Rota Zero
85 O Peso do Mundo - Parte 2
Notas iniciais
Haila
O PESO DO MUNDO — Parte 2
Só tive o impulso de gritar, meus membros se moveram sozinhos. As cobertas atrapalharam um pouco o movimento, mas o grito ainda sim saiu da minha garganta.
Abri o olho depressa, buscando Corin e Virizion, tentando entender o que havia me acertado, mas eles não só haviam desaparecido, como também toda a floresta. Deixando a minha frente o teto do meu quarto.
Meu coração estava acelerado e minha respiração ofegante. Me sentei depressa na cama, tentando me orientar e encontrei a estante cheia de livros na parede em frente a minha cama. – O que esta acontecendo? Eu estou... Louca.
Me joguei pra fora da cama e olhei pra mim, buscando qualquer coisa errada. Aquele era meu quarto. Não era possível. Minha cama, meu abajur com desenho de Gulpin, meu guarda-roupas com uma das portas sempre aberta, o tapete amarelo surrado com a mesma mancha de suco de berrie.
Respirei profundamente tentando trazer de volta a sanidade. Não podia estar certo. Eu deveria ter morrido, e se eu morri supostamente não era pra eu estar consciente falando comigo mesma em meu quarto.
— Certo, – abri os braços tentando encontrar equilíbrio. As coisas estavam começando a rodar. – Devo estar sonhando.
— O que você perdeu agora, Haila? – Dei um salto para frente ao ouvir aquela voz. Me virei sabendo o que iria encontrar. Minha mãe estava na porta segurando um cesto de roupas sujas. Seu cabelo estava preso em um coque, como sempre ficava, e sua expressão era a mesma de sempre. Tranquila e ao mesmo tempo entediada.
Meu coração deu um salto e algo como uma leve corrente elétrica correu pelo meu corpo. Foi inevitável, meus olhos se encheram de lagrimas. Senti o impulso de correr até ela e abraça-la, sentir o seu cheiro, sentir o aconchego do seu abraço, mas me contive. Minhas pernas simplesmente não se moveram.
— Querida, o que houve? – Deu um passo pra frente, em minha direção.
— Como isso é possível? – Perguntei juntando todas as forças que eu tinha para não chorar, mas minha voz ainda sim saiu tremida.
— Querida, – entrou no meu quarto, estendendo a mão direita na minha direção. Ela iria tocar meu rosto, como sempre fazia para tentar me acalmar... Entrei em pânico. Dei um passo rápido e largo para trás e esbarrei na minha cama.
— Nada... O meu... Minha presilha de cabelo desapareceu de novo, – respondi depressa. Eu sempre a perdia, sempre vivia de cabelo solto antes de fugir de casa, porque nunca conseguia encontra-la.
Ela parou e meu coração diminuiu o ritmo. Sua expressão foi tomada de tristeza enquanto ela me olhava e eu não puder mais encara-la. – Eu sei como você fica. Você estava igual quando Jaden foi embora da ultima vez, – fez uma pausa, abaixando um pouco o cesto. – Ele foi embora ontem e parece que isso aconteceu há um mês, mas ele está fazendo o que o deixa feliz e talvez devamos ficar felizes por ele também.
Varias coisas passaram na minha cabeça ao mesmo tempo, mas a irrealidade dos fatos parecia desfazer-se cada vez mais, a cada segundo. Não podia ser o dia seguinte a minha partida e a de Jaden, não era certo. Não fazia sentido.
Passei a mão em meu rosto e suspirei. Tive vontade de rir, rir da ironia dos fatos. Respirei profundamente e balancei a cabeça numa negativa. Eu estava na floresta agora mesmo, Corin me olhando, Ling tinha acabado de evoluir. Lutando contra a Team plasma de novo. Eu não podia estar louca.
— Haila? – Greta me chamou, aquela não podia ser minha mãe. – Querida, eu preciso levar isso até a lavanderia. Desça e coma alguma coisa. Você vai se sentir melhor. – Sorriu de forma calma e caminhou pra fora do meu quarto, seguindo em direção ao corredor que supostamente levaria ao primeiro andar.
Me sentei na cama e olhei para as minhas mãos. Eram as mesmas de sempre. Então reparei na minha perna direita, as cicatrizes do ataque de Crygonal tinham sumido. Corri com a mão para minha testa e não havia a pequena protuberância da cicatriz.
Me levantei e corri até o espelho grudado a umas das portas do meu guarda-roupa, puxei a gola revelando minha clavícula e não estavam lá. Minhas cicatrizes tinham desaparecido. Puxei a manga da minha blusa e a perfuração causada pela bala nunca parecia ter existido.
Cada uma das cicatrizes que eu contara milhares de vezes desde fui sequestrada, tentando manter a sanidade. Nenhuma delas existia. Nenhum dos meus machucados ainda abertos estava ali.
Eu não tinha morrido. Só havia uma explicação para isso, e ela não fazia o menor sentido. Eu tinha voltado no tempo. Mas como? Se aquela era a manhã posterior à partida de Jaden eu deveria estar acordando na floresta perto de Tom e seu Ratata.
Passei a mão pelos meus cabelos longos e os estranhei. Meu rosto parecia um mais redondo também. Tentei me acalmar e pensar em qualquer coisa, mas não parecia haver justificativa. Vesti minha roupa assim que consegui me acalmar, a mesma blusa listrada e o mesmo short que eu usara na noite em que fugi de casa.
Desci as escadas depressa, passando pelo quadro que escondia o cofre e fui até a cozinha, passando por trás do sofá. Corin estava lá, assim como eu me lembrava, o Corin mais novo, o Corin que não falava com Pokémon. Comendo cereal com uma colher que parecia grande demais pra ele.
Novamente meus olhos marejaram. Ele virou seu rosto pra mim e me lançou um olhar curioso por um segundo antes de voltar novamente sua atenção para a comida, – bom dia, irmãzona.
Tive que dar a volta na mesa para poder me sentar em frente a ele e ver seu rosto. Estava exatamente como eu me lembrava. Bochechas redondas, topete e olhos verdes. E ele estava seguro.
Senti vontade de correr a abraça-lo, mas me contive. Aquele não podia ser Corin, não o Corin de verdade.
— Corin, – o chamei tentando esconder a afobação na minha voz, – o que você se lembra de ontem? Quero dizer, o que aconteceu depois da partida de Jaden?
— Nada, – ele respondeu de boca cheia, sem tirar os olhos dos flocos achocolatadas em formato de Pokémon. – Por quê?
— Você se lembra do momento em que ele pediu pra você ir buscar as Pokéball que ele havia deixado aqui dentro? Quando estávamos lá fora, só nós três? – Perguntei rápido, mas não demais.
Ele mastigou um pouco e me olhou entretido, – acho que sim. Ele tinha deixado aqui e vocês ficaram conversando. Por quê?
— Por nada, – então ele provavelmente tinha me oferecido as Pokéball. – Você se lembra do jantar de ontem à noite, certo? Lembra-se da conversa que eu tive com nosso pai.
— Você não falou muito, – respondeu agora parecendo interessado no assunto, – por que você esta me perguntando esse monte de coisa que você já sabe?
Cerrei os lábios, deixando apenas uma linha fina no meu rosto. As coisas naquele dia tinham saído parecidas como no dia em que eu fugi, mas algo tinha mudado entre minha conversa com Jaden e minha discussão com meu pai naquela noite. Aquela não era minha vida. Ao passo que aquilo não podia estar certo.
Agarrei um pedaço de bolo e voltei para o meu quarto. Eu tinha que me certificar de que aquilo era real. Peguei o estojo de maquiagem que ganhei, mas nunca usei, tirei a pinça ali guardada e me belisquei.
Uma pontada de dor correu pela minha pele onde eu tinha puxado um fio aleatório do meu próprio pelo. Sentada na cama minha perna subia e descia depressa, repetidas vezes. Se aquilo era real e aquela era a manhã seguinte a minha fuga então nada do que eu tinha vivido na jornada tinha acontecido.
Eu tinha voltado no tempo e de alguma forma parecia que eu não tinha fugido de casa. Eu tinha escolhido ficar. Que tipo de poder era aquele? Virizion podia fazer aquilo? Deixei meu corpo cair sobre a cama e contei a até dez e depois a até cem. Respirei profundamente e depois rolei na cama.
— E se for real? – Me perguntei em voz alta. Se fosse real eu tinha ganhado uma segunda chance antes que minha vida fosse revirada, antes eu fosse machucada, cortada, enganada e decepcionada.
Eu não tinha mais a obrigação de me envolver nessa merda toda, de carregar o peso das mortes que vi, que causei, que me cercaram. De ver Lenora sendo torturada e morta. De assistir enquanto Draiden se afogava no próprio sangue, ou Simi era esmagado. Tudo estava bem. Todos ainda estavam vivos.
Um sentimento de leveza me tomou e por alguns momentos eu senti uma tranquilidade que não me lembrava de sentir a muito tempo. Fechei os olhos e me deixei envolver por ele, como se tivesse acabado de cair em um lago e a agua me cercasse.
Mas assim como num lago eu precisei de ar e a realidade me trouxe de volta. Eu não tinha saído em jornada, mas e Deedee? Será que ele se meteria em todas aquelas coisas mesmo sem mim?
E então a ficha realmente caiu. Ele não se lembraria de mim, porque nunca nos conhecemos, ou nos conheceremos. Nada do que vivemos ou compartilhamos jamais existiu, porque ele não faz a mínima ideia de quem eu sou, pelo menos ainda não.
Perceber aquilo fez um rebuliço dentro de mim, senti raiva do destino, tristeza e ao mesmo tempo medo. Medo porque ele estaria sozinho em Castelia. Porque eu não sair de casa não mudaria o fato de ele sair e Dee estaria em perigo se, mesmo sem mim, decidisse ir ao Contest em Nimbasa. Ou quem sabe o que poderia acontecer se ele estivesse no restaurante de Joslyn.
Eu poderia impedir tudo de acontecer, poderia alertar todos os lideres dos acontecimentos antes de aconteceram. A localização do lendário, a identidade de vários membros. Eu tinha muita coisa na cabeça.
Mas quem acreditaria em uma garota louca? Lenora, Cilan, Skyla, Marlon e até mesmo Cheren. As pessoas que eu conheci e que acreditariam em mim, na verdade não faziam mais a mínima ideia quem eu era ainda.
Porém eu não precisava me envolver nisso de novo, não precisava me cortar, me machucar, levar tiros, ser mordida e quase morta por mais vezes do que a maioria das pessoas que eu tive o prazer ou não de conhecer. Não era obrigação minha impedir que aquilo tudo voltasse a acontecer, talvez essa fosse à ordem natural das coisas.
Minha cabeça estava girando e pensamentos passavam tão rápido que eu me surpreendi com a velocidade do meu raciocínio pesando fatores, me perguntando como deveria ou não lidar com isso se, é claro, se isso tudo fosse real.
Meu estomago embrulhou e senti vontade de vomitar. Por que isso estava acontecendo comigo? Por que voltar logo ali? Por que eu não tinha voltado quando estava tendo a conversa com Jaden?
Quem era a garota que escolhera ficar? Com certeza não poderia ser eu. Eu não escolhi.
Fui até o banheiro rapidamente, joguei uma boa quantidade de agua no meu rosto e me encarei. Aquela não era eu, não mais. Meu cabelo grande, meu rosto mais cheio e liso. Até mesmo aquela roupa não me cabia mais do mesmo jeito. Eu tinha perdido tanto peso nos últimos meses.
Voltei para o quarto e libertei Leaf. Ela me encarou curiosa e olhou em volta com estranheza e uma ponta de esperança me brotou, – você se lembra do que aconteceu? De tudo? – Ela me olhou curiosa e ficou em silêncio, como se estivesse se perguntando do que eu estava falando.
Me ajoelhei no chão ao lado dela e procurei as cicatrizes que Serpio tinha deixado na sua barriga, mas não havia nada ali. A da pata traseira deixada por Vespiqueen, nada. – Por favor Leaf, você se lembra de tudo o que vivemos? De Deedee, de Couve-flor, Serpio, Simi, Ling... – mas ela continuou me olhando confusa.
Me sentei no chão, largando meu corpo despreocupadamente e suspirei. Nada tinha acontecido. Não ainda. Então uma ideia começou a brotar no fundo da minha mente. Uma pequena coisa que podia mudar tudo. Ou no mínimo me enlouquecer.
— Será que tudo o que eu vivi foi real? – Sonhos podiam ser tão reais. Ou mesmo pesadelos. Sinceramente metade do que eu vivi não parecia possível.
Podia ter sido um longo sonho, uma longa alucinação, do tipo que as pessoas tem quando tomam algum tipo de medicamente, ou quem sabe tem algum tipo de distúrbio mental. Talvez nada do que eu vivi tenha realmente acontecido. Deedee, Tom, Kara, Deidran, Clarice, Louis, Joslyn, Cassie, Alanna, Dan e tantos outros.
Os lideres de ginásio com certeza existiam, eu conhecia todos da TV ou revista. Conhecia seus rostos, algumas coisas sobre suas vidas e tudo mais. Minha mente poderia ser de uma escritora, fértil e febril.
Mas se Dee não era real, sem duvida Adzia era. Eu já havia visto reprise de seus Contest na TV, isso não era alucinação. E se todo o resto fosse, Dee também não seria real.
Corri até meu computador e pesquisei pela editora que achava me lembrar de Adzia ter comentado uma vez por Xtransceiver e depois de praticamente implorar consegui seu contato, fingindo ser uma fã. Devo ter gastado quase duas horas nisso.
Assim que consegui o contato da casa dela me sentei por um instante no sofá. E se tudo estivesse correto? E se eu estivesse errada? Eu estava começando a duvidar do que seria a verdade.
Mas agora a questão era; o que eu preferia? Que tudo fosse real ou que fosse apenas uma alucinação?
E quando eu soubesse a verdade, como eu lidaria com ela? Se fosse tudo loucura, psicopatia minha, eu precisaria me forçar a acreditar que tudo o que vivi com Dee, todos os que conheci e tudo o que conquistei fora de casa nunca existiu.
E aceitar isso seria aceitar que meu destino ainda era virar uma criadora. Que eu ainda estava sob as garras de meu pai e que eu sempre estaria à sombra do meu irmão. E se fosse assim, eu conseguiria continuar vivendo assim? Era isso que eu queria?
Se fosse real, se eu tivesse de alguma forma voltado no tempo, eu iria atrás de Dee? Eu poderia impedir que ele passasse por tudo isso de novo, podia fazer com que ele fosse expulso do Centro Pokémon e em questão de poucos dias seu dinheiro acabaria de vez e com sorte ele nunca conseguiria se inscrever no primeiro Contest e voltaria pra casa.
Mas eu estava preparada pra abrir mão dele? Estava preparada para deixar que Lenora fosse sequestrada de novo, que Skyla fosse morta pela Team Plasma no ataque de Nimbasa, que a mulher do Emolga morresse, que a Team Plasma tivesse êxito na captura em Seaside Cave? Lenora, Clay, Marshal, Iris, Daidren. Até mesmo Des e Dan.
Eu não conseguiria conviver comigo mesma se permitisse que todas essas coisas voltasse a acontecer. Fechei os olhos e admiti a mim mesma que só havia um jeito de descobrir onde isso ai dar, ligando pra Adzia.
Digitei os números com calma. Meu pai estava fora de casa como fazia todos os sábados e provavelmente só voltaria na hora do almoço e com sorte eu poderia evita-lo por mais algum tempo.
O aparelho chamou durante algum tempo até que o rosto sempre sorridente de Adzia surgiu na tela. Ela usava um avental trabalho com bordados e um vestido lindo, mas que aparentava ser algo totalmente casual.
— Olá, meu nome é Haila, – cumprimentei meio sem graça. Eu não conseguia decidir do que mais tinha medo, – peguei seu numero com o pessoal da editora...
Os olhos dela se iluminaram, – oh, já pedi a eles que mantenham meu telefone em sigilo, mas como posso resistir a uma fã. Quanto mais uma tão jovem e bonita.
— Bem, estou ligando na verdade... – tive medo de dizer, as palavras não saíram, – Senhora Charleston, a senhora tem por acaso um filho?
Ela pareceu se surpreender com a perguntei e franziu o cenho, – se você pode chamar aquele imprestável de filho. Saiu em jornada há apenas um dia e já arrumou confusão com alguém? O que aquele ogro te fez?
Demorei apenas um segundo para processar toda a informação e não consegui segurar o enorme sorriso que brotou no meu rosto. – December Chrismas Hanks. Ele existe – disse em meio a algo quase como uma gargalhada.
Ela ficou na duvida e ergueu uma das sobrancelhas, – sem duvida é meu filho, o que houve minha querida?
— Desculpe senhora Charleston, é que eu achei que pudesse tê-lo conhecido uma vez, – comentei explodindo de felicidade por dentro, – ele será um ótimo coordenador um dia, mesmo que não admita isso a si mesmo. Mas talvez esse não seja o caminho que ele deve seguir.
Ela analisou meu rosto meio sem saber o que dizer, aquelas palavras a tinham desarmado. Em todo o caso ela respondeu um educado, – obrigado.
— Sou eu quem deve agradecer, – meu coração batia forte, mas tranquilo, eu estava tomada de euforia. Não estava louca. – Boa sorte com o lançamento do novo livro.
E desliguei.
O incendiário realmente existia e todo o resto também existiu ou existiria. Se tudo estava certo agora eu deveria estar caindo do penhasco e desmaiando. Pelas próximas horas eu passaria desacordada no Centro Pokémon depois da enfermeira ter me atendido.
As coisas deveriam acontecer exatamente como da ultima vez se eu saísse de casa agora. Olhei para as coisas a minha volta e tive que voltar a me sentir. Sentia vontade de rir, de chorar, de sair correndo. Mas ao mesmo tempo tudo o que eu queria era ficar sentada. Tirar férias disso tudo e não me preocupar.
Eu tinha me perguntando uma vez porque as coisas eram assim, porque nossas escolhas tinham que pesar tanto e as consequências delas ainda mais.
Eu ainda não sabia o que preferia. Me dar uma nova chance de viver diferente, de ser uma garota normal ou se meu destino realmente era aquele, se fazer e viver aquelas coisas era quem eu sou.
Mas algo que eu tinha certeza, independente da minha escolha, era o peso que ela teria. E eu não estava disposto a pagar um deles. A minha escolha era obvia, porque não havia escolha, assim como eu nunca seria uma garota normal.
Minha consciência nunca me deixaria viver com esse “e se?”. Eu sabia exatamente o que me tornaria se ficasse em casa, se deixasse que outras pessoas “cuidassem disso”. Eu iria virar a sombra do meu pai e ou provavelmente da minha mãe. Velha e amargurada por ter deixado a vida passar sem realmente vive-la.
Eu não carregava o peso do nome da minha família, ou das escolhas dos meus pais. E agora, diferente da primeira vez, ninguém tinha me manipulado para sair de casa, nenhum jogo ou trama tinha me feito escolher.
Eu estava escolhendo por que isso era quem eu sou. Porque era o que eu queria ser. Porque Deedee era meu melhor amigo. Porque Lila me irritava, mas ainda sim eu a adora. Porque Desmond era um sabichão, mas eu sentiria sua falta. Porque Unova ia cair no caos e eu não ficaria sentada.
Escolhas. Eu estava comprometida com as minhas e estava disposta a arcar com o peso delas.
Corri até meu quarto e peguei minha bolsa, a mesma que usei da primeira vez e assim como nela joguei roupas aleatórias dentro da mochila. Itens de higiene, algumas bugigangas que eu sabia que nunca ia usar porque já vivi aquilo antes e corri, descendo as escadas de dois em dois degraus.
Alcancei o cofre e o abri, ignorando os sons de panela batendo que vinham da cozinha. A senha era a mesma, assim como a mesma quantidade de notas. Não hesitei desta vez, peguei mais dinheiro do que peguei da primeira vez, muito mais. Meu pai que se virasse para ganha-lo novamente.
E assim que fechei a porta, a trancando novamente, Corin surgiu atrás de mim, segurando a Pokéball de seu Eevee nas mãos. – O que você está fazendo?
Me inclinei para ficar na altura dos seus olhos e fui sincera, – vou te contar uma coisa inacreditável e muito provavelmente você vai achar que eu sou louca. Por algum motivo que eu não sei explicar eu tive a oportunidade de saber tudo o que vai acontecer comigo nos próximos meses e com toda a Unova. Coisas terríveis estão por vir e eu sou parte importante de tudo isso. Assim como você.
“Parece loucura, mas de alguma forma, talvez como magica, coisas que deveriam ser impossíveis às vezes acontecem e para poder mudar o rumo das coisas eu tenho que sair agora e muito provavelmente você não vai me ver por meses. Mas desta vez você vai ficar seguro”.
Ele se manteve em silêncio, parecia assustado, mas não como eu imaginava que ficaria.
— E assim como da primeira vez, eu prometo que eu vou voltar pra te buscar. Você vai viver comigo quando eu finalmente puder voltar e te pegar, – segurei nos ombros dele e dessa vez eu estava firme, não tinha vontade de chorar, – confie em mim e, por favor, enrole a nossa mãe o quanto puder. Eu só preciso que você confie em mim, porque tudo isso é real, – repeti com urgência. O tempo estava passando, meu pai chegaria a qualquer momento.
Ele não sorriu, mas de alguma forma tinha animação em seu olhar, – eu acredito em coisas impossíveis, Haila. E quando voltar eu tenho algumas coisas pra te contar. Coisas que eu posso fazer.
Sorri satisfeita e o puxei contra mim, dando um abraço forte nele. – Você acreditaria se eu dissesse que já sei o que será? Eu te amo homenzinho.
— Eu também te amo, – ele respondeu começando a titubear.
Olhei pra ele uma ultima vez e sai depressa pela porta principal. Mas ao atravessar pela porta, não havia a rua em que eu cresci. De algum modo eu estava na floresta, mas havia algo de errado com ela. Era como se ela estivesse banhada por uma neblina densa, onde eu não conseguia ver além de poucos metros ao meu redor.
As coisas estavam muito confusas na minha cabeça. Estar ali tinha sido como acordar de um sonho, onde eu pude notar o quanto tinha me perdido no que tinha acabado de viver. De alguma forma eu tinha começado a acreditar que aquilo era real e tinha me entregado a situação.
De qualquer forma, eu não tive tempo para tentar entender tudo o que estava vivendo. Por entre a neblina a forma de mais de dois metros foi tomando forma. Eu podia ouvir o barulho dos cascos e da respiração do Pokémon.
Virizion se aproximou com tranquilidade, como se fossemos velhos amigos. Olhei para cima, e nossos olhos se encontraram novamente. Minha pulsação estava acelerada, mas eu não estava assustada. Eu não sentia que ele me faria mal, pelo menos não ali.
— O que foi isso? – Eu quis saber.
Sua boca não se mexeu, mas como se sua voz ecoasse por toda a floresta, tão clara quanta a minha, – você foi testada.
— E eu passei? – Perguntei quase inocentemente. Não esperando que a resposta fosse negativa ou positiva.
— Me diga você. Você ainda acha que as escolhas mais importantes da sua vida foram arquitetadas por outras pessoas? Você ainda se sente manipulada? – Virizion perguntou, mas não parecia que ele esperava minha resposta. Ele já sabia qual seria.
Eu tive a chance de reviver o dia que mudou minha vida, e agora, mesmo sem a interferência de ninguém, eu fiz a mesma escolha. E eu faria o mesmo se fosse mandada de novo. Aquela era quem eu era.
— Por que eu tive que passar por isso? – Agora tudo parecia mais claro.
— Porque você ainda duvida de si mesma. Porque ainda se perguntava, lá no fundo, se você não tinha o controle sobre sua própria vida.
Balancei a cabeça positivamente, processando o que ele me dizia. Eu podia sentir a verdade em suas palavras, e eu por algum motivo eu tinha parado de me questionar a realidade daqueles fatos. Apenas aceitado a situação.
Eu podia sentir a respiração do lendário em meu rosto, quando perguntei – por que eu?
— Porque não tenho mais escolha.
Então foi como se todo o lugar mudasse, e eu passasse a ser Virizion. Eu pude ver Sword of Justice reunida na floresta. O cuidado que o grupo de lendários tinha com a floresta e seus Pokémon.
Pude ver acompanhar enquanto humanos desmatavam e destruíam habitats dos Pokémon e as tentativas falhas dos lendários em proteger os Pokémon que tanto amavam. Pude ver sua batalhas e o atrito entre eles crescendo com os humanos.
Pude entender seu ódio por nos, e sentir a dor da sua perda, sempre que presenciavam o impacto que os humanos causaram na vida e todos os que eles se importavam. Acompanhei as discussões entre eles, as tentativas de Virizion de tentar outra abordagem e a negação de Cobalion. De sentir o rancor que o Lendario guardava
Acompanhei enquanto Virizion procurava por empatas e pude ver a partir do seu ponto de vista. Ele acreditava que a melhor maneira de equilibrar as coisas era encontrar humanos que pudessem entender os Pokémon. Ele tinha certeza de que essas pessoas teriam a capacidade de mudar as coisas, o grupo de lendários não estava mais conseguindo.
Vi a partir de seus olhos ele observando a mim e a Jaden escondido na floresta e suas tentativas falhas de falar com ele. Vi ele acompanhar Corin desde as primeiras vezes que ele brincara as bordas da mata e sua esperança renovada quando ele começou a ajudar Pokémon desde muito cedo.
E então, de repente tudo mudara, e agora ele e seus companheiros estavam sendo caçados. Eu estava lá quando eles se separaram, e sentir a imensa dor quando Virizion soube da morte de Keldeo e da captura de Cobalion. Pude sentir o desespero quando a noticia de Terrakion chegou e a solidão do Pokémon.
Novamente estávamos de volta na floresta e o Pokémon ainda me fitava, – você não tem escolha porque Jaden não é uma escolha e porque Corin não esta pronto para as coisas que virão.
O Pokémon fez um leve movimento com a cabeça concordando, – você não tem outra escolha, porque não acredita em outra pessoa além de mim para batalha, mesmo que eu não seja como meus irmãos. E Você não pode mais ficar sentado esperando que a Team Plasma vença. Porque você precisa proteger seus companheiros e os Pokémon.
Mais uma vez o Pokémon confirmara, – então vamos batalhar juntos. Eu darei tudo de mim e juntos destruiremos a Team Plasma e resgataremos seus companheiros.
=8=
Eu estava de volta à floresta, a verdadeira floresta, e as ideias do que tinham acabado de acontecer ainda se organizavam na minha cabeça. A primeira coisa que eu vi foi o céu. Minha visão estava turva e eu me sentia um pouco enjoada. Os sons da batalha tinham desparecido e de algum modo um muro gigantesco feito por raízes nos cercava.
Ling estava atrás de mim, sentada no chão, parecendo bem relaxada. E a minha frente, Corin e Virizion faziam o mesmo. Porem, mesmo sentado o lendário tinha tamanho e porte assustadores. Corin parecia ainda menor ai ao lado dele. – Como foi? – Ele me perguntou parecendo curioso.
Estava próxima o suficiente do lendário para poder toca-lo caso esticasse a mão. Mas diferente do que eu imaginei, a proximidade não me intimidava, Virizion não parecia querer me atravessar com sua espada chifre de luz. Eu sabia o que ele queria.
— Acho que bem, – era muita coisa pra minha cabeça.
— Então eu tenho que te dar isso, – ele levou a mão do bolso e retirou uma Pokéball comum.
Eu peguei o objeto e fitei Virizion. Seus grandes olhos vermelhos foram de encontro aos meus, e mesmo que ele não falasse mais, eu sabia que estava tudo bem. Pus o objeto vermelho e branco na frente do Lendario e ele o tocou com o focinho.
A luz vermelha tomou conta de seu corpo e em um instante ele tinha desaparecido. A Pokéball balançou três vezes antes da luz se acender, anunciando que a captura estava completa. Um instante depois as raízes começaram a murchar, deixando que a luz e os sons da floresta chegassem a nós.
Ling se levou e nós também, – temos que voltar e ajudar os outros.
Montados em Ling, demoramos apenas alguns minutos para voltar ao circulo de pedra, mas tudo que encontramos foram soldados e Pokémon da Team Plasma desacordados e os corpos de Belamy e Faith. Corri o olho depressa entre os desacordados e não vi nenhum sinal de Fome.
— Temos que voltar para o barco, – Ling, por ali.
Ela avançou direto, seguindo a trilha criada pela batalha que aparentemente acontecera ali. Corin segurava firme na minha cintura enquanto eu me atinha a pelagem de Ling. Tentando ver por entre o arbusto de folhar alaranjadas em sua cabeça.
Estavamos na metade do caminho quando encontramos os últimos soldados da Team Plasma batalhando ferozmente entre Kara, Cilan, Skyla e Dee.
Conkeldurr já tinha tomado o lugar do Buffallant de Kara, mas os outros Pokémon se mantinham os mesmo. – Eu preciso ajuda-los. Faça Ling te levar de volta para o barco.
Apesar de achar ele se negaria, Corin apenas afirmou com a cabeça. Desci de Ling e os dois se engrenharam na floresta, desviando da batalha. O primeiro soldado me notou nesse momento e montou um escarcéu. Joguei a primeira Greatball que encontrei e desta vez Serpio veio a tona.
— Leaf Storm, – comandei e um momento depois as tempestade de folhas cortantes foi na direção dos soldados.
Fome tinha perdido sua postura, seu cabelo estava uma bagunça e suas roupas cortadas e sujas. Mas sua Nidoqueen ainda estava de pé, tentando arduamente derrubar o Pokémon de Kara.
Aproveitei o momento e corri na direção dos meus companheiros, tendo que passar por entre a batalha Pokémon que arrasava com a floresta. Luzes brilhavam por todos os lados enquanto os Team Plasma comiam a energia dos nossos Pokémon. Chamas, vento e folhas revidavam com tudo o que tínhamos.
— Achei que você nunca se juntaria a festa, – Dee brincou, com uma cara péssima. Aparentemente eles tinham aguentando muita coisa enquanto eu estava fora.
— Eu tive uma dança particular agora pouco.
— E o lendário? – Skyla perguntou.
— Eu resolvi, – a líder não questionou. Apenas piscou pra mim e continuou focada na batalha.
— Já podemos fugir? A pintora de rodapé já chegou – Kara quis saber.
Serpio foi arremessado na nossa frente por um Abomasnow e todos recuaram por um instante. Mas ele não estava interessado em nós. Sibilou furioso e se reorientou, saltando para cima do Pokémon com o Leaf Blade já armado.
— É arriscado demais. Temos que acabar com isso aqui e agora – Cilan admitiu.
— Onde esta Corin? – Tom que estava mais atrás com Lila quis saber.
— O enviei de volta. Vai ficar tudo bem.
O chão começou a tremer e todos nos perdemos o equilíbrio. As arvores começaram a balançar com violência e os Pokémon terrestre foram todos ao chão. O grito de Fome foi quase assustador – já chega!
Nidoqueen tinha socado e chão, iniciando um ataque Earthquake. O Pokémon parecia tão furioso quanto a treinadora. A luz negra só surgiu em um instante na boca do Pokémon, quase não tivemos tempo para desviar no Hyper Beam que varreu a floresta atrás de nós, causando uma explosão violenta o suficiente para incendiar a mata.
— Rock Slide – Fome comandou antes que soldados ou nós pudéssemos nos recuperar do tremor e da explosão.
Buracos se abriram no céu e pedras do tamanho de carros começaram a surgiu uma atrás da outra, despencando sobre todo o lado. Soldados e Pokémon começaram a fugir, enquanto nos tentamos acompanha-los, mas tremores secundários ainda aconteciam.
Tentamos correr, desesperados com o ataque maciço, mas pedras vinham de todos os lados. Soldados foram esmagados por arvores que começaram a despencar e chamas a nos impediam de seguir a frente. Eu acabei caindo na confusão e Dee tentou me levantar.
Lila gritou e olhando pra cima. A rocha estava vindo na nossa direção. Dee so teve tempo de se jogar contra mim e fechar os olhos. Trinquei os dentes esperando a pedra nos esmagar, mas de algum jeito Bacon surgiu.
O suíno segurou a pedra com as próprias mãos. Seu corpo todo começou a tremer, mas ele não cedeu. Começou a grunhir como se desse tudo de si, de forma tão feroz que nos assustou. Então seu corpo foi tomado pelo brilho.
Ele ganhou tamanho e força. Chamas brotaram de seu pescoço e ainda grunhindo, mas agora com uma voz muito mais poderosa e grave, arremessou a rocha na direção de Nidoqueen.
O Pokémon não conseguiu desviar. A pedra o acertou em cheio, fazendo-o desaparecer sobre ela. Fome deu outro grito, mas desta vez de desespero. Mas antes que ela levasse a mão a próxima Pokéball a Leavanny de Cilan a enrolou em seus chicotes.
O resto dos saldados começaram a correr, fugindo de nós ou quem sabe da sua general louca. Enquanto Dee e eu ainda estávamos no chão, com Bacon na nossa frente. Agora um Emboar. Grande, bobão e feliz.
Dee parecia incrédulo com a evolução de seu Pokémon, enquanto Skyla correu até Fome que gritava sem parar, parecendo que havia enlouquecido. Ela mexia seu corpo com violência, tentando se soltar enquanto amaldiçoava a todos.
— Eu te disse que uma de nós ia ter seu inferno hoje, – a líder deu um soco na cara da general com tanta força que o rosto da mulher chicoteou com violência. E tudo o que ela conseguiu fazer foi cair desacordada.
— É melhor você tentar não irrita-la de novo, – Dee comentou meio sem graça me olhando.
Apenas afirmei com a cabeça, – talvez seja melhor.
Então Lila gritou, chamando a atenção de todos, – nós ganhamos! Ganhamos mesmo dessa vez, não é mesmo? – Os olhos dela chagaram a brilhar.
— É, acho que sim, – Skyla respondeu, se recompondo.
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Apenas Cilan e Skyla estavam numa das cabines do Lagrima da Imperatriz, tentando arrancar alguma informação da general da Team Plasma. Enquanto isso, o restante de nos estava espalhado pelo barco.
Havia um clima leve no barco. Todos tinham se machucado, mas ninguém tinha se ferido gravemente. O lendário estava comigo e tínhamos capturado um dos quatro generais. Em todos esses meses, esse tinha sido o melhor resultado que tínhamos conseguido.
Mas nem todos estavam cem por cento. Tom estava meio acuado. Cilan tinha tentado falar com ele, mas a morte de Faith tinha mexido bastante com ele. Provavelmente aquela era a primeira pessoa que ele via morrer.
Apesar de Corin ter acompanhado tudo, ele estava muito melhor. Andava de um lado pra outro com Dania, se gabando pela aventura que tinha acabado de ter.
E Kara estava dormindo desde que saímos de que viemos para o mar, finalmente deixando a todos em paz.
— Quando mais você acha que vai demorar? – Dee perguntou já cansado de esperar o fim do interrogatório comigo.
— Sinceramente não sei, depende do quanto ela esteja cooperando.
Mas dizer essas palavras fora como abrir um portal. Cilan e Skyla saíram do cômodo assim que fechei a boca. Eles pareciam ainda mais cansados, e pela expressão em seus rostos os resultados não tinham sido positivos.
Eles se sentaram no sofá na nossa frente e Skyla bufou, – essa vadia arrogante tem certeza que eles virão busca-la. Ela não vai abrir o bico.
— Estamos em uma situação complicada. Se esses generais tem a importância que pensamentos, é provável que eles mandem uma equipe de resgate atrás dela, – Cilan completou. – Espero que isso aqui tenha algum resultado, – Cilan ergueu o Xtransceiver.
— É o aparelho dela? – Ele balançou a cabeça positivamente e me entregou. Na mesma hora comecei a mexer no aparelho.
— É quase um fato que eles virão atrás de nós. Temos duas coisas que eles julgam ser deles. O general e o lendário, – Skyla continiou, – nossa melhor saída agora é continuar indo para alto mar. Graças a Arceus por Arthur e esse barco.
Meus olhos correram depressa pelos nomes da agenda. Havia contatos dos outros cavaleiros, de Deidran, mas nada do de Ghetsis. Continuei vasculhando até que um nome chamou minha atenção.
Chamei o Dee na mesma hora. Ele olhou pra mim e depois para a tela curioso, – será?
— Pode ser. Podemos tentar – sugeri e ele pareceu confiante.
— Do que vocês estão falando? – A líder quis saber.
— Lembra quando eu contei que tive ajuda para fugir da barcaça da Team Plasma? Foi Rose, uma amiga de Dee quem me salvou. Ela é um deles, mas ela já tinha suas duvidas sobre o que eles estavam fazendo da ultima vez que eu a vi.
— Se eu falar com ela talvez eu consiga convence-la a nos ajudar – Dee contou esperançoso.
Cilan e Skyla se entreolharam, – vocês já me deram vários motivos para confiar em vocês. Se acreditam que isso pode ser de alguma ajuda, não vejo porque não tentarmos.
Passei o Xtransceiver para Dee e ele ligou. O aparelho chamou algumas vezes até que a garota apareceu na tela. Ela tomou um susto enorme e começou a falar sem parar, – eu não acredito que seja mesmo verdade. Vocês conseguiram mesmo capturar Fome? É a única explicação para você estar com o aparelho dela.
— Nós estamos com ela. Mas essa ligação não é sobre ela Rose, preciso de você, – Dee falou depressa.
A garota olhou para um lado e para o outro e pareceu sair correndo, se escondendo em algum lugar escuro. – Vocês não tem ideia do que fizeram. Isso aqui virou um caos. Deidran esta andando por ai gritando com todos e dando ordens.
— Ele pretende vir atrás da gente?
— Muito pior. Ele enlouqueceu. Ele quer ativar o aparelho do Cobalion.
Vi a expressão de Skyla e Cilan se endurecer, mas Dee continuou firme, – eles estão instalando isso por toda a Unova nesse momento. Era um plano de segurança de algo desse errado, mas ainda não estava pronto.
— Rose,– Dee gritou, – do que se trata.
— Eu ouvi só rumores do pessoal que trabalha no laboratório. Parece que eles queriam os lendários porque Cobalion tem habilidade de controlar Pokémon. Eles desenvolveram um dispositivo que amplifica esses poderes, mas quando ele é usado, ao invés de transformar os Pokémon em escravos, ele os enlouquece, tornando violentos.
— Ele pretende ativa-lo?
— Você não entendeu? Porque vocês capturaram o lendário e Fome eles estão adiantando tudo. Eles pretendem ativar isso amanha. Os soldados tiveram ordens de terminar a instalação das antenas replicadoras ainda essa noite.
— Droga, – Skyla não conseguiu segurar.
— Rose isso é loucura, você precisa nos ajudar a impedir isso. Pessoas vão se machucar por toda a parte. Não podemos permitir isso.
— E o que eu faria? Se eles souberem que estou contando isso eu serei executada na frente de todos.
— Rose, me escute. Você precisa nos ajudar. Você não é assim. Se você se omitir agora também será em parte sua culpa todas as vidas e a destruição que estão por vir. Se todos os Pokémon nas cidades onde as antenas foram instaladas ficarem violentos você consegue imaginar quantas pessoas vão morrer?
A garota pareceu entrar em pânico, seus olhos estavam dançando e um lado para outro. Dava pra perceber pela imagem que ela tremia. – Eles... Eles acabaram de nos entregar dispositivos que devem ser colocados nos Pokémon para que eles não sejam afetados. Não há muito o que eu possa fazer, mas vocês podem ficar com os que eu recebi. Eu posso entregar para vocês em Castelia, metade dos soldados estão indo pra lá.
“Assim que eu chegar em Castelia ligarei pra vocês para informar onde podemos nos encontrar. Se você acha que consegue deter tudo isso, por favor, façam. Cobalion vai ser levado para lá. O aparelho que amplifica seu poder foi construído no prédio do governo, o mesmo lugar onde o presidente esta sendo mantido. Vou lhes passar a localização das antenas, se de algum modo vocês conseguirem destruí-la isso cortaria o sinal impedindo que as outras cidades fossem arrasadas. ” – A ligação foi desligada abruptamente.
Olhamos uns para os outros em choque. Era difícil assimilar tudo o que tínhamos acabado de ouvir.
— Temos que supor que todas as cidades que a Team Plasma tem sob seu controle serão afetadas por essa arma, – Cilan sugeriu.
— Mais da metade de Unova, – Skyla quase gritou, ficando de pé. – Não podemos permitir que isso aconteça. Se a Team Plasma acionar esse aparelho as forças armadas vão invadir Castelia.
— Mas isso é bom, não é? – Dee perguntou, – quer dizer, reforços.
— Não, seria péssimo. As outras regiões estão em cima de Unova por causa da Team Plasma. Depois do que a Team Rocket fez pelo mundo as regiões estão muito mais tensas em relação a terrorismo. Se o exercito se envolver isso será visto pelo mundo como uma guerra civil e as outras regiões tentaram tomar o controle de Unova. Enviaram seus próprios exércitos e podem tentar mexer em nosso governo, nossa constituição.
Cilan levou as mãos a cabeça. Ele estava em pânico, – temos que tentar impedir isso. Não temos outra alternativa. Teremos que ir a Castelia.
— Mas porque a Team Plasma faria isso? – Tive que perguntar, eu não conseguia entender que bem eles veriam em machucar tanta gente.
— Eles estão tentando mudar a opinião publica a muito tempo Haila. Imagine que força as ideias separatistas dele ganhariam se Pokémon por toda a Unova ficassem violentos de uma hora para outra e começassem a atacar seus criadores? Quanto maior o numero de perdas, mais força o discurso deles teria. – Skyla fez uma pausa, – Unova seria definitivamente deles.
— E como vamos invadir Castelia? Vocês ouviram, metade do exercito da Team Plasma esta sendo enviada para proteger esses dois lugares, – Dee quis saber. A tensão era nítida em sua voz.
Skyla deu de ombros, – com toda a ajuda que pudermos conseguir nesse meio tempo. Vou ligar para Elesa e para os outros, – ela nos deu as costas já procurando os contatos de sua agenda.
— Eu não acredito que esse era o plano deles esse tempo todo, – Cilan disse parecendo desesperado e foi atrás dela. Ele parecia sem lugar.
Dee e eu ficamos ali sentados, ouvindo toda a conversa entre eles. Ouvindo as ligações e a historia contada novamente a partir de Skyla.
Meu coração estava batendo depressa. Do nada as coisas tinham tomado proporções inimagináveis. Olhei para o Dee e ele parecia do mesmo jeito.
— Você sabe o que isso significa, certo? – Ele me perguntou.
— Que finalmente vamos bater de frente contra a Team Plasma, – conclui. – É provável que essa seja nossa ultima batalha.
Não dissemos nada durante um tempo. De uma hora para outra eu estava tendo uma crise de ansiedade. Essa era a ultima batalha, e quem vencesse, teria a vitória de guerra. Se perdêssemos dessa vez a Team Plasma teria todo o poder sobre a região. Não haveria mais nada que nos poderíamos fazer.
As horas se passaram, a noite caiu e aos poucos as pessoas no barco ficaram sabendo o que ia acontecer. Na hora do jantar todo aquele clima mais leve de mais cedo já tinha sumido. Fui a primeira a terminar a comer e decidir ir ao convés para alimentar meus Pokémon.
Tirei os três das suas Greatball e fiquei sentada, vendo-os comer os Pokebloco cedidos por Arthur. Mal notei o momento que Dee se sentou do meu lado. Ele ficou ali comigo durante um tempo, em silêncio.
A presença dele me deixava confortável, – preciso que me prometa uma coisa.
Ele me fitou curioso, com aquele olhar bobo e cabelo desgrenhado, – o que?
— Não importa o resultado de amanha, volte vivo.
Nos olhamos nos olhos durantes alguns segundos e os olhos de nos dois ficaram marejados. Ele não me respondeu, apenas passou o braço pelo meu ombro.
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