Rota Zero

89 O Último Dia de Castelia - parte 4


Notas iniciais
Demorei porque esqueci/final de semestre e me enrolei, por isso mesmo, o capítulo não está betado. Se tiver algum erro muito bisonho, me avisem. Agradeço as pessoas que ainda acompanham a gente depois de tanto tempo. Boa leitura!

December

Eu não fazia ideia de como Cheren andava tão rápido e orientado por aquelas galerias que ele tinha visto apenas uma vez no mapa que Burgh tinha feito os apontamentos, para mim todas as paredes e o chão parcialmente alagado eram iguais.

Andamos um bom tempo em silêncio, seguindo o líder. Kara resmungava e bufava toda vez em que pisava em algo que julgava nojento e suspeito. Eu me perguntava onde Peach estaria e como iria recuperá-la se tinha deixado sua Pokéball para trás. Cassie ficaria furiosa se soubesse que eu perdi a Pokémon, mas eu não iria abandonar Peach, eu iria reencontrá-la de qualquer forma, nem que tivesse que rodar toda Unova para isso.

Meu braço estava dormente e o rasgo no meu moletom era bem mais evidente agora. O sangue corria pela abertura, gotejando no alagado do chão e deixando um pequeno rastro. Se Des estivesse ali, já teria feito um curativo e eu estaria muito melhor, ou mesmo Lila teria resolvido o problema com um dos seus costumeiros Aqua Rings. Então me lembrei da mensagem que tinha ouvido sobre Fome. Se ela tinha escapado ou sido resgatada, o que tinha acontecido com o restante do pessoal? Lila era uma guerreira, mas os Pokémon dela estava fora de combate e mesmo que Corin tivesse a habilidade de se comunicar com os Pokémon, ainda era uma criança, e ele e Dania não poderiam fazer muito, eu desconhecia as habilidades de luta do Arthur e só poderia pedir a Arceus que eles estivessem bem e seguros.

— Deedee, você está sangrando muito – Tom espiou meu braço.

— Eu estou bem – desconversei.

— Cara, se você continuar perdendo sangue desse jeito você vai acabar apagando – Tom tentou não fazer muito alarde sobre.

— E por que você não faz um curativo? – Kara cortou.

— Bem... – Tom se enrolou.

— Você é um Ranger, deve saber essas coisas, não? – Ergueu uma sobrancelha, provocativa.

— Rangers trabalham sozinho e nossa missão é socorrer Pokémon majoritariamente – Tom se defendeu, pomposo.

— Então você está dizendo que não sabe prestar primeiros socorros? – E Kara tinha aquele tom superior de sempre.

— E você sabe? – Tom rebateu na mesma moeda.

— Eu lá tenho cara de enfermeira?

— E eu tenho?

— Você é pago para isso! – A garota esbravejou.

— Cale a boca, Kara, você nem sabe o que um Ranger faz.

— Aposto que sei melhor do que você – rebateu e se eu conhecia bem Kara, ela não iria sair por baixo, por mais errada que estivesse.

Mas antes que dessem prosseguimento a discussão infantil, Cheren parou e se virou, puxou meu braço e dobrou a manga do moletom na altura do cotovelo. Aquilo estava muito pior do que eu imaginava, os dentes da Peach estavam perfeitamente desenhados no meu braço e a pele em volta estava começando a necrosar.

Cheren puxou a gravata do pescoço e habilmente enrolou no meu braço, cobrindo o ferimento e amarrando bem apertado. Não demorou para que o tecido vermelho fosse tingido por um vermelho mais escuro e molhado.

— Não mexa muito o braço, isso é só provisório – ele informou me encarando seriamente. Só fiz um aceno de cabeça, sem responder efetivamente.

Continuamos nosso caminho no esgoto, vez ou outra, podia ouvir algo que parecia uma explosão vindo da rua acima de nós, mas o som era bastante abafado pelas paredes. A lanterna de Kara começava a falhar, e as vezes o foco de luz sumia e reaparecia.

— Eu sinto muito pelo seu Snorlax – comentei caminhando ao lado do líder, apesar de determinado, ele parecia bastante abalado pela perda do Pokémon.

— Kara tem razão, eu não sou um líder tão bom assim – disse desanimado.

— Claro que é, você nos salvou e... – eu não era bom em animar as pessoas e não sabia o que dizer. Ele apenas me encarou e deu um meio sorriso.

— É aqui – Cheren parou de repente encarando um tampo de bueiro sobre nossas cabeças. Mais à frente, a pouca luz da lanterna da Kara mostrava uma bifurcação que dava em uma galeria mais ampla e onde o fluxo de água era maior.

— Tem certeza? – Kara perguntou desconfiada, mas um olhar atravessado do líder a fez se calar.

— E qual é o plano? – Tom encarava o tampo.

— Bem, derrubar a antena – Cheren deu de ombros.

— E como vamos fazer isso sem Pokémon?

— Acho que todos nós temos capacidade para nos viramos sem nossos parceiros. Só estejam cientes que como estamos perto da antena, o sinal é muito mais forte e talvez nós tenhamos problemas com nossos parceiros. Se mantenham calmos, certo?

Todos concordamos, Tom e Cheren subiram na escada quebra-peito e com dificuldade conseguiram remover o tampo do bueiro o suficiente para que conseguíssemos passar.

Quando sai pela abertura, a claridade me cegou temporariamente e demorei para me orientar. Estávamos próximos do prédio, era um prédio de aproximadamente dez andares com a fachada espelhada e uma grande torre de treliça era visível no topo. A antena que deveríamos derrubar.

Na rua onde havíamos saído, podíamos ver fogo e caos, havia fumaça espiralando sobre várias partes da cidade e eu podia ouvir sirenes e explosões ao longe, mas no quarteirão que nos encontrávamos, tudo estava quieto. A rua tinha alguns veículos abandonados e revirados, mas estava vazia, totalmente vazia, fosse de humanos ou Pokémon.

— Isso não é meio incomum? – Tom perguntou espiando o caminho que tomaríamos.

— Não acho que a Team Plasma seria estúpida de deixar um ponto vital ser tomada pelo tumulto, principalmente se o lendário estiver aqui – Cheren analisou.

— Isso significa que tem soldados fazendo a guarda – Kara observou.

— Provavelmente.

— E como vamos invadir um local vigiado? – Kara bufou.

— Bem... – Cheren coçou o queixo pensativo.

— Se tivéssemos armas – Tom deu um muxoxo.

— Como se você soubesse atirar – Kara revirou os olhos.

— E você sabe?

— Não é só apertar o gatilho? – Ela deu de ombros como se fosse fácil.

— Talvez possamos improvisar – Cheren encarou a fachada de uma loja ao nosso lado. O local estava com as janelas cobertas com papel pardo e parecia estar passando por reforma, nos letreiros, podia-se ler Hanabi em uma letra delicada e trabalhada. Eu não fazia ideia do que a loja vendia, mas Cheren parecia esperançoso.

O líder fez sinal e nos esgueiramos para próximo da loja, a porta estava fechada, mas não trancada e dentro era possível ver escadas e ferramentas para a reforma da loja. As prateleiras estavam vazias, mas havia alguns caixotes de madeira empilhados no fundo.

Ali, o sinal era muito mais forte e eu podia ouvir um leve zumbido que parecia martelar na cabeça, as minhas Pokéball vibravam no bolso, com exceção de Bacon, e eu tentava controla-las. Percebi que as Pokéball de Kara, presas ao cinto, também vibravam e vez o outra, ela as cobria com a mão, na tentativa de acalma-los.

Cheren e Tom reviraram as caixas e conversavam entre si enquanto Kara e eu fazíamos a vigia da porta, embora eu não achasse realmente necessário. Não havia civis ou Pokémon ali, Kara espiava o que eles estavam fazendo, mais do que observava o movimento da rua e vez ou outra bufava quando eles discutiam se algo aleatório poderia ser usado como arma, como um martelo, um serrote ou uma pistola de pregos.

—Posso perguntar uma coisa? – Comecei, receoso. Ela voltou a atenção para mim e me encarou momentaneamente, como um incentivo para que eu prosseguisse. – Você nunca falou nada sobre o Des enquanto estávamos em Icirrus.

— Por que está perguntando isso agora? – O olhar desviou para a rua vazia, como se fosse a coisa mais interessante.

— Na verdade, eu queria ter te perguntando antes, mas aconteceram tantas coisas – disse sem jeito.

— E o que teria para falar de alguém em coma? – Respondeu cínica, mas o tom de voz a traiu.

— Mas...

— Os homens da minha vida parecem gostar muito da Haila – deu um muxoxo. Arqueei a sobrancelha sem entender. – Tom moveria mundos para ajudá-la e Des, bem, ele quase morreu para salvá-la.

— Você se sente mal por isso?

— Talvez inveja – admitiu – mas não fale nada para aquela oxigenada, ou ela vai ficar se sentindo a última bolacha do pacote.

— Quando tudo isso acabar, você poderia visitar o Des e dizer a ele que se arrepende de ter deixado ele partir – disse com convicção, a conversa que tivera com Kara em Anville ainda parecia muito viva na minha memória.

— Quando tudo isso acabar, se não estivermos mortos – ela fez questão de ressaltar essa parte – eu vou ser alguém muito diferente da Kara que se apaixonou pelo Des.

— Kara... – e por mais que aquilo soasse estranho, Kara tinha razão. Quando aquilo tudo acabasse, nós seriamos pessoas muito diferentes do que éramos antes da guerra começar e valores que tínhamos antes, talvez não se aplicassem mais.

— Ei, vocês – Tom parou ao nosso lado e chamou nossa atenção – temos um plano – deu um sorriso vitorioso, mas eu não fazia ideia de qual era o plano, ainda mais que ele trazia um misterioso tubo colorido nas mãos.

=8=

Saímos pelos fundos da loja, que dava para uma via de mão única e estreita, mas que nos deixava muito mais próximo do prédio da emissora de rádio. A rua estava cheia de carros revirados, portas abertas e abandonados, mas assim como na rua principal, não havia ninguém, e aquilo me deixava mais desconfortável do que o caos que dominava o restante da cidade.

Começamos a andar pela rua, Cheren ia um pouco a frente, ele trazia um martelo pendurado no cinto da calça e eu não fazia a menor ideia do que ele pretendia com isso. Kara, Tom e eu o seguíamos, levando alguns dos tubos coloridos conosco, Kara levava muitos deles dentro da mochila, mas Tom e eu só carregávamos o que conseguimos prender nas vestes. O Ranger ainda trazia uma pistola de pregos na cintura, e aquilo era o que tínhamos de mais letal contra Team Plasmas armados até os dentes e cheios de Pokémon.

A verdade é que eu não tinha muita confiança no plano, principalmente ao saber que ele fora arquitetado principalmente por Tom, mas considerando que não podíamos usar nossos Pokémon, era a única saída que possuíamos.

Com exceção de um alarme de carro que tocava incessante, não havia mais nenhum outro som na rua. A cada passo que dávamos, sentia minhas Pokéball vibrarem mais e eu ficava cada vez mais nervoso, e se algum dos meus parceiros fugisse como Peach?

Tínhamos andado aproximadamente meio quarteirão, quando do nada, ouvimos um barulho ensurdecedor como um grito desesperado. Acima dos prédios que ladeavam a rua, um grupo de Aerodactyl se aninhavam, como estátuas de gárgulas. Eles abriram as asas e voaram na nossa direção.

— Corram – Cheren gritou automaticamente, mas nem era necessário, todos já estávamos correndo, tentando ganhar velocidade enquanto desviávamos dos carros.

Eu não conseguia ver se eles estavam com os dispositivos de proteção, mas eles pareciam ordenados demais para estarem descontrolados. Eles vinham em uma formação, cada vez mais rápidos e moviam as asas se preparando para um Wing Attack.

Instintivamente levei a mão as Pokéball, mas antes que pudesse reagir, Tom me puxou pelo braço e me jogou no chão. O grupo de Aerodactyl deu um rasante sobre nossas cabeças, arrastando as patas traseiras nos tetos os carros.

Kara me puxou pelo moletom e nos enfiou embaixo de um caminhão de sorvete. Tom tinha se jogado embaixo do carro do lado e Cheren tinha feito o mesmo, um pouco mais a frente.

Pude ver o grupo de Pokémon darem a volta e pousarem na rua, entre os carros. Eram tão grandes que mal cabiam entre os vãos, eles andavam lentamente farejando o ar e batendo as unhas das patas no chão. Faziam um barulho engraçado, como se conversassem e o que parecia ser o líder do grupo vinha na nossa direção.

Vi um Aerodactyl passar ao lado do caminhãozinho de sorvete e esbarrar as asas enormes contra a lateral, fazendo o veículo levantar ligeiramente do chão. O impacto fez a música no caminhão ligar, e o som alegre e enjoado feito para atrair crianças, atraiu a atenção do restante do grupo que voou para cima do veículo.

Ouvi um caminhão ranger quando dois Aerodactyl subiram sobre o capô, os amortecedores afundaram com o peso, e o espaço embaixo do caminhão ficou extremamente apertado. Se mais algum peso fosse adicionado, Kara e eu seriamos esmagados. O restante do grupo empurrava as laterais do caminhão, incomodados com o barulho da música e eu sabia que a estrutura do veículo não aguentaria por muito tempo.

Senti os dedos de Kara envolverem meu pulso, nervosos, e ela me encarar duvidosa se deveríamos tentar lutar ou não. Cheren parecia aflito, mas sem saber o que fazer, jogar um Pokémon descontrolado sobre o grupo de Aerodactyl poderia fazer mais mal do que bem.

Do outro lado, Tom levou a mão ao bolso e pegou uma Pokeball, fiz sinal para que ele não fizesse nada, mas me devolveu um sinal de que nós não duraríamos muito tempo ali e antes que eu pudesse sinalizar qualquer outra coisa, ele rolou para fora da proteção do carro e lançou a Pokeball o mais longe que conseguiu..

Seu Emboar surgiu majestoso do facho vermelho, mas não demorou para que as ondas o influenciassem e ele começasse a cuspir fogo aleatoriamente. O grupo de Aerodactyl grasnou furiosamente e voaram na direção do Pokémon.

Senti Kara me puxar debaixo do caminho e correr seguindo Cheren e o irmão, Tom espiou por cima do ombro, enquanto os Aerodactyl se fechavam em torno do Emboar. O Pokémon lançou uma rajada de fogo que derrubou um Pokémon voador, e tostou as asas de outro, que urrou com o ferimento.

Estávamos quase no prédio da emissora, quando a porta se abriu e instintivamente todos nos escondemos atrás dos carros mais próximos.

— O que está acontecendo? – Pude ouvir alguém gritar, mas a voz parecia abafada e distante.

— Os Aerodactyl pegaram um Pokémon – alguém rebateu, a voz mais alta e próxima.

Apesar da distância, eu pude ver os Aerodactyl derrubarem o Emboar no chão e começarem a arranhar e mordê-lo. Talvez pela loucura, o bicho se debatia, lançando chamas a esmo, mas os Aerodactyl conseguiam desviar facilmente do ataque.

— O que eu faço? – O rapaz da voz próxima questionou. – Não era para ter Pokémons por aqui, são as ordens.

— Deixe os Aerodactyl se divertirem – a voz distante respondeu. Não sabíamos se o outro Plasma tinha voltado para o prédio, pois o barulho que os Aerodactyl faziam era infernal.

Eles estavam sobre o Emboar, havia uma poça de sangue abaixo deles, e um dos Pokémon parecia comer a perna do bicho, que ainda tentava lançar chamas, mas elas mal se formavam. Tom cerrou os punhos e Kara passou o braço pelo do irmão, o impedindo de tomar qualquer atitude precipitada.

Só que a garota não foi tão forte, Tom puxou o braço e correu na direção no grupo de Aerodactyl, mas ele mal se distanciou alguns metros e um disparo atingiu o chão, muito próximo ao seu pé. O garoto pulou, se escondendo atrás de um dos veículos.

— Parado aí engraçadinho, mãos para cima, o próximo tiro não vai ser de aviso – o soldado da Team Plasma grasnou.

O problema é que o tiro não chamou apenas a nossa atenção, o grupo de Aerodactyl, que até então parecia muito concentrado em trucidar o Emboar, se voltou para a rua e nos viu ali, alvos fáceis.

Um deles deu um grasnado agudo, que quase me fez esquecer o silvo constante vindo da torre, e avançou, puxando o primeiro veículo leve que cruzou e o içou com um bater de asas. Era uma motoneta pequena, estava caída entre os carros e apesar de levantar o veículo de maneira desajeitada, ele não parecia se incomodar com o peso.

O Pokémon fez um semi-giro e arremessou a motoneta em nossa direção. Cheren me puxou para o lado, nos escondendo atrás de outro carro, enquanto Kara pulou para o lado o oposto, ficando exposta no meio da rua. A moto caiu sobre o carro que nos escondíamos, estraçalhando o para-brisas em fragmentos diminutos.

O Plasma parecia muito impressionado com tudo o que estava acontecendo, que o tempo de reação dele foi lento. Kara gritou algo incompreensível, mas vi Cheren tirar um isqueiro do bolso e jogar para a garota.

Ela passou as mãos rapidamente pelas costas, puxando um bastão de papelão preso na mochila. Virou o bastão para o sujeito e acendeu com um isqueiro, o pavio pegou fogo rapidamente e antes que o soldado pudesse entender o que estava acontecendo uma rajada colorida e barulhenta o atingiu no peito o lançando contra o carro mais próximo.

E se tínhamos algum elemento surpresa para entrar no prédio sem sermos vistos, ele não existia mais. O barulho dos fogos fez os Aerodactyl revoarem e a porta do prédio se abriu novamente, e um soldado saiu por ela. Kara tentou um segundo disparo, mas o Plasma estava longe e o facho passou zunindo e estourou colorido e chamativo no céu.

— Corre – Cheren apontou para a porta do prédio. Provavelmente ficaríamos em meio a fogo cruzado, mas não dava para pensar muito nisso. Kara continuava lançando fogos de artifício contra o soldado e mesmo que não o atingisse, o barulho e a claridade da explosão o desorientava o suficiente para que conseguimos galgar terreno.

Estávamos quase na porta, mas Kara não tinha conseguido derrubar o sujeito, e mesmo com toda aquela distração, seriamos alvos fáceis. Eu podia ouvir os Aerodactyl voarem ruidosamente sobre nós, mas a barulheira dos fogos os mantinha afastados.

O Plasma tentou se orientar em meio ao caos e mirou o rifle contra Kara, mas antes que pudesse atirar, Tom passou como um raio do meu lado e sacou a pistola de pregos. Eu não sabia se ele estava sendo movido pela frieza de um ranger, a raiva pelo que acontecera ao Emboar ou o instinto de proteção com a Kara, mas ele precisava chegar muito perto para usar a parafernália e não parecia nenhum pouco preocupado com isso.

O primeiro tiro atingiu o Plasma, o prego fincou na mão e atravessou até chegar ao metal da arma, o segundo seguiu o primeiro, mas não adentrou tanto na pele. O terceiro, mais por sorte do que por pontaria, acertou a jugular e o sangue começou a jogar dali, enquanto o Plasma tentava cobrir o ferimento com a mão livre.

Ele avançou para dentro do prédio, seguido por Kara, Cheren e eu. Havia meia dúzia de soldados no hall da construção, que pareciam um tanto incertos do que fazer. Antes de realmente entramos Kara puxou a mochila das costas, acendeu um pavio e jogou o objeto pela porta. Não demorou até vários fachos coloridos voarem pelo ambiente e uma gritaria e correria preencher o andar.

Eu podia divisar fogos em formatos de flores e corações que explodiam no minúsculo espaço, ateando fogo as cortinas e plantas ornamentais de plástico. Os Plasmas atiravam aleatoriamente, confusos pelas cores e som e nós corríamos abaixados, tentando evitar qualquer disparo acidental.

A fumaça tinha ativado os sprinkles do teto e uma pequena camada de água se formava no chão. Havia dois Plasmas caídos no chão, com as roupas queimadas e Kara pegou as armas deles, e me ofereceu uma. Eu não fazia ideia de que tipo de arma era e por mais que eu as tivesse visto muitas vezes, recentemente, eu não entendia nada sobre elas e o máximo de conhecimento que eu tinha era o que vira nos filmes de ação.

Tom tinha abandonado a pistola de pregos e conseguido uma arma similar a minha com algum outro Plasma abatido. Cheren conseguira uma pistola em algum momento, mas o martelo continuava pendurado ao cinto. Descartamos os fogos não utilizados, as armas serviriam melhor.

Passar pelos Aerodactyl tinha dado mais trabalho e resultado em mais baixas do que abater meia dúzia de soldados armados. Eles pareciam bastante despreparados e não fazia sentido deixar a guarda de um lendário para um esquadrão tão ineficiente. E eu tive um péssimo pressentimento sobre aquilo.

Mas como eu diria aos outros? Eu não tinha nada para provar que aquilo estava errado e Cheren tinha certeza das informações que Burgh tinha nos passado. Se estava tão mal vigiado assim, poderíamos muito bem estar no prédio errado e aquele não ser o que guardava Cobalion, ou pior, poderia ser uma armadilha e considerando que Fome estava em liberdade, eu não duvidava muito.

Embora o elevador fosse uma opção mais rápida, seriamos alvos fáceis dentro da caixa de metal, por isso, subimos os andares pela escadaria de incêndio. Depois do quarto andar minhas pernas já estavam doloridas e eu quase não conseguia respirar, a arma que eu carregava parecia pesar quilos e meus braços estavam dormentes. Aparentemente, a estação de rádio ficava no sexto andar e eu espiava por cima do ombro para ver se ninguém nos seguia.

— Você é idiota? – Kara esbravejou de repente, mas não muito alto. Ela encarava Tom com uma expressão de desagrado.

— Do que está falando?

– Primeiro você colocou seu Emboar em campo e depois pulou na frente daquele soldado para me salvar.

— Acho que você está se dando muito crédito – Tom desconversou.

— Eu não sou uma donzela que precisa ser salva, eu posso cuidar de mim mesma.

— E eu deveria deixar os Aerodactyl fazerem aquilo com você? – Ele rebateu furioso.

— Eu não pedi para você me salvar – ela reclamou.

— Ótimo, dá próxima vez eu deixo você morrer...

— Ótimo, se você quer salvar alguém, pode ir procurar a loira aguada.

— Gente – eu tentei intervir, mas eles pareciam muito nervosos.

— Vocês dois – Cheren assumiu a discussão – já chega!

— Mas esse idiota... – Kara começou.

— Ele salvou sua vida, e você deveria ser grata – Cheren foi taxativo. – E Tom, eu lamento por seu parceiro, mas estamos em uma guerra, todos vocês sabem que podemos ter baixas – e eu sabia que aquelas palavras não eram apenas para o Emboar do Tom, mas para si mesmo, para a morte do Snorlax que ele não digerira direito.

— Eu sei disso – Tom rebateu. Visivelmente, ele estava tentando manter seus pensamentos longe do Pokémon.

— Então chega dessa discussão e... – Cheren parou a frase no meio, levantou a pistola e atirou a esmo escadaria abaixo. O barulho foi tão alto e perto que ecoou em meus ouvidos e foi como se sinos de Natal retumbassem nas minhas orelhas.

Eu pude ouvir uma gritaria vinda do patamar de baixo, enquanto uma nuvem branca se levantava no ambiente. Um grupo de soldados subia a escadaria atrás de nós e Cheren tinha acertado um disparo perfeito no extintor de incêndio no andar abaixo. O disparo vez o cilindro explodir, mandando pó químico para todo lado e turvando a visão.

Alguém gritou algo, mas só percebi o que era para fazer, quando Kara me puxou escadaria acima até chegar ao próximo patamar e me jogar para dentro da primeira porta que encontramos.

Era um corredor longo e totalmente apagado, a única iluminação vinha das grandes janelas de vidro das salas e que mal lançavam claridade ali. O lugar era ladeado de salas e no final, havia uma porta larga com o vidro adesivado.

Pelas letras no adesivo, aquele deveria ser o estúdio que estávamos procurando, mas além de estar completamente vazio e apagado, nós estávamos no andar certo?

– Deedee, Kara, vão verificar o estúdio, nós vamos segurar a porta – Cheren falou por cima do ombro, apontando a pistola para a porta que Tom travava com uma cadeira que tinha pegado na sala ao lado.

Eu podia ouvir barulho na escadaria e não me sentia nada confiante. Se os Plasmas entrassem, seriamos massacrados, aquela era nossa única saída. E se o Cobalion estivesse no estúdio, com certeza aquele seria nosso fim.

Kara foi a minha frente, armas em punho, mas apesar de parecer durona, eu podia ver as mãos tremerem levemente. Atrás de mim, Cheren e Tom cochichavam algum plano e eu podia ouvir passos na escadaria.

Kara empurrou a porta de vidro com o pé, que fez uma barulheira desnecessária. O local estava escuro e completamente vazio. Todos os aparelhos estavam desligados e nenhum sinal parecia ser emitido dali.

— Não deveria ser aqui? – Kara perguntou desconfiada. Havia papeis no chão e outros equipamentos caídos, como se o lugar tivesse sido abandonado às pressas.

— De acordo com as informações que tínhamos, era para o Cobalion estar aqui – disse, sem muita certeza. Estávamos na antena errada, sem sombra de dúvidas.

— Talvez em outro ponto? – A garota sugeriu.

— Tudo indicava aqui, é a mais próxima da mansão presidencial – tentava me lembrar do mapa que Burgh tinha mostrado.

— E se esquecermos desse negócio da antena e ir direto para a mansão resgatar o velho? – Kara baixou a arma, visivelmente irritada.

— E que chances temos contra a Team Plasma sem Pokémon? – Questionei e ela deu um muxoxo.

De repente, uma pequena explosão foi ouvida no corredor e sons de tiros pipocaram por todos os lados. Instintivamente, me abaixei e Kara voltou a arma em posição. Eu me sentia ansioso e com medo, e as Pokéball vibravam loucamente no meu bolso não faziam eu me sentir melhor. Kara saiu pela porta, gritando como uma amazona destemida.

Eu sentia minhas pernas tremerem e não conseguia visualizar o que estava acontecendo no corredor. De repente, um soldado surgiu pela porta de vidro, empunhando um rifle.

— Mãos para cima! – O cara gritou, apontando a arma em minha direção.

Eu sentia meu corpo tremer, eu estivera em várias situações perigosas antes, mas quase sempre alguém aparecia para me salvar no último segundo. Só que isso não iria acontecer daquela vez, não com todos ocupados tentando salvar a própria vida.

— Você não me ouviu? – Ele balançou a arma na mão, dando ênfase nas palavras.

Eu precisava reagir, mas como? Eu estava na linha de fogo, sem nenhum Pokémon que pudesse usar. Só a arma que Kara tinha me dado e que eu não fazia ideia de como usar. Além disso, se eu pudesse, não queria ferir ninguém. Eu entendia que ele era um soldado da Team Plasma, mas ele ainda era uma pessoa.

— Ei, você não ouviu o que eu disse – ele baixou a arma como se eu não representasse qualquer perigo e avançou em minha direção. Eu tinha que fazer uma escolha, e me render ali, era abrir mão dos meus ideais.

Peguei a arma de qualquer jeito e atirei, sem sequer mirar ou visualizar o que estava fazendo. O tranco da arma, me fez cair sentado no chão e meus braços balançaram vertiginosamente sob o peso. Os tiros saíram aleatórios. Um estourou a porta de vidro da estação de rádio e vários outros acertaram as paredes.

Um tiro acertou o joelho do soldado que caiu no chão, derrubando a própria arma no processo. Depois de meia dúzia de disparos aleatórios, joguei a arma de lado, angustiado com o resultado e sentindo meu coração retumbar no peito.

O joelho do sujeito parecia uma massa disforme que jorrava sangue. Ele tentou ficar em pé, mas não tinha forças suficientes para se sustentar e caiu novamente. Ele resmungava palavras aleatórias, que somavam vingança e outras coisas que eu não conseguia identificar. Ele estendeu as mãos na direção da arma caída, muito mais rápido do que eu alcancei a minha.

Ele apontava a arma em minha direção, as mãos vacilantes, o sangue escoando do ferimento. Ele rangia os dentes e me encarava com ódio. Eu estava a poucos centímetros da minha arma, mas mesmo que eu tivesse tempo de pegá-la, mas não teria tempo de me virar e sequer sabia se teria coragem de atirar em alguém a queima roupa.

De repente, os olhos se arregalaram, sangue começou a escorrer pelo rosto e a arma caiu das mãos do soldado antes dele cair como um boneco no chão com um martelo ficando no topo da cabeça.

— Você está bem? – Cheren me encarava um tanto autoritário e repressor.

— Você... – eu olhei o corpo caído e novamente para o líder. Ele tinha cravado a orelha do martelo na cabeça de uma pessoa como se não fosse nada.

— Deedee? – Ele me chamou, me puxando de volta a realidade. Me levantei, sem pegar a arma. – Você está bem? – Concordei com um aceno.

— E vocês?

— Kara deu uma de maluca e atirou a esmo, acertou a metade dos soldados, por pura sorte.

— Eles estão mortos? – E não era algo que eu deveria me preocupar naquelas circunstancias, mas de alguma forma, não conseguia desviar o pensamento disso.

— Alguns – Cheren deu de ombros como se isso não importasse.

Sai para o corredor, acompanhando o líder. Havia sangue e tiros pelas paredes e capsulas de balas pelos chãos. As salas estavam com as portas destruídas e havia corpos de uniformes pretos caídos por todo canto. Kara estava com um arranhado no rosto e a camisa do Tom tinha um respingado de sangue.

— O que vamos fazer agora? – Kara perguntou.

— O lendário tem que estar aqui – Cheren comentou mais consigo mesmo.

— Mas não há nada na estação de rádio – Kara revirou os olhos.

— Talvez um sistema portátil? – Tom comentou. – Bom, às vezes, os Rangers implantam transmissores portáteis em antenas da região para usarmos o rádio – e percebeu o olhar de estranhamento sobre ele. – Nem sempre os Xtransceiver têm sinal no meio do mato, então usamos o sistema de comunicação por rádio. Ele não funciona como um rádio, só um repetidor. Geralmente, a mensagem vai para central e volta.

— Faz um certo sentido – Cheren coçou o queixo – mas o repetidor não deveria estar aqui?

— Geralmente ele vai atrelado a antena – Tom explicou.

— Bem, de qualquer forma teríamos que derrubar a antena – Kara deu um muxoxo.

— Se Cobalion não está aqui, isso não vai ser tão efetivo, mas é melhor do que nada – Cheren colocou uma ponta do cabelo atrás da orelha.

— E como é que vamos derrubar uma estrutura de metal? – Kara não podia deixar passar.

— Nem que a gente tenha que arrancar cada viga na mão – Cheren parecia determinado quando saiu pela porta, retornando o caminho da escada de incêndio.

Aparentemente não havia nenhum soldado nos espreitando nas escadas. Subimos os andares que faltavam com o dobro de atenção. Cheren não trazia nenhuma arma consigo, Tom trazia uma arma menor, assim como Kara e eu fechava o grupo, com as mãos vazias. Eu tinha largado a arma na emissora de rádio e não tinha pegado nenhuma outra.

Chegamos a porta que levava para terraço do prédio. Tentamos ouvir algo, mas não havia nenhum som vindo do outro lado. Cheren virou a maçaneta, que não mostrou nenhuma resistência e a porta se abriu.

O dia estava claro e bonito do lado de fora e uma grande antena treliçada se estendia diante de nós com pequenos receptores e antenas parabólicas instaladas em toda a extensão. Como saberíamos qual era o receptor da Team Plasma em meio a tantos módulos de Xtransceiver, serviços de TV e outros serviços?

— Vocês demoraram – uma voz dançou no ar nos fazendo parar.

Roxie estava ali. Cabelo solto, uniforme de general de Team Plasma. Ela era ladeada por dois Plasmas, um rapaz que deveria ter a minha idade e um rosto que eu conhecia bem, Thiers.

— Roxie – a voz de Cheren saiu baixa e profunda, com um tom raivoso que eu não saberia identificar.

— Não fique tão chateado, Cheren. Isso não é pessoal – ela não sorria. Os olhos dela se desviaram para mim por um momento e percebi palavras se formarem em seus lábios, mas ela não chegou a proferi-las.

— Onde está o lendário? – Cheren questionou.

— Não comigo – ela deu de ombros e desviou o olhar para o horizonte. E longe, quase onde a vista parecia não alcançar mais, dava para visualizar o ginásio da cidade e a barcaça voadora da Team Plasma, que parecia ancorada no lugar. Se a barcaça estava ali, significava que os lendários estavam mesmo na cidade, mesmo que não onde esperávamos.

— E você acha que eu vou acreditar que não está com você?

— Por que eu mentiria?

— E por que diria onde está?

— Porque você nunca vai conseguir encontrá-los.

— E como tem tanta certeza disso?

— Porque eu vou matar você aqui. Todos vocês – enfiou a mão nas vestes e liberou uma Pokeball. O Toxicroack caolho surgiu no facho vermelho e assumiu posição de combate.

— Tom – Cheren gritou antes de lançar uma Pokeball no meio do terraço. Ele estava ficando louco? Nós não tínhamos os dispositivos de contenção.

Da Pokéball saiu um Ursaring, enorme e furioso. Tom usou aquilo como escudo e avançou na direção da antena. Thiers lançou uma Pokeball, o Scrafty que tinha me derrubado na geleira, mas ele mal se materializou e caiu como um saco de batatas no chão.

— Eu não gosto de ficar devendo – Kara deu um sorrisinho. A arma na mão ainda chiava enquanto o caminho de Tom para a antena estava livre.

— Sua vadia – Thiers trincou os dentes, furioso. – Você, segure aquele moleque – mandou para o outro Plasma ir atrás do Tom. Thiers puxou uma nova Pokéball e o enorme Salamance surgiu diante dela. O maldito Salamance.

Kara não parece nenhum pouco intimidada, mas eu vi a mão deslizar na direção do bolso, instintivamente procurando as Pokéball. Salamance atacou e ela pulou para o lado, habilmente. Então disparou, mirando o dispositivo no pescoço. Eu não tinha certeza se ter um Salamace descontrolado seria melhor do que nossa situação atual. O Ursaring e o Toxicroak se digladiavam desorganizados. Sem os comandos de Cheren, o Pokémon atacava a esmo, de modo que o Pokémon venenoso de Roxie não conseguia prever seus movimentos.

O jovem Plasma mirava em Tom, que atravessava o terraço em velocidade, em direção a antena. Eu não entendia como sozinho ele pretendia derrubar a estrutura, aquilo deveria ter pelo uns 40 metros e parecia ser bem resistente. Só então percebi que ele não o plano dele não era derrubar a estrutura, mas desativar o receptor.

Mas havia tantas caixas, com luzes coloridas piscando e antenas parabólicas diminutas apontando para todo o lado. Como ele saberia qual daqueles receptores era o correto? Mas do jeito que ele corria e encarava a torre, ele parecia saber. E considerando que Tom era um ranger experiente, talvez ele realmente reconhecesse o tipo apenas de bater o olho.

Tom estava quase na antena quando o Plasma atirou. A bala ricochetou na estrutura de metal e Tom manobrou para o outro lado, usando a antena como escudo. O Plasma avançava na direção de Tom, e eu não podia ficar só assistindo.

Passei por trás do Cheren e corri, tentando me manter o mais longe das batalhas aleatórias que se desenrolavam. Quando o Plasma engatilhou a arma para um novo disparo, pulei sobre ele, derrubando-o no chão. A arma voou longe e eu consegui usar o peso do meu corpo para imobilizá-lo. Tom espiou por cima do ombro e fez um sinal positivo para mim.

O garoto enfiou a arma nas roupas e começou a subir a antena, se agarrando nas barras e metal, quando o Plasma embaixo de mim deu um assovio alto e ardido. Eu não entendia o que ele estava fazendo, mas Thiers e Roxie ignoraram totalmente o som. Só que o som não era para nenhum deles.

De repente, um dos Aerodactyl ressurgiu, voando em torno da antena. Tom mal teve tempo de reagir, o Aerodactyl voou baixo e fincou as longas garras no Ranger. As unhas rasgaram as roupas e parte da pele e com um puxão, ele separou Tom da antena e o levantou do chão.

— Tom – gritei instintivamente. As garras estavam bastante firmes no rapaz, e eu podia ver sangue escorrendo pela roupa. Tom se debatia sem sucesso.

Kara desviou a atenção para o que se desenrolava com o irmão e o Salamance aproveitou a brecha para atingi-la com um Iron Tail. Ela voou como uma boneca e caiu do outro lado do terraço, desacordada. O Plasma aproveitou minha distração e nos girou, me derrubando no chão, mas eu não estava preocupado comigo.

O Aerodactyl alçava voo, se afastando do prédio, levando Tom consigo e eu não sabia como resgatá-lo. Tom tinha apenas o Tophin, que não seria de muita ajuda, mesmo que não houvesse a influência da antena. Talvez alguma habilidade de Ranger pudesse salva-lo, mas eu não fazia ideia.

A situação estava horrível, Cheren tinha apostado suas fichas em um Pokémon que não poderia controlar e agora o Salamance se unia ao Toxicroak para massacrar o Ursaring. Kara estava caída no canto e eu provavelmente não duraria muito tempo. Se ao menos pudéssemos usar nossos Pokémon.

Era isso, eu não tinha tempo para me lamentar, eu precisava dar uma chance para nós, para Haila, Skyla e todos os outros que estavam contando com a gente. E mesmo que não fosse do meu feitio tomar a iniciativa das coisas, não havia mais ninguém que pudesse fazê-lo naquele momento.

Comecei me debater aleatoriamente, sem saber onde estava mirando, acertei um soco no rosto do soldado e senti o nariz dele ceder com meu punho. Ele tombou para o lado, tapando o rosto. Eu consegui me levantar e correr na direção da antena. Olhava para os lados, mas não havia nenhum outro Aerodactyl.

Cheguei a antena e comecei a subir a treliça. Não havia uma escada e eu precisava trepar nas barras de metal e talvez pelo meu cansaço, medo e pelo braço ruim, cada passo parecia uma dificuldade absurda. Dali de cima eu podia ver boa parte de Castelia, havia focos de incêndio por todo lado, além vários prédios destruídos integral ou parcialmente.

Senti algo envolvendo meu pé, espiei, só para ver Thiers segurar meu tornozelo e tentar me puxar.

— Não dessa vez, moleque – ele arreganhou os dentes e me puxou. Fiz um esforço descomunal para manter minhas mãos presas as treliças. – Peste pode ter poupado sua vida daquela vez, mas eu não vou ser tão bonzinho.

Tentei balançar a perna, mas ele era muito mais forte do que eu e não soltava de jeito nenhum. Minha perna tinha virado um cabo de guerra, onde ele puxava de um lado e eu do outro.

De repente, as coisas no terraço viraram uma algazarra. Kara estava em pé, havia sangue escorrendo da boca e ela tinha vários cortes, com um tiro desajeitado, ela atingira o dispositivo do Salamance. Sem a proteção, o controle da antena tomou posse dele e com um urro ensurdecedor, ele girou o corpo e se jogou contra o Ursaring, levando Toxicroak no processo.

O soldado que eu tinha atingido se levantou, se virando para a garota, mas antes de qualquer ação, Kara virou-se para a ele e atirou. O jovem Plasma caiu logo após o estampido seco e eu não conseguiria dizer se fora um disparo letal. Mas não faria diferença. Salamance alcançou o corpo do soldado caído e o atirou contra Ursaring, como se fosse uma bola de tênis. O impacto jogou o corpo do Pokémon, junto com o Toxicroak contra a base da antena. O ferro se retorceu e uma das pernas da antena cedeu. A armação começou a balançar oscilante e eu senti meu estômago revirar. Thiers soltou da minha perna, tentando se segurar na estrutura e aquela era minha chance para subir mais alguns metros. Eu não sabia qual receptor era o certo, e teria que desativar todos. Ignorando a vertigem que o balanço produzia cheguei ao primeiro receptor e puxei os fios, fazendo as luzes que piscavam se apagarem. Aparentemente, Salamance ainda estava descontrolado. Primeiro receptor desligado, receptor errado. Comecei a mover para chegar ao próximo quando a antena deu um balanço muito mais forte que os outros.

Eu mal tive tempo para ver que Kara mal conseguia parar em pé, que o grupo de Aerodactyl tinha reaparecido e girava em torno do topo do prédio ou que Roxie e Cheren tinham abandonado as formalidades e saiam no soco; o Salamance deu um novo urro e chicoteou a cauda. O golpe acertou outra perna da estrutura, que fragilizada, cedeu como se fosse feita de açúcar.

Sem duas pernas, a estrutura não resistiu ao próprio peso e começou a inclinar. Era como estar em uma montanha-russa, mas sem saber o caminho que o carrinho vai percorrer. A antena oscilou e começou a tombar em direção à rua. Meus braços se enlaçaram nas barras de ferro, e senti a mordida da Peach voltar a sangrar. Eu não tinha o que fazer a não ser rezar e considerando todas as variáveis, eu nem teria tempo para isso.

A antena começou a tombar. O aço se retorcendo produzia um som assustador e senti meu estômago colar nas costas quando a queda começou, despencando em direção à rua. Eu esperava o pior, quando de repente, meu corpo se balançou perigosamente na estrutura e eu me senti zonzo. A antena era longa demais e da maneira como caiu, parte da estrutura se prendeu ao prédio do lado, fazendo uma espécie de ponte. O impacto no concreto da construção foi ensurdecedor e parte das janelas do prédio vizinho se quebraram no processo.

Eu estava com os braços enroscados na treliça, as pernas balançando em um vão de mais de trinta metros. A estrutura tinha deformado de tal forma que parecia um palito de dente mastigado e pedaços de concreto, metal e alguns receptores caíram na rua, em cima dos carros abandonados.

Mesmo com a maior parte dos receptores destruídos, e a antena arruinada, o sinal ainda afetava os Pókemon. Próximo a mim, havia um receptor. Ele tinha se desprendido da torre e balançava debilmente preso aos fios de transmissão. As malditas luzes acesas, avisando que ele ainda estava em funcionamento, merda.

Thiers estava pendurado na mesma situação que eu, mas não demorou muito a começar a se mover, usando só os braços para atravessar de uma treliça a outra. Naquele ritmo, ele chegaria logo até mim e eu não conseguiria fazer nada para me proteger.

O grupo de Aerodactyl revoavam em torno dos prédios, ruidosos e excitados. Vez ou outra um deles dava um rasante, tentando atingir o Salamance, mas o dragão parecia não se importar minimamente. Eu já não conseguia divisar os Pokémon de Cheren e Roxie, mas o Salamance continuava golpeando algo onde antes estivera a base da antena.

Thiers estava mais perto, e eu precisava pensar em algo. A viga onde eu me segurava rangia e eu percebi que ela não aguentaria muito até ceder ao meu peso e se separar da estrutura. Eu podia me mover para a viga do lado, mas o receptor balançava debilmente ao meu lado, com a inercia do fio de transmissão.

Estiquei o braço tentando alcançá-lo, mas meus dedos apenas roçaram na caixa plástica antes da inercia balançar o receptor para o outro lado. O sangue escorria do ferimento, empapando o tecido do torniquete improvisado e gotejava lentamente, a trinta metros de altura. Thiers já estava em mim quando o balanço do fio trouxe o receptor em minha direção novamente. A mão dele envolveu a mesma viga que eu me agarrava, eu sabia que o próximo passo dele era me derrubar dali, mas a viga rangeu e cedeu.

Minha mão envolveu o receptor e senti Thiers tentar se segurar em mim, mas a viga o atingiu, e ele despencou junto com o pedaço de metal. Eu mal tive tempo de processar o que realmente havia acontecido. Eu estava agarrado ao receptor, com meu braço ruim e balançava no vão entre os prédios. O fio começou a arrebentar sob o meu peso, encarei as luzes do receptor, que oscilaram e se apagaram. Tinha que ser aquele, tinha pelo menos meia dúzia de receptores ainda presos a antena, mas eu não teria forças para desativar mais nenhum.

Pude ver o Salamance e o Ursaring parerem de repente, como se tentassem se orientar no espaço. O Ursaring tinha se tornado uma massa disforme e a pelagem caramelo tinha se tingido completamente de vermelho. Havia uma montanha de escombros e o Toxicroak estava sobre ela, ele conseguia estar mais disforme que o Ursaring e pela quantidade de ferimentos, ele não parecia ter resistido aos ataques do Salamance. Aparentemente o sinal tinha sido cortado, mas eu não podia respirar aliviado ainda. Usei o restante das minhas forças para me içar pelo fio e alcançar a base das treliças. Mas eu estava no meio da estrutura e precisaria voltar até o prédio. E eu não sabia se teria forças suficientes para isso.

Cheren e Roxie ainda se batiam. Eles estavam no chão, Roxie estava sentada sobre o peito do líder, as mãos envolvendo o pescoço. Cheren se debatia, mas não conseguia tirar Roxie de si. Ela espiou por cima do ombro, encarando a situação, então pulou de cima do rapaz. Eles estavam se falando, mas eu não conseguia entender, pela distância.

Cheren se sentou, tentando puxa-la, mas ela deu um passo para trás, ficando longe do seu alcance. Roxie fez uma reverência antes de correr pelo terraço e saltar pela borda, em queda livre. No meio da viagem, ela lançou uma Pokéball no ar e seu Crobat surgiu, a segurando pela capa e impedindo que ela espatifasse no chão. Na verdade, fora um pouso bem gracioso, cheio de pompas desnecessárias para aquele momento.

O concreto do prédio vizinho se soltou da fachada e a antena se deslocou um pouco. Não iria demorar até efetivamente a estrutura se espatifar no chão a baixo.

— A gente vai te tirar daí – Kara gritou sem muita força. Eu só esperava que fosse logo.

Notas finais
Semana que vem tem mais ^^ Beijokinhas e até!