Rota Zero
13 InDecisões
Notas iniciais
December
(IN)DECISÕES
Eu não sabia nada sobre Haila e não estava muito certo da ideia de dividirmos um quarto, mas considerando que eu só tinha dinheiro porque Cassie havia me dado a passagem de navio para Castelia, eu não poderia me dar ao luxo de reclamar.
O hotel em que ficamos era bem barato, mas tinha um padrão melhor do que aquele no beco e por isso acabamos concordando em dividir o quarto. Eu não sabia quanto dinheiro a loira tinha, mas não deveria ser muito mais do que eu. Até sugeri tentarmos voltar ao Centro Pokémon e passar uma conversa na enfermeira chefe, mas ela me olhou como se a sugestão fosse completamente idiota.
Foi Haila quem escolheu o hotel e o quarto. Ela me pediu para fazer o registro no meu nome e quando eu tentei protestar, ela disse que era o mínimo que eu poderia fazer para corrigir toda aquela situação. Achei que a garota ficaria como uma vitrola enroscada repetindo sobre o lance do assalto, como minha mãe faria, mas ela pareceu esquecer bem rápido, ou pelo menos não tocou mais no assunto depois disso.
Era um quarto pequeno com duas camas, uma cômoda, uma mesinha e um banheiro minúsculo. Tinha cortinas brancas e as camas não eram muito confortáveis, mas imaginei que seria melhor do que dormir no chão. Haila jogou a bolsa de canto, sentou na cama e libertou seus Pokémon. Na verdade, libertou apenas um Leafeon já que Simisage estava fora da pokeball desde que nos salvara do assalto.
O Pokémon não pareceu nada feliz em me ver, fez um barulho estranho e ficou em posição de ataque.
– Leaf – Haila chamou. – Pode parar com isso, ele é nosso... – Mas ela não terminou a frase. Talvez ela quisesse dizer amigo, talvez colega, talvez empecilho. Ela percebeu que eu a encarava esperando a resposta mais do que sua parceira, então apenas sorriu sem graça.
Leaf não pareceu muito convencida, mas subiu na cama e deitou ao lado da treinadora, os olhos presos em mim. Me sentei na outra cama e coloquei minha mochila de lado, agora além das mordidas de Peach, tinha uma de Leaf na coleção. Mas eu não poderia reclamar muito, doía muito menos do que qualquer mordida de Patrat que eu já tomara.
Eu deveria estar animado por chegar a Castelia, mas desde que me despedira da Cassie em Virbank City, tudo dera errado. Eu nunca viajara de navio antes e descobrira da pior forma que eu ficava terrivelmente enjoado nesse tipo de transporte. Se não bastasse, eu esbarrei em um sujeito que não foi muito com a minha cara e quis resolver nosso “problema” com uma batalha Pokémon.
Eu venci, mas não era nada para me orgulhar. Peach continuou socando o pobre Dunsparce, mesmo após ficar inconsciente. Eu tive que obrigá-la a voltar para a pokéball e ver todos me olharem como se eu fosse um delinquente. Só não ficou pior porque o Capitão Nole, pai da Cassie, apareceu para me salvar da confusão. Ele sabia que o Patrat pertencia a filha, afinal, ele mesmo tinha dado de presente quando ela completou idade suficiente para ter seu próprio Pokémon. Ele me disse que eu precisaria de mais pulso para controlar Peach e comecei a me perguntar por que raios eu estava com aquele Pokémon.
Se eu tinha alguma esperança que as coisas melhorariam em Castelia, ser banido do Centro Pokémon e quase assaltado só provavam que o restinho de sorte que eu tinha ficara em Virbank City.
Encarei Haila e ela estava passando algo na orelha de Leaf, eu não sabia o que era, mas deveria ser algum cicatrizante porque o ferimento parecia bem melhor.
– Você deve ser uma ótima treinadora. – Falei observando-a. Ela me encarou e pareceu sem graça com o elogio.
– Não, não. Eu...
– Claro que sim. – Interrompi. – Você nos salvou e ainda sabe cuidar dos seus próprios Pokémon. – Eu estava realmente impressionado. – Você deve ter um monte de insígnias já. – Eu sabia muito pouco sobre insígnias na verdade, mas sabia que quanto mais você tivesse, melhor treinador você seria. Haila deveria ter pelo menos cinco.
– Isso é só um Potion. – Disse balançado o frasco diante do meu rosto. – É um item básico para qualquer treinador iniciante. Qualquer idiota sabe usar. – Ela terminou a frase e então me encarou, deveria estar estampado na minha cara que eu nunca ouvira falar disso. – Você não sabia? – Pareceu incrédula.
– Não. – Respondi lentamente.
– A professora Juniper deve ter explicado quando entregou seu Pokémon inicial. – Pensando agora, Bianca deveria ter dito algo a respeito, mas eu mal me lembrava dela, quanto mais do que ela dissera. – Como você sobreviveu tanto tempo em jornada sem saber desta informação? – As sobrancelhas se curvaram.
– Bem, não faz muito tempo que eu saí em jornada na verdade. – Passei as mãos pelos cabelos, nervosamente. Eu não me importava muito com a opinião alheia, mas eu não queria que ela me achasse um completo idiota. – Faz uma semana que sai de casa. – Não tinha como mentir a respeito, que desculpa eu usaria para não saber o que era um Potion?
– Mesmo? – Me preparei para a zombaria, mas ela não veio. Haila sorriu, mas eu não soube interpretar o que era. – Eu também entrei em jornada faz pouco tempo.
Desta vez, fui eu quem curvou as sobrancelhas. Ela me parecia muito preparada para quem saíra em jornada fazia pouco tempo. Mas eu estava cansado demais para questionar, cansado e faminto, faminto e pobre. Com que dinheiro eu pagaria minhas refeições se agora precisava pagar um quarto de hotel, que não estava nos meus planos financeiros. Minha barriga roncou alto o suficiente para chamar a atenção da garota do outro lado do quarto. Ela sorriu sem graça e perguntou se deveríamos jantar. Haila deve ter percebido que eu não tinha muito dinheiro, porque se ofereceu para pagar.
Comemos em um pequeno restaurante na mesma rua do hotel, era barato e a comida não era das melhores, mas o clima estava agradável e Haila era uma companhia divertida. Ela me explicou várias coisas sobre Potion e outras medicinas, além disso, ela tinha verdadeiro amor por Pokémon tipo planta. Eu os achava apenas vasinhos com pernas, mas os olhos dela brilhavam ao comentar sobre os tipos que conhecia. Ela me contou que veio de Nuvema, que o irmão era um grande treinador e que ela ainda não tinha se decidido por qual caminho seguir. Quando perguntei por que só entrou em jornada recentemente, ela desconversou.
Ao sairmos, a garota parou diante de um poste com uma grande propaganda colada. Havia um grande Minun no cartaz, com uma expressão alegre, acima dele estava escrito “Grande Torneiro Pokémon” em letras bem chamativas. Pela descrição era uma espécie de Contest, mas próprio de Castelia. Normalmente, eu não me interessaria por essas coisas, mas o prêmio em dinheiro saltava aos olhos.
– Você vai se inscrever? – Encarei Haila, sabia que ela não era uma coordenadora, mas já que não havia se decidido, nada impediria.
– Acho que não. – Respondeu coçando o queixo. – Eu não que tenha talento para esse tipo de coisa. – Apontou para uma parte específica do cartaz, que se referia a uma etapa com dança. – O dinheiro seria uma boa, mas tem que pagar a inscrição e acho que não estou podendo fazer isso. – E tomou o caminho do hotel.
Fiquei encarando o cartaz, tentando assimilar o máximo de informação que conseguia. Uma parte minha não queria nem chegar perto disso, mas outra estava bastante determinada, e eu tentava me convencer que era apenas pelo dinheiro. Ouvi Haila me chamar e corri até ela, ainda sem decidir o que fazer.
No resto da noite, Haila ficou lendo um grosso livro que eu não fazia ideia do que era. Ela parecia muito compenetrada na leitura, então achei melhor ficar na minha. Leaf estava deitada ao lado dela na cama, ainda me encarando com certa animosidade. Já Simisage corria pelo quarto brincando com Chiclete. Quando voltamos da rua, decidira libertar meus Pokémon (exceto Peach, por motivos óbvios). Chiclete e Simisage tinham se dado muito bem e enquanto Bacon parecia muito mais interessado em saltar nos meus travesseiros. Eu não conseguia tirar o tal concurso da cabeça e consequentemente dormi muito mal, já que não sabia se deveria participar ou não.
Quando acordei, Haila ainda estava dormindo, dividindo a cama com seus Pokémon. Bacon estava enrolado nos meus pés e Chiclete deitado no tapete no centro do quarto. Eu estava com olheiras enormes e meu cabelo estava pior do que todos os outros dias somados. Procurei algo dentro da mochila para prender meu cabelo, quando encontrei o livro que minha mãe me dera. Desde que partira de Flocessy Ranch, nunca mais tinha olhado para ele.
Folheei e vi a parte em que parara, era uma espécie de guia inicial sobre Contest. Talvez, se eu seguisse as indicações ali, eu pudesse me sair bem. Como Cassie dissera, coordenadores não eram assim tão comuns em Unova e talvez, eu não tivesse muitos concorrentes. Eu não sabia como Bacon e Chiclete se sairiam, mas Peach, com certeza, tinha muitos pontos de beleza (só faltava convencê-la a me obedecer). Eu precisava do dinheiro, tinha prometido que orgulharia Cassie e precisava pagar o jantar que ficara devendo a Haila. Além disso, eu saíra de casa para me tornar um coordenador, não era o que eu desejava, mas já que eu estava ali, por que não? Deveria ser a empolgação da Cassie e a coragem da Haila agindo em mim, porque naturalmente, eu jamais tomaria essa decisão.
=8=
– Achei que tinha fugido e me largado com as contas do hotel... – A garota começou enquanto secava os cabelos em uma toalha cedida pelo estabelecimento. Ela me olhava com severidade. Ela não era muito transparente, mas aquele olhar significava que ficaria muito ofendida em ser passada para trás por um idiota como eu.
– Nossa que boa impressão você tem de quem trouxe seu café... – Respondi sem encará-la, eu estava sentado no tapete que Chiclete dormira e com o livro da minha mãe no colo. Ela viu uma embalagem de papel de uma cafeteria que tínhamos passado durante a procura do hotel em cima da mesinha e pareceu mais surpresa do que satisfeita.
Quando eu voltei da rua, Haila estava no banho. Leaf ainda estava dormindo e Simisage estava treinando ataques com Chiclete, ou ao contrário, não dava para saber. Bacon foi o único que me acompanhou e parecia bastante feliz por dar uma volta por Castelia, mesmo tendo andado poucos quarteirões.
– O que foi fazer na rua tão cedo? – Ela não pareceu realmente interessada, parecia mais para puxar assunto e não ficarmos em completo silêncio, mesmo dividindo um quarto.
– Eu me inscrevi no torneiro... – Ela me encarou sem entender. – Aquele do cartaz. – Os olhos azuis se arregalaram e ela abriu a boca algumas vezes, mas não proferiu som algum. – Maneiro né? – Disse sorrindo, ela deveria estar estupefata com a minha decisão.
– Você é idiota? – Inquiriu depois de respirar fundo. – Por que você se inscreveu? – Ela estava estupefata, mas não da maneira positiva como eu imaginara.
– Por que achei que seria... bom? – Virei a cabeça de lado, confuso. Ela revirou os olhos com minha resposta e sentou na própria cama.
– Como você acha que vai ganhar? – Questionou. – Não que não acredite nas suas habilidades. – Ela não acreditava. – Mas você mesmo me disse que está em jornada faz só uma semana. Treinadores mais experientes demoram muito mais tempo para entrar nesse tipo de torneiro, ainda mais que o foco é coordenadoria e...
– Mas eu sou um coordenador. – Interrompi.
– Como é? – Ela piscou várias vezes como para ter certeza de que estava acordada. – Como assim, você não me disse nada sobre isso.
– Bem, minha mãe quer que eu seja então conta como se fosse, eu acho. – Ela parecia incrédula.
– Se assim fosse, eu seria criadora de... – E tapou a boca com a própria mão, como se tivesse dito algo que não deveria. – De qualquer forma... – Mudou de assunto como fizera enquanto conversávamos no jantar. – Sua mãe querer que você seja coordenador, não te torna um...
– Diga isso para Adizia Charleston.
Os olhos dela se arregalaram e o tempo pareceu parar por um segundo enquanto a mente maquinava.
– Espera. – Haila tentava por ordem aos pensamentos. – Sua mãe não pode ser Adizia Charleston, o seu sobrenome não é Hanks? – Ela questionou incerta. Haila estava na recepção enquanto eu fazia registro do quarto e me lançou um olhar de ‘que porcaria é essa’ enquanto o recepcionista ria abertamente da barbaridade que era meu nome.
– December Christmas Hanks. – Respondi categórico. – Era para ter um Charleston no meio, mas meu pai ficou preocupado que isso atrairia muita atenção. – Não que tivesse realmente feito alguma diferença, o nome por si só não ajudava, e com minha mãe me buscando na escola e promovendo a carreira literária com as mães dos meus colegas, é claro que eu sempre acabava chamando a atenção. – E não me olhe desse jeito, eu não tenho culpa de ter esse nome ridículo. – Ela me olhava com um misto de espanto e deboche, não deveria ter acreditado que era meu nome de verdade quando registrei o hotel.
Apesar de tudo, Haila não parecia totalmente convencida, então peguei minha pokédex e mostrei para ela. Fora meu nome ridículo exibido, estava minha filiação e o nome da mulher piscando abaixo do meu. Ela torceu os lábios em um careta e escorregou da cama para o tapete, então do nada me puxou pela gola da camiseta.
– Como você pode ser filho da Adizia e ser um completo zero a esquerda? – Ela parecia meio indignada, meio furiosa. – Até eu que não entendo nada de coordenadoria sei que ela é uma das melhores do ramo e você mal consegue controlar a droga de um Patrat. – Ela me sacolejava como uma boneca de trapo. – E ainda quase matou a gente! – Ela não iria começar a falar do assalto, iria? – Como sua mãe pode ser tal e você não ter aprendido nada com ela? – Ela me soltou e ficou parada diante de mim no tapete. O rosto estava vermelho e ligeiramente ofegante, mas o olhar ainda era de quem queria me matar.
– Bom, ela tentou, mas eu não ligava muito para Pokémon antes. – Dei de ombros. – Mas eu tenho um livro. – Mostrei a capa para ela. Vi os olhos claros correrem pelas letrinhas e achei que ela o arrancaria das minhas mãos e me bateria com o volume.
– Bem, se você tem o livro e já fez a inscrição, faça seu melhor, certo? – E sorriu fazendo um sinal positivo com o dedão. Traduzindo: O estrago já estava feito, então não termine de arruinar todo o resto. – Não sei nada de Contest, mas se eu puder ajudar em alguma coisa...
Nem esperei ela terminar, enfiei o livro na cara dela, apontando para uma página especifica e fiz a maior cara de pidão que poderia fazer. Era sobre Appeal, ou seja, movimentos que meus parceiros executariam para conquistar a simpatia do público. Considerando como Haila comandava Simisage e os movimentos eram fluidos e bonitos, ela deveria entender muito do conceito.
A garota leu a página rapidamente e folheou o resto para ter uma noção de até onde o assunto se estendia.
– Eu não conheço todos esses movimentos, mas posso te ensinar alguma coisa, acredito eu. – Então desviou os olhos do livro e encarou meus Pokémon. Bacon estava mordiscando a embalagem de papel da cafeteria, tentando roubar a refeição que trouxera para Haila. Já Simisage continuava em seu treinamento com Chiclete, que tinha se enrolado na cortina e rasgado boa parte do tecido. O olhar da garota sobre meus parceiros não foi o mais consolador. – Eles vão precisar de treinamento. Quanto tempo nós temos?
– A competição é amanhã. – Informei e desta vez ela realmente me bateu com livro.
– Você é um idiota!
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