Rota Zero

87 O Último Dia de Castelia - parte 2


Notas iniciais
Sim, dois capítulos em um dia. Aliás, a fic já esta inteira escrita, vamos postar um capítulo por semana a partir de hoje. Boa leitura

December

Seguimos Bianca corredor acima e saímos para a ruela, não havia movimento nenhum, mas Clarice me puxou pelo braço rapidamente até chegarmos a uma alameda lateral. Ela me guiava apressada, olhando para todos os lados a cada quarteirão que galgávamos. O ponto de encontro era um tanto longe de onde estávamos, mas ela sabia um caminho bem mais curto.

— Por que se ofereceu para me acompanhar?

— E por que não?

— Louis poderia fazer isso.

— Algum problema em ser acompanhado por mim?

— Não, só... – minha última conversa com Clarice tinha sido há meses e nós não tínhamos terminado muito bem.

— Então, você e a Haila estão juntos de novo? – Ela provocou, me interrompendo.

— Como amigos sim – respondi prontamente.

— Não foi desse jeito que eu perguntei.

— Mas é só desse jeito que eu tenho uma resposta para você – rebati. Sério que Clarice queria discutir minha vida amorosa naquelas circunstâncias?

— Então você está com a Kara? – Prosseguiu com a provocação, mas ela parecia ter mais desprezo pela Kara do que por Haila. – Ela não demorou nada para arranjar outro depois do pé na bunda que tomou.

— Eu não tenho nada com a Kara – informei. Atingimos uma rua mais movimentada e precisávamos andar com mais cautela para não esbarrar em ninguém. Havia um jovem Team Plasma fazendo a guarda daquele quarteirão, mas passamos por ele sem maiores problemas.

— E por que ela está aqui?

— Ela é irmã do Tom e uma treinadora muito boa para deixarmos fora de combate.

— Se você diz – ela não parecia acreditar.

— Se não fosse por ela, eu não estaria vivo – e talvez eu estivesse exagerando um pouco, mas se não fosse por ela, eu não sei como teria me saindo em Anville.

— Aparentemente todas as mulheres da sua vida são importantes, menos eu – ela deu um muxoxo.

— O que quer dizer com isso?

— Você enfrentou Alder por uma tal de Cassie. E você tem a cadela da Rose – o tom não era agressivo, mas uma espécie de descontentamento.

— Cassie é só uma criança – desviei, não precisava que ela tivesse uma crise de ciúme por uma menina de dez anos.

— E a Rose?

— É complicado – e era. Não era como se Rose fosse alguém importante para mim como Haila ou Lila, mas ela tinha sua importância. Nós tínhamos crescido juntos, ela tinha salvado Haila e agora estava nos ajudando, eu não poderia simplesmente ignorá-la.

— Como pode ter amizade com um Team Plasma, eles são a escória – a voz saiu um pouco mais alta e precisei dar um cutucão para ela se controlar.

— Mas se não fosse por essa escória não teríamos informações sobre as antenas – rebati, entendia o ódio que ela tinha da Team Plasma, da própria Rose, mas chamar de escória me parecia demais.

— Ela deve estar mentindo.

— É uma possibilidade.

— E como pode confiar mesmo assim, com essa possibilidade em vista.

— Porque... é o tipo de pessoa que eu sou, eu acho – e era. Mesmo depois de Roxie, eu ainda sentia que deveria confiar nas pessoas até que houvesse motivos para não o fazer. – Você só veio para confrontar a Rose não é?

— Você acha que eu colocaria o destino de Castelia de lado por uma rixa particular – Clarice me encarou.

— Você disse que nunca iria perdoá-la, nem a mim, pela sua Audino.

— E não vou, mas temos coisas mais importantes que nos preocupar – respondeu com firmeza.

Chegamos em uma rua bem movimentada que dava direto no Centro Pokémon. Havia muitos soldados da Team Plasma ali e vez ou outra podíamos vê-los interceptar algum cidadão e pedir documentos. Clarice estrategicamente mudou de calçada e passou o braço pelo meu como se fossemos um casal apaixonado.

Eu sentia o suor escorrer por dentro do moletom e o nervosismo me invadir, e talvez pela tensão, o caminho parecia incrivelmente longo. Finalmente dobramos a rua e chegamos à ruela do bar. Havia algumas lojas abertas, mas não tinha quase clientes circulando.

O restaurante de Joslyn tinha a fachada toda destruída, havia as marcas negras das grandes labaredas que tinham devorado o ambiente, as janelas estavam quebradas e a porta parecia apenas apoiada no batente.

— Por que escolheu esse lugar? – Clarice questionou ao encarar a fachada.

— Achei que seria um local fácil para ela, Thiers fez questão de deixar essa história bem conhecida – Clarice me encarou sem entender do que eu falava.

— Bem, estamos de volta ao local do nosso primeiro encontro – ela gracejou e eu não me lembrava mais daquilo.

Por uma fresta, pude ver Rose, trajando o uniforme da Team Plasma que estava no corredor lateral, como se fosse uma entrada para os fundos. O mais discretamente que conseguimos, atravessamos os escombros da frente do restaurante e rumamos para o corredor.

— Você demorou – foi a primeira frase da Rose.

— Você também, Skyla esperava que você fosse ligar muito antes...

— Eu tive alguns problemas – deu um muxoxo. – Por que trouxe essa menina? – Rose encarou Clarice com desaprovação.

— Ela sabia um caminho mais rápido do que eu – dei de ombros.

— Bem, vamos ser rápido, certo? – Ela tirou a mochila das costas e tirou alguns dispositivos de dentro, pareciam os colares de controle que a Team Plasma tinha utilizado para capturar os lendários. – Eu só consegui seis.

— Nosso grupo é meio grande – seis dispositivos não davam nem para mim e para Haila. E a gente nem tinha tantos Pokémon assim.

— Desculpe, mas cada um de nós só recebeu seis deles.

— Você vai ficar sem nenhum? – Perguntei.

— Está tudo bem – ela deu um sorriso cansado.

— Mas e se você precisar?

— Se vocês tiverem sucesso, eu não vou precisar disso. Além disso, não é como se eu tivesse muito controle sobre meus Pokémon – disse sombriamente e sabia que ela se referia ao Tyranitar.

— Rose, aquilo...

— Aquilo é passado – ela me cortou.

— Bem, exatamente o que eles pretendem com as antenas? – Questionei enquanto analisava os dispositivos que ela me entregara.

— Como eu disse, Cobalion tem o poder de controlar outros Pokémon, mas o raio de ação é muito pequeno naturalmente...

— Então eles vão propagar essa habilidade pelas antenas? – Clarice cortou.

— A ideia era essa, mas eu não tenho mais tanta certeza.

— Como assim?

— Se o Cobalion estiver com o colar de controle, as ondas ficam distorcidas e os Pokémon ficam descontrolados.

— Esse colar? – Balancei um dos dispositivos que ela me entregara.

— É a mesma ideia, mas esse serve para bloquear qualquer tipo de interferência – Rose explicou.

— Mas o que vocês ganhariam com esse descontrole? – E não fazia nenhum sentido ter um grupo de Pokémon descontrolados circulando pela cidade. Seria um problema não só para as pessoas normais, mas também para a Team Plasma que tentava manter o controle da cidade.

— Eu não sei.

— Você não sabe nada? – Clarice questionou agressiva.

— Eu sou um soldado de baixo escalão, ninguém me conta nada, eu só recebo ordens – esbravejou.

— Você sabe onde Cobalion está? – Perguntei me lembrando do lendário.

— Eu presumo que na antena de rádio da cidade, mas como eu disse, eu não tenho acesso direto a essa informação.

— Terrakion?

— Morte está com ele – ela respondeu. Mas não tinha sido Roxie que o tinha capturado?

— Os outros cavaleiros estão aqui?

— Deedee, esse tipo de informação... – Rose parecia duvidosa em me dizer mais do que ela já tinha contado pelo Xtransceiver.

— Rose, você sabe que se os Pokémon sendo controlados não tem nada a ver com a ideologia que vocês pregam, onde está a liberdade disso? – Eu sabia que estava apelando, mas eu precisava de alguma informação, nós estávamos em enorme desvantagem.

— Você está certo, bem, sobre Guerra e Peste... – mas de repente, o rádio dela fez um chiado e uma voz arranhada começou a transmitir.

— Atenção esquadrão Alpha-3, remanejar. Repetindo, remanejar. Comunicamos que os mesmos dissidentes que causaram a destruição do porto, estavam mantendo a Comandante Fome como refém. A Comandante já foi resgatada. Repetindo... – Espera, se eles tinham recuperado Fome, o que tinha acontecido com Lila, Arthur e as crianças? – Atenção esquadrão Alpha-3, o sistema Cobalion será adiantado e deve entrar em funcionamento as sete e quarenta e cinco, por favor, preparem seus Pokémon.

— Espera, isso não seria as nove? – Perguntei eufórico.

— Eles devem ter adiantado os planos por sua causa – deixou a frase vagar.

— Minha?

— Não eram vocês que estavam com a Fome? – Ela me encarou.

— Você não... – Rose tinha nos entregado?

— Não dedurei vocês, se é isso que está pensando, mas ela é uma das Comandantes, certamente fariam uma equipe de busca. E se eles a encontraram, ela deve ter dito que vocês estão na cidade.

— E ela sabe que estamos com o lendário – disse para mim mesmo.

— Vocês... como vocês capturaram Virizon? – Os olhos de Rose se arregalaram.

— Com certeza, não com os mesmos métodos sujos que vocês – Clarice cuspiu.

— Bem, eu preciso ir – Rose falou apressada.

— Então você vai se juntar as tropas e nos caçar, como uma boa menina que você é? – Clarice zombou e Rose apenas revirou os olhos.

— Eu preciso manter minha posição, e não se engane, eu ainda acredito nos nossos ideais, só acho que nem sempre os fins justificam os meios. Deedee, boa sorte! – ela disse se voltando para mim. Ajeitou a mochila nas costas e passou um ok pelo rádio.

— Rose, não importa como isso acabar, que lado vencer, você pode sempre contar comigo – e eu sentia que deveria dizer aquelas palavras, eu não queria que Rose se sentisse sozinha no meio daquilo tudo.

— Essa bondade um dia vai te matar – Rose deu um sorriso antes de partir.

— É melhor irmos também – Clarice disse assim que a garota sumiu de vista. Dei os dispositivos para ela que os guardou na bolsa.

— Quanto tempo temos até ativarem o sinal? – Perguntei enquanto atravessamos a rua apressado.

— Dez minutos – Clarice informou olhando no Xtransceiver.

— Não vamos chegar ao bar a tempo – tínhamos demorado mais de vinte minutos para chegar até ali.

— Eu vou ligar para o Burgh – ela ativou o Xtransceiver, mas puxei o braço e desliguei. Tínhamos entrado na rua do Centro Pokémon e havia muito mais Team Plasma ali do que na ida. Eles falavam pelo rádio e entre si e pareciam muito agitados. Além disso, havia muito mais pessoas àquela hora, indo para o trabalho. A população só seguia seu fluxo, sem conversar, se Clarice estivesse no Xtransceiver chamaria muita atenção.

Demos as mãos e andamos o mais discretamente que podíamos, era um tempo valoroso que estávamos perdendo, mas não podíamos chamar atenção desnecessária. Passamos pelo primeiro grupo de Team Plasma sem problemas, faltava menos de um quarteirão para chegarmos na rua mais sossegada quando alguém gritou.

— Ei, você de capuz – senti os dedos de Clarice se apertarem em torno do meu braço. – Ei, eu estou falando com você – a voz estava mais próxima e eu percebia que as pessoas a nossa volta nos encaravam. – Você – e senti alguém me puxar pelo braço.

Era um Team Plasma bem jovem, no máximo da minha idade, que parecia quer mostrar serviço.

— Eu estou falando com você – ele ainda mantinha a mão no meu braço. – Tire o capuz e me deixe ver seus documentos – que eu não tinha nenhuma. – Agora – aumentou o aperto.

Eu era um alvo fácil, eu sabia, mas eu não podia arrastar Clarice, ela precisava voltar para Burgh, contar as coisas que Rose tinha dito e entregar os colares. Enfiei a mão no bolso do moletom e libertei Bacon na rua.

Emboar se colocou entre o Team Plasma e eu e deu um rugido alto, atraindo a atenção dos transeuntes.

— Corre – me virei para Clarice.

— Mas...

— Vai – ela relutou por um segundo, mas concordou e partiu em disparada, desviando das pessoas que circulavam pela rua. Vi os Plasmas trocarem informações entre si e um pequeno grupo ser destacado para perseguir a garota.

— Bacon, Incinerate!

Ele se voltou para o grupo que se preparava para ir atrás de Clarice e lançou suas chamas, elas eram ainda mais quentes e poderosas agora que ele se estava completamente evoluído, eu podia sentir o calor irradiar da chama. O grupo se retraiu momentaneamente, dando a garota uma pequena vantagem na fuga.

O Plasma que estava ao meu lado, libertou um enorme Blastoise que surgiu dando um Body Slam em Bacon, o suíno se desequilibrou, mandando as chamas para todo o lado, como um chafariz de fogo. Nesse meio tempo, o garoto pulou sobre mim, me derrubando no chão.

As chamas do Incinerate atingiram um poste, estourando parte da fiação que caiu na calçada mandando faíscas para todo o lado, uma parte das chamas atingiram a fachada de uma loja e os enfeites expostos viraram uma enorme bola de fogo. As pessoas corriam desesperadas de um lado para o outro. Clarice tinha sumido do meu campo de visão e eu só podia rezar para que ela chegasse até Burgh a tempo.

— Eu vou acabar com a sua coragem, seu dissidente – o garoto me chacoalhava pela gola do moletom. – Blastoise, use... – mas antes que pudesse comandar o ataque, um apito alto e agudo como uma onda de sonar reverberou pela rua.

Meus ouvidos doeram e o Plasma sobre mim se encolheu, várias pessoas na rua levaram as mãos à cabeça, cobrindo os ouvidos. Então uma nova onda sonora veio, mais forte do que a primeira, fazendo as paredes dos prédios vibrarem. De repente, tudo ficou em silêncio profundo, como se nem nossas respirações fizessem barulho. Bacon e Blastoise estavam parados na rua em estado catatônico.

Então um zumbido de baixa frequência, quase imperceptível se fez ouvir e vi os Pokémon se jogarem no chão, como se sofressem de uma dor excruciante. Meu Emboar levava as patas curtas até a cabeça enquanto Blastoise rolava de um lado para o outro, sobre o casco. De repente, ambos se levantaram e começaram a correr aleatoriamente pela rua.

— Blastoise! – O Plasma gritou desesperado, se colocando em pé.

— Você não colocou o dispositivo no seu Pokémon? – Ouvi um outro membro perguntar.

— Eu... – ele balbuciou sem saber o que responder. Blastoise não usava o colar, o que significava que estava sendo afetado pelo controle tanto quanto os outros.

Bacon se jogava contra qualquer pessoa na rua e pequenas labaredas escapavam de sua boca, tentei retorná-lo, mas não conseguia colocá-lo no facho da Pokéball de forma alguma. De repente, algumas Pokéball começaram a se abrir e os Pokémon a pipocar pela rua, tão descontrolados com Bacon. Eles corriam aleatoriamente, avançavam sobre seus treinadores ou atacavam os postes da rua. Eu não sabia bem como a onda funcionava, já que alguns Pokémon tinham fugido por contra própria enquanto outros permaneciam em suas Pokéball, mas aparentemente, alguns eram mais suscetíveis ao controle do que outros.

O Blastoise se virou, lançando água dos seus canhões para todo o lado e atingindo os fios eletrificados que Bacon tinha destruído, a corrente elétrica descarregou no chão, atingindo todas as pessoas dentro da área, derrubando cidadãos e membros da Team Plasma.

O tumulto estava instaurado, os Pokémon corriam de um lado para outro enquanto seus treinadores tentavam conte-los sem sucesso. Eu deveria aproveitar o tumulto para fugir, mas não podia deixar Bacon ali. Clarice tinha ficado com todos os colares, de modo que eu teria que controlá-lo de algum jeito.

Me aproximei, desviando das pessoas que corriam. Na rua ao lado, eu podia ver uma coluna de fumaça que espiralava sobre os prédios. Eu sentia minhas Pokéball vibrarem no bolso, como se meus parceiros quisessem se libertar, mas esperava que não acontecesse. Eu não saberia o que fazer com dois Pokémon descontrolados.

Cheguei perto de Bacon, e o chamei, com a voz mais calma que conseguia naquele momento, mas ele não me ouvia, parecia entretido demais batendo a cabeça contra uma parede de tijolos. Me aproximei mais, sempre chamando seu nome e toquei gentilmente seu braço. Ele se virou e os olhos estavam totalmente brancos e ele olhava além de mim, quase como se eu não existisse. Lançou uma bafora de fogo e só tive tempo de me jogar no chão, enquanto as chamas dançavam sobre a minha cabeça. Então ele saiu correndo para outro lado da rua, derrubando várias pessoas no processo.

Se ele não ouvia meus comandos e não voltava para a Pokéball, eu não sabia como recuperá-lo. A rua estava cada mais caótica, havia mais pessoas correndo de um lado para o outro e vários Pokémon estavam espalhados ali. A Team Plasma tentava manter a ordem, mas mesmo que os Pokémon deles fossem os únicos com sanidade, eles eram um número muito pequeno para controlar tamanha confusão.

De uma fachada de uma loja, um Steelix surgiu destruindo tudo o que encontrava e varrendo a passagem com um Iron Tail, vários Pokémon pularam sobre ele e ataques dispersos voavam para todo lado.

Um poste ao lado do Centro Pokémon caiu, arrastando metade da fiação junto com ele, havia faíscas voando, Pokémon de água disparando rajadas aleatórias e eu tentava me manter seco e protegido, para não ser atingido pela energia que escapava dos fios. Eu tinha que sair dali, mas precisava achar um jeito de levar Bacon comigo, nem que fosse arrastado pelas orelhas.

Corri na direção de Bacon, mas havia pessoas bloqueando meu caminho. Tentei me enfiar entre elas e quando cheguei mais perto, o Plusle dava uma descarga elétrica fenomenal no meu monstrinho, dali podia sentir o cheiro de queimado e os olhos de Bacon se fecharam, e com um estrondo ele caiu sobre o Plusle, soterrando-o no processo.

Aquela era a única chance que teria para recuperar meu Pokémon, puxei a Pokéball, mas a Pokéball de Peach rolou do meu bolso e se abriu, libertando uma Pokémon mais furiosa do que o normal, ela pulou sobre mim, cravando os dentes no meu braço, o tecido do moletom protegeu um pouco, mas senti a dor percorrer meu corpo, principalmente por ela ter mordido o mesmo braço onde minhas queimaduras ainda cicatrizavam. Tentei girar o corpo, derrubando-a, mas ela se prendera ao meu braço de forma que não conseguia afastá-la.

Eu a sentia forçar as presas, como se quisesse arrancar meu braço do corpo e não duvido nada que conseguira, até que de repente, uma Pokéball passou voando e a atingiu em cheio. O dispositivo fez um barulho seco ao atingi-la no alto da cabeça e finalmente, ela se soltou do meu braço, mais irritada do que antes, mas correu no meio da multidão e em segundos a perdi de vista.

— Por que você não usou essa droga do seu dispositivo de Ranger? – Kara gritou a poucos metros de mim, olhando repressora para Tom.

— Não funciona em Pokémon com treinadores.

— Você é um inútil – ela bufou. Meu braço sangrava vertiginosamente e Bacon ainda estava desacordado ao meu lado. – Me agradeça pela excelente pontaria – Kara apareceu ao meu lado, recuperando a Pokéball.

— O que vocês...? – Mas eu sentia a força se esvair do meu corpo, junto com o sangue que tingia o chão.

— Ouvimos pelo rádio que o sistema seria ativado antes – Tom gritava se fazendo ouvir no meio do tumulto. – Skyla não quis esperar vocês voltarem e fomos para rua.

— E a Haila? – Perguntei automaticamente.

— Eu não sei, nos separamos quando as antenas foram ativadas, as ruas viraram uma bagunça – ele explicou.

— Vocês encontraram a Clarice? – Ela era nossa única salvação já que era ela quem portava os colares.

— Não – Kara respondeu secamente.

— Não podemos ficar aqui, precisamos ir para um local seguro e nos reagrupar – Tom gritou.

— E aonde é seguro agora? – Ela rebateu irritada.

— Qualquer lugar que não seja aqui, parece bom para mim – ele olhou em volta e achou uma ruela que parecia bem mais tranquila. – Vamos!

— Mas a Peach...

— Depois você pensa nisso – Kara me puxou pelo braço. Só tive tempo de recuperar Bacon na Pokéball. Atravessamos o tumulto e chegamos à ruela. Mas ali não estava tão seguro, o Steelix rodopiava por ali e Tom nos arrastou para a rua do lado, uma larga avenida com um canteiro no meio.

Tinha muito mais gente ali e era quase impossível de andar, havia muito caco de vidro espalhados pelo chão, carros estavam revirados e destruídos. Havia um posto de gasolina na rua e as bombas tinham sido arrancadas e gasolina vazava pela rua, fazendo uma pequena enxurrada. Tom avançava, segurando Kara pela mão que me arrastava atrás dela. Meu braço sangrava, deixando um caminho avermelhado atrás de mim.

Tentávamos avançar, mas era uma dificuldade enorme, principalmente porque Tom não sabia para onde nos levar. Do nada, ele puxou Kara com força, nos arrastando exatamente na direção do posto de gasolina, o lugar mais perigoso para se estar.

No meio da bagunça, Cheren estava ali, tentando controlar um Snorlax. O Pokémon parecia confuso e agitava os braços aleatoriamente, atingindo tudo pelo caminho. O líder dizia algo ao Pokémon mas que era impossível ouvir pela distância e bagunça.

— Cheren! – Tom gritou o mais alto que pode. O rapaz espiou por cima do ombro e fez um sinal para que não nos aproximássemos mais. Eu percebia que lentamente, pé ante pé, ele se afastava do Snorlax.

— Tom, você está vendo essa tampa de bueiro? – Cheren gritou sem tirar os olhos do Pokémon. Quase aos nossos pés tinha um tampo de bueiro circular. – Eu preciso que você abra.

— O quê? – O ranger perguntou confuso.

— Agora – Cheren se virou e correu na nossa direção, o Snorlax começou a brilhar como uma luz de natal.

Tom se jogou no chão puxando o tampo com as mãos, mas ele não tinha força o suficiente. Logo, Kara e eu estávamos puxando a pesada tampa de metal e arrastando para o lado, meu braço sangrava, manchando tudo, mas eu conhecia aquele brilho, eu não tinha tempo para me preocupar com o braço lacerado.

Kara pulou no buraco, me arrastando com ela, o choque com a escuridão me desorientou por alguns segundos. Senti algo molhado sobre meus pés e Tom caiu praticamente em cima de mim, então o buraco, onde eu podia ver o céu azulado da manhã foi preenchido por uma cortina de fogo alaranjado que rugiu, retorcendo o ferro da entrada do esgoto. Ficou absurdamente quente como se estivéssemos em um forno, mas segundos depois, a cortina de fogo se dissipou como se levada pelo vento.

Kara acendeu uma lanterna e pude visualizar que estávamos mesmo no esgoto. Era um duto alto e largo, onde conseguíamos ficar em pé. Havia um pouco de água sob nossos pés, mas era mais como pequenas poças. Tom se levantou, me ajudando. Cheren estava encostado em uma das paredes, havia fuligem em seu rosto e ele estava muito descabelado.

— O que diabos foi isso? – Kara perguntou azeda.

— Self-Destruction – Cheren disse secamente.

— E?

— Aquele Snorlax era meu.

— Como...?

— Aparentemente a onda afeta todos os Pokémon, mas os que temos menos afinidade se tornam mais propícios – a voz dele era quase fantasmagórica.

— Belo líder você, hein – a menina provocou.

— Cala a boca, Kara – minha voz ecoou na galeria. Isso explicava por que Peach tinha sido a única a escapar. Dei um muxoxo desalentado, eu tinha deixado a Pokémon da Cassie para trás, eu não poderia me perdoar por isso.

— O que vamos fazer agora? – Tom perguntou. Eu podia ouvir o som de fogo crepitando acima de nós e ainda havia muito tumulto na rua.

— Eu não sei – Cheren levou as mãos aos cabelos, ele parecia bem desestabilizado pela perda do Snorlax.

— O que aconteceu com os outros? – Tom perguntou, Cheren só deu de ombros.

— O que aconteceu afinal? – Perguntei.

— Depois da mensagem de rádio, Skyla decidiu ir atrás de vocês. Burgh falou para Bianca e Louis ficarem no esconderijo, mas no final, todos fomos para a rua e acho que o resto você pode presumir – o líder comentou desanimado.

— Haila sabe sobre o Corin? – Já que eles tinham ouvido do ataque pelo rádio, ela deveria ter ouvido sobre Fome e o barco.

— O que tem o Corin? – Tom perguntou confuso.

— A Team Plasma recuperou Fome, por isso eles adiantaram o ataque.

— Não foi nos informado nada disso, apenas que era para se prepararem, pois o Sistema Cobalion seria ativado – aparentemente, cada esquadrão tinha recebido informações diferentes para execução. Eu não sabia a qual esquadrão pertencia o Plasma que eles tinham roubado o rádio.

— Mas o que aconteceu com Corin e Arthur? – Tom insistiu.

— Eu não sei, não foi dito nada sobre eles, mas eles encontraram Fome no barco – eu contei tudo o que sabia.

— Acho que já temos problemas demais para nos preocuparmos – Kara destilou. Tom fechou o cenho, pronto para ralhar com a irmã, mas o som do Xtransceiver de Cheren tocando os interrompeu.

— Skyla? – O líder atendeu ansioso depois de ver o nome no visor.

— Cheren, graças a Arceus – ela respirou aliviada assim que ele atendeu. – Você está bem?

— Eu estou vivo, é o suficiente, e você?

— Diria que o mesmo – ela respondeu. – Aonde você está?

— Perto do Centro Pokémon e você?

— Na direção do ginásio – estávamos em pontos completamente diferentes e muito longes um do outro.

— Está sozinho? – Skyla perguntou.

— Kara, Tom e Deedee estão comigo – Cheren nos encarou antes de responder.

— Ele encontrou com o Deedee? – Pude ouvir a voz de Haila ao fundo e senti o corpo formigar por um segundo, sentindo um alívio que não deveria.

— Eu estou com a Haila, o Cilan e o Burgh – Skyla anunciou.

— Alder? – Cheren perguntou.

— Não sabemos – a mulher parecia não se importar muito.

— Eles encontraram com a Clarice? – Perguntei do meu canto, mas Skyla conseguiu me ouvir, de modo que Cheren não precisou refazer a pergunta.

— Sim, encontramos com ela, e ela já nos entregou os dispositivos – Skyla informou.

— Ela está bem? – Prossegui, me aproximando do líder e espiando a ruiva que aparecia na telinha.

— Está sim, está conosco, ela estava muito preocupada com você – Skyla me espiou.

— Eu também – Haila enfiou a cara no visor. Ela estava uma bagunça, mas parecia melhor do que eu.

— Certo, o que vamos fazer? – Cheren retomou antes que Haila e eu nos apossássemos daquela conversa.

— Reagrupar? – Skyla questionou. Ela ainda parecia querer manter o grupo unido.

— Acho meio difícil – e na nossa atual situação era mesmo.

— Bem, Burgh acha que devemos ir até o presidente.

— E você? – Cheren perguntou sabiamente.

— Achar os lendários é minha prioridade, você sabe. Vamos usar as informações que Clarice nos passou. E você, o que pretende?

— Bem, acho que podemos chegar até uma das Torres de Rádio, se as desativarmos, o sinal deve ser interrompido – ele deu uma espiada na galeria, como se avaliasse sua localização.

— Tem certeza que consegue?

— Confie em mim, Skyla – Cheren disse e a confiança dele parecia ter ressurgido.

— Certo, me ligue se precisar.

— Você também – e ele desligou o aparelho.

— Então vamos até as antenas? – Tom perguntou.

— Sim, se me lembro bem do mapa do Burgh, essa galeria vai até uma das três antenas principais – sério que ele lembrava o mapa de cabeça?

— Você quer que fiquemos no esgoto? – Kara fez um bico.

— É mais seguro que o caos lá de cima, além disso, as paredes bloqueiam parte do sinal, o que torna seguro para os nossos Pokémon – Cheren explicou.

— Mas é nojento – e era um pouco, mas era menos ruim do que eu imaginara.

— Se não concorda, porque se aventurar sozinha lá em cima – Cheren rebateu.

— E como vamos fazer, se não temos os dispositivos? Estamos protegidos aqui, mas vamos ter que sair quando chegarmos ao prédio – Tom perguntou.

— Vamos nos virar com o que temos.

— Tipo nada? – Kara deixou escapar.

— Exatamente – Cheren fez um sinal para que começássemos a nos mover.

— Vamos morrer desse jeito – ela bufou, se pondo a andar.

— Provavelmente – Cheren concordou.

Notas finais
E até semana que vem!