Rota Zero
35 Missão
Notas iniciais

Haila
Missão
Vozes exaltadas, quase em coro me rodeavam, instigando uma variedade maior de golpes e de crueldade. Como crianças podiam ser tão más quando queriam? Senti o impacto do soco seguinte e arfei de dor. A garota sentada em cima de mim não parecia hesitar.
Estendi a mão direita e consegui agarrar o cabelo dela, dando em seguida um arranque com toda a força que pude. Ela se desequilibrou por um instante, tempo suficiente para que eu pudesse girar meu corpo e tira-la de cima de mim.
Em um movimento quase instintivo acertei seu rosto com a mão aberta e depois saltei sobre ela, cravando minhas unhas nos seus ombros. – Você bate como uma garotinha – rosnei dando o primeiro soco depois que fomos ao chão.
Ela gritou quando acertei seu nariz e novamente quando o segundo golpe acertou sua bochecha fazendo seu rosto virar para o outro lado e o local ser tomado por uma cor rubra no mesmo instante.
Os garotos em roda a nossa volta aumentaram seus gritos em euforia enquanto eu repetia os golpes mais uma vez e de novo. Meu rosto queimava e minha perna doía onde eu recebi o chute que me derrubou. Parecia que por um instante tudo estava em câmera lenta e eu tinha percepção de tudo a minha volta. Eu não queria parar, estava gostando de cada soco, de cada grito. Eu queria vê-la sofrer.
Já havia um pequeno corte na boca da garota que agora cobria o rosto com as mãos tentando se defender inutilmente dos meus golpes, quando ouvi a voz furiosa me chamar – Haila, você está louca? –Jaden agarrou minha blusa e me puxou bruscamente, me tirando de cima da vadiazinha de cabelos esverdeados.
— Não se meta – alguém na roda gritou desapontado e Jaden o encarou com chamas nos olhos.
A garota se sentou meio desorientada e colocou a mão com cuidado sobre o corte em seu lábio, ela estava com uma expressão horrível, o que sua atual aparência só ajudava a piorar. Ergueu o olhar de encontro ao meu e sua expressão foi tomada de fúria. Ajeitei meu corpo novamente e já estava pronta para saltar sobre a garota quando Jaden deu a mão a ela.
A garota se assustou por um instante e depois a agarrou, se levantando com o apoio de meu irmão. Me levantei junto e olhei revoltada enquanto ele pedia desculpas por meu comportamento “selvagem”.
Depois que a garota ajeitou sua roupa no corpo, o grupo de garotos começou a se dispersar. O pátio da escola já voltava a correr normalmente, mais uma vez cheio de comentários sobre meu nome.
Jaden voltou sua atenção pra mim, cruzando os braços e me encarando com seu olhar repreensor. – Eu estava ganhando se quer saber – gritei pra ele sentindo meu corpo doer em lugares que eu ainda não tinha percebido estarem machucados.
— Se nosso pai descobre que você está agindo dessa forma, ele vai te dar uma surra muito maior que essa – contou revoltado.
Ele sempre o fizera, sempre se meteu em minhas brigas. Acordei sentindo o balanço do carro pela estrada de terra batida, enquanto íamos em direção a Driftviel City. Skyla falava com alguém com a voz tranquila, então decidi tentar voltar a dormir. Não queria pensar em Jaden, nem em Deedee e nem em Simi, de um jeito ou de outro não tinha tido um bom desenrolar com nenhum deles, mas quem sabe eu não tivesse melhor sorte agora.
Porém, em dado momento entre o inconsciente e o acordada eu ouvi meu nome. – Haila veio comigo – fiquei mais desperta no mesmo momento, mas decidi não me mover. – Claro, é perigoso, ela passou por muita coisa e terá de mostrar que está preparada. – Concordou com um ronronar e depois suspirou – verei com Clay esses detalhes. Estamos quase lá. Já estou com saudades – e desligou.
“Terá de mostrar que está preparada” se era isso que ela queria era isso que eu ia fazer. Torci os lábios como reflexo e me assustei quando percebi, então decidi parar de fingir. Me ajeitei no banco e olhei para Skyla que dirigia séria. – Por quanto tempo eu dormi? – Perguntei tentando me espreguiçar como podia no banco do passageio.
Ela sorriu e me deu uma olhada rápida – quase duas horas. Você não ouviu meu conselho, não é?
— Sobre dormir cedo noite passada? Estava mais para uma ordem – respondi com um tom meio irônico.
— Aparentemente você não costuma seguir regras, não é mesmo? – Ela respondeu mais séria. Olhei-a um pouco confusa e senti um frio na barriga – não pense que me esqueci da presença de vocês na reunião. A aprendiza de Elesa já recebeu sua punição.
Abri a boca e hesitei a princípio – de certa forma – disse sem jeito, – eu a coagi a fazer isso. Não é como se ela não tivesse tido vontade, mas...
— Eu estou falando sério, Haila – me olhou por mais um segundo antes de voltar a encarar a estrada vazia. O tempo havia fechado em algum momento e nuvens escuras diminuíam um pouco a luminosidade do dia – se qualquer outra pessoa tivesse notado a presença de vocês ali, com certeza, seriam interrogados e tomados sob custodia, por tempo indeterminado. Arceus me livre, não gosto de pensar o que teria acontecido se Grimsley tivesse desconfiado de algo.
Lembrei-me do homem alto e esguio vestido de preto. Se eu não estava enganada era um Elite Four especializado em tipos Dark. Um arrepio correu pelas minhas costas. Ele tinha ar um sombrio tal qual os Pokémon que adorava. Talvez ele até tivesse um Zoroark. – Eu sinto muito. Eu precisava saber o que estava acontecendo.
— Isso não justifica – ela respondeu rígida. Às vezes ela colocava medo. – Contudo, temos outras preocupações agora. Chegaremos em Driftveil em questão de uma hora e meia e eu tenho uma missão pra você.
Franzi o cenho ainda olhando pra ela – missão?
=8=
Assim, que atravessamos a Driftveil Drawbirge, ponte que dava acesso ao outro lado da região, começou a chover. As águas do extenso rio se tornaram bravias de repente e os ventos fortes fizeram a janela do carro assoviar.
Skyla diminuiu a velocidade quando entramos entre meio os prédios da cidade litorânea. Algumas pessoas com guarda-chuva corriam para as marquises dos prédios a fim de se protegerem das lufadas de vento.
Seguimos por várias ruas até percorrermos uma com construções menores. No final podia-se ver o mar bravio. Estacionamos embaixo da marquise do hotel e dois homens de terno correram para abrir a porta do carro.
Depois que descemos, um deles sentou-se no banco do motorista e arrancou o carro, tirando-o da entrada enquanto eu seguia a líder para dentro do hotel cinco estrelas. – Você sempre fica em lugares tão caros? – Perguntei curiosa.
— Lideres de ginásio não ganham tão bem, porém dou aulas de pilotagem – comentou sem me olhar.
Fizemos o check-in e acompanhei Skyla até seu quarto. Ela jogou sua bolsa em cima da cama e tirou a blusa, ficando apenas de sutiã. Franzi o cenho um pouco constrangida com a naturalidade com que fazia aquilo e a acompanhei com o olhar enquanto ela tirava suas Pokéball da bolsa e depois um pedaço de papel.
— Eu tenho que conversar com Clay o quanto antes – começou a dizer enquanto punha outra blusa. – Como você ouviu, ele não quis participar do nosso empreendimento e fiquei encarregada de repassar os assuntos da reunião pra ele.
Balancei a cabeça positivamente tentando imaginar o que eu tinha a ver com isso – certo.
Ela pegou as Pokéball e as entregou a mim. Peguei meio atrapalhada e depois de encará-las por mais um segundo Skyla pegou de volta uma delas. – Preciso que leve meus Pokémon até o Centro e os enviei para o enfermeiro de Mistralton City. E na volta preciso que encontre Polo nesse endereço. Ele tem uma encomenda pra mim e preciso que leve até o ginásio assim que sair do Centro Pokémon.
Concordei com a cabeça e olhei para a janela. Ainda chovei torrencialmente. – Tem que ser agora? – Perguntei desanimada. Skyla caminhou até a porta e a abriu, estendendo o braço pra mim em seguida. Sugestiva como sempre.
=8=
Ele me agarrou pela orelha, me arrastando rua afora. Inclinei meu corpo tentando diminuir a dor lacerante que tomava conta de metade de meu rosto. Andando a passos atrapalhados ao lado do meu pai. – Desculpa – pedi pela milésima vez. Eu sentia as lagrimas vindo, mas seria humilhação de mais. Todos me olhavam na saída do colégio e eu ainda podia ouvir seus comentários.
Ele não me olhou, sequer disse uma palavra. Apenas soltou minha orelha e continuou andando a passos largos. Tive de correr para alcança-lo.
Jaden estava encostada na porta do carona da caminhonete velha, me olhando com a mesma cara de sempre de quando em fazia alguma merda. – Ela falou que eu não conseguiria vencê-la em uma batalha... – ele deu a volta tão depressa que não pude mais acompanhá-lo. Se sentou em frente ao volante olhando fixamente para frente.
Jaden puxou o banco e se sentou no banco traseiro. Estava agora com uma expressão preocupada, ele sabia tão bem quanto eu o quão furioso meu pai deveria estar para se abdicar de falar. Ele sempre o fazia, quando estava a ponto de nos bater ele sempre se calava, talvez tentando manter o próprio controle.
Sentei no banco do carona e abaixei a cabeça. Tive impulso de passar a mão nos meus cabelos, mas eles não estavam mais ali como naquele dia quando eles caíram pesadamente frente a meu rosto. Senti um frio na barriga, eu não queria mais pensar nisso.
Cheguei ao Centro Pokémon ensopada e graças a Arceus quando finalmente consegui sair de lá a chuva já havia parado e o sol saia sem graça por entre as nuvens. Leaf estava andando ao meu lado, pisando desanimada nas poças de água no asfalto.
De alguma forma meus pensamentos foram parar em Cilan e imaginei que ele deveria estar chegando em Nimbasa mais ou menos por agora, ele teve problemas com o restaurante e como Cress estava viajando, ele teve de esperar para visitar o túmulo de seu Pokémon.
Um homem alto vestido com um sobretudo surgiu na minha frente na calçada, vindo de um beco a minha esquerda e meu coração disparou. Parei de andar por um instante, sendo seguida por Leaf que me encarou. Ele andou mais alguns passos e parou em frente a uma loja e segundos depois uma moça sorridente saiu de lá de dentro o abraçando eufórica.
Suspirei tentando me acalmar. Algo no jeito dele andar ou mesmo seu tamanho me fez lembrar no homem que atirou na mulher do Emolga. Todos eram maiores do que eu, certo, porém foi algo quase involuntário.
Cerrei meus punhos nervosa, com meu coração ainda batendo rápido no peito e me repreendi mentalmente. Eu não podia travar se voltasse a me encontrar com um Team Plasma, eu deveria agir. Tomei um longo folego e tentei me acalmar. Só podia estar surtando.
Só queria parar com tudo que estava na minha cabeça, queria esquecer por pelo menos um minuto como fui manipulada por meu irmão e meu pai. Queria esquecer que meu Pokémon, alias, Pokémon que Cilan havia me confiado agora estava morto e tudo isso ainda se agravava por estar sozinha. Deedee...
Então olhei para Leaf que ainda me encarava e me senti desta vez angustiada. Se eu agisse por impulso talvez acabasse perdendo ela também. Eu tinha que ser cautelosa, mas também tinha que ser mais forte. Coloquei as mãos no rosto e enchi o peito de ar. Era tanta coisa, parecia que o mundo estava pesando em minhas contas.
Senti o impacto no meu ombro e voltei a me orientar. O garoto olhou para trás, com o cenho franzido e resmungou – libere a calçada.
Mostrei meu dedo do meio pra ele em represália, todavia ele sequer se dignou a olhar para trás novamente. Saiu correndo, atravessando a rua em seguida, desaparecendo na esquina seguinte.
Bufei e voltei a andar. O tal endereço ficava poucas quadras a frente, se tratava de uma loja de artigos eletrônicos. Entrei meio nervosa e atrás da vitrine havia apenas um homem careca e barbudo.
Ele me encarou desde o momento em que abri a porta e me seguiu com o olhar até que me aproximei do balcão onde ele estava – no que posso te ajudar mocinha?
— Estou procurando o senhor Polo.
Ele sorriu e colocou a mão sobre a barriga saliente – não precisa me chamar de senhor, ninguém por aqui faz isso.
Fingi um sorriso e ergui a sobrancelha – Skyla disse que você tinha uma encomenda pra ela.
Ele ergueu o indicador e caminhou um pouco para a direita, depois se abaixou e quando ergueu estava com um pequeno pacote embrulhado por papel pardo na mão. Voltou até mim e estendeu a mão.
Peguei o pacote e agradeci, entretanto quando virei de costas pronta pra ir ele resmungou – o preço está na etiqueta do lado de fora.
Me virei e o encarei sem graça – Skyla ainda não pagou?
=8=
Xinguei muito no caminho até o ginásio. Gastei dinheiro que não tinha para comprar o tal pacote e Skyla teria de me devolver cada centavo. Segui as indicações dos moradores locais e me dirigi para a saída da cidade, seguindo uma rua de pedras até chegar ao prédio isolado.
Era uma grande instalação de forma hexagonal com portões de aço com, sem duvida cinco vezes o meu tamanho. Toquei o interfone, ainda impressionada com o tamanho daquela armação de metal, quando alguém atendeu – pois não? – Disse a voz masculina.
— Meu nome é Haila. Skyla pediu que eu viesse até aqui entregar um pacote a Clay.
— Certo, pode entrar – ele respondeu desligando aparelho. Deu uma risada frustrada e encarei de novo as portas. E para minha surpresa elas começaram a se mover com um ranger metálico.
Dei meus primeiros passos pra dentro do ginásio e me encontrei dentro de um corredor vazio, porém muito bem iluminado. Dei alguns passos hesitantes até ver o garoto alto surgindo. Ele usava um boné engraçado e bermuda larga. Porém só quando ele se aproximou percebi que se tratava do mesmo idiota que havia trombado comigo na rua.
— A famosa Haila é você? – Ele perguntou até estar próximo o suficiente para me reconhecer também. – Você está horrível, vai pegar um resfriado com essas roupas molhadas.
Abri a boca incrédula e bufei. – Como assim famosa?
— Clay está te esperando na sala dele – ele soltou virando-se de costas e voltando pelo correndo. Que tipo de pessoa tinha o educado?
Comecei a correr atrás dele e finalmente o alcancei na curva para o corredor seguinte. – O que você quis dizer com famosa? – Perguntei novamente.
Ele parou, me olhou com uma expressão preguiçosa e recomeçou. – Obrigado por perguntar – ele disse com arrogância – meu nome é Dan. Estou ótimo e não, não tenho costume ficar andando devagar na frente dos outros na calçada como certas pessoas loiras de chanel – ele ironizou.
— Eu estava parada, seu idiota – gritei perdendo a paciência.
Ele deu de ombros e voltou a andar, depois colocou as mãos atrás da cabeça e sorriu – vou parar de te encher, acho que você já tem problemas o suficiente. – Depois moveu a cabeça na direção de uma porta de madeira e ficou serio – a sala do Clay é aqui. Não precisa bater.
Olhei pra ele furiosa e caminhei até a porta. Hesitei, olhando pra trás antes de abrir, mas depois de ver a expressão de Dan desisti e entrei. Do outro lado havia uma enorme sala com um sofá circular no meio, uma enorme lareira em chamas grudada na parede e ao redor dezenas de peles estranhas que preferi pensar serem sintéticas e quadros com pinturas de um homem gordo sempre de terno.
Escutei um tossido e uma cabeça surgiu do sofá mais próximo a mim coberta por um chapéu de vaqueiro. – Quem é? – Ele perguntou sem olhar pra mim.
— Meu nome é Haila, Skyla...
— A Pidovizinha nervosa – ele disse passando por cima de mim. – Sim, você deve ser Elisa.
— Meu nome é Haila, acabei de di...
— Claro – novamente me interrompeu e por um instante fiquei pensando porque as pessoas tinham mania de confundir meu nome com Elisa. – venha até aqui, deixe-me te ver.
Franzi o cenho e tenho certeza que fechei a cara. Caminhei depressa até o outro lado do sofá onde finalmente pude ver aquele velho gordo deitado no sofá, de botas de vaqueiro e terno bege. – Eu realmente gostaria de saber onde Skyla está – terminei minha primeira frase desde nos conhecemos.
Ele se sentou e tirou o chapéu revelando uma falha gigantesca de cabelo em sua cabeça. Apenas um tufo preenchia a parte superior às orelhas e uma careca brilhante reluzia no topo. Aquele era o ilustre líder do ginásio tipo Ground? Quebrou todos os meus conceitos em relação a eles. Lenora, Burgh, Elesa e Skyla. Todos tinham porte, transpiravam imponência, porém Clay mais parecia um bêbado nojento.
— Skyla foi para Mistralton City a pouco menos de uma hora – balancei a cabeça negativamente e arfei. Por isso ela tinha pedido que eu enviasse todos os Pokémon para cidade dela. – Aliás, o pacote é pra você.
O abri furiosamente, rasgando o papel com as unhas e dentro dele havia um Xtransceiver verde. Ela tinha me feito comprar uma Xtransceiver. – Por que ela faria isso? – Perguntei alto sem perceber.
Clay se levantou e coçou a barriga – ela deixou um recado pra você também – encarei Clay assustada com o comentário e ele continuou – ela disse que sem a minha insígnia você não precisa ir atrás dela.
Provar que eu era forte o suficiente. Agora isso fazia sentido. – Então vamos batalhar – o convidei na mesma hora por impulso.
Ele sorriu escancaradamente e recolocou o chapéu – claro. Quero uma batalha em dupla.
— Mas eu só tenho um Pokémon – respondi na hora.
Ele deu as costas a mim e saiu andando pelo cômodo. Aparentemente as pessoas daquela cidade não tinham educação. – Então parece que não batalharemos.
— Você não pode negar o desafio de um treinador a menos que tenha um bom motivo – respondi perdendo novamente a paciência. As pessoas ali estavam testando minha calma.
Clay olhou para trás indignado e aumentou o tom de voz para me responder – eu posso avaliar os treinadores como achar que devo. Se você está em meu ginásio e eu exijo uma batalha com dois Pokémon, você tem todo o direito de recusar e o dever se não tiver capacidade para tal.
Capacidade para tal. Meu pai Havia dito a mesma coisa no final daquele dia. Estávamos sentados à mesa quando minha mãe chegou com o jantar. O corte em minha boca havia feito meu lábio inchar e o restante pelo meu corpo ardia a cada pulsação.
— Não fique cutucando Haila – minha mãe repreendeu-me enquanto colocava a travessa sobre a mesa.
— Olha o que você fez consigo mesma – Jaden comentou me olhando desapontado, – espero que não fiquem marcas no seu rosto.
Dei de ombros. – Se eu estou assim, você deveria ver o outro cara – não contive o sorriso vitorioso.
Quando olhei para o meu pai me assustei. Ele estava me encarando serio, seu semblante estava nitidamente tomado de raiva novamente. Terminou de mastigar o que comia e estalou os dedos, colocando os braços sobre a mesa – qual foi mesmo o motivo da briga? – Ele perguntou parecendo interessado.
— Ela disse que Eevee eram Pokémon de contest. Que são bonitinhos, mas não serviam pra treinadores sérios – contei-lhe revoltada – começamos a discutir e...
— Se não me engano... – ele passou por cima de mim. Sua voz saiu alta e grave, ele não fez questão de tentar esconder a raiva. – A garota disse que você não a venceria em batalha.
— Disse e então...
— Então ao invés de batalhar – ele continuou aumentando ainda mais seu tom de voz. Minha mãe deu um passo para frente, nitidamente com medo da reação do meu pai. – Você achou que o certo seria decidir no soco? Deprimente. Você não poderia derrotá-la por isso a atacou como um Pokémon.
Me levantei da mesa, meu coração estava acelerado – eu poderia fazê-lo se tentasse.
Meu pai riu, cruzando os braços e reclinando seu corpo na cadeira – ambos sabemos que você não tem capacidade para tal.
Como ele podia me dizer aquilo? Ele era meu pai afinal de contas. Cerrei os punhos e me segurei para não gritar, eu queria jogar meu prato nele – Haila? – Minha mãe chamou, então dei as costas.
Subi as escadas correndo, passando pela porta aberta do quarto de Corin que dormia enrolado em grossas cobertas. Fechei a porta com mais força do que pretendia fazendo-a bater estrondosamente.
Me joguei na cama e abracei minha almofada em forma de Snorlax. Mordi o lábio por dentro e fechei os olhos com força. Ele nunca me dava razão.
Ouvi a porta do meu quarto abri e resmunguei com a voz abafada pela almofada – vá embora mãe, eu não tenho mais fome.
— Você não deveria confronta-lo – Jaden comentou me fazendo retirar a miniatura de Snorlax da cara e olha-lo. – Você conhece Magnus tão bem quanto eu. Ele preza a descrição acima de tudo.
— Não estou assim porque ele me repreendeu por ter passado dos limites, estou assim pelo que ele disse. Leaf e eu podemos ser tão fortes quanto você.
Ele comprimiu os lábios e seu olhar foi tomado por pena – Haila – sussurrou tocando em minha perna e eu me afastei.
— Só quero ficar sozinha agora, por favor – pedi com a voz carregada de arrogância. Jaden podia saber que aquilo era apenas uma mascara para esconder o quanto eu estava mal, mas não importava.
— Elisa? – Clay chamou me trazendo de volta das minhas lembranças e me fazendo lembrar que ele também duvidava de mim, mas ele não era meu pai e eu não tinha medo de enfrenta-lo. Arranquei a Pokéball de Leaf do bolso e a joguei para o alto, trazendo a Pokémon para o meio da sala. – Não acredita que eu posso? Eu vou te mostrar.
Ele riu com arrogância, olhando pra Leaf – sem um juiz você pode fazer o que quiser. Eu não posso te dar uma insígnia sem estarmos em uma batalha oficial.
Leaf fez seu barulho típico, porém desta vez em um tom agressivo, a primeira vez em muito tempo que ela o usura. Desde que brigou com Peach no dia em que eu e Deedee nos conhecemos. Afastei o pensamento e foquei no velhote.
— Eu não tenho outro Pokémon, não dá pra mudar o jogo pelo menos dessa vez?
Ele franziu o cenho e comprimiu os lábios me olhando de forma duvidosa – posso, mas não hoje e não com você.
Suspirei muito profundamente para não comandar que Leaf o chicoteasse até a morte e abaixei a cabeça – certo. – Disse simplesmente e me retirei da sala. Quando abri a porta o garoto estava lá, grudado a ela, provavelmente ouvindo a conversa. Bufei e passei por ele, trombando no processo.
Eu estava com frio, com fome e muito irritada. Skyla tinha sido uma vaca. Ela não precisava me deixar assim, sem sequer se despedir. O garoto surgiu correndo quando eu estava quase no portão de aço e gritou meu nome.
Olhei pra trás ainda nervosa e o encarei de punhos cerrados – era disso que você estava falando não é mesmo?
Ele olhou pra mim confuso por um instante e depois sua expressão se acalmou – não. Não foi isso. Bom foi, mas a historia está incompleta.
— Não estou disposta, ou fala de uma vez ou abra essa merda – resmunguei apontando para a saída.
— Melhor falarmos disso lá fora mesmo. – Ele caminhou até a entrada e apertou um botão em um painel eletrônico que eu não tinha visto até então. As portas se abriram ruidosamente enchendo o lugar com luz natural.
Caminhamos juntos, em silêncio até o ginásio se tornar apenas um ponto na paisagem atrás de nós e paramos próximo a uma árvore ironicamente cheia de Pidoves. – Por que está tão interessado em me contar isso? – Perguntei desconfiando da boa vontade.
— Não é que me importo, só queria saber se você era isso tudo – ele respondeu desinteressado. Quando ia abrir a boca pra xingá-lo e pedir que ele falasse logo, ele continuou – eu e Skyla fomos de encontro a Clay na mina. A conversa dos dois foi longa e até bem interessante...
Ergui a sobrancelha e dei uma risada irônica – e imagino que você não tenha sido convidado a ouvi-la.
Ele fechou a cara e cruzou os braços – você quer ouvir ou não garota? Eu não estou nem ai.
— Eu não me importo. Não faz diferença. Tenho que pegar um Pokémon e voltar aqui amanhã pra desafiar Clay, depois que eu derrotá-lo terei passado no teste. – Disse dando de ombros e desta vez dando as costas a ele. Aparentemente o jogo havia virado.
Ele deu uma risadinha e disse em um tom brincalhão – e se eu te dissesse que Skyla não quer que você passe no teste e que eu sei que Pokémon você tem que pegar pra ganhar?
— Eu diria que você é um mentiroso, mas pode continuar – respondi me voltando pra ele novamente.
Um enorme sorriso inegavelmente bonito e malicioso se escancarou em seu rosto – Skyla pediu a Clay que exigisse uma batalha em dupla e para usar o melhor time dele quando fosse enfrentar você. Logo Steelix e Sandslash. – Meus olhos se arregalaram e ele continuou – Ela disse que você era boa, mas que não estava preparada pra Team Plasma.
— Ele vai usar esses Pokémon? Tem certeza? – Perguntei incrédula.
Ele colocou novamente as mãos atrás de cabeça e ainda sorrindo disse – eu treino nessa maldita mina há quatro anos, acredite em mim, ele vai usá-los.
Suspirei e tentei não me preocupar com isso agora – e qual Pokémon eu deveria pegar?
— A montanha que fica no route 32 é conhecida por ser território de vários Serperior, eles são perigosos, mas em compensação dispensam meses de treinamento. Se eu fosse uma especialista em Pokémon planta eu iria pra lá – ele comentou quase casualmente.
Ainda estava impressionada com tudo o que ele havia dito, se ele estivesse certo eu estaria em sérios apuros. – Bom, nem preciso comentar como sabe que pretendo me tornar uma especialista.
— Skyla, é claro – responde soltando os braços e colocando as mãos nos bolsos. – E agora você me deve uma.
— Não mais que obrigação – respondi com um tom serio. Eu iria mostrar que era capaz.
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