dedico minha confiança inteiramente a ela e se vocês não agirem eu mesma tirarei as pessoas daqui antes que se machuquem.
Marshal cruzou os braços e sua expressão se aliviou, – eu estava a fim de uma briga há algum tempo, talvez seja a hora de colocar a Team Plasma no seu devido lugar.
Shantal não disse nada a nós, apenas se virou para Ashiley e comandou, – tire todas as pessoas e Pokémon daqui. Assim que chegar a base da montanha chame a policia e os Rangers diretamente nos quarteis. Não use telefones.
Ashiley assentiu e saiu correndo depressa. Ele teria muito trabalho para tirar todas as pessoas e Pokémon e salvar o que pudesse antes que a Team Plasma chegasse. Me senti aliviada por tantos motivos que nem sequer pude eleger um como maior, mas ainda sentia que não estava segura. Sem Pokémon onde haveria um ataque. As coisas não ficariam boas pra mim.
Como se já estivessem, lembrei a mim mesma e uma sombra do que eu tinha visto poucas horas atrás correu na minha memoria me enviando um sofrimento descabido. Engoli seco, minha garganta parecia querer se fechar. A aura do ambiente de morte e sofrimento se mantinha. As coisas não ficariam boas ali.
Skyla ponderou parecendo preocupada, – talvez esperar o ataque fosse imprudente, talvez pudesse reagrupar e tentar uma investida melhor planejada em outro momento.
— Esta sugerindo que abandonemos a Elite Four? – Marshal perguntou parecendo surpreso.
— Talvez fosse melhor, não sabemos quão grande serão as forças que eles usarão contra nós. Eles já têm um Lendário e...
— Achei que tudo isso se tratasse de mártires, – Shantal interrompeu. – Eles não querem nos deter para que não representemos ameaça física Skyla, e você sabe disso. Depois de eles acabarem com a Champion olha o estado da região. As pessoas estão em pânico. Elite Four é mais que um grupo, um nome. É um símbolo de poder e destruir esse local significa dar ainda mais poder a eles. Não podemos permitir isso.
Eu odiava admitir aquilo, mas Shantal tinha razão e aparentemente Skyla também entendia isso. – Certo, como podemos proteger esse lugar? – Skyla perguntou.
— Somos a Elite Four, quer algo mais? – Shantal disse orgulhosa.
— Elite Two na verdade. Ou você está vendo os outros membros? – Marshal perguntou serio. Não pareceu nada satisfeito com o próprio comentário. Provavelmente depois que isso tudo acabasse era provável que as posições de Elite fossem reajustadas.
Skyla ficou um pouco mais seria e Shantal revirou os olhos, – talvez não tenhamos muito tempo, mas saber que eles estão vindo será uma vantagem. Você tem alguma noção de como se passará esse ataque, Haila?
Comprimi os lábios tentando pensar. O acontecido dentro da barcaça tinha se tornado um borrão na minha mente. Eu só me lembrava de estar sentada, de Guerra tentar me convencer do ideais Team Plasma, de Rose me libertando e logo em seguida um amontado e de corredores e... – Eu tive ajuda para sair, Rose, uma garota da cidade de Deedee me libertou com um papo de que minha captura traria problemas para Guerra. – Não havia mais motivo para esconder, eu não tinha mais forças pra isso. Era hora das verdades, – ela disse que seria o melhor momento pra eu fugir porque todos estavam ocupados com o ataque.
— O que mais você esqueceu-se de compartilhar conosco, Haila? – Shantal perguntou arrogante.
— Minha antipatia por vocês Elite Four. Vocês se acham superiores aos demais treinadores, mas quando são necessários se abstém, sentando em seus tronos bonitinhos, vendo o mundo queimar. – Dei um passo para frente furioso, ficando a centímetros de Shantal e vi Skyla se preparar para me deter se fosse preciso. Agarrei a gola da blusa que estava usando e puxei, revelando o ferimento ainda não totalmente fechado da bala, quase mostrando meus seios e gritei, – mostre as marcas que você ganhou nessa guerra vadia, ou cale a boca quando pensar em discutir comigo.
Os olhos de Shantal queimaram. Eu conhecia seu ponto fraco, Iris. Durante a reunião em Mistralton City ela estava destruída, totalmente abalada por não ter podido fazer nada para salvar sua melhor amiga. E era ali que ela fraquejava. Seus lábios tremeram, sua boca se abriu, mas nenhuma palavra foi dita.
— Agora que as duas já terminaram vamos começar a fazer algo útil. – Marshal interveio. – Vou checar meus Pokémon e encontro vocês em alguns minutos. Espero que façam o mesmo. Se Haila estiver certa pode ser que tenhamos que usar todas as nossas habilidades. – Nos deu as costas, subindo novamente as escadas.
— Farei o mesmo. A outras maneiras de defender esse lugar. – Shantal cuspiu, ainda próxima a mim. Me lançou mais um olhar furioso e nos deu as costas.
Acompanhamos os dois com os olhos até sumirem nas enormes portas que levavam a seus postos. Então Skyla e eu nos fitamos. – Você deveria tomar mais cuidado, – ela sugeriu, – Shantal pode não parecer, mas é perigosa. Essa sua arrogância pode acabar te machucando.
Ergui os braços mostrando meu corpo, todos os cortes e feridas espalhados, – acredite. Eu sei onde esse tipo de coisa pode me levar, mas eu passei minha vida inteira me calando. Não vou permitir que o medo me faça parar agora. Nunca mais.
Ela fitou meus olhos alguns momentos e depois fez uma afirmativa com a cabeça, – eu gostaria de poder ter impedido que você passasse por tudo isso, que esteja vivendo isso agora. Mas sei que o tempo não volta e que eu não posso salvar todo mundo. Mesmo aqueles que tenho carinho. Sinto muito que Desmond tenha se machucado tanto.
Meus olhos devem ter se iluminado, porque antes de eu dizer qualquer coisa a expressão de Skyla mudou, – ele está vivo?
— Sim, – ela respondeu depressa, parecendo assustada por eu não saber, – ele se machucou muito seriamente, estava passando pela primeira de muitas cirurgias que deve enfrentar, mas está vivo.
Comecei a sorrir, sorrir muito intensamente. Um enorme sorriso brotou em meu rosto, acompanhando de uma gargalhada que fez minhas costas voltarem a doer. Mas eu não liguei, apenas continuei sorrindo e um alivio sem precedentes brotou dentro de mim.
Levei as mãos ao rosto e depois empurrei-as para trás, passando pelos meus cabelos até chegarem à nuca. Olhei para o teto abobado e suspirei, – eu achei que ele estivesse morto. Não acredito.
— Imagino que talvez não queira falar sobre isso, mas o que houve com Lenora exatamente? – Ela perguntou meio sem jeito.
— Depois que Rose me ajudou a me libertar, meio quem me deixou escapar sozinha e bem... Não sou boa com orientações e acabei me perdendo. Por acaso eu acabei numa sala de interrogatórios e por detrás de um vidro vi acontecer. – Enquanto narrava às imagens passavam pela minha cabeça, – ela estava sendo torturada, amarrada a parede apanhando e sabe-se lá mais o que. Fosse lá o que saísse de lá, provavelmente não seria mais a Lenora que conhecíamos.
Skyla afirmou novamente e seus olhos dançaram pelo lugar, – a vida costuma quebrar as pessoas boas, deixa-las em pedaços.
Ela tinha razão, – fiquei surpresa por estar aqui, o que está havendo?
— Cilan saiu de Icirrus furioso atrás de você então decidi me juntar a ele pra impedir que ele fizesse alguma besteira. Mas acabamos nos separando e eu vim checar se encontrava algum sinal seu.
— E quanto a Deedee e os outros? – Perguntei preocupada.
— Muita coisa aconteceu Haila... – ela virou o rosto, olhando para fora da Elite e sua expressão mudou para surpresa. Acompanhei seus olhos e me deparei com a enorme barcaça planando sobre o horizonte, – mas acho que isso é assunto para outra hora.
Marshal voltou correndo com uma Pokéball em mãos, enquanto a Team Plasma se aproximava, – Ashiley não teve tempo de tirar todas as pessoas do Centro Pokémon. Achei que eles viriam apenas daqui uma hora.
— Talvez eu ter fugido os tenha alertado, ou os feito adiantar o plano, – Admiti preocupada.
— Mais um ponto para a especialista Grass, – Shantal voltou, descendo as escadas depressa também. – Temos que ir ajuda-los.
Olhei para Skyla que estava pronta para agir e contei, – eu estou sem Pokémon, os meus ficaram em Icirrus, Deedee deve estar com eles. E o único que ficou comigo foi solto pela Team Plasma.
A expressão dela se endureceu, ela ficou preocupada, – fique perto de mim. Vamos fazer o que for possível para tirar essas pessoas aqui e assim que conseguirmos dar apoio suficiente e garantir que Marshal e Shantal possam terminar isso sozinhos nós vamos fugir daqui. Você está péssima.
Confirmei com a cabeça e seguimos os dois Elite para fora do Castelo. O Centro Pokémon ficava praticamente em frente e agora um trio de adolescentes, uma mulher mais velha acompanhada de um Crustle e mais dois homens corriam para fora do Centro Pokémon.
— Moleques, – Marshal chamou a atenção do trio de adolescente que corria na frente. Curiosidade e surpresa brotou nos olhos deles, muito provavelmente nunca tinham visto o Elite Four de perto. – Descem pelas cavernas o mais depressa possível, não deve haver risco além dos próprios Pokémon. Impeçam que qualquer um tente subir a montanha.
Shantal decidiu ficar do lado de fora, e nós seguimos. Assim que entramos no Centro Pokémon nos deparamos com um único treinador no saguão. Ele gritava para uma enfermeira que estava olhando para o corredor que levava ao centro de tratamento atrás de balcão e pelos movimentos que fazia com seu corpo, tornava visível toda sua ansiedade.
— Por favor Ash, se apresse – ela gritou com a voz esganiçada.
— Ashiley, por Arceus, temos que sair daqui – Marshal gritou pulando o balcão com um só movimento, chegando como uma locomotiva desgovernada, – o que ainda está fazendo?
— Meu Pokémon, – o treinador do balcão comentou, – ele foi atacado por um Woobat e está muito ferido.
Ashiley voltou e seus olhos mostraram tudo, – se o removermos ele morre. – Serrei os punhos e olhei pelas portas de vidro, a barcaça estava praticamente em cima de nós, em poucos minutos eles chegariam ali. – Eu decidi virar um enfermeiro Pokémon para poder ajudar os treinadores, me desculpe, mas se Drew concordar eu não abandonarei, nem permitirei que o Pokémon dele seja removido daqui. Eu fiz um juramento quando aceitei esse cargo, e eu vou cumpri-lo.
— Vocês vão morrer junto com o Pokémon, não temos condição de proteger o Centro Pokémon. Precisam sair daqui, agora – gritou o Elite. Mas sua voz mostrou algo mais, ele estava em pânico.
— Droga – Skyla sussurrou olhando pela porta de vidro também.
— Eu não vou sair daqui – Drew gritou de volta, – vão, eu não vou abandonar meu Pansear.
Estava tudo ferrado, eu não podia fazer nada. Eu precisava ajudar de algum modo. – Ele pode ser transferido para a Elite? Podemos carregar o que for preciso. Seria mais seguro, não seria? – Perguntei.
Marshal olhou pra mim e fez uma afirmativa com a cabeça, como se aprovasse o que eu sugeri, – pode ser feito ou não, Ashiley?
Ele parou pra pensar alguns segundos e pareceu ainda mais preocupado, – pode, mas vou precisar do gerador portátil. Emmy – chamou a outra enfermeira, – eu vou ao porão buscar, arrume os equipamentos. Precisamos fazer isso rápido.
Emmy confirmou e saiu correndo, sendo seguida por Drew. O garoto deu a volta no balcão como uma bala e desapareceu Centro Pokémon adentro com ela.
— Porque essas coisas nunca podem ser fáceis? – Marshal perguntou a Skyla.
— Eu gostaria muito de saber, – ela respondeu desanimada, – mas enquanto houver vontade e coragem...
— Papo furado, – o Elite Four respondeu, – quando tudo isso acabar eu vou me aposentar. Passar o titulo pra frente.
Então a primeira explosão aconteceu. Um ataque provavelmente atingiu o castelo da Elite. Saímos correndo e encontramos a barcaça no chão, e dezenas de soldados descendo dela.
— O maior problema são os armados, – Skyla comentou, – precisamos encontrar uma maneira de invalidar suas armas e então poderemos usar nossos Pokémon para acabar com isso.
— Deixe as armas comigo, – Shantal afirmou, – precisarei ganhar tempo. Se puder criar uma distração.
— Tenho uma ideia – Skyla respondeu.
— Assim que ficar tudo limpo deixe comigo.
O som seguinte foi das Pokéball se abrindo. Skyla libertou seu Mandibuzz, que gritou escandalosamente quando saiu e bateu asas com forças, levantando poeira e ganhou os céus. Os seguintes foram de Shantal, seus fantasmas começaram a surgir.
— Mandibuzz, – Skyla chamou erguendo o braço, – Gust no chão com potência máxima.
O Pokémon voador reagiu na hora, suas asas brilharam e ele começou a fazer movimentos bruscos com elas, batendo para trás e para frente com tanta força que a rajadas imensas de vento começaram a atingir o chão, levando uma enorme coluna de poeira.
Shantal reagiu assim que a coluna de poeira começou a subir, – Cofagrigus, – ela chamou ao Pokémon sarcófago, – Gengar, usem sua habilidade de intangibilidade, cacem e destruam todas as armas em punho daqueles soldados. Derrubem quantos puderem no caminho.
Os Pokémon emitiram sons de concordância e desapareceram entrando no chão como se mergulhassem na agua.
Marshal por sua vez libertou um Throh, um Pokémon lutador de pele vermelha que deveria ser alguns centímetros mais alto que eu. Muito grande para sua espécie.
Uma corrente elétrica veio do nada da nuvem de poeira, indo para cima de Shantal, mas uma barreira luminosa surgiu, fazendo o ataque ricochetear e voltar para a nuvem densa a nossa frente no mesmo momento. Throh de Marshal estava usando Protect. Seus olhos ficaram acesos apenas um segundo enquanto ele mantinha a barreira que nós salvara.
Só tivemos tempo para ouvir o som do primeiro passo pesado. Um Snorlax surgiu em meio à nuvem de poeira e os gritos dos Team Plasma vieram junto. O enorme Pokémon foi pra cima de Marshal, atravessando a barreira sem problemas.
O som da Pokéball seguinte surgiu junto com o barulho de tiros. Shantal libertou o titã de pedra Gorluk que partiu pra cima de Snorlax, segurando o Pokémon a centímetros do Elite.
Skyla libertou seu próximo Pokémon, um Unfezant antes que o primeiro Team Plasma estivesse próximo o bastante para tentar cravar uma faca nela. Surgindo na nuvem como um camicase, pronto para morrer.
Marshal reagiu, derrubando o homem com apenas um soco, enquanto o Pokémon de Skyla se jogava contra o Jolteon que pulou para cima dela.
A porta do Centro Pokémon se abriu e Ashiley, Drew e Emmy surgiram, com um Pansear com uma enorme ferida no peito ainda em cima de uma maca. A enfermeira ajudava a empurrar a maca e a carregar os soro e outros medicinais. Enquanto Drew e Ashiley carregavam um enorme painel que mantinham o tubo que estava no Pokémon ligado.
— Preciso de ajuda. O gerador – Ashiley gritou e eu corri até eles. Pegando o aparelho que ainda estava dentro do Centro Pokémon, ligado ao aparelho por um enorme fio.
Os dois Pokémon, Snorlax e Gorluk no meio da disputa de força acabaram se desequilibrando, e ainda agarrados um ao outro despencaram sobre a entrada do Centro. Tive que me jogar pra fora, literalmente rolando no chão abraçada ao aparelho para escapar de lá.
Antes que eu pudesse sentir a dor pelo impacto, ainda banhada pelo som de tiros e Pokéball se abrindo, um lança chamas acertou Mandibuzz, o Pokémon que mantinha a cortina de areia. O Pokémon vacilou, indo para trás com força, com as penas chamuscas.
Assim que o ataque se desfez e a poeira deu a primeira trégua todos suspiramos. Havia pelo menos dez Team Plasmas correndo em nossa direção, acompanhados de seus Pokémon. E mais ao fundo podíamos ver os Pokémon fantasmas de Shantal atacando os homens restantes que se debatiam, atiravam e gritava uns com os outros de acordo com que os Pokémon surgiam e desapareciam.
Mais duas Pokéball de Marshal se abriram, revelam um Shawk e um Meishao. Os dois Pokémon lutadores dispararam contra os poucos Team Plasma que conseguiram se aproximar, acertando socos, se esquivando e batendo em tudo o que viam pela frente.
Mas algo me chamou atenção. Os Pokémon da Team Plasma eram derrubados com facilidade, a discrepância de força era surpreendente entre eles e os Pokémon de Marshal. Porém, os Pokémon da Team Plasma não se mantinham no chão. Não paravam.
De acordo com que os Pokémon do Elite lutador derruba os adversários, ele se levantavam com corpos tremendo e voltavam a tentar atacar novamente. E algo que Rose disse se acendeu em minha mente. Os Pokémon da Team Plasma estavam ali por escolha e eles não desistiam.
Em meio a todos os silvos, gritos e rosnados, eu pude ouvir o som da bala acertando Ashiley como se ele estivesse em um volume mais alto que todo o resto. Seu corpo simplesmente caiu para o lado, soltando os aparelhos que tombaram junto com ele.
Me virei roboticamente na direção contraria e me deparei com o soldado de uniforme preto com a mesma arma que Dee e eu roubamos do homem em Opelucid preparando o próximo disparo.
Foi como se tudo ficasse em câmera lenta, ou quem sabe a minha percepção das coisas não estivesse acelerada. Mais dois tiros explodiram na parede logo atrás de nós e Shawk acertou um chute no Team Plasma, fazendo a perna do homem alcançar um ângulo inumano.
Quando percebi já estava sendo acompanhada por Emmy, correndo na direção de Ashiley. A enfermeira se jogou em cima dele primeiro, trazendo o homem desacordado para seus braços, gritando desesperada.
De repente ele tirou a mão que apoiava a cabeça de Ashiley debaixo dela a encarando com a expressão cheia de terror, enquanto Marshal, Shantal e Skyla gritava comando na nossa frente. Sua mão estava coberta de sangue e Ashiley não estava desacordado. Quando a garota virou o seu rosto havia um furo próximo a sua tempora onde a bala tinha entrado. Ashiley estava morto.
Emmy saltou para trás se jogando no chão poeirento, gritando de pavor e surpresa, com olhos já se enchendo de lagrimas. O corpo de Ashiley caiu no chão novamente e sua cabeça tombou voltando a esconder o furo.
Mudei minha trajetória e agarrei Emmy, ainda com o pequeno, mas pesado gerador nos braços. Minha visão voltou a fica turva, minhas pernas chegaram a querer vacilar, mas ainda sim agarrei o braço da menina e a puxei pra cima, fazendo mais força do que aguentava. Foi então que Marshal percebeu o que havia acontecido com o homem.
Seus olhos se arregalaram, examinando o corpo do homem à distância. Sua face mudou de surpresa para raiva, seus punhos se fecharam e seu corpo apenas se moveu. Marshal foi pra cima do soldado mais próximo, saindo da barreira crida por seu Pokémon.
Acertou o primeiro meio sem rumo na mandíbula do cara que simplesmente desmontou, caindo para trás como se fosse uma vassoura encostada a um canto tombasse e logo se jogou para o próximo.
Os punhos de Thorh que simplesmente surgiu ao seu lado brilharam e o Pokémon acertou um soco no Pokémon a sua frente com tanta força que o impacto do Pokémon no chão levantou poeira. Em seguida virou o corpo depressa, uniu as mãos e uma esfera de luz se formou. O ataque ganhou intensidade e brilho cegando todos a volta.
Quando o Pokémon soltou, a rajada atravessou o campo de batalha, derrubando Pokémon e homens até acertar a enorme barreira que surgiu na frente da barcaça voadora. Deixando uma vala entre o Pokémon e a base da Team Plasma.
— Leve-os para dentro, depressa – Skyla gritou em meio a tudo. Aquilo era o caos e eu estava bem no meio disso tudo.
Mais e mais soldados surgiam da Barcaça pousada a uma centena de metros da frente. Os Pokémon fantasma de Shantal não podiam mais conter tantos homens armados. Os ataques dos Pokémon de Skyla varriam o campo de batalha que se havia criado, mas não parecia ser o suficiente.
Seriamos cercados em pouco tempo, – temos que recuar, Marshal, – Shantal gritou, mas o homem simplesmente não ouviu, ele estava fora de controle.
Emmy finalmente se levantou, mas ela estava em pânico. Simplesmente nos largou ali e saiu correndo em direção ao grande portal de entrada para a Elite Four. E talvez aquilo fosse melhor.
Olhei para o treinador que não conseguia lembrar o nome, ele estava parado, olhando estático para o corpo de Ashiley no chão. Mal piscava os olhos enquanto o mundo começava a queimar em sua volta.
Eu não sabia exatamente quanto tempo tinha passado presa, mas a impressão eu tinha era de que Icirrus tinha mal acabado de acontecer. Eu tinha visto uma coleção tão grande de mortes que agora ver o homem que me ajudou há poucos minutos, caído no chão com uma bala na cabeça não me horrorizava mais. E foi naquele exatamente momento que eu percebi o quanto o mundo tinha me mudado desde Nimbasa.
Quando a mulher do Emolga tinha levado o tiro e caído eu achei que o mundo estivesse acabando. Aquela foi a primeira vez que vi uma vida sendo tirada bem na minha frente e a morte de Ashiley não era tão diferente assim.
Pelo pouco que eu tinha visto dele, ele parecia um homem bom, dedicado ao trabalho. Disposto a arriscar a vida por um Pokémon que sequer conhecia. Isso era muito mais do que eu soube sobre aquela mulher. Nesse exato momento aquela cena também deixou de me atormentar.
Foi quando vi o vulto dos cabelos loiros em meio aos soldados. Meu irmão estava descendo da barcaça junto com Metagross e Glaceon. – Temos que sair daqui. Um dos generais da Team Plasma acabou de descer daquele barco voador e se você não mexer seus malditos pés você e seu Pokémon vão morrer aqui.
Ele balançou a cabeça positivamente, – ok.
Peguei o suporte que Emmy estava carregando e o joguei sobre a maca junto com o pequeno gerado. O Pokémon era relativamente pequeno e quase nem preenchia metade da cama. O treinador agarrou o painel novamente e juntos começamos a empurrar.
A Team Plasma estava sobre nós, um monte deles começou a se amontoar. Skyla e os outros começavam a recuar também. Por mais que seus Pokémon fossem inegavelmente mais fortes a quantidade de soldados e Pokémon surgindo estava sendo demais até pra eles.
Mais e mais homens continuavam a descer. Parecia que a Team Plasma estava disposta a gastar o quanto fosse necessário para derrubar a Elite. Mas nenhum outro general além de Guerra aparecendo me dizia que aquele era apenas uma ponta pequena do exercito que eles escondiam.
— Se você não começar a usar as reais habilidades dos seus Pokémon, – ouvi Shantal gritando para Marshal em meio aos sons da batalha, – vamos ser derrotados.
— Se eu fizer isso posso acabar matando alguém, – ele gritou de volta dando mais comandos aos seus Pokémon que estava cercados por Team Plasma.
— Se você não o fizer quem morrerá seremos nós – A mulher gritou de volta tomada de raiva passional. Eu conhecia esse sentimento, vingança, fria e descontrolada. Não podíamos contar com ela naquela batalha.
Quando dei por mim estávamos entrando pelo saguão principal onde Ashiley havia convocado a Elite mais cedo. Os sons da batalha diminuíram, mas não muito, enquanto corríamos o mais para dentro possível.
Quatro escadarias nas laterais levavam as arenas de batalha de cada Elite Four e no meio, ainda no primeiro andar, o enorme portão que levava ao Champion da Região.
Em outro momento eu sem duvida estaria sem folego com a oportunidade de ver com meus próprios olhos aquele lugar. Sua arquitetura majestosa e todo o poder que ele representava, mas naquele momento, enquanto meu corpo ainda gritava de dor, explosões, gritos, silvos e tiros escoavam lá fora, tudo o que eu conseguia pensar era em como conseguir sobreviver aquilo.
Emmy surgiu do nada, saltando sobre a maca. Seus olhos estavam inchados e lagrimas ainda escorriam pelo seu rosto. – Eu preciso checar... – ela tentou falar, mas as palavras não terminaram de sair. Praticamente saltou sobre os aparelhos e começou a conferir a informações referentes ao Pokémon.
Eu deveria sentir raiva dela por ter fugido, mas aquilo era o que eu deveria estar fazendo. Correndo de volta pra casa ao invés de me entregado a situação. Era tarde demais pra isso infelizmente.
— Você sabe se há alguma saída daqui além do portão principal, – perguntei a ela.
Seus olhos correram por mim por apenas um instante, enquanto ela colocava um estetoscópio no peito do Pokémon. – Eu não sei, – foi tudo o que ela respondeu, ainda em meio a soluços. Então parou do nada e deu dois passos para trás, voltando a perder o controle. Chorando como se a tivessem cortando em pedaços.
Dei dois passos largos até ela e segurei seus ombros. Aparentemente eu teria que tomar o controle daquela situação, – eu preciso que você mantenha a calma. Não temos tempo para isso. Como está o estado do Pokémon?
— Vivo, – disse depressa, chorando sem parar.
Por enquanto, pensei tentando me concentrar em tudo o que estava havendo, mas o cansado fazia com que minha mente não se articulasse direito. Os sons da batalha lá fora estavam ficando mais intenso e o iluminar da barreira luminosa de Marshal se acendia com cada vez mais frequência que indicava que estávamos começando a apanhar.
O nome do garoto voltou a minha mente de uma hora pra outra. Emmy seria inútil, mas talvez ele pudesse ter alguma utilidade. Ele tinha afinal de contas, oito insígnias se chegou até ali. – Garoto, você acha que pode ficar de guarda na porta caso algum Team Plasma apareça?
O hall principal do castelo da Elite Four era muito aberto e a não ser pelos enormes portões de ferro que bloqueavam a entrada, não havia outra possibilidade de defesa. – Eu desisti de enfrentar a Elite Four... – seus olhos ficaram marejados, ele estava muito nervoso, – acabei os transferindo de volta.
O castelo inteiro pareceu tremer, o ataque estava ficando cada vez mais intenso e agora a própria Elite estava sendo bombardeada.
Skyla foi a primeira a entrar pelo saguão principal, com seus Pokémon voando sobre ela. Eles pareciam bem, apesar das asas de Mandibuzz estarem meio queimadas. Marshal entrou em seguida junto de seus Pokémon e por ultimo Shantal, sendo escoltada por Gorluk.
O Pokémon agarrou o portão e o fechou com agilidade, antes que o próprio Snorlax, que vinha poucos metros atrás pudesse se jogar contra ele.
O Hall se tornou escuro por um momento, que fez meu coração congelar, antes das luzes se acederem e uma pancada forte o suficiente para fazer as dobradiças rangerem, veio do portão principal. Gorluk se jogou contra ele, segurando o enorme monólito de metal com as mãos rochosas.
— Temos que sair daqui o mais depressa possível, – Shantal gritou, correndo na nossa direção.
Outra pancada na porta e agora as luzes do teto balançaram. Os Pokémon iam derrubar a estrutura em cima de nós. – Tem outra saída daqui? – Skyla perguntou nervosa, trazendo Unfezant de volta.
Marshal olhou para o teto quanto o som de uma explosão abafada voltou a estremecer o local. – Rápido, eles vão destruir tudo.
Emmy se levantou, seu rosto ainda estava molhado pela quantidade absurda de lagrimas. Seu peito subia e descia depressa, e mesmo em meio a gaguejos ela conseguiu perguntar; – vocês não conseguirão derrota-los?
Shantal passou por nos e se ajeitou ao lado da porta que levava a arena do Champion e digitou números depressa em um monitor disposto na parede lateral. Enquanto Skyla e Marshal vieram em nossa direção. – Não podemos, – ele respondeu a garota, deixando transparecer toda a sua frustração e ansiedade. – Eles são muitos, mesmo nossos Pokémon não tem capacidade para abater um exercito. Somos apenas três.
— Mas vocês são a Elite Four, os treinadores mais fortes da região – ela parecia desesperada, sua voz ficava mais cheia de angustia a cada silaba, ficando cada vez mais aguda e arrastada. – Se nem a Elite Four pode salvar Ashiley e o resto de nós, quem irá?
Fitei seu rosto e depois o de Marshal. Ele engoliu seco, parando de correr e encarou o portão que começava a fraquejar, já tomando formas abstratas, feitas pelo impacto do corpo do Pokémon contra ele.
Comando e ataques ainda uivavam lá fora e o lustre chagava a balançar no teto, criando sombras momentâneas no rosto do Elite Lutador. A porta para a sala da Champion se abriu e Shantal agarrou a maca, sendo seguida por Drew que pegou os aparelhos, puxando freneticamente o Pokémon para dentro.
— Saiam daqui, eu vou segura-los, – Marshal disse fazendo a Elite Four parar.
Shantal pareceu vacilar, – não é hora para heroísmos, precisamos de todos para fugir daqui. Não podemos mais salvar esse lugar. Ninguém pode.
Gorluk urrou, fazendo mais força contra o portão que agora começava a mudar de cor, enquanto fumaça surgiu por debaixo dele. – Não há mais lugar para heróis nesse mundo, Shantal. Se querem sair vivos daqui, eu vou segura-los.
Skyla e eu estávamos paradas lado a lado, sem saber como reagir, – você não pode vencê-los sozinho, – a líder voador tentou.
— E não pretendo, – disse com o tom de voz alterado, mas desta vez ele parecia estar carregado de uma confiança que quase chegava a se palpável.
As mãos de Gorluk começaram a mudar de cor também e urrando de dor o Pokémon soltou o enorme portão, que abriu violentamente com o Snorlax se chocando contra ele, entrando pelo Hall principal como um caminhão sem freios descendo uma ladeira.
Quase não houve tempo para se chocar com aquela visão. O símbolo de fogo invadiu o saguão, se chocando contra a parede a cima de nós. Mal tive tempo de processar a sensação de calor que transpassou por nós.
Uma explosão descomunal nos arremessou, fazendo meu corpo girar no alto e bater com força na parede atrás de mim.
Fumaça, gritos, silvos ainda estavam por toda a parte, mas eu quase não tinha noção disso. Meus olhos se escureceram de vez, com a dor indescritível que se abateu contra minhas cotas. Um zumbido agudo era tudo o que eu podia ouvir num primeiro segundo enquanto mais e mais homens entravam pelo saguão.
Tentei me levantar, mas não consegui, precisava respirar porque o impacto tirara o ar dos meus pulmões. Inspirei com força, tentando retomar o controle sobre meu corpo, mas comecei a tossir com violência. O ar estava pesado com fumaça e poeira. Meu rosto ardia, meu nariz ardia, meu pulmão ardia.
Girei meu corpo e ergui a cabeça, meus olhos queimavam, lutavam para não serem expostos aquela fumaça escura. Um pedaço do teto tinha caído e Emmy estava jogada no chão ao meu lado com sangue saindo da sua boca. Marshal estava mais a frente, socando todos que se aproximavam, batalhando ao lado dos seus Pokémon. Orgulhoso e forte, assim como eu imagina a Elite dos quatro.
E andando como se o mundo não estivesse caindo, ao lado de Metagross, Guerra apareceu. Meu coração saltou, indo quase parar na boca. Seus olhos se encontraram com os meus apenas por um instante, antes de Marshal de próprios punhos, partir pra cima dele. Mas eu já tinha visto aquela cena antes com Desmond.
Senti as mãos de Skyla me agarrando, me puxando com força para que eu ficasse de pé. Me esforcei, mas vacilei, voltando ao chão. Minha boca formou palavras que foram inaudíveis, algo tinha se acendido no olhar de Guerra. Ele me queria, ele faria qualquer coisa para me ter.
Eu estava exausta, precisava parar, precisa que tudo aquilo acabasse. Precisava de silêncio. Senti vontade de gritar, mas novamente ela me agarrou e quando menos percebi estava sendo guiada para dentro da sala do Champion. Outra coluna de fogo veio na nossa direção, Blast Burn, eu reconhecia o ataque que acertou a parede entre o saguão e a sala do Champion.
A onda de choque quase me jogou no chão novamente, mas continuei correndo, tropeçando em meus próprios pés. Meu coração batia depressa, o que oxigenou meu cérebro e me fez pensar por um instante, – onde está Emmy?
Ela estava caída onde os escombros causados por essa ultima explosão caíram. Emmy estava morta constatei com pesar e eu estava correndo, sendo levada por Skyla, atrás de Shantal e Drew.
Subimos uma rampa depressa, atravessando o campo de batalha e chegamos a um palco de mármore branco. Ali havia um corredor mais baixo, mas largo o suficiente para que três pessoas andassem lado a lado.
Ouvimos mais gritos e xingamentos, e talvez fosse apenas a minha imaginação, mas Guerra chamara por meu nome. Olhei para trás só por um instante antes de a parede terminar de se romper e Metragross atravessa-la como se fosse de papel.
Mal reparei nos quadros nas paredes, fotos de treinadores, os melhores da historia de Unova e seus Pokémon campeões. Não tive tempo de ver com orgulho e interesse cada um daqueles que tinha se tornado os melhores de sua época, de seu momento.
O Pokémon já estava em cima de nós, vindo com os braços e pernas fechados, posicionados na frente do corpo que brilhava amarelado. Gengar surgiu do chão e agarrou o Pokémon, parando o ataque antes que ele pudesse avançar no corredor.
A nossa respiração ofegante, barulho de passos e o bipe dos aparelhos de Pansear eram quase inaudíveis em meio à destruição que vinha atrás de nós. Shantal praticamente se jogou contra um dos quadros, o arrancando da parede com violência, revelando uma escadaria.
Ela olhou para trás e se deparou com a maquina, – não temos condições de leva-lo na maca, – disse ofegante a Drew.
— Eu não posso tira-lo dai, ele vai morrer – ele rebateu com urgência, sua voz saiu afetada. Ele estava quase surtando.
— Não temos tempo para isso. Tem que ser feito e pronto.
— Fora daqui temos pelo menos um chance de ajuda-lo, – Skyla tentou intervir, – você precisava acreditar que ele será forte.
— Eu não vou, – gritou praticamente saltando sobre a maca, fazendo o mini gerador cair no chão e oscilar.
Fui até ele depressa, pus a mão em seus ombros, fazendo com que ele me olhasse de volta e disse quase sem pensar, – Ashiley, Emmy e provavelmente Marshal estão mortos. Eles não vão parar porque eles simplesmente não se importam. Sei que esta com medo e preocupado, mas sua única saída e ir com a gente e levar seu Pokémon e uma Ball. Qualquer coisa além disso é morte certa para os dois.
Ele balançou a cabeça positivamente e Mandibuzz que ainda estava voando perto de nos chiou, no chão olhando para o corredor onde os dois Pokémon se digladiavam. O garoto retirou uma Greatball do bolso, deixando as lagrimas começarem a escorrer em seus olhos, – me perdoe, – disse com uma dor indescritível na voz, trazendo ele de volta para a Pokéball, deixando o aparelho fazendo um “bipe” extenso e agudo.
Sem vacilar voltamos a correr, agora escada abaixo, seguidos por Mandibuzz. Pulando degraus, nos agarrando as laterais rochosas, correndo como podíamos. Tão focados a sair que o próprio pensamento de talvez escorregar e errar o degrau não era algo aceitável em nossas mentes.
O ar ali era morno e húmido, estávamos cortando a montanha, deixando o som de batalha e destruição cada vez mais baixo atrás de nós e como se nada tivesse acontecido surgimos em uma floresta mais alta, ainda na encosta da montanha. Saindo por uma portinhola, escondida sob ervas daminhas que arranharam meu rosto.
Os sons voltaram quase como se nunca tivessem deixado de existir e para o nosso completo pavor mais Team Plasma de uniforme preto surgiram, acompanhados de Pokémon. O primeiro deles já avisando no Walkie-Talkie nossa localização.
Mandibuzz surgiu enorme sobre nós, mostrando novamente toda a envergadura de suas asas, partiu para cima deles, abatendo com um movimento de asas o Samurrot do homem a nossa frente.
O soldados, recuou e Mandibuzz partiu para cima do próximo, desviando de uma arvore, agarrando com as garras afiadas o Darumaka que já almejava lançar chamas sobre nós. Erguendo voou com a criatura e ganhando altura.
O primeiro soldado foi para cima de Shantal e a mão dela escorreu até suas Pokéball, mas não houve tempo. Ele acertou um soco no rosto da mulher, a fazendo ir para trás. Skyla tentou ir em sua direção, mas Drew foi mais rápido. Ele era um garoto parrudo e o soco que ele acertou no Team Plasma fez o homem vacilar.
Mais soldados estavam vindo, os gritos deles estavam se espalhando pela floresta. Não tínhamos muito tempo, precisávamos sair dali o mais depressa possível.
O segundo soldado veio em minha direção sem que ninguém notasse, tentei desviar, me jogando para o lado, mas ele acertou o chute que me fez ir ao chão na mesma hora. Mas o Pokémon de Skyla voltou.
Com as asas brilhando o Pokémon acertou o homem como uma foice que abriu um enorme corte em suas costas. O grito do homem caindo aos meus pés foi pavoroso. Recuei depressa, ainda de costas e senti os braços me segurando.
Gritei e comecei a me debater, tentando me soltar de quem quer que fosse tentando me segurar, vendo que Drew ainda tentava abater o soldado, agora em uma briga desleal junto de Skyla e Shantal que olhou pra mim absorta.
— Calma, Haila – a voz familiar me fez sentir uma arrepio que cobriu minha espinha.
Meus olhos não acreditaram no que eu vi, – Cilan?
— Temos que sair daqui depressa. Tem um regimento vindo pra cá – ele disse alto para os outros, me puxando contra seus braços. Reagi sem pensar, o agarrando com força. O abracei forte ignorando tudo a minha volta e ele retribuiu o abraço me dando um segundo de paz enquanto eu ouvia o coração dele bater acelerado.
O soldado finalmente caiu e machucado Drew cedeu, se deixando cair no chão. – Cilan, eu disse para você verificar o vilarejo, – Skyla comentou surpresa. Eu o soltei e olhei pra ela.
— Que bom que não te escuto mais há alguns anos, – ele respondeu sem arrogância, mais em tom de brincadeira. Seus olhos dançaram por um momento enquanto ele me olhava cheio de tristeza e alivio, e depois sussurrou, – achei que tivesse te perdido.
E talvez tivesse pensei comigo mesma, mas me contive. – Precisamos sair daqui, – trouxe a tona o obvio. Só não sabia como.
Voltamos para a perto da Shantal que tentava fazer Drew reagir, enquanto Skyla sacava sua ultima Pokéball e Mandibuzz pousava do nosso lado.
— Eles fecharam as cavernas, – Cilan começou a nos atualizar, – eu consegui salvar um pequeno grupo que tinha sido capturado por soldados no meio da montanha e depois subi correndo. A nossa melhor chance, porém mais perigosa, seria ir pela floresta, subindo em direção à fronteira. As rotas em direção as cidades mais próximas estão fechadas.
— Eu poderia usar o Fly e tirar Haila e Drew daqui, – Skyla sugeriu, olhando para o garoto no chão.
— Mande ele, eu não vou sair daqui. Não sem vocês.
— E como você pretende ser útil? – Cilan perguntou, – por acaso seus Pokémon estão em condição de lutar? Você acredita mesmo que nesse estado pode fazer algo além de atrapalhar?
— Ele tem razão, Haila – Skyla interveio. As palavras doeram, mas ele tinha razão, eu não seria nada além de um peso que eles teriam que carregar. Meu corpo estava fraco, minha mente confusa, meus sentidos já começavam a me enganar. A Haila que eu era não estava ali.
Mas algo nos chamou atenção, enchendo nosso coração de pavor. O som da farpa de gelo cortou o ar como um assovio, cravando nas costas de Shantal como uma estaca. A mulher gritou e caiu para frente, sobre Drew, com um gemido quase bestial. Fazendo o garoto sair se arrastando, tomado de pavor em seus olhos.
Nosso olhar seguiu até as ervas daninhas, onde a saída secreta da Elite Four terminava e Guerra surgiu por ela, acompanhado de Glaceon. Meu coração disparou, como se a própria face da morte esteve na minha frente. – Achei que vocês já estariam longe a essa altura, – comentou animado, porém nitidamente cansado. Ele tinha vindo correndo e sua perfeição parecia falhar. – Fico grato por terem me esperado, podemos evitar muito mais mortes. Marshal não me ouviu, mas tenho certeza que vocês vão. Entreguem minha irmã e eu deixo vocês dois vivos.
Skyla correu para o Shantal e olhou com espanto para o garoto loiro, ajudando Drew a segurar o corpo da mulher. – Assim como você fez com ela? – Perguntou deixando transparecer todas as emoções que explodiam dentro dela. Shantal simplesmente apagou com o impacto, nem sequer mais um grito havia saído de sua garganta.
— Minha missão era acabar com a Elite Four, – disse olhando Skyla com tranquilidade. – Eles representavam uma ameaça que não poderíamos permitir por ai.
Skyla se ergueu de punhos fechados e Mandibuzz e Tswana, seu ultimo Pokémon que ela acabara de libertar piaram ferozmente. – Me subestimar pode ser o ultimo erro que você vai cometer.
— Talvez você não se lembre, mas no começo do ano passado nos batalhamos. Ainda tenho sua insígnia jogada em algum lugar, – ele respondeu com um ar de superioridade.
Ela sorriu, ficando de pé. Não havia duvida em seu olhar. – Não confunda meu trabalho com as minhas reais habilidades, você não vai me derrotar.
— Eu estou te dando à oportunidade para sentar-se e calar-se, não desperdice essa chance líder de ginásio.
— Tswuana, Scalde – Skyla ordenou, saltando para trás.
O Pokémon de penas brancas bateu asas depressa, levantando folhas secas consigo, e com destreza enviou um jato de agua fervente na direção de Glaceon. O Pokémon reagiu depressa acertando um raio de gelo no chão criando uma parede cristalina na frente dele e de Guerra.
Ele sorriu em contrapartida, – parece que vou me divertir um pouco mais hoje. Glaceon, Ice Beam. Congele tudo.
O Pokémon se posicionou rápido, distanciando um pouco mais as patas dianteiras. O pelos sobre sua cabeça que formavam seu topete brilharam e um instante antes de o raio começar a congelar tudo a nossa volta uma esfera luminosa se formou na frente de sua boca aberta.
A Pokéball de Cilan se abriu depressa, trazendo um Leavanny a nossa frente. – Frenzy Plant – Cilan disse depressa e ela girou as patas e as cravou no chão, onde rapidamente uma barreira de raízes cresceu na nossa frente, nos defendendo dos raios congelantes.
O raio de gelo continuou, acertando toda a floresta a nossa volta, criando esculturas pontiagudas onde antes havia arvores, arbustos e grama, enquanto perseguia o Pokémon de Skyla que agora ganhava altura depressa.
— Icy Shard, – Guerra comandou de novo e as farpas de gelo foram em direção a Skyla que saiu correndo tentando desviar. As coisas estavam acontecendo depressa, eu mal podia acompanhar.
— Leaf Blade, – Cilan interveio. E Leavanny saiu correndo em direção a Skyla com seus braços envoltos por um brilho esverdeado, acertando as estacas com golpes afiados, as partindo em pedaços.
Skyla se jogou para o nosso lado e gritou, – Steel Wing Mandibuzz, Scald Twsuana.
— Double Team e Ice Fang, Glaceon – Guerra comandou de volta. – Depois evasiva e Ice Beam.
Mandibuzz foi pra cima de Glaceon, mas tão rápido quando o Pokémon voador se moveu o Pokémon de gelo se multiplicou e de apenas um ele se transformou em dez. Todos se movendo em sincronia, com as mandíbulas geladas aumentando seus caninos afiados.
Quando Mandibuzz se jogou contra o primeiro deles, aquele que estava na posição inicial de Glaceon, o que estava em seu lado se moveu rápido, agarrado a asa do Pokémon, o fazendo capotar na pista de gelo que tinha se formado.
Cilan agarrou Shantal e Drew e começou a puxa-los para longe da batalha, enquanto Twsuana lançou uma onda poderosa de agua fervente que derreteu parte do gelo em volta de Glaceon, mas o Pokémon se esquivou depressa, deixando apenas a marca no chão.
Mal voltou a se orientar e Glaceon já enviou novamente o ataque na direção de Twsuana. O Pokémon bateu asas ferozmente e começou a deslizar pelo céu com tamanha velocidade que o ataque de Glaceon não tinha chance de toca-lo.
— Magical Leaf, – Cilan comandou. A técnica tinha cem por cento se acerto.
E Skyla o seguiu, – Water Gun.
— Icy Shard, depois Swift – Guerra comandou com um sorriso no rosto. Ele parecia simplesmente estar se divertindo com o que estava fazendo.
Enquanto os ataques se chocavam e os Pokémon saltavam de uma lado para outro eu recuei, ajudando a Drew que estava encolhido ao lado de Shantal que ainda respirava, mas sangue começava a encharcar sua roupa.
O menino estava chorando, perdido em sua própria mente e por algum motivo, ver aquela cena me lembrou de como fora a batalha entre Iris e Guerra. Os ataques de Glaceon pareciam ter mais alcance e acertar com mais força.
Meu coração ficou ainda mais rápido, batendo com força no meu peito. A circulação parecia estar tão rápida que eu quase podia sentir o sangue correr pelo meu corpo. – Ele esta se segurando, temos que sair daqui, – disse alto o suficiente para que Cilan pudesse ouvir.
— Leaf blade, seguido de Energy Ball e esvaziva – Cilan tentou.
Leavanny correu para cima de Glaceon com as patas brilhando, saltou e caiu praticamente sobre ele, desferindo golpe atrás de golpe tentando cortar o Pokémon. Mas Glaceon era mais rápido e desviava dos ataques com movimentos fluidos e leves, se jogando de um lado para o outro, como uma folha levada ao vento.
A Pokémon acabou abrindo uma brecha e Glaceon saltou para frente, acertando uma cabeçada no tórax dele, a arremessando para trás. O Pokémon gelado tentou se jogar sobre ela com as prezas tomadas de gelo, mas Leavanny gerou a esfera de energia rápido o suficiente para arremessa-la e joga-la em Glaceon ainda no ar.
Uma pequena explosão ocorreu e a Pokémon saltou para trás rápido, se afastando da onde de choque. Mas antes que ela pudesse se equilibrar em cima do gelo, estrelas brilhantes saíram da nuvem de fumaça, acertando o Pokémon Grass em varias partes do seu corpo.
Mandibuzz retornou depressa, agarrando Glaceon com as patas afiadas, o jogando contra uma arvore congelada com violência, mas o Pokémon não se abateu e se levantou depressa, girando o corpo e rosnando.
Guerra gargalhou, – eu posso brincar com vocês o tempo que quiserem, mas sabemos qual vai ser o resultado. – Olhou para mim e sua expressão se endureceu, – venha comigo e evite que seus amigos se machuquem.
Engoli seco e por mais que eu estivesse com medo de voltar, ele tinha razão. Eu já tinha visto Guerra pegando pesado, eu estava lá quando ele abatera Iris. Sabia de sua capacidade de modo que os outros não sabiam.
Glaceon sozinho estava dando conta dos três Pokémon, mesmo que os de Skyla já estivessem cansados da batalha anterior e Cilan não fosse o melhor treinador de todos. Eram três contra um.
Shantal não era minha amiga e eu não gostava dela, mas a única chance que ela tinha de sobreviver era sair dali agora. Ela precisava ser levada para um hospital.
Serrei os punhos e tentei me mover, ignorando a corrente elétrica que correu pelo meu corpo, ignorando como todos os meus músculos gritavam para eu ficar ali, ou para correr para o mais longe possível. Mas eu não podia fazer isso.
— Eu... – tentei dizer que iria, mas Cilan passou por cima de mim.
— Ela não vai com você, – ele gritou, erguendo o punho fechado. Seus olhos estavam queimando e seu rosto parecia levemente deformado pelos sentimentos explodindo dentro dele. – Ela vai embora daqui hoje comigo, não interessa se eu tenha que bater em você com minhas próprias mãos pra isso.
— Você pode tentar jovem ex-lider, mas acho que assim como manter seu titulo, você não tem capacidade pra isso também – Guerra rebateu serio.
Percebi o olhar de um para o outro e vi o mesmo brilho no olhar de Guerra, que vi se acender antes de fazer aquilo com Desmond. Eu não podia permitir que ninguém mais se machucasse por minha causa, ainda mais Cilan e Skyla. – Eu vou com você – disse alto, mas minha voz tremeu.
Skyla me moveu depressa, chegando até perto de mim, – você não precisa fazer isso. Nossos vamos conseguir sair dessa.
— Não vamos, – admiti. – Algo precisa ser feito agora. Os soldados já avisaram nossa localização e qualquer momento um tropa vai chegar aqui. Shantal esta muito ferida e precisa ser tirada daqui agora. A única chance que vocês tem é sair daqui agora e esse é o único caminho. Acabou pra mim.
E realmente tinha acabo. Meu corpo estava queimando e minha fraqueza quase me abatia. Eu não tinha Pokémon e mesmo a Elite Four estava sucumbindo a Team Plasma. A única coisa que eu podia fazer, a ultima, era me entregar se isso significava salvar Cilan e Skyla, Drew e Shantal.
Eu tinha passado por muita coisa, visto muito coisa e ajudado muito mais do que um dia pensei que poderia. Dee e eu mudamos o rumo das coisas, mesmo que momentaneamente quando impedimos a captura de Keldeo.
Vivemos momentos juntos que a maioria das pessoas nunca sequer pensaria em viver. Conhecemos lugares, pessoas, mas o mais importante foi começar a descobrir a nós mesmos. – Eu vou, – disse dessa vez com firmeza, num tom que eles não conseguiriam contestar. – Eu preciso fazer isso.
Dei o primeiro passo na direção de Guerra que me olhava ansioso e senti as mãos deles me segurando. Skyla do meu lado direito, Cilan do lado esquerda. – Você não vai a lugar nenhum, se precisar eu mesmo te derrubo e te carrego para longe daqui.
Nossos olhos se encontraram e eu me senti nua sob o olhar dele que queimava. Olhos verdes e intensos que pareciam brilhar sob a luz do sol da tarde. Meu coração se acalmou.
Guerra serrou os punhos e deu um passo para trás, – entreguem-na agora, ou eu matarei todos aqui.
— Mandibuzz, Twsuana, – Skyla os chamou e os Pokémon alçaram voou, planando sobre ela. – Brave Bird. – Depois se virou para Guerra, – você pode tentar. – Os Pokémon subiram como misseis, acompanhando o movimento um do outro, seus corpos se iluminaram, deixando um rastro no céu.
— Ice Shard, – Guerra comandou apontando para o alto.
— Leavanny, Magical Leaf sem parar, – Cilan comandou, ainda me segurando pelo braço.
Antes de Glaceon conseguisse iniciar seu ataque às folhas cortes foram em sua direção. Ele tentou desviar, mas elas agiam como teleguiadas, fazendo curvas, o seguindo, enquanto ele saltava de um lado para outro.
Guerra saltou sobre o gelo e se atirou na nossa direção, seu olhar estava tomado de algo bestial. – Ela é minha, – gritou levando a mão ao bolso para liberar mais um Pokémon.
Mas antes que ele pudesse sacar a Pokeball algo inesperado aconteceu. Algo surgiu sob ele, emergindo do chão e agarrou seu pé, fazendo o garoto ir ao chão com violência. Era Gengar com uma expressão assustadora no rosto. Aparentemente ele tinha escapado da batalha contra Metagross e agora buscava vingança por sua treinadora.
Enquanto isso os dois Pokémon voadores acertaram praticamente juntos Glaceon, fazendo o Pokémon ser jogado floresta adentro, com um ganido de dor, desparecendo no meio dos troncos adiante.
Assim que Gengar segurou Guerra com uma das mãos o som da brigada que tinha sido mandada até nós começou a explodir em nossos ouvidos. – Temos que sair daqui, agora! – Skyla gritou. Eles estavam praticamente em cima da gente. – Tswuana, Mandibuzz, preciso que carreguem aqueles dois até um hospital – disse com urgência apontando para Shantal e Drew. O garoto estava em posição fetal, ainda surtando com tudo o que vira.
Não havia tempo, o plano de subir até a fronteira também não funcionaria. Eles vinham daquela direção. Os dois Pokémon voadores agarraram Shantal e Drew com as patas e com força arrancou-os do chão, voando em direção à mata na nossa frente.
Olhei para trás apenas por um instante a tempo de ver que Guerra libertaria seu próximo Pokémon e sai correndo atrás de Skyla, Cilan e Leavanny. As vozes dos soldados estavam sobre nós, sons de galhos e folhas sendo amassados preenchiam a floresta.
— Temos que voltar em direção ao portão das insígnias, – Skyla sugeriu.
— A Team Plasma deve estar vigiando aquela região. Foi até onde eu conseguir correr depois de fugir da barcaça – respondi saltando sobre um arbusto.
Um soldado surgiu na nossa frente armado, com os olhos esbugalhados, mais surpreso por nos ver do que nós a ele. Leavanny reagiu depressa, saltando com os dois pés no tórax do homem, o arremessando com força contra uma arvore.
Continuamos correndo sem rumo, passando por arvores, saltando arbustos. E de algum modo, as vozes estavam começando a ficar mais distante e os sons da floresta pareciam mais calmos, mas eu ainda sentia meu corpo sendo bombardeado de adrenalina. Forçando-me a me mover sem rumo, quase no automático, em busca de liberdade, de salvação.
Mas eu sabia que estava no limite quando finalmente encontramos o rio algum tempo depois. Ouvi a voz de Cilan me chamando, me perguntando se eu estava bem, mas o mundo rodou mais uma vez, se escureceu e apagou. Eu desmaiei e estava feliz por isso.
=8=
Acordei sentindo o balançar ritmado. Meu corpo doía, mas agora muito menos. Abri meus olhos devagar e com dificuldade, eles arderam com o contato com a luz.
De acordo com minha visão foi voltando fui me dando conta de onde estava e do que estava havendo. Skyla estava na minha frente, sentada em um sofá, mexendo em seu Xtransceiver e a julgar pela decoração e o vibrar constante estávamos em um trem.
Tentei me focar em como eu tinha chegado ali, mas simplesmente não consegui encontrar em minhas memorias. Skyla estava bem, limpa, cabelo arrumado, como se tudo o que tinha acabado de acontecer não tivesse realmente havido.
Mas eu não me permitiria acreditar em algo assim nem por um minuto. Ater-me a algo assim sem duvida me enlouqueceria. Não havia possibilidade, as dores ainda estavam ali, apenas menos marcantes.
— O que houve? – Perguntei com dificuldade, me virando pra ela.
Seu olhar se ergueu e ela abriu um sorriso, – você não suportou tudo e acabou desmaiando. Por sorte estávamos perto da rodovia e conseguimos uma carona até Lacunosa Town.
Eu não tinha certeza onde a cidade ficava, mas não importava, – onde está Cilan?
— O obriguei a ir comer alguma coisa, – disse fazendo uma expressão severa, – ele não queria deixa-la sozinha nem por um instante. Simplesmente não saiu do seu lado desde que você apagou.
Ficou mesmo? Tive a intenção de perguntar, mas me segurei. Eu ainda me sentia muito fraca, meus pensamentos não pareciam ficar em ordem. – E Shantal, Marshal? – As memorias foram voltando rápido, como um filme em que você acelera a velocidade para pular de cena. E esse era um filme horrível.
Ela respirou um momento e pareceu achar as palavras certas, – Haila, temos muito que conversar, mas por enquanto eu precise que você descanse. As coisas mudaram, mas estamos indo para um lugar seguro. Estou te levando pra Deedee.
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