Notas iniciais
Bom dia! Estou na semana errada, sim eu sei, Foi mal. Tive alguns problemas na hora da correção do capitulo e fiz algumas alterações de ultima hora e por isso o atraso. O capitulo esta super depre, mas eu gostei dele apesar de tudo. Espero ter conseguido transparecer tda a angustia de Haila; Temos uma surpresa pra voces. Eu e Chibieska criamos um tumblr com imagens, textos e coisas exclusivas sobre o texto. Não deixem de dar uma conferida, postaremos Spin-off e coisas mais lá. Voce vão curtir. http://rotezero.tumblr.com/

Haila

O CAMINHO DA FOLHA

O dia acabara de amanhecer. O frio da região desértica tocava-me como uma faca, fazendo as feridas em meus braços doerem ainda mais. Eu estava andando por rumo, acompanhada por pessoas desconhecidas, em uma marcha quase silenciosa até o estádio onde os desabrigados e feridos estavam sendo levados.

Skyla estava comigo, andando do meu lado. Sangue seco pintava seu rosto, que carregava uma expressão vazia. Olhei para minha bolsa e pensei nas sete Pokéball ali contidas. Jaden havia me dado seis antes de partir, agora em duas delas estavam dois Pokémon desconhecidos, três com Pokémon aliados e duas delas vazias.

Uma porque eu ainda não tinha decido capturar outro Pokémon e a outra, onde um dia eu havia carregado um Pokémon ganhado de um amigo, não estava vazia por opção. Admitir que Simi tinha morrido era o mais difícil. Eu conseguiria dizer isso em voz alta.

Eu estava vazia, ou pelo menos me sentia assim. As lágrimas ainda queimavam atrás de meus olhos, loucas para ganhar liberdade, no entanto eu não conseguia mais trazê-las à tona.

– Estamos chegando – Skyla me informou, como se eu não houvesse visto a enorme armação de concreto surgindo na minha frente.

Murmurei uma afirmação e voltei a seguir calada. O que tinha acontecido com Nimbasa City? Por que o Team Plasma havia nos atacado? E talvez a melhor pergunta fosse, como o Team Plasma ainda existia?

Eles atacaram deliberadamente a líder do ginásio, mataram pessoas e Pokémon inocentes. Como alguém podia ser tão hipócrita ao ponto de levantar bandeira dizendo que estão fazendo isso pelos Pokémon quando Simi estava morto? Porque esse foi sempre seu grito de guerra, todos da região sabiam dos incidentes passados. Para eles, homens e Pokémon não podiam viver juntos.

Eles não tinham o direito de decidir aquilo, não tinham o direito de me separar de Simi. Não tinham. – Você esta bem? – A líder de ginásio me perguntou, tocando em meu ombro, me fazendo sair do transe.

Eu não tinha percebido que tinha parado de andar. Sabia que estava tremendo, meu punho estava fechado com força, minhas unhas quase perfuravam minha mão, mas ainda tremiam.

– Estou – respondi furiosa. Eu tinha que estar bem, não tinha opção, eles poderiam voltar e desta vez, eu daria o troco.

Mas Skyla continuava lá, me olhando com aqueles grandes olhos. – Eu sei o que é sentir raiva Haila, eu também perdi um Pokémon – o som do meu nome vindo da boca dela teve um timbre estranho que me desarmou. Me lembrei do grande Braviary despencando do céu após um tiro e me senti vazia novamente. – Nós vamos pegá-los. Vamos dar um jeito de ferrar com aqueles malditos. Eu te prometo.

Olhei finalmente para os olhos dela e vi o brilho e a fúria. Não pareciam palavras para acalmar uma jovem treinadora, Skyla parecia decidida, parecia estar tão furiosa como eu. Então ela me soltou, ergueu o queixo e voltou a caminhar.

Então me dei conta de algo sobre os lideres de ginásio que até então não havia percebido; eles eram orgulhosos e imponentes, porém também pessoas comuns. E enquanto eu estava lá, perdida em minhas angustias, Skyla estava guardando isso pra si e trazendo calma para as pessoas.

Corri atrás dela e a alcancei poucos passos depois. – Finalmente – ela murmurou com um pequeno sorriso no rosto.

Chegamos ao estádio poucos minutos depois. Havia um grande número de pessoas lá dentro. Muitas delas desorientadas, perguntando umas as outras se haviam visto fulano ou beltrano. Deedee deveria estar ali em algum lugar. Tinha de estar.

Segui Skyla por entre a multidão que preenchia o portão C e me deparei com várias pessoas feridas. Um pequeno grupo estava em volta de uma mulher caída. Um deles estava com a camisa amarela coberta com uma mancha gigantesca de sangue que não parecia ser dele, sua expressão estava cheia de terror enquanto um garotinho de não mais que seis anos chorava de mãos dadas.

De repente, um homem com estetoscópio apareceu correndo, empurrando as pessoas para poder passar. Chegou pedindo que o grupo se afastasse e se ajoelhou ao lado da mulher, erguendo a blusa molhada de sangue, revelando o pequeno furo de bala.

O homem tapou os olhos de garotinho. Depois se agachou, apoiando um joelho no chão e virou o menino para si. Não entendi o que ele dizia, apenas vi de relance seus lábios se movendo antes de pessoas começarem a transitar entre nós. A cena parecia tão triste, que tipo de fim justificava esse meio?

Isso não pareceu levar mais de três segundos, mas foi tempo suficiente para Skyla se distanciar de mim. Empurrei algumas pessoas depressa e a alcancei alguns metros à frente por sorte, parada em frente às escadas que davam acesso as arquibancadas.

Assim que entrei no campo de visão dela, Skyla suspirou. Parecia cansada, pequenas sobram escuras demarcam seus olhos. – Preciso encontrar a cabine de som. Se quiser vir comigo eu ajudarei a encontrar sua família.

– Eu não tenho família aqui – respondi balançando a cabeça – estou com um amigo, se puder me ajudar.

Skyla balançou a cabeça fazendo um sinal positivo e voltou a caminhar. Seguimos por um corredor longo, subimos alguns lances de escadas e aparentemente estávamos perdidas.

A líder de ginásio tentou pedir informações, mas ninguém parecia interessado em nós. Todos estavam com expressões horríveis, andando desorientados a procura de parentes e amigos.

Quando, quase vinte minutos depois, achamos a tal cabine, havia dois homens sentados lá dentro. Um deles, o mais velho que já aparentava seus sessenta anos, chorava como uma criança. Sendo consolado pelo outro que parecia não saber o que dizer.

O senhor murmurava em meio a lagrimas – eles a mataram, Klu. Por quê? Por que a mataram?

– Eles são monstros – o outro respondeu antes de perceber nossa presença. – A Team Plasma é a desgraça desse mundo. Não fazem por um motivo real, só fazem.

As palavras não pareceram acalmar o senhor, que pareceu mais desesperado com a constatação. Seu punho estava fechado, sua mão tremia como as minhas momentos atrás. Abaixei a cabeça, tentando não ver a cena diretamente.

Era sofrimento demais. As pessoas não mereciam isso. Eu não merecia isso. A dor no meu peito estava voltando, tomando conta aos poucos do vazio que se alojara dentro de mim. Simi e eu mão tínhamos compartilhado muitas coisa juntos, no entanto ele sempre esteve disposto a dar o melhor por mim.

Se eu tivesse usado a Pokéball e tentando trazê-lo, talvez tivesse tido tempo, mas eu não o fiz, não consegui pensar nem reagir. Senti as lágrimas novamente queimarem atrás de meus olhos e uma mão fantasmagórica a comprimir meu coração e meus pulmões. Eu queria chorar, mas não podia. Tinha que ser forte.

– Alguns dos dois sabem como operar os alto falantes? – Skyla perguntou quebrando completamente o clima fúnebre da sala.

Era meio intimidador o ar seguro que ela carregava, como se a cidade não tivesse acabado de desabar em volta dela. Talvez ela sentisse como se o peso do mundo estivesse em suas costas ou simplesmente não queria demostrar fraqueza. Aquela era Skyla, a líder do ginásio voador. Firme, forte e imbatível, e era como ela que eu queria ser.

O homem que antes estava em prantos nos olhou com o rosto molhado – eu sei – disse com a voz fraca e esganiçada.

– Eu preciso usá-lo, você poderia me orientar? – A mulher perguntou caminhando até eles.

Klu se afastou deixando o pobre homem se erguer sozinho. O velho secou as lágrimas com as mangas da blusa fina e rasgada que usava, se pondo em posição, tentando manter o mínimo de dignidade que ainda tinha.

A sala era cercada por vidro, sobre todo o tumulto da arquibancada, dando uma vista magnificava de todo o estádio. Depois de apertar alguns botões, os alto-falantes por todo o lugar chiaram, fazendo as pessoas olharem na direção do mais próximo a elas.

O velhote balançou a cabeça positivamente, dando sinal para que Skyla pudesse se sentar na frente do microfone de pedestal prateado. A líder caminhou devagar e se ajeitou na cadeira antes de começar a falar.

A sala parecia tomado por um silêncio estrondoso que pesava em cada um de nós presentes como uma força maligna, portadora de um mal pressagio. – Bom dia, senhoras e senhores – ela disse primeiro um pouco acanhando, talvez duvidando se aquilo realmente estaria funcionando.

No entanto, de imediato toda a multidão diminuiu o som da própria voz e houve aqueles que no mesmo instante se calaram, procurando de onde o som vinha. – Na noite passada a cidade de Nimbasa sofreu um ataque estrondoso da, até então desabilitada, Team Plasma. Muitos de nós estamos procurando amigos e familiares desaparecidos. Outros, como eu, perderam parceiros Pokémom e viram à morte bem de frente, de mais de uma maneira. – Ela passou a mão pelos cabelos presos e tomou folego antes de continuar. – Peço a todos que não desanimem. Agora mesmo policiais, rangers e a própria líder do ginásio, Elesa, estão na cola da infame equipe. Peço, por favor, a qualquer treinador considerado de alto nível presente nesse estádio, policial ou ranger que me encontre na sala de comunicação no sexto andar. Obrigada.

Dei uma corrida até a mesa e tomei o microfone das mãos de Skyla, que recuou de impulso – e December se estiver por ai, venha pra cá também. – Meu coração estava palpitando depressa, eu estava literalmente uma pilha de nervos.

– Desculpe, me esqueci de dizê-lo – Skyla confessou coçando o olho com força.

Balancei a cabeça positivamente e caminhei até a cadeira mais próxima, me largando com força sobre o estofado velho. Eu estava tão cansada. Cansada demais para sair correndo atrás daquele descabelado incendiário. Que Arceus não me ouvisse, Deedee atrai fogo. Fez bem por ter escolhido Bacon como inicial.

Eu queria voltar e procurar Simi, ou ficar na rua esperando que ele aparecesse correndo com aquele sorriso primata. A culpa estava tão pesada em meus ombros que às vezes era difícil respirar. As lembranças estavam tão vivas quanto o murmurar da multidão abaixo de nós.

Acredito que se passaram cerca de quinze minutos até que o primeiro treinador que se julgava capacitado apareceu. Era um homem mais velho, com cerca e quarenta e tantos anos. Usava um boné virado para trás e tinha a barba por fazer. Agarrado a sua perna um Pokémon de pedra com dedos coloridos, estranho para mim.

– Ouvi o anúncio – ele disse parecendo desconcertado – no que podemos ajudar? – Perguntou olhando para o Pokémon junto a si.

– Agradeço por sua presença, assim que todos se reunirem eu lhes pedirei um favor. – Disse Skyla sendo imponente. Os dois homens que estavam na sala perceberam o peso da situação e depois de nos cumprimentarem novamente se retiraram.

O homem atravessou a sala e se sentou ao lado de uma das janelas, abrindo-a e deixando o som da multidão sob nós invadir o lugar. O Pokémon saltou e se sentou no colo do homem, quase como uma marionete.

Não me aguentei de curiosidade e buscando em minha bolsa encontrei o Pokédex de Jaden. Ele estava ali há tanto tempo que eu mal me lembrava dele. Quando o apontei para o Pokémon sua imagem surgiu na tela e seu nome foi dito em voz alta. Elgyem. Tipo pedra e psíquico. Uma luz se ascendeu e um novo local no Pokédex fora liberado.

Aquele era um dos Pokémon que Jaden nunca havia visto. A promessa que eu havia feito um dia antes de sair de casa agora parecia distante e eu não tinha mais vontade de cumpri-la. Toda minha chama e vontade de seguir pareciam ter sumido. Senti as malditas lágrimas voltando, junto com a lembrança da minha incompetência como treinadora sendo esfregada na minha cara.

Abaixei a cabeça temendo deixar uma lágrima escapar. Não queria que ninguém me visse chorar. Não Skyla. Então alguém bateu na porta aberta. Erguei a cabeça e vi uma mulher de pele muita clara, de cabelos quase brancos, vestindo roupas estilizadas. Reconheci na mesma hora: era Roxie a líder do ginásio de Pokémon tipo Poison.

E atrás dela, dois garotos descabelados. Um dele familiar e animador o outra nem tanto. December e Clarice estavam do mesmo jeito que eu, porém bem menos machucados.

Levantei em um salto, indo em direção a eles. – Achei mesmo que a voz fosse sua – Roxie soltou indo em direção a Skyla.

Deedee me olhou por um segundo assustado. Depois fui tomada por uma onda de alivio. Eu estava tão feliz por vê-lo inteiro. Alegria que tomou conta de mim ao ponto de não conseguir esperar que qualquer palavra fosse dita, então saltei nele. O abraçando com força, ignorando a dor dos ralados em meus braços.

– È bom te ver também – ele respondeu sem que eu precisasse perguntar qualquer cosia. Apertei mais o abraço e enterrei o rosto na blusa fedorenta de Deedee. – você esta me deixando sem ar – ele resmungou e só então eu o soltei.

– Onde você se meteu? – Perguntei olhando de rabo de olho para Clarice.

– Obviamente em um lugar melhor que você – Clarice comentou olhando para os machucados nos meus braços.

– O que você esta fazendo aqui, garota? – Perguntei com raiva ostentada em cada sílaba. Ela deu dois passos para frente e tocou no braço de December como se ele fosse propriedade dela. Sorriu cinicamente e deu de ombros.

Os sentimentos dentro de mim mudaram de um instante pra outro. Foi como ascender um pavio. Não sei como ou quando reagi, mas quando dei por mim estava em cima de Clarice, no chão. Dando socos na garota que tentava a todo custo proteger o rosto com as mãos. Nós duas gritávamos, urros sem sentidos, enquanto eu descia o braço naquela vadiazinha metida a besta.

Senti um puxão com uma força maior do que provavelmente foi. Skyla me arrancou de cima de Clarice e me deixou estirada no chão. Antes de eu pudesse me levantar ela pulou em cima de mim e prendeu meus braços com os seus. – Me solta – gritei louca de raiva. Eu queria deformar a cara bonitinha daquela garota. – Me larga – Gritei tentando levantar.

Então, com uma rapidez apavorante ela me deu um tapa na cara. Meu rosto chegou a virar com o impacto enquanto queimava com a dor do golpe. – Controle-se, se não por si própria pelos seus amigos – a mulher gritou de olhos arregalados. Me agarrou pelo colarinho e me fez levantar.

Deedee estava paralisado, me olhando sem saber o que dizer. Deu alguns passos depois de alguns momentos e estendeu a mão a Clarice a ajudando a se levantar. Ela estava com um corte no canto da boca e com as bochechas vermelhas. Me olhou com ódio e caminhou até a cadeira mais próxima a ela.

– Se quer descontar a raiva em uma garotinha você não tem lugar nessa sala – me jogou a frase na cara como uma faca. Abri a boca tentando dizer alguma coisa, mas as palavras não saíram. – Não quero suas desculpas – Skyla rosnou – você as deve a ela.

Olhei para a garota que colocava a mão no rosto, sobre onde eu havia batido e me senti pior do que já estava me sentindo antes. Caminhei devagar até ela e me sentei ao seu lado. Deedee estava desconcertado, nos olhando sem saber como agir, enquanto Roxie, Skyla e o homem do Pokémon desconhecido voltaram a conversar.

– Me desculpe – pedi sem olhá-la.

– Não quero suas desculpas – ela cuspiu – não quero sua piedade ou mesmo sua amizade. Estou cansada de você se achando melhor do que as pessoas, achando que Deedee é apenas seu. – Ela se levantou da cadeira e me encarou com olhos molhados. – Estou cansada dedicar atenção a December, ou mesmo de suportar toda a tensão imposta por Burgh.

– Clarice... – Deedee tentou dizer algo, mas ela passou por cima dele.

– Chega, quero que você e seu clubinho se dane – ela gritou. Se ergueu e ajeitou a roupa no próprio corpo, se atendo ao último fio de dignidade que ainda tinha e nos deu as costas, saindo da sala como se não significássemos nada.

Abri a boca novamente sem saber o que dizer. Eu gostaria muito de não travar nessas situações, porém, Roxie completou o dialogo para mim – afinal, ela merecia mesmo uns tapas. – O homem deu uma risada e os três voltaram a conversar.

– Como você está? – Deedee me perguntou ignorando completamente o chilique da namorada.

– Bem – ergui meus braços e mostrei as feridas. Eu tinha que dizê-lo em voz alta pela primeira vez – Simi... – mas não era como admitir que tinha roubado um dos biscoitos da bandeja na mesa do cozinha – ele está morto. – Deedee continuou mudo e inexpressivo por um instante, talvez processando a informação. – Simi está morto – repeti, mas desta vez mais rápido e com menos dificuldade.

– Como? – ele perguntou assustado.

Suspirei longamente. Flash da cena havia passado pela minha cabeça dezenas de vezes, no entanto, até então eu não tinha tentado repassar a memória por completo. A mão fantasmagórica voltou a pressionar meu peito e minha garganta deu um nó. –Depois que fugimos do Centro Pokémon, de alguma forma paramos no ginásio de Elesa. Quando a roda gigante caiu, ele voltou para salvar Couve-flor... – as lágrimas estavam de novo brigando, querendo sair. Por que tinha que doer tanto? Parei de falar e fechei meus punhos com força.

Skyla estava ali e eu não ia chorar na frente dela. Girei um pouco meu peito e peguei minha bolsa. – Em falar nisso, eu não consegui recuperar as Pokéballs então... – enquanto eu as pegava dentro da mochila senti a mão de Deedee no meu ombro. Ergui a cabeça e em meio ao meu cabelo desgrenhado me deparei com ele me encarando com olhos molhados e profundos. – Não faça isso – pedi com a voz fraca, sendo tomada pela angustia. – Não precisa – murmurei me esforçando para achar a Pokéball de Peach e Couve-flor.

Juntei bastante ar no peito e me esforcei para entregá-las. Ele pegou as duas em silêncio e as colocou na mochila. Parecíamos crianças desamparadas olhando a conversa entre Roxie, Skyla, o moço desconhecido e outra treinadora mais velha que surgira sem que eu percebesse.

=8=

O plano de Skyla era simples. Reunir o máximo possível de treinadores capacitados e espalhá-los pelas entradas da cidade para prevenir uma segunda tentativa de ataque. Enquanto isso, a vida na cidade tentava voltar a andar.

Eu e Deedee estávamos sozinhos, sentados em cima de um muro baixo, próximos a uma cabine telefônica. Ele estava muito calado, mas eu não podia culpá-lo. Ele ainda não havia me dito o que aconteceu com ele, acredito que apenas tentando mostrar que se importava o bastante com a minha perda.

Mas infelizmente, ela não era apenas minha perda. Outro treinador em outro lugar estaria tão desamparado quanto eu quando soubesse que seu inicial estava morto. E eu simplesmente não sabia como poderia dizer isso a ele.

O vínculo que é criado com o Pokémon inicial já foi muitas vezes comparado por especialistas como o primeiro amor, ou mesmo como um vínculo familiar tão forte como o materno. Como eu poderia dizer a Cilan que havia deixado seu Pokémon morrer? O que eu lhe responderia se ele me perguntasse o que eu fiz com o culpado? Ele, com certeza, me odiaria para sempre.

– Ele vai entender – Deedee soltou do nada. Ele ainda olhava para as pessoas passando na rua sem expressão. Quando ele passou a me conhecer tão bem?

O telefone tocou e meu coração congelou. Eu queria chorar de novo e isso estava me deixando louca. Eu tinha que ser forte, firme como Skyla. Se não por mim, por Cilan que estava retornando a ligação que Deedee tinha feito para Centro Pokémon em meu nome.

Agradeci pelos Xtransceivers pela cidade toda estarem fora do ar por algum motivo. Ter de dizer aquilo a Cilan já era muito duro. Eu não poderia fazê-lo olhando nos olhos, mesmo que achasse que era aquilo que ele merecia. Pelo menos isso.

Deedee saltou do murinho e estendeu a mão pra mim. Agradeci mentalmente por tê-lo como companheiro e agarrei sua mão, juntando forças psicologicamente para fazer o que tinha de ser feito.

Assim que entrei na cabine de vidro pus a mão sobre o telefone, que tocava pela quarta vez. Todas as células do meu corpo hesitaram em atender aquele telefonema. Era como se todas gritassem para mim, pedindo desesperadamente para ir procurar o símio. Ele tinha que estar vivo, porém eu sabia que não estava.

Tirei o telefone do gancho e disse um simples – oi.

Cilan respondeu no mesmo momento – Haila! É você?

Deedee estava atrás de mim e só Arceus saberia dizer o quanto eu queria desligar aquele telefone e abraçá-lo, mas eu não podia. – Sim, sou eu.

– Está tudo bem? A enfermeira me disse que a ligação era de Nimbasa, estão todos apavorados com o que aconteceu. Você está bem? – Ele perguntou com um tom tão preocupado que me deixou desconcertada. Ele nem sequer parecia o mesmo Cilan que gostava de falar usando metáforas de comida.

– Eu estou – respondi tentando soltar tudo de uma vez, mas a voz não saiu. Abri a boca, mas era como se as palavras ficassem presas a minha garganta. Mordi o lábio inferior com força e senti de novo as malditas lágrimas. – Simisage está morto. – Soltei e as palavras saíram como cacos de vidro da minha garganta. Cada uma das três. – Me desculpe, mas Simi está morto – repeti e a linha do outro lado ficou muda.

E por um segundo, enquanto Cilan tentava entender o que eu acabara de dizer e Deedee me observava penoso, eu me senti completamente vazia de novo. Como me senti no dia em que estava abandonando minha casa.

Eu sabia que não era bem assim agora, mas tinha um grande vácuo dentro de mim. Como se toda a felicidade recém conquistada fosse retirada de mim a força. Minha primeira insígnia, um amigo de verdade e um rumo a seguir. Nada parecia ter sentido agora.

– Como? – Cilan perguntou com a voz carregada de angustia. – Você deve estar enganada, às vezes os temperos tem uma cara, mas outro sabor.

Então, a segundo dimensão para qual eu havia ido se dissipou e eu tinha um fardo do tamanho do mundo em minhas costas. – A Team Plasma derrubou a roda gigante. Simi tentou salvar outro Pokémon, mas ele não conseguiu sair a tempo. Eu sinto muito, sinto muito Cilan. Eu não deveria tê-lo tirado da Pokéball, eu não deveria tê-lo deixado se arriscar.

– Não, não pode ser verdade – ele começou a negar repetidamente. A imagem do rosto de Simi estava tão clara na minha mente que era quase como se eu pudesse vê-lo contra o vidro.

Serrei com força o punho e continuei – sinto muito Cilan. Eu não espero que você me perdoe, mas não tive tempo de reagir, estávamos todos correndo e... eu sinto muito. – Eu estava tão angustiada e envergonhada, queria por um momento não existir.

Cilan voltou a ficar mudo, mudo por tanto tempo que eu não conseguiria medir. Então pude ouvi-lo fungar o nariz, ele estava chorando. Tentei imagina-lo e quase pude vê-lo, esmurrando a parede do lado do telefone no Centro Pokémon de Accumula town. Chorando sem conseguir emitir nenhum som e me odiando. – Ele conseguiu? – Ele perguntou com a voz esganiçada de alguém nitidamente abalado.

– Conseguiu? – Perguntei desorientada por um instante e então a ficha caiu, – sim, ele não só salvou esse Pokémon como a líder de ginásio, Skyla. Ele foi um grande herói. – As palavras pareciam tão vazias. Eram verdadeiras, mas era como se eu as dissesse com outro sentido; seu Pokémon morreu como um herói e isso justificava a perda. Aquilo não era verdade, eu não queria que Cilan pensasse assim porque eu não pensava. Nada justificava.

Então voltei a chorar – Ele queria fazer grandes coisas, eu sabia disso. – Cilan confessou em meio a lágrimas do outro lado da linha. Sua voz me preencheu tão profundamente de angustia que eu mal podia respirar agora.

Eu estava chorando e não queria precisar conter isso – eu gostava tanto dele... – disse com a voz carregada de remorso – tanto... – estava tudo ali denovo, a dor, a angustia, o medo. Eu queria ter morrido no lugar dele, queria poder voltar e trocar de lugar com ele. As lagrimas estavam correndo descontroladas e isso não diminuía o sentimento dentro de mim.

Coloquei a mão sobre o aparelho fixado a cabine e repousei minha cabeça sobre ela. Meu cabelo pendeu tapando meu rosto e agora eu fitava o chão, ouvindo Cilan chorar e enquanto eu chorava junto. Era tudo o que eu podia fazer.

Meu peito estava descendo e subindo depressa, era como se não houvesse ar suficiente no mundo – ele deu sentido a minha jornada – confessei mais pra mim mesma do que para o garoto do outro lado da linha.

– Pra minha também... – ele responde – eu não podia ter pedido Pokémon melhor. – Então não tive forças, minhas pernas cederam e eu cai sentada com o telefone ainda no ouvido, com as costas apoiadas ao vidro.

Desta vez não fiz questão de esconder e chorei alto para quem quisesse ouvir. Chorei por mim, chorei por Simi e Cilan e chorei até mesmo por Deedee que me olhava sem jeito. – Eu sinto muito... – repeti.

=8=

O enterro de Simi foi apenas no dia seguinte. Skyla nos ofereceu um quarto no hotel onde ela havia se hospedado e finalmente pudemos tomar um banho quente e tirar aquelas roupas surradas.

Consegui atendimento medico e tive os braços enfaixados, já Dee não parecia ter nenhuma ferida exposta. Enquanto eu me olhava no espelho, me arrumando para ir me despedir do melhor Pokémon que alguém poderia ter ganhado eu senti como se não mais me reconhecesse.

Meu cabelo estava solto e grandes mechas pendiam sobre minhas costas. Nada mais parecia certo em mim. As bolsas sob meus olhos e mesmo a cor deles. O pequeno corte que havia surgido no meu queixo e o gosto contínuo de sangue na minha boca, decorrente da mordida que eu me infligi na angustia.

Eu estava usando uma camisa preta de manga longa e uma calça jeans surrada. Quando coloquei as roupas na mochila naquela noite, em que fugi de casa, não passou pela minha cabeça que eu iria a enterros.

A angustia ainda não tinha diminuído e nada parecia fazer com que aquele sentimento passasse. Tentei prender novamente meu cabelo, mas o grande volume não parava no prendedor.

Comecei a trançá-lo, mas me irritei no meio do processo e desfiz tudo. Eu estava tão irritada, queria sair correndo dali e encontrar-me com Elesa, para juntas surrarmos aqueles malditos dementes. Eu queria poder bater, gritar. Eu só precisava que aquilo dentro de mim parasse por um segundo.

Peguei a escova de cabelo e comecei a pentear uma mecha, mas não consegui faze-lo por sequer cinco minutos, então me sentei no chão do banheiro. Encostei a cabeça na parede e olhei para o teto. Eu não podia aceitar, não podia simplesmente enterrá-lo e esquecê-lo.

Então vi em uma das repartições do armário do banheiro o brilho metálico da tesoura. Peguei e me levantei novamente. Encarando a garota horrível do outro lado do espelho. Puxei uma enorme mecha do meu cabelo e cortei.

Depois outra e mais outra. Fechando a tesoura com força, cortando grandes chumaços de cabelo. Logo, o chão do banheiro estava coberto por fios loiros e o que restava na minha cabeça batia acima do meu queixo.

Entrei no chuveiro e tomei uma ducha rápida, me preocupando apenas em tirar os fios soltos. O ralo no chão quase entupiu no processo. Quando sai, voltei para frente do espelho e usei o secador do hotel. Não me preocupei em deixá-lo certinho. Eu só queria não ter mais que me preocupar com aquilo. Vesti novamente minha roupa e deixei o lugar daquele jeito. Coberto por cabelo.

Quando sai, Deedee estava deitado na minha cama. Dessa vez tínhamos quartos separados. Estava vestindo uma camisa de manga curta preta e uma calça de tom mais escuro. Assim que ele ouviu o som da porta se abrindo se sentou na cama.

Sua expressão se encheu de surpresa. – O que aconteceu com seu cabelo? – Perguntou inocentemente.

– Eu não queria ter que arrumá-lo mais – respondi simplesmente, fingindo não perceber o olhar apavorado do garoto.

– Eu gostava dele antes – ele disse com um tom engraçado e em outro momento com certeza eu teria dado um cascudo nele e sorrido, mas agora, eu só estava vazia.

=8=

Chegamos ao cemitério já no fim da tarde. Eram quase cinco e meia quando chegamos ao campo cheio de placas no sul da cidade. Havia um pequeno grupo de pessoas lá. Skyla, Roxie e duas pessoas que eu não conhecia.

Andamos pela grama, passando por dezenas de plaquinhas com nomes fofinhos como, Bell, Flumi, Pink e outras de Pokémon sem nome, como Tepig, Mareep e o tempo que passaram com seus treinadores. Cinco anos, dez anos, doze anos.

Quando chegamos ao topo da pequena ladeira tivemos uma visão melhor dos dois caixões de madeira negra. Um dele era o de Simi e o outro de Rell, o Braviary de Skyla.

As duas mulheres vestiam preto. Roxie um vestido que batia pouco acima de seus joelhos, com babados brancos e uma corrente sendo usada como cinto. Já Skyla usava apenas uma calça Jeans preta e uma camisa folgada sem mangas da mesma cor. Os outros dois homens usavam ternos pretos e carregavam expressões vazias.

Nos cumprimentamos e Roxie elogiou meu novo corte de cabelo. Então um dos dois homens se pôs a frente dos caixões e começou a falar. – A despedida é uma das partes mais difíceis da vida. A morte não é uma coisa que se aceita, mesmo sendo a única coisa que podemos esperar com certeza na vida.

Deedee ficou de pé do meu lado e eu senti a necessidade de pegar sua mão. Ele não me olhou, apenas se manteve firme, olhando para o homem e retribuiu o gesto aumentando o aperto.

– Não devemos nos esquecer de quem se vai, no entanto, nosso caminho continua, e com ele a lembrança de nossos parceiros vive em nossos corações. Em cada sorriso adiante, em cada lágrima derramada e em cada batalha enfrentada. – O segundo homem chegou e disse algo no ouvido de Skyla que deu um sorriso forçado e o agradeceu deixando que ele voltasse um pouco para trás. –...E desde que vivamos com plenitude, daremos aos entes queridos o descanso e a paz que tanto merecem.

Skyla deu alguns passos a frente e pôs a mão sobre o caixão, abaixou a cabeça e pude ver seus lábios se mexendo. Ela estava se despendido do parceiro e eu deveria fazer o mesmo.

Caminhei até Simi, mas não tive coragem de tocar no caixão. Aquilo não era ele. Nem o corpo que estava ali dentro. O que eu tinha que dizer era para seu espírito e sei que ele poderia me ouvir agora, fosse lá onde estivesse. Suspirei juntando coragem e comecei a murmurar – desculpe por não ter cuidado tão bem de você quanto você de mim. Eu não poderia pedir um amigo mais forte e incrível... – Eu não estava com vontade de chorar, não mais. Eu só queria que aquilo tudo acabasse – eu vou fazer justiça por você – não importa o que eu precisaria fazer para conseguir isso.

Notas finais
Espero que não tenha sido muito morbido ou pouco. É dificiil saber o que tenho que fazer com Haila. Não me imaginei escrevendo essa cena até escrevê-la, memso a morte de Simi sendo planejada antes do inicio da fic. Deixem sua opiniões fantasmas, voces estão acumulando. E não deixem de acessar nosso Tumblr! http://rotezero.tumblr.com/