Rota Zero

38 Fotografia de Cabeceira


Notas iniciais
Era para ter postado ontem, esqueci... Acontece. Enfim, capítulo bem suave do Deedee porque depois de toda a choradeira do anterior, ele precisava de um pouco de sossego. Agradeço aos comentários e leitores novos e antigos, fantasmas ou tímidos, mandem um olá. Boa leitura!

December

FOTOGRAFIA DE CABECEIRA

Apesar de o metrô ser um meio de transporte rápido, levou o dia quase todo para chegarmos a Undella Town. Imaginei que a cidade seria tão grande como Nimbasa, mas tinha um ar mais provinciano, assim como Aspertia. O terreno se dividia entre um calçamento desenhado e ruas de areia. O vento vindo do mar era frio e preenchia o local com gosto de sal.

Talvez por ser uma cidade litorânea parecia escurecer bem mais tarde e as pessoas preenchiam as ruas até altas horas. Roxie marchava na minha frente, arrastando a mala de rodinhas e a guitarra pendurada no ombro. Ela reclamava da areia macia que pisava, do gosto salgado do ar e até do vento que balançava os coqueiros, o que era engraçado, afinal Virbank também era uma cidade litorânea.

Chegamos a uma pequena hospedaria a dois quarteirões da estação do metrô e Roxie pediu dois quartos. Mentalmente comecei a contar quanto dinheiro ainda tinha, só tinha me sobrado algum porque Skyla havia bancado minhas despesas em Nimbasa.

– Sinto muito senhorita, só temos um quarto disponível – disse a atendente.

– Como assim? Isso não é uma cidade turística?

– Sinto muito senhorita, mas estamos cheios – a atendente disse com a voz enjoada.

– Você pode ficar com o quarto e eu fico no Centro Pokémon – disse tentando contornar a situação.

– De jeito nenhum, Cheren me mandou não tirar os olhos de você.

– De qualquer forma, o Centro também está lotado – interrompeu a mulher.

– Como assim? Por que tudo está cheio desse jeito? É algum festival idiota? – Roxie reclamou arreganhando os dentes.

A atendente nada respondeu, apenas apontou para um cartaz colado em uma das paredes da recepção. Havia a foto de uma grande lua cheia e em letras brilhantes escrito “Festival em Tributo a Lua”. A cara de Roxie caiu.

– Que raio de festival é esse? Vocês não percebem que estamos correndo risco e...

– Se não gosta pode reclamar para as senhoritas Cynthia e Caitlin.

– Cynthia? – As sobrancelhas claras se arquearam.

– Ela vem anualmente à vila apenas para o festival – explicou a mulher.

– Ótimo – bufou irritada – vamos ficar com o quarto – finalizou colocando o dinheiro sobre o balcão.

– Mas Roxie...

– Algo contra, December? – E me lançou um olhar de quem queria arrancar minha cabeça.

– Não, nada contra. – Roxie fazia Haila parecer um cordeirinho.

=8=

O quarto tinha o chão de madeira e duas camas de solteiro. Um banheiro minúsculo, algumas cadeiras de praia, uma pequena varanda que dava direto na areia e vários pôsteres de pessoas felizes de biquíni exibindo suas peles bronzeadas expostos nas paredes, como decoração.

Roxie abandonou suas coisas de qualquer jeito no meio caminho e pulou na cama que julgava a mais macia e começou a tirar os sapatos. Ela demorou um bom tempo desamarrando os coturnos de cano alto.

– Quem é Cynthia? – Perguntei me acomodando na outra cama e tirando a mochila das costas.

– Campeã da Elite Four de Sinnoh. – Ela estava com uma dificuldade enorme em remover os sapatos.

Sinnoh era outro continente e até onde sabia era bem longe de Unova. O tal festival deveria ser mesmo bom para ela vir até aqui apenas para fazer um tributo a Lua.

– Você a conhece? – Perguntei curioso.

– Bem, nos vimos uma vez, graças a Caitlin. – Ao ver o olhar interrogativo no meu rosto prosseguiu. – Membro da Elite Four, especialista em Pokémon psíquicos.

Apenas balancei a cabeça. Eu era a pessoa mais desinformada do mundo em relação a essas coisas de ginásios, líderes e treinadores famosos.

– Não tem problemas para você? – Perguntou de repente, após tirar os coturnos.

– Problema?

– Dividir o quarto com uma garota?

– Geralmente Haila e eu dividimos. – Dei de ombro.

– Vocês namoram? – Perguntou descaradamente e senti meu rosto corar diante da pergunta. Clarice insinuar isso era uma coisa, mas a pergunta vir de Roxie tinha um peso totalmente diferente.

– Dividimos porque somos dois quebrados – e era verdade.

– Entendo. – E começou a desmanchar o penteado.

– E você e Cheren? – Me senti no direito de perguntar. Eles eram bem próximos e ele confiara nela para cuidar de mim, então deveriam ser bem íntimos.

O rosto dela ficou absurdamente vermelho, muito mais do que o meu ficara e deixou a franja recém solta cobrir a cara.

– Não, nós somos só colegas. – Mas as mãos apertavam nervosamente a barra da blusa.

– Vocês fariam um bom casal – me manifestei e ela corou ainda mais.

– Ele é bonito, não é? – Perguntou me encarando de um jeito engraçado, como se esperasse minha aprovação.

Era uma pergunta estranha. Eu não faria rodeio nenhum para responder se um cara fosse bonito ou não se alguém me mostrasse uma foto de revista. Mas dizer isso de alguém que eu conhecia e convivia era estranho. Cheren era bonito, mas eu não me sentia a vontade de dizer isso em voz alta. Era o mesmo se alguém me perguntasse sobre a Haila, eu a achava muito bonita e atraente, mas nunca conseguiria dizer aquilo em voz alta e muito menos para ela.

– Deve ser – respondi e ela balançou a cabeça.

A garota pulou da cama e começou a fuçar na mala, até achar a roupa que queria e se trocou ali mesmo, no meio do quarto, bem na minha frente, sem cerimônia nenhuma. Talvez fosse coisa de artista, não sentir vergonha de se expor.

Eu queria dizer que tinha ficado acanhado e constrangido, excitado talvez. Mas fora a surpresa, nada mais havia acontecido. No alto de seus 18 anos, Roxie tinha tantas curvas quanto Cassie e não dava realmente para me sentir atraído, não depois de passar dias encarando as voluptuosas curvas de Skyla. Dava, no máximo, para sentir pena da falta de atributos.

– Não demore a dormir – disse voando para baixo das cobertas depois de colocar o pijama. – Temos um longo dia amanhã.

– Certo – peguei minha muda de roupa na mochila e fui me trocar no banheiro, eu não era tão cara de pau como Roxie.

=8=

Na manhã seguinte, quando acordei, a líder não estava mais lá. Havia um simpático bilhete sobre sua mesinha de cabeceira dizendo que tinha ido falar com Caitlin, que meu café da manhã estava pago e que sairíamos ao meio dia a caminho de Lentimas. E por simpático digo simpático mesmo. Havia desenhos de caveirinhas, notas musicais, guitarras e Zubats adornando o texto. Fora que ela assinava da mesma forma que dava autógrafos, era engraçado.

Ao lado do bilhete estava a foto de Roxie e seu time. Ela carregava aquilo para todo o lado e deixava sempre a vista. Na imagem era possível visualizá-la ao lado de um Toxicroak e um Amoonguss que eu já conhecia (fora com eles que ela me salvara), havia um pequeno Koffing, um Crobat e um pequeno cavalo marinho que eu não sabia o que era, e mais tarde vim a saber ser um Skrelp. A frente do grupo, Romeo, o Skuntank ator, posava com uma flor na boca. Fiquei imaginando se eu deveria ter uma foto com meu time também. Ao menos, se optasse por dar a liberdade a eles, teria sempre uma lembrança.

Sai do quarto e cruzei com a recepcionista do dia anterior. Ela parecia ainda mais mal humorada do que na noite passada e mal me encarou quando perguntei onde ficava o restaurante do hotel.

O café da manhã era bem diferente de tudo o que eu provara, tinha muitas frutas e sucos, tudo muito suave e doce. Algo bem tropical. O pequeno restaurante estava cheio e as conversas eram animadas e ensurdecedoras. Ninguém ali parecia abalado pelos acontecimentos recentes em Nimbasa, era quase como viver em outra realidade. E eu me senti um total estranho no meio daquelas pessoas.

Elas faziam planos para o tal festival enquanto eu estava em um embate psicológico sobre o que acreditar, o que seguir e o que fazer da minha vida. Acabei perdendo a fome e decidi dar uma volta pela cidade para tentar relaxar.

A cidade era bem bonita, com tons alegres e pasteis. Era possível ver bandeirolas e faixas em prata e azul enfeitando as ruas para o festival. Pessoas iam ao trabalho com roupas bem mais casuais, jovens andavam de bicicleta na orla da praia. Eu gostava do cheiro da maresia e aquilo fazia eu me sentir bem. Além disso, era possível ver vários treinadores passeados com seus Pokémon livremente. Bem diferente de tudo o que eu já vira antes. Me parecia um lugar agradável e livre de preocupações. Eu poderia facilmente me acostumar ao estilo de vida local.

Avistei o Centro Pokémon e embora não tivesse nada a fazer ali, me encaminhei para lá e me arrependi totalmente dessa decisão. Atravessei a rua e me aproximava do calçamento, mas não tive tempo de por os pés no pavimento de ladrilho colorido, a porta do lugar se abriu e um gigantesco Granbull saiu de lá de dentro.

Sair é uma palavra bonita. Na verdade, o animal foi arremessado e estatelou no meio da rua de areia, levantando sílica para todo lado. Um Granbull voador com a cara enfiada na areia, não sabia por que, mas sentia que aquilo não era um bom sinal.

A porta do Centro se abriu novamente e uma menina de calça amarela saiu correndo dali. Nossos olhares se encontraram enquanto acudia o Pokémon. Clarice.

Pareceu bem desgostosa em me ver, mas não teve tempo para protestos porque um enorme Bouffalant apareceu, batendo as patas no ladrilho em frente ao Centro. Ao lado dele, Kara estava com as mãos na cintura e uma expressão de quem queria tirar o couro de Clarice.

– Ninguém te ensinou bons modos, querida? – A voz saiu bem pronunciada.

– Não sei do que você está falando, sua cretina – Clarice gemeu – Aquele quarto é meu.

– Seu? – E Kara riu escandalosamente. – O quarto é do Centro, menina. Não pode fazer o que quiser dele.

– Mas eu cheguei primeiro, você me deve respeito. – Sério que elas estavam brigando por um quarto?

– Quem se importa com essa sua hierarquia distorcida. O quarto não é seu, eu pedi gentilmente que você me desse um pouco de privacidade, pois eu estava no telefone, você deu? Claro que não, porque o quarto é seu, só nessa sua cabeça oca.

A gritaria na rua atraia dezenas de curiosos e eu me perguntava o que Clarice andava fazendo. Ela tinha passado da inexpressiva coordenadora de Contest para barraqueira de plantão. Me lembrei da Alanna dizendo que ela estava interessada em mim e senti calafrios.

– Por que você não foi procurar um lugar discreto para conversar com o seu “namorado” – Clarice fez sinal de aspas com os dedos. – Aliás, ex-namorado já que ele te deu um pé.

Kara fechou a cara. Pude ver uma veia saltar na testa.

– Você vai pagar por isso. – Resmungou. – Bouffalant, Horn Attack.

O quadrúpede veio correndo na direção do Granbull. O problema é que Clarice estava ao seu lado, tentando espanar a areia do Pokémon. O búfalo parecia descontrolado e corria em velocidade assombrosa, o ataque não acertaria apenas o Pokémon.

– Clarice – gritei antes de realmente ter certeza do que estava fazendo. Cruzei a pequena distância que havia entre nós e a puxei pelo braço, segundos antes do Bouffalant atingir o cão rosado e lançá-lo contra uma palmeira plantada na orla da praia, há alguns metros de onde estávamos.

Ela encarou o Granbull atordoado que se levantava rapidamente. Ele parecia bem mais duro na queda do que a pequena Audino. Bouffalant fazia a volta, retornando em um pequeno trote para o lado da treinadora.

– Ei, você não é o namorado da Haila? – Kara perguntou de repente, finalmente me vendo no cenário.

– Hmm... é. – Não estava a fim de explicar novamente que éramos só amigos e tínhamos nos separado por causa de uma briga, essa papagaiada toda.

– O que está fazendo aqui? –Clarice perguntou. Era impressão minha ou ódio que dirigia a Kara tinha se voltado para mim.

– Eu... Estava passando. – Era verdade, mas ela não pareceu acreditar minimamente.

– Se você acha que vai me humilhar no Contest novamente, está muito enganado.

– Que Contest? – Eu não fazia ideia do que ela estava falando.

– Se já terminamos, você tem cinco minutos para pegar suas coisas e achar outro lugar para ficar. Seu comportamento fez você perder seu direito ao quarto e essas não são minhas regras, mas as do Centro – Kara se manifestou, após ver que toda a atenção de Clarice tinha sido desviada. Ao que parecia, Clarice tinha invocado o Granbull para resolver sua discussão com Kara, dentro do Centro. Eu já tinha me metido nesse tipo de confusão quando conheci Haila e sabia muito bem que batalhas não eram permitidas dentro da instalação.

– Não terminamos nada e eu não vou arredar pé daquele quarto. Granbull – ordenou e o bicho veio pisando duro na rua de areia.

– Clarice, eu não acho que seja uma boa ideia. A Kara é uma treinadora muito boa. – Na verdade, eu conhecia muito pouco da menina, mas sabia que ela estava em um nível semelhante ao de Haila, enquanto Clarice, bem ela já tinha perdido para mim. Não dava nem para comparar.

– Eu não quero saber o que você acha. – Me empurrou com violência, me fazendo cair sentado no chão arenoso.

O problema é que o impacto fez minhas Pokéball rolarem do bolso e ficarem espalhadas no caminho de areia. Tentei me levantar para recuperá-las, mas Clarice instigou o Granbull para cima de Bouffalant que retribuiu com um mugido e avançou em disparada.

Vi minhas Pokéball ficarem bem no meio da passagem. O búfalo avançava rápido, jogando areia para todo lado. Eu não iria conseguir salvar minhas Pokéball, mesmo que me jogasse na frente.

As pesadas patadas no chão fizeram algumas das bolinhas rolarem, mas uma estava meio enterrada na areia e foi pisoteada pelo casco duro do Pokémon. Pude ouvir o craque do plástico estalando e meu coração parou no meio da batida. Eu não fazia ideia do que aconteceria ao monstrinho daquela Pokéball.

Uma luz vermelha saiu do dispositivo e Chiclete apareceu na areia. Tinha uma expressão estranha, parecida com desespero e dor, mas fisicamente, parecia bem. Eu o tinha tirado da Pokéball poucas vezes desde o Contest e mesmo saudável, era possível ver um pequeno desnivelamento entre os ombros, culpa do braço deslocado.

Os olhos correram para mim e pararam na dupla que duelava a poucos metros dele. Bouffalant avançou, mas Granbull desviou com um salto e abriu espaço para executar um movimento. Isso fez o quadrúpede dar um giro no percurso e retomar a corrida, de forma que atropelaria minhas outras Pokéball, as que tinham rolado para o outro lado.

Mas antes que algo acontecesse, meu Riolu pulou no meio, ficando em posição de defesa e protegendo as Pokéball caídas no chão. Estava entre Granbull que preparava um ataque e Bouffalant que vinha galopando a toda velocidade. Seria um ataque duplo e ele seria dizimado.

– Bouffalant, pare! – A voz forte de Kara retumbou e o animal parou no mesmo momento, arfando. Fiquei impressionado em como ela possuía domínio sobre ele.

A contragosto, Clarice pediu que seu Pokémon também desistisse do ataque. E suspirei aliviado ao ver que meu parceiro não viraria panqueca naquela luta.

– Isso ainda não acabou – provocou Clarice.

– Veremos – Kara convocou seu Pokémon de volta a Pokéball. – Você tem um mau gosto hein? – Percebi que a frase era direcionada a mim. – Haila não é muita coisa, mas essa ai, francamente. – E retornou para dentro do Centro Pokémon, atravessando a multidão de curiosos sem se importar.

Clarice resmungou algo ininteligível e só me restou ir até Chiclete. Ele tinha se abaixado e recolhido as Pokéball caída. Estendi as mãos para recebê-las, mas ele virou o rosto e saiu marchando na minha frente, refazendo o caminho para o hotel. Embora Pokémon circulassem livremente por ali, não deixava de ser chamativo um Riolu carregando Pokéball deixando suas patas marcadas na areia. Exatamente o que havia acontecido com ele?

=8=

Quando voltei ao hotel, com Chiclete andando ao meu lado, mas fingindo me ignorar, Roxie já estava no quarto. Ela estava em pé sobre a cama e com uma caneta rabiscava os pôsteres das pessoas de biquíni, fazendo caretinhas e bigodinhos. E parecia muito brava.

– Onde esteve? – Questionou concentrada em fazer chifres em uma garota com óculos de sol. – Não fez nada idiota, eu espero.

– Só dando uma volta por Undella – sorri amarelo fechando a porta do quarto. Ela estava tão concentrada em seus rabiscos que mal vira meu Riolu. – E seu encontro com Caitlin?

– Aquela... – Bufou para reprimir um xingamento. – Ela não quer me ouvir, disse que não vai cancelar o festival. Que é muito importante para a população, faturamento da cidade e Cynthia, claro. Nem ao menos me deu atenção quando pedi para ela melhorar o policiamento do evento. Qual o problema dessas pessoas? – Bateu o pé, irritada. – Será que não se importam com o que aconteceu em Nimbasa?

– É mais fácil seguir o rumo da vida, certo? – Arrisquei, imaginando que a situação em Aspertia não seria muito diferente do clima despretensioso de Undella.

– Sim, a vida segue, mas é preciso ter precauções e... – finalmente se virou e encarou meu Riolu parado no meio do quarto. – Você disse que não tinha feito nada idiota, December.

– E não fiz.

– E por que seu Pokémon está fora da Pokéball?

– Bem, é uma longa história. – Sorri sem graça.

– Me conte – a atenção dela em rabiscar os pôsteres para descarregar sua raiva tinha sido completamente desviada.

– Eu perdi a Pokéball dele.

– Perdeu? – Pareceu desconfiada. – Não me diga que tentou libertá-lo? Cheren disse...

– Não, não –antecipei – eu perdi realmente, um Bouffalant a destruiu.

– Um Bouffalant?

– Kara e Clarice estavam lutando e eu acabei me metendo sem querer.

– Clarice não é aquela garota com quem Haila saiu no soco? – E desceu da cama, se sentando em meio aos lençóis revirados.

– Sim.

– Ela está em Undella?

– Infelizmente.

– Bem, e por que você não tentou colocá-lo em uma nova Pokéball?

– Eu tentei – e levantei a ponta da franja, exibindo a testa que tinha um carimbo perfeito de uma Pokéball. Durante o caminho de volta, tentei restaurar Chiclete em um novo dispositivo, mas quando lancei a bolinha, ele revidou com um soco e a Pokéball voou direto na minha cabeça.

Roxie encarou o monstrinho que ainda aninhava minhas outras Pokéball nos braços. Então escorregou em direção a mala e vasculhou até encontrar alguns Pokéblocos e oferecer ao azulado.

– Eu não entendo – disse assistindo-a alimentar meu parceiro. – Se a Pokéball dele quebrou e ele não quer retornar a um novo dispositivo, ele é livre agora, certo? Por que me escoltar até aqui?

– Você está na dúvida, certo? – Questionou passando a mão sobre o pelo macio do Pokémon que se alimentava avidamente dos bloquinhos oferecidos. – Sobre o que fazer do seu destino como treinador. – Apenas confirmei com a cabeça. – O mesmo vale para o seu Riolu.

Curvei as sobrancelhas tentando entender as palavras da musicista, mas elas não me pareciam verdadeiramente claras.

– Você não é mais um mestre confiável.

– Ele não poderia simplesmente ir embora já que não acredita mais em mim? – Desviei os olhos para o Pokémon, as minhas Pokéball no chão, entre suas pernas. Chiclete e eu sempre fomos muito próximos, talvez mais até do que minha relação com Bacon. Por isso, era estranho e incômodo ouvir Roxie dizer que ele não confiava em mim.

– Ele pode, mas não o fará. Mas não é só por você que ele ainda não tomou uma decisão. – Se ajeitou no chão do quarto, ao lado do meu monstrinho. – Se ele for embora, o que acontecerá aos seus outros Pokémon?

Abri a boca, mas não consegui responder nada.

– Mesmo dentro da Pokéball, eles sentem suas aflições. Se você optar por libertá-los, o que irá acontecer? – Abri a boca para responder, mas ela me cortou. – A liberdade que você tanto almeja irá separá-los.

Encarei Chiclete novamente, a maneira como, mesmo enquanto fazia a refeição, mantinha as Pokéball seguras perto de si. Durante a luta na cidade, quando ele saíra da Pokéball não fora para proteger a mim, Clarice ou Kara, era pelo bem de seus companheiros.

– Há muitas maneiras de se ver um Pokémon. Podem ser melhores amigos, bichos de estimação, ferramentas, armas – Roxie deu de ombros. – Mas há um fator que a maioria dos treinadores ignora: a maneira como os Pokémon se sentem em relação uns aos outros. Para a maioria deles, o time que formamos são sua família.

– Eu... – Eu nunca tinha pensado dessa forma. Claro que era visível a relação de amor e ódio que existia entre o pacífico Bacon e o animado Chiclete. Ou como Couve-Flor sempre servia de mediador. Até mesmo quando Abóbora chegou, todos eles pareceram felizes com a aquisição do filhote. Era visível até mesmo a forma como meus parceiros interagiam com os de Haila, formando uma grande família feliz.

– Para o Riolu você se tornou uma potencial ameaça, pois suas decisões podem destruir a família. – Finalizou.

Agora as atitudes de Chiclete faziam sentido. Se eu optasse por libertá-los, cada um voltaria para sua região de origem e eles nunca mais se veriam. Chiclete não queria se separar deles e por isso, os mantinham afastados, se certificando de que eu não faria nada estúpido. Se antes estava preso a mim pela obediência, agora ele era livre e poderia defender o que desejasse.

– Parece um pensamento muito complexo para um Pokémon ter – disse por fim.

– Na verdade, o conceito de família é muito simples, somos nós humanos, que complicamos tudo.

De certa forma, ela tinha razão. Família ia muito além dos laços de sangue. Eu havia me preocupado demasiadamente em criar um vínculo com meus Pokémon e havia ignorado completamente que eles também haviam criado laços entre eles.

Notas finais
N/T: Era para o capítulo chamar Família ou Elo, mas achei que seriam muito óbvios, ai usei a foto que a Roxie leva para todo lado para enfatizar. Comentem pessoas! Beijokinhas e até!