Rota Zero
75 Fardo
Notas iniciais
Haila
FARDO
Eu não fazia ideia de quanto tempo dormi ali sentada. A sala não tinha janelas e a luz não fora apagada. O barulho estranho tinha parado há algum tempo e vez o outro vozes vinham do outro lado da porta.
Minha barriga doía de fome, enquanto meu corpo parecia arder por inteiro, enquanto eu soava nas feridas não tratadas. A sede não me permitia mais chorar, mas meu peito vez ou outro ainda subia e descia incontrolavelmente, buscando sanar uma dor que não parecia caber em mim. Provavelmente eu estava à beira da desidratação e quem sabe também da loucura.
Mas por mais que a dor no meu corpo fora lacerante, as lembranças do sequestro eram um tormento ainda muito pior.
Refiz toda ultima noite mais uma vez na memoria. O aparecimento de Guerra, as batalhas, o sangue, as mortes e parte de mim ainda não acreditava que aquilo tudo realmente tinha acontecido. Não parecia fazer sentido. Não parecia haver verdade naquelas lembranças, a não ser a própria realidade.
Esfreguei minhas mãos uma na outra durante minutos incontáveis, talvez horas, mas tudo o que consegui foi deixar meus pulsos em carne viva. Eu estava completamente presa.
A dor nas costas já tinha se tornado algo completamente irrelevante, eu já tinha me acostumado com o incomodo. E por fim notei que a única ideia boa que eu tive foi tentar dormir e descansar como eu pudesse, porque fraca e cansada daquela forma eu nunca conseguiria fugir dali. Fosse ali onde fosse.
Acordei com o barulho da cadeira sendo arrastada. Minha boca estava com um gosto metálico odioso e agora meu pescoço também tinha entrado a lista crescente de pontos para reclamação. E seu eu realmente continuasse ali, seria uma boa coisa para me concentrar antes que perdesse minha mente.
— Vamos começar, – Guerra estava sem o uniforme dessa vez. Usava uma jaqueta cinza escura e calça jeans. Roupas que eu não fazia ideia que ele tinha, mas que agora não me surpreendia. Ele tinha tomado um banho e parecia completamente normal aos olhos de qualquer desconhecido. – Por que você está aqui?
Aquele tipo de perguntar que os militares faziam nos filmes? – Fui sequestrada por um membro de um grupo extremista que finge se importar com o bem estar dos Pokémon, mas não hesita em mata-los quando tem uma oportunidade, é claro, para o seu próprio beneficio.
Não havia qualquer emoção no rosto dele a não ser tedio. Ele estava com os braços cruzados e o olhar firme em mim, – eu quero que você se junte a mim. Essa é a resposta certa.
Fiquei tonta quando tentei rebater e acabei tendo que me dar um minuto, estava muito fraca. Parecia quase estar dopada, se realmente não estivesse, – há quanto tempo estou aqui Guerra?
— Quem lhe disse que tem o direito de fazer perguntas? – Disse com um tom arrogante. Colocou os braços sobre a mesa e apoiou seu rosto a ele. – Eu apostei todas as minhas fichas em você Haila porque acreditava que você poderia ser como eu. Que veria as coisas do jeito que eu vejo.
Acabei forçando uma risada. – Você vai ficar bem frustrado se já não está. Suponho que tenha superiores, eles não devem estar nada satisfeitos por você ter perdido Pokémon e homens tentando capturar sua irmã menor.
Finalmente eu tinha acertado algo. Seu olhar se tornou rígido o que provava que eu estava certa. Jaden tinha agido passionalmente e eu não tinha utilidade nenhuma para a Team Plasma, a não ser excepcionalmente para ele.
O que tornava tudo ainda mais perigoso. Senti um nó na minha garganta ao lembrar-me da cena de Desmond sendo arremessado e podia jurar que se não estivesse à beira da desidratação choraria. Mas o impulso ainda estava dentro de mim, meu peito chegou a convulsionar buscando forma de lidar, de fingir segurança.
— Eu tenho alguns créditos na casa, não se preocupe com meus superiores, – respondeu seco. – Podemos finalmente conversar ou ainda prefere passar mais um dia ou dois aqui para clarear sua mente?
Comprimi o lábio na tentativa de conter a vontade de umedecê-los. Não havia saliva. – Guerra meu lindo irmão me dando sempre chance de escolher o que eu quero. – O maxilar dele se moveu um pouco, mas seus olhos não se desviaram ou mudaram, – tudo bem, quer me contar alguma novidade? Espera... Poxa, eu cresci com você, pensei que soubesse tudo que há pra se saber.
Ele balançou a cabeça positivamente como se tivesse chegado a alguma conclusão, então suas feições se amoleceram. – E você conhece realmente, pelo menos até eu sair de casa.
— Essa é a hora onde você começa a contar sua historia triste? –Perguntei revirando os olhos, – Você podia me trazer um pouco de agua, quem sabe eu consiga chorar.
— Meses longe de casa e você ainda usa ironia como arma pra esconder todos os sentimentos que tem medo de mostrar. – A frase me acertou como um soco, fazendo meu estomago gelar. Ele estava certo. – Vou pegar agua pra você.
Ele saiu da sala e demorou alguns minutos para voltar com dois copinhos plásticos cheios. Ele aproximou o primeiro dos meus lábios e eu hesitei, mas além do meu orgulho negar não me faria bem algum. Tomei com vontade até meu estomago começar a doer.
Eu ainda estava queimando por dentro, minha vontade era de saltar sobre aquela mesa e usar minha cadeira para acertar a cabeça de Guerra, mas se eu quisesse qualquer coisa ali precisaria fingir. Fingir que mesmo por um segundo estava levando em consideração as coisas que ele ia me dizer.
Ele se sentou na minha frente, em cima da mesa, e juntou as mãos sobre o colo, – qual foi à parte mais difícil de sair de casa?
Encarei o garoto por algum tempo até ter certeza de que ele não estava brincando. Ele só podia estar brincando. Guerra tinha me sequestrado para saber como eu me senti ao sair de casa? – Porque quer saber isso?
— Eu disse que você não tem direito de fazer perguntas aqui, – ele respondeu de novo com um tom ríspido, mas não o tom ameaçador que usara antes.
— Se você quiser que eu responda vai ter que me responder. Eu posso estar amarrada aqui, mas continuo não sendo obrigada a ficar de papo contigo. – Fiz uma pausa estratégica, com um sorrisinho no rosto, – a menos é claro que decida me torturar.
Ele comprimiu os lábios, – você ainda acha que eu pretendo mesmo te machucar?
Inflei minha bochecha esquerda dando evidencia ao corte causado pelo tapa que ele me dera, – suas ações não condizem com suas palavras, Team Plasma.
Ele suspirou profundamente. – Se não vai responder, eu conto como foi pra mim, – algo triste correu por seus olhos, ou era simplesmente minha imaginação querendo acreditar que algo deveria correr. – Libertador.
— Imagino – e por algum motivo não fui irônica.
— Eu nunca fui um garoto normal Haila. Nunca consegui ser normal. Nunca consegui ser, fazer ou pensar da forma como eu queria porque estava preso naquela casa. Preso aquele homem. – Ele desviou o olhar, encarava as próprias mãos, – quando sai em jornada não fazia ideia se gostaria mesmo de ser um trainer. Por ser a ideia mais obvia, também me pareceu a desculpa mais esperta.
“Passei durante um longo tempo sozinho, tentando entender quem eu era. O que eu era. E foi ai que conheci Deidran. Eu tinha ganhado minha sétima insígnia, já tinha enfrentado quase todos os lideres da região. Capturado todos os Pokémon que quiseram seguir viagem comigo, mas ainda assim parecia que eu estava vivendo o sonho de outra pessoa. Então decidi encontrar N. Essa se tornou a meta da minha vida naquele momento, mas ele estava recluso, escondido em algum lugar para auto iluminação.”
— E ai o garoto órfão conheceu alguém que o aceitou do jeito que era e o garoto órfão seguiu seus passos – afirmei, esperando confirmação.
— Eu estava em Castelia quando o conheci. Faltava apenas a insígnia tipo Dragon. Estava numa exposição sobre a cultura de Kalos, uma outra região próxima e enquanto ouvia a palestra sobre pessoas com habilidades de sentir o que os Pokémon sentem ele surgiu.
Eu não estava entendendo onde ele queria chegar. – Estou ouvindo.
— Você acredita nesse tipo de coisa Haila? Que pessoas podem se comunicar com Pokémon? – Ele me olhava fixamente, como se minha resposta sobre esse assunto fosse algo realmente relevante.
E eu mesmo não sabia o que acreditar. Minha experiência com o falso Ixia só tinha me feito acreditar ainda menos nesse tipo de lorota. – Acho que o que eu acredito não é realmente relevante no momento.
Ele moveu novamente o maxilar, – eu consigo me comunicar com os Pokémon, Haila.
Revirei os olhos, – é claro. Eu também, dou comandos e eles obedecem.
— Não como animais irracionais, – ele pareceu começar a ficar nervoso, sua perna começou a balançar para cima e para baixo, – acesso parte da sua memoria, dos seus sentimentos. Consigo entendê-los.
— Que tipo de lavagem cerebral a Team Plasma fez em você? – Meu coração estava começando a ficar acelerado. Era aquele tipo de coisa que os membros da Team Plasma acreditavam?
Ele balançou a cabeça positivamente e se afastou um pouco. – Haveria como eu saber, de alguma forma, que você deu a oportunidade a Couve-flor de evoluir ou não? De aceitar aquele pedra do sol enquanto vocês acampavam? Exatamente no mesmo dia em que o seu Serperior atacou uma Deerling inocente?
Eu engoli seco, não fazia sentido. Apenas Lila, Dee e Desmond sabiam daquilo. – Quem mais está aqui? Quem mais você raptou? Lila, Dee? – O nome Desmond me veio à boca, mas ele não saiu. Meu coração começou a ficar apertado de novo e o ódio a queimar violentamente dentro de mim. Meu punho se fechou sobre a cadeira e eu tentei de novo me libertar. Eu queria pular na garganta de Guerra.
— Ninguém mais além de você, eu juro. – Eu abri a boca pra questionar como ele poderia saber, perguntar se tinha alguém nos seguindo, mas não fazia sentido. Não havia ninguém. Ele acompanhou a confusão no meu olhar por algum tempo, até sorrir e continuar, – Foi Couve-flor. Ele estava comigo lembra? É uma das lembranças preferidas dele. Outra delas é quando você perguntar se ele quer ser seu Pokémon, depois de vir do seu amigo.
Meus olhos se arregalaram e meu coração acelerou. Aquilo não era possível, era?
— É muita coisa para que você entenda de uma vez, mas tudo a um motivo para acontecer. E acredito que eu nasci assim, igual a N, para continuar o que ele não pode. Ele era muito mole para continuar com as mudanças e mudanças às vezes exigem força. – Ele serrou os punhos no alto, na altura do próprio queixo. – Eu te trouxe aqui porque acredito que você seja como eu Haila. Você e eu. Nós somos iguais, não somos?
— Você está louco, – respondi perdendo a paciência. E os olhos do garoto se endureceram novamente. – Eu não quero saber que tipo de insanidade a Team Plasma te fez acreditar. Assim que eu sair daqui vou varrer a poeira do chão com esse seu cabelo perfeito e vou te fazer se arrepender por tudo o que você com Desmond. Você vai pagar por isso nem que seja a ultima coisa que eu faça nessa vida.
Ele deu um salto de cima da mesa e deu um volta na sala nervoso. Seus passos estavam pesados e sua expressão parecia se encher mais de fúria a cada minuto. – Não pode ser, você não pode apenas ser uma pessoa comum.
Caminhou a perto de mim e aproximou o rosto do meu, seus olhos estavam queimando. – Diga – gritou, agarrando meu cabelo com força suficiente para fazer a cadeira ir para trás, – diga que também entende – gritou fazendo saliva voar no meu rosto.
— Você é louco, demente – gritei e levei um tapa que fez meu rosto virar.
Jaden estava ensandecido. Meu coração acelerou, meu rosto queimava. O garoto se afastou e estapeou a mesa com tanta força que a fez saltar, – você é minha entendeu, – apontou para mim. Seus olhos deixavam transparecer a loucura de suas palavras. Passou a mão pelos cabelos, ajeitando uma mecha que se soltou e gritou novamente, – minha, – saindo da sala em seguida, batendo a porta com força.
=8=
O tempo não parecia fazer muito sentido. Minutos poderiam ser facilmente horas, ao passo que horas poderiam ser minutos. As lembranças me atormentavam sem parar como se a inercia me obrigasse a reviver meus últimos momentos em suposta liberdade.
O corpo de Desmond sendo arrastado, jogado de um lado para o outro como um boneco me causava náuseas, ou era apenas meu estomago se revirando pelo tempo sem ingerir nenhum alimento.
As feridas no meu corpo eram um tormento constante. Ardência e dor estavam ali sob minha pele, por todo lado. Fazendo-me contorcer involuntariamente na cadeira, machucando ainda mais meus pulsos nas amarras de fita adesiva acinzentada.
Minha boca estava novamente seca e meus lábios doíam, provavelmente secos e rachados pela falta de humidade. Minha mente vagueava entre os momentos de lucidez e de sono, acompanhados pelo gosto constante de ferro em minha boca.
A porta se abriu de repente fazendo meu coração saltar, mas ao invés de Jaden uma figura alta e esguia, de cabelos longos e castelos entrou na sala. – Rose, – disse quase inconscientemente, como um reflexo pelo susto da visão inesperada da garota.
Ele me olhou por um breve momento e sua expressão deixou transparecer a reciproca do susto, mas logo ela se forçou a engolir aquele sentimento e colocou a bandeja em cima da mesa. O cheiro de comida fez meu estomago doer, havia agua lá também e eu ansiava mais por ela do que pelo próprio cozido que havia na tigela.
Voltei meus olhos novamente para a garota, tentando focar meus pensamentos, mas era difícil devido a varias horas seguidas sem dormir. – Onde estamos? – Perguntei e o próprio som da minha voz enviou uma pontada de dor a minha cabeça.
Ela me olhou por um momento e comprimiu os lábios. Estava lá, pena em sua expressão. – Eu não posso conversar com você, – disse andando depressa até a porta. A abriu depressa e inclinou o corpo para fora como se quisesse ver se alguém a seguia.
— Você sabia, não é mesmo? – As palavras se formaram sem que eu tivesse que me focar realmente nelas. – O que você disse em Seaside Cave. Você sabia o tempo todo que Guerra fazia parte da Team Plasma.
Uma pontada de indignação passou pelo rosto da garota, – você não esperava mesmo que eu te contasse. Se estivesse no meu lugar, contaria? – Ela me olhava de cima embaixo, parecia surpresa com meu estado.
— Eu nunca estaria no seu lugar. Nunca me uniria a pessoas como Guerra, Deidran e os seus soldados. Não importa o quão bonito fosse o discurso deles.
— O discurso deles também é o meu discurso, – a garota rosnou de volta, mas por mais que suas palavras fossem agressivas, algo no tom de voz que ela sustentava pareceu vacilar. – Eu não estou aqui para bater papo com você, – mas mesmo assim não tinha ido embora e isso significava algumas coisa.
Talvez ela realmente concordasse com os ideais Team Plasma, mas se Dee estivesse certo sobre ela, talvez houvesse algo de bom nela que merecia ser salvo. Que pudesse me salvar. Por mais que o garoto costumasse ser bondoso demais e isso pudesse ser julgado como uma fraqueza, aquilo também tinha se mostrado uma virtude e até então ele não tinha feito um julgamento errado, sobre qualquer pessoa que fosse.
Eu confiava em Dee, mas ao mesmo tempo ele continuava sendo minha maior preocupação. – Só me responda uma coisa, – ela me olhou atentamente, – Deedee foi capturado? Mais algum dos meus amigos está aqui?
Ela me analisou por um segundo e depois pareceu desistir, sua expressão se abrandou e ela respondeu quase em um cochicho, – só você foi capturada. Guerra não tinha interesse em mais ninguém além de você.
Então novamente a porta se escancarou e Guerra entrou. Usava uniforme preto desta vez, o que significava que talvez um dia tivesse se passado. – Obrigado por trazer a comida como eu pedi, Rose. Pode nos deixar a sós agora.
A garota conseguiu se manter calma, evitando o olhar de Guerra e se retirou sem fazer nenhum mesura.
O garoto se sentou novamente em cima da mesa e puxou a bandeja para perto de si, tomando o copo de agua em suas mãos e provando um gole. – Acredito que tenha tido tempo para pensar em todas as coisas que conversamos.
Ele estava certo, tempo era o que eu mais tinha tido e meus pensamentos trabalharam muito. Entre lembranças de uma infância com falsos momentos de facilidade ao lado de um falso modelo a se seguir. Medo por aquelas com quem me importava, tristezas pelas férias causadas e pelos dores assistidas. Mas principalmente por maneiras de fugir e por maneiras diferentes de matar.
— O que eu lhe contei é verdade e preciso saber se você compartilha desse dom comigo, Haila, – havia angustia em seu olhar. Algo completamente passional em meio à completa expressão fria e pacifica que ele insistia em carregar.
E apesar de eu desconhecer completamente qualquer capacidade de comunicação com os Pokémon, a não ser as supostas de N e Ixia, algo tinha se ascendido em minha mente. Uma constatação estranha de que talvez Guerra estivesse dizendo a verdade, ou de que estava completamente louco.
Ele não tinha como saber daquelas coisas, apenas eu tinha sido capturada e mesmo que não totalmente bem, provavelmente Dee e os outros estavam em segurança junto com os lideres de ginásio.
— Onde está Couve-flor?
Ele me olhou parecendo surpreso com a pergunta, como se a resposta fosse completamente obvia, – eu o soltei é claro.
Minha pulsação voltou a se acelerar e minha respiração se tornou ofegante por um momento, – o que? – Minha mente pareceu ter vagueado e tive dificuldade de formular qualquer pensamento acerca daquilo.
— Por mais que ele tivesse fígado contente com a forma como você o tratava, ele ainda sim é um Pokémon e não merece ser escravizado para ser obrigado a lutar e servir os seres humanos.
Algo se acendeu dentro de mim, uma fúria tão intensa que meu corpo reagiu praticamente sozinho, tentando me libertar das amarras. – Hipócrita, – as palavras vieram em um grito quase sem sentido. – Vocês Team Plasma se apegam a esse falso sentido de superioridade quando na verdade não são melhores do que mercenários. Vocês usam os Pokémon como armas numa guerra sem fundamento, matam e os roubam de seus habitats. Ou acha mesmo que sua pequena tentativa de intimidar e contratar Colecionadores passou despercebida? – O dialogo que tivera com a amiga de Desmond ainda estava fresco em minha mente. Ela ainda estava em Opelucid quando a barragem estourou. Afastei o pensamento e voltei a Guerra. – Eu tenho nojo dos seus falsos ideias.
Ele sorriu, parecendo divertido com nosso dialogo, – os Pokémon que estão comigo tem o completo direito de partir assim que sentirem vontade. Cada um deles, inclusive Glaceon batalha ao meu lado porque acreditam em meus ideais.
Não consegui de deixar um sorriso irônico brotar no meu rosto, – e você está mesmo disposto a libertar Glaceon? De nunca mais voltar a vê-lo novamente? Acha mesmo que a relação que vocês tem é algo que deva ser impedido? Não importando se o seu sangue ou o dele tenha que ser derramado para que isso aconteça?
Os olhos deles tremeram, mas por mais que eu esperasse ver a confusão em seus olhos, não havia nenhuma ali. Não havia duvida. – Um único Pokémon com um humano atípico não justifica os erros de toda a humanidade, Haila. – Ele tinha completa convicção do que dizia, – você fecha os seus olhos para o resto do mundo, dos acontecimentos históricos. Guerras travadas entre humanos e centenas de milhares de litros de sangue Pokémon derramado. Submetidos a trabalho escravo, experiências cientificas pavorosas. Vidas enclausuradas em objetos redondos, sendo muitas vezes retirados unicamente para o beneficio e entretenimento de seres humanos.
“Seja em batalhas por adornos de metal, seja sendo levados ao ridículo em exposições em prol de fitas, ou mesmo de coroas. Você pode me odiar pelos meios que usamos, pode me odiar para sempre pelo que você foi obrigada a passar na rota até aqui. Mas não pode negar o tamanho da crueldade que o mundo prefere não enxergar que é cometida contra os Pokémon todos os dias.”
— Mas deve haver uma forma pacifica de lidar com isso... – tentei argumentar, mas ele ainda tinha muito mais a dizer.
— E muito se foi feito no decorrer das décadas de forma pacifica, não é mesmo? – Ele pareceria cada vez mais exaltado, mais confiante em cada palavra que dizia. E sinceramente eu menos nos argumentos que usava. – Quantas conferências mundiais foram armadas e transmitidas para o mundo inteiro com esse tema? Quantas vozes já se fizeram ouvir em meio à multidão? Quantas passeatas, movimentos, ONGs e grupos já tentaram mudar as coisas para os Pokémon e conseguiram qualquer avanço relevante?
“Eu os ouço, Haila. Quando nenhum treinador os ouve. Ouço e entendo suas vozes quando estão sofrendo em batalhas, se digladiando, se decepando, quebrando ossos uns dos outros. Mordendo, chutando, se levando ao limite. Ouço por cima do comando de seus treinadores seus gritos de dor, de medo, de socorro e clemencia. Ouço quando eles imploraram para que aquilo tenha fim. Mas nenhum deles é ouvido, nenhum deles é entendido. A dor pra eles não para até que desmaiem de exaustão para o prazer humano.”.
Ele se levantou da cadeira e foi em direção à porta, – acredite. Não vamos parar enquanto o ultimo Pokémon não for salvo do egocentrismo humano. Enquanto uma única lagrima for derrama em uma arena de batalha.
Nossos olhos se encontraram por apenas mais um segundo antes que ele batesse a porta com força, me deixando novamente sozinha naquele cômodo praticamente vazio, com comida a menos de um metro de mim, sem que eu realmente pudesse comer.
As palavras dele apesar de toda insanidade envolvida conseguiram de alguma forma me alcançar e depois de tanto tempo eu conseguia ver novamente sobre quais pilares a Team Plasma fora construída.
A treinadora do Emolga em Nimbasa tinha sido a primeira pessoa que eu vi morrer em frente aos meus olhos, alguém que eu sequer cheguei a descobrir o nome. Aquela cena ficaria pra sempre na minha memoria, como as dezenas que foram se acumulando durante os meses que se seguiram.
Uma marca permanente que a Team Plasma tinha tatuado sob minha pele. Enraizada na minha mente como uma erva daninha, voltando à tona todas as noites para me atormentar. E por mais nobres que fossem suas intenções, por melhor e mais verdadeiro que fosse seu discurso eu sempre me lembraria da mulher do Emolga, de Simi, de Draiden, de Liepard e agora de Desmond.
Fechei meus olhos e novamente juntei todas as forças que tinha, empurrando minhas pernas, puxando meus braços, inclinando meu peito. Fiz força até ficar tonta, mas a fita não vacilou por um segundo sequer.
Eu não gritei pelas primeiras horas que passei ali, tinha orgulho próprio e algo dizia pra mim que não importava o quanto eu o fizesse, ninguém apareceria para me salvar. Mas se haviam horas ou dias que eu estava ali, já não sabia mais.
Meu orgulho fraquejou, não fazia sentido tê-lo em um lugar como aquele. Gritei a plenos pulmões até que não tivesse mais força para sustentar meu próprio corpo, deixando que ele pendesse sobre a fita que me prendia. A cada minuto eu me sentia mais fraca e o cheiro de comida ao invés de intensificar minha fome, agora me causava náuseas.
Devagar, fui apagando até atingir um estado de semiconsciência. Se estava dormindo ou se era simplesmente a pura escuridão, eu não sabia. Mas o tempo passou. Meu corpo gritava de dor, minha língua estava tão seca que arranhava o céu da boca. Eu estava começando a perder as esperanças.
=8=
Estamos apenas eu e ele em meio à escuridão, seus olhos cheios de carinho fitando os meus. Não havia dor, sangue, ou sons ao nosso redor. Éramos apenas eu e ele. – Haila, vai ficar tudo bem.
A voz de Des ecoou como um sussurro, calma e serena. Meus olhos se encheram de lagrimas, estava lá à lembrança de seus últimos momentos. Ele estava morto e eu não pude fazer nada. Me joguei em seus braços, o abraçando com força, o puxando contra mim com urgência, – me desculpe. Por favor, Desmond. Me desculpe.
— Está chegando ao fim, – ele sussurrou novamente agora em meu ouvido. E no mesmo momento neguei, o puxando mais contra mim. Não era o fim, não podia ser. – Jaden estava certo, a Team Plasma tem que vencer.
As palavras me atingiram como um soco. Me afastei por um instante buscando seus olhos, e agora estavam cheios de tristeza. A blusa que ele usava começou a mudar de cor, vermelha, como se sangue se espalhasse por toda ela.
— Eu estou morto por sua causa, – gritou me fazendo saltar. Ele se abaixou, se agachando no chão que agora se mostrava sujo e coberto de neve. Uma quase preta de tanta imundice. Escondeu seu rosto de mim e o ouvi chorar, mas agora mal podia vê-lo.
— Eu não queria... – eu também estava chorando, queria abraça-lo, mas não tinha coragem. Agora eu estava revivendo toda a cena, presa pelo movimento do Pokémon. Desmond sendo puxado, arremessado, lançado de um lado para outro.
O som de batalhas, gritos e o estalar das chamas. O frio e a neve. Eu queria gritar, pedir que tudo aquilo parasse. Que tivesse fim. Eu já não aguentava mais tanta dor, tanto sofrimento.
Quando eu fugi de casa o mundo a minha frente parecia tão promissor, tão lindo. As possibilidades de me descobrir de criar amigos, de ter um futuro longe do meu pai. Da repressão daquela casa.
Mas tudo foi desmoronando, meu mundo foi aos poucos caindo. Perdi tudo e quando finalmente tenho forças para me levantar recebo outro golpe, outra perda, descubro novas mentiras.
Acordei com a respiração ofegando e a sensação de que estaria chorando se conseguisse. Abaixei a cabeça sentindo todas as dores voltarem, sendo tomada por aquela sensação infernal de impotência, de perda e falta de esperança.
O que eu estava pensando? Que eu conseguiria mudar o mundo, quando o mundo sequer sabia que eu existia? A Polícia, Líderes de ginásio, Elite Four, Champion... Todos estavam tentando e falhando.
Lutando por uma causa que a cada instante parecia mais perdida. Uma causa que talvez não fosse tão certa, tão nobre quando vista a partir do ponto de vista dos Pokémon.
Funguei o nariz e abri meus olhos com dificuldade. Eu estava fraca, mais do que me lembrava de estar em qualquer outro momento da minha vida. O prato de comida não estava mais na minha frente, mas a sensação de enjoou ainda não tinha desaparecido.
Eu estava sozinha e a verdade era que eu não queria que tentassem me resgatar. Isso só significaria mais perdas.
Talvez Dee agora ainda estivesse querendo me procurar, mas depois de um mês, dois, suas esperanças de me reencontrar despareceriam e talvez ele resolvesse voltar para casa, voltar para sua família e ficasse em segurança.
As palavras rondaram pela minha cabeça apenas por um instante. Eu estava delirando e minha consciência ia e vinha. Eu sabia que tinha que descansar, guardar minhas forças, mas não conseguia.
Esse era o plano de Jaden? Não me destruir fisicamente, ele não precisava me torturar. Ele estava jogando com a minha mente, tentando me destruir de dentro pra fora. Esperando que eu cedesse, que perdesse minhas esperanças?
Não haveria mais lugar seguro em breve. Não havia lugar seguro para Deedee.
Senti um solavanco forte que fez a cadeira ranger, enviando meu corpo para frente, fazendo a dor voltar para cada centímetro do meu corpo. As feridas estavam se curando lentamente, ardiam menos ou era impressão minha? Minha garganta, minha boca, meus lábios estavam secos. Eu podia sentir isso, era sinal de que eu não estava mais alucinando, se realmente estivesse.
A porta do cômodo se abriu com violência e os grandes cabelos castanhos de Rose esvoaçaram para dentro, trancando a porta atrás de si, assim que conseguiu se virar completamente para dentro.
Ela usava uniforme preto da Team Plasma, o broche estampado sobre seu peito. Correu até mim depressa, dando a volta e senti suas mãos roçarem meus punhos, – o que está fazendo? – Perguntei tentando me forçar nos acontecimentos.
— Estou soltando você, se não percebeu ainda, – respondeu com arrogância, mas seu tom de voz carregava algo mais.
— Já está na hora da minha execução? – Brinquei, tentando imaginar se conseguiria ataca-la se fosse preciso. Provavelmente mais guardas deveriam estar do outro lado da porta me esperando naquele momento para me escoltar até eu estava sendo levada.
Rose deu uma risada nervosa e senti meus braços se soltarem, meus punhos queimavam, estavam feridos. Sangue seco estava onde a fita me prendia. – Você ainda acha que seu irmão faria algo assim como você, não é mesmo? – Continuou indo agora em direção a minhas pernas, me libertando completamente. – Não estou aqui sobre ordens dele, – disse depressa, dando uma olhada rápida em direção à porta, antes de voltar a se concentrar nas minhas amarras. – Você está livre, saia daqui.
Me levantei depressa e minha visão ficou turva. As coisas estavam acontecendo depressa, eu não estava conseguindo acompanhar. – O que aconteceu com Guerra?
— Nada, – ela respondeu correndo até a porta, a destrancando e dando uma olhada rápida para fora, por apenas um greta que abriu.
Me apoiei a mesa e respirei fundo, – Rose, o que está havendo? – Não podia ser paranoia minha, ou era? Era normal eu ser solta do cativeiro assim tão facilmente? Rose não deveria estar tão preocupada, deveria?
Ela correu até mim e colocou a mão sobre meu ombro, o que havia levado o tiro, e olhou dentro dos meus olhos, – você vai seguir direto esse corredor e virar a primeira direita. Quando fizer isso vá com cuidado, é melhor não ser vista. Siga reto até o final dele até encontrar as escadas, elas te levarão para o andar superior e é ai que as coisas ficam difíceis.
— Rose, – gritei, – o que está havendo?
Seus olhos pareceram se inflamar e suas feições tomaram um ar raivoso, – achei que você seria mais esperta. Estou te ajudando a fugir garota burra. Agora preste atenção...
— Preste atenção você, – passei por cima dela, tentando me concentrar na logica das coisas que eu dizia. Eu estava exausta e me manter focada estava difícil, – porque você acha que eu simplesmente vou acreditar em você e seguir suas instruções? Como eu posso confiar em você?
Ela riu, dando um olhada para o teto, quase revirando os olhos. – Você não pode. Não estou te ajudando por que agora somos amiguinhas, porque eu estou com pena de você ou qualquer coisa assim. Continuo sendo uma Team Plasma e eu vou fazer tudo o que puder pra te impedir se continuar entrando no nosso caminho. – Fez uma pausa e olhou novamente para a porta. Ela realmente estava preocupada. – Estou fazendo isso por Guerra. Ghetsis não ficou nada satisfeito quando descobriu sobre a operação para te sequestrar. Deidran e ele não podem duvidar de Jaden por algo como você.
Então ele ainda estava envolvido em tudo isso, ele continuava sendo o líder mesmo após todos esses anos. Abri a boca para dizer qualquer ofensa, mas ela continuou, – Jaden é o melhor entre os quatro cavaleiros. Sua habilidade de falar com os Pokémon, de entendê-los... é como se fosse algo divino.
— Você não acredita mesmo nessa bobagem, não é mesmo?
— Porque não acreditaria? – Ela pareceu indignada, – nenhum Pokémon dos cavaleiros foi capturado convencionalmente. Nenhum deles foi forçado a estar conosco. Jaden convenceu cada um deles a estar na causa. E cada um deles, diferente dos seus Pokémon e dos lideres, está disposto a morrer pela Team Plasma, a usar tudo o que tem para acabar com a tirania que assola seus iguais.
“Eles não tem medo, não vão hesitar, nem parar enquanto ainda puderem lutar. – Não consegui deixar de me lembrar do Fearow que me atacou no telhado do prédio em Black City. Se Serpio não o tivesse interceptado eu estaria morta agora, – vocês não tem chance contra nós. Estão perdendo e sabem disso. Agora saia daqui antes que não haja mais tempo.”.
Ela parecia muito certa do que estava falando e por mais que eu odiasse admitir algo dentro de mim gritava que aquilo não era insanidade. Forcei a me concentrar no mais importante e tentei me lembrar do que ela me dissera. Mas antes – onde está Couve-flor, meu Sunflora?
Seus olhos dançaram entre os meus, parecia incerta, – nos soltamos todos os Pokémon que não decidem se unir a nós. Se você foi capturada com ele, provavelmente Guerra deve tê-lo libertado.
Serrei os punhos tentando ignorar toda a dor no meu corpo. – Está bem, vou sair daqui sem nenhum Pokémon. As chances estão comigo.
— Você fez milagre parecido na Seaside Cave, – ela comentou sem nenhuma animação na voz, – agora escute com atenção. Não vou ter tempo para repetir. Você vai seguir direto esse corredor e virar a primeira direita. Você vai passar por mais algumas salas como essa, abrirá a porta e correrá para a direita de novo. Deve haver alguns soldados por ali.
“Siga reto até o final dele até encontrar as escadas, elas te levaram para o andar superior e é ai que as coisas ficam difíceis. Provavelmente terão muitos soldados por lá. Então espere uma brecha e vá até o próximo lance de escadas. Você não deve continuar subindo pela que você estará. Siga o corredor até a primeira bifurcação, vá para a direita e é só ter um pouco de sorte que conseguirá chegar à próxima escada. O andar superior deve ter alguns membros com Pokémon... – ela hesitou, – ai que você terá que operar seu milagre. Tudo o que eu possa sugerir é que corra e o máximo que puder e agarre uma corda quando conseguir.”
“Sua única brecha poder ser agora. Guerra e Fome estão muito ocupados com os soldados, Deidran está de novo tentando colher informações e Ghetsis está na cabine de comando. Você não deve ter oportunidade melhor pra sair daqui.”
— Promissor – comentei preocupada. Eu não sabia por quanto tempo teria forças para correr se realmente fosse preciso, que dirá ter entendido metade do que ela disse.
— Não seja pega, – disse ela girando nos próprios calcanhares, esvoaçando seus longos cabelos, indo em direção à porta. Me encarou por um instante e não consegui interpretar seu olhar. Era algo como tristeza talvez, misturada à preocupação. – E claro, se for, eu não tive nada haver com sua fuga, – terminou desaparecendo pela porta.
Era muita coisa. Eu deveria aproveitar que estava livre e tentar colher mais informações? Não, a quem eu queria enganar? Estava exausta e se precisasse lutar estaria frita. O melhor que eu poderia fazer era fugir.
Odiei Guerra mais uma vez antes de sair da sala, desejando que tudo aquilo fosse mentira e Couve-flor estivesse em algum lugar. Respirei fundo uma única vez e corri para fora, temendo tantas coisas diferentes que o próprio medo não fazia sentido.
Havia mais portas do lado de fora, uma do lado da outra. Rose não estava mais ali. Pra onde eu deveria ir mesmo? Eu estava no final de um corredor, só tinha uma escolha. Corri a passadas largas, mas não muito rápidas, não queria gastar toda a energia nesse ponto.
Duas opções, direita ou esquerda? Tentei me lembrar, mas eu não tinha certeza. Corri para a direta. Estava tudo muito quieto, apenas o zumbido da lâmpada sobre mim, mas meu coração estava disparado, talvez fosse o esforço repentino, mas minha barriga parecia ter virado uma pedra de gelo.
De repente, da próxima bifurcação a minha frente surgiram dois Team Plasma uniformizados conversando. Com armas em punho. Me joguei contra a parede e prendi a respiração. Achei que eles viriam em minha direção, mas continuaram andando pelo mesmo corredor, indo para a direita.
Senti que queria chorar, minhas pernas estavam fracas. Tentei move-las, mas estava paralisada. – Você tem que fazer, – disse a mim mesma em um sussurro. – Você já fez coisa pior. – Movi uma perna e depois a outra, quando percebi já estava correndo novamente, colada à parede.
Quando chegue a bifurcação olhei para um lado e para o outro. Havia portas duplas à direita para onde os Team Plasma foram e a esquerda um longo corredor, com alguns armários despojados em locais diferentes e mais uma bifurcação.
Não ia ter jeito, disparei correndo o mais rápido que pude pelo corredor, meu corpo todo doía e eu não tinha certeza se tinha força para correr tanto. Minhas pernas queimaram e meu folego terminou quando finalmente cheguei ao final dele.
Olhei para um lado e para o outro. Mais corredores. Não era pra ter escadas em algum lugar? Não tinha escolha, mais soldados da Team Plasma apareceram, abrindo as portas duplas no fim do corredor atrás de mim.
Me joguei para a esquerda e corri. Agora eu podia ouvir muitos sons. Passos e vozes exaltadas no andar de cima. O mesmo som que eu ouvia de onde estava preso agora se intensificara. Eu estava perto, seja lá o que isso significava.
Mais corredores a minha frente, portas fechadas me cercando. Em determinado momento, avistei uma escada a minha esquerda, mas ela levava para baixo. Aquela não era minha saída, continuei.
Virei para a direita, aonde o corredor me levava, mas assim que fiz a curva me deparei mais soldados, desta vez usando o uniforme cinza, com armas em punho. Girei o mais depressa que pude e voltei correndo.
Os soldados que saíram das portas duplas surgiriam na minha frente a qualquer momento. Eu não tinha escolha, desci pelas escadas depressa, saltando degraus, tropeçando em meus próprios pés.
Eu não estava bem, não consegui focar meus pensamentos. Eu tinha sido drogada? Faria sentido. Uma noite sem sono, por mais perturbadora que fosse não deveria me deixar tão mal assim.
— Malditos sejam, – murmurei me enfiando na primeira porta que vi. Eu precisava parar, estava exausta.
As luzes estavam apagadas, mas algo se acendeu diante de meus olhos. Havia uma janela que cobria quase toda a parede da pequena sala e por detrás dela, amarrada a parede estava Lenora. Meu coração quase saiu pela boca, mas eu não tive reação. Não tive sequer voz para gritar.
Deidran estava na sua frente, de costas para mim, com um pedaço de ferro nas mãos. Senti como se caco de vidro corresse pelas minhas veias quando pude analisar um segundo a mais a situação.
Eles não estavam sozinhos, mais dois guardas armados estavam na porta olhando a situação. Lenora estava péssima, parecia ter sofrido tortura. Seu rosto estava cheio de cortes e marcas roxas. Sangue parecia ter saído da sua boca e se alojado, seco, na beirada esquerda de seus lábios.
Seu grande cabelo volumoso estava solto e tinha falhas gritantes. Suas roupas estavam rasgadas e em alguns lugares ensopadas de suor e sangue. E por fim seu olhar estava vazio, fitando sem emoção o chão abaixo dela.
Contive o grito que me veio à garganta com as mãos, selando minha boca. Perdi o equilíbrio e quando me dei conta estava caindo sobre a mesa atrás de mim. Me apoiei como pude, mas o mundo estava girando.
Desejei que fosse apenas uma alucinação, mas não era, eles estavam conversando. Eu podia ouvir sua voz, o monologo que Deidran acabara de começar. Tentei respirar, mas ficou difícil. Só senti o impacto, eu estava no chão e não tinha força para me levantar.
Eles a estavam torturando. Deidran estava torturando Lenora.
A cena onde Deidran ordenava Zoroak de matar o pai de Iris voltou a minha cabeça como um flash, trazendo a realidade a flor da pele, me causando um arrepio. Deidran era um monstro, sem piedade ou remorso, que não temia tirar uma vida ou atormentar outra, se aquilo for necessário para que consiga alcançar seus desejos.
E diante desse monstro agora eu estava completamente impotente. Me levantei depressa e me joguei para o canto, temendo que ele pudesse me ver através do vidro. Talvez se não houvesse aqueles Team Plasma lá dentro eu pudesse invadir, tentar ataca-lo para salvar Lenora.
Serrei os punhos e analisei a sala mais um momento. Não era uma sala comum como a que eu estava presa. Era uma sala de tortura, totalmente coberta por piso branco, com ganchos presos a parede para prender correntes e sobre a mesa no meio do lugar vários objetos aleatórios, como facas, agulhas longas, uma serra e pregos.
Senti como se aquilo estivesse sendo feito em mim, senti os pregos sendo cravados sob as minhas unhas lentamente, assim como já havia visto nos filmes, rasgando a carne enquanto eu urrava de dor e sofrimento. Lagrimas que eu não tinha noção que ainda tinha vieram aos meus olhos, tentando imaginar o tipo de horror Lenora estava passando desde que fora capturada.
E Grimsley ainda tinha coragem de supor que talvez ela ainda estivesse trabalhando para a Team Plasma.
— Está no fim Lenora, querida – a voz de Deidran era baixa, mas eu ainda sim podia notar a tranquilidade no seu tom. – O ataque começará em cinco horas. Depois que exterminarmos a Elite Four não haverá mais represálias. Cobalion já é nosso e Keldeo está morto, você não foi de serventia nenhuma.
Ela ergueu a cabeça e fitou Deidran por alguns segundos, correndo os olhos por sua face e uma lagrima fina cortou seu rosto, pendendo em seu queixo. – Cobalion preferirá ter o mesmo fim a ajudar vocês, – disse cansada.
Suas pernas estavam meio dobradas, sinal de que ela não aguentava mais ficar em pé. Seu corpo era mantido naquela posição graças as correntes que prendiam seus braços para cima, como uma caça abatida.
Eu queria entrar na sala com Serpio e deixa-lo estripar todos eles, mas eu estava completamente impotente, de novo.
— Ele não tem que preferir nada, inclusive, querer nada. As vontades desse Pokémon não estão em jogo, – ele respondeu devagar, como se sentisse prazer em ouvir sua própria voz, e deveria sentir. – Está quase na hora de darmos o grande passo. Todas as cartas estão nas mãos dos jogadores e as que faltam no topo baralho.
— Se não se importa, eu prefiro ficar sozinha agora, – ela o descartou, virando o rosto.
Ela ergueu o braço e em um movimento ágil e forte acertou o braço de Lenora, de fora para dentro, fazendo um estalo alto e agudo. A ex-líder berrou de dor, lutando para voltar a ficar de pé, se chacoalhando como se assim fosse conseguir se libertar.
Tapei novamente a boca, arregalando os olhos. Minha respiração estava acelerada, minha pulsação disparada. Eu queria socar Deidran, bater nele até que meus punhos começassem a sangrar.
— Mas eu me importo, – gritou, descontrolado e acertou outro golpe na lateral do corpo dela, de novo e de novo, como se estivesse com um machado em suas mãos, tentando loucamente cortar um enorme tronco.
Lenora se debatia enquanto gritava, berrava, amaldiçoava. E golpes e mais golpes a acertavam, fazendo a mulher parecer um Pokémon descontrolado, urrando até sua voz se tornar apenas algo gutural e selvagem, tomada de dor e ódio.
Tive o impulso de me afastar e me esconder atrás da parede, de dar as costas aquela cena, mas fiquei ali de pé, de olhos arregalados e coração na boca, olhando para eles enquanto queimava por dentro.
Até que Deidran parou, deixou o pedaço de metal cair no chão ruidosamente e passou a mão na sua testa, ajeitando seus cabelos loiros, limpando o suor que surgira na sua testa. Estava ofegando, mas mantinha uma expressão animada no rosto, como se tivesse acabado de expurgar um demônio.
A face de Lenora estava torcida, deformada pela dor. Seu corpo se movia devagar como o de uma serpente antes de seu bote, indo de um lado para outro, como se fosse uma bola em cima do convés de um barco. Sangue voltava a aparecer em sua boca que agora só emitia um zumbido sem sentido. Sem proposito. Algo perturbador e profundo, como um pedido de socorro sem esperanças.
Os dois Team Plasma que estavam na sala tinham virado o rosto, mas agora que Deidran parecia ter voltado a si eles tomavam a retomar a postura, encarando o chão, para não ver o que estava diante de seus olhos.
— Você tinha potencial. Não vou dizer que foi uma tortura dormir com você porque, bem... – disse divertido, dando de ombros, –, não foi. Mas para uma mulher da sua idade você abriu as pernas muito fácil ao primeiro que apareceu te dizendo coisas bonitas.
Meus punhos se fecharam e eu os trouxe de volta as laterais do meu corpo. Ele estava sorrindo, brincando com algo tão intimo na frente de dois soldados depois de tê-la espancado. Assim que eles saíssem da sala eu iria entrar lá e carregaria eu mesma Lenora para fora dali. Eu a salvaria e faria com que Deidran pagasse pelo que fez a ela, ao pai de Iris as pessoas de Opelucid.
Ele se aproximou dela e colocou a mão em seu rosto, levando a cabeça dela com delicadeza. – Você ainda pode ajudar, meu amor. Ainda podemos fica juntos. Ser felizes quando tudo isso acabar.
Lenora ergueu os olhos e fitou-o. Seus olhos se iluminaram e como se ela tivesse enlouquecido começou a rir. Gargalhar descontroladamente, como se ele tivesse acabado de contar melhor e maior piada do mundo.
Seu rosto ainda estava tomado pela dor, mas sua voz ficava cada vez mais alta e estridente. Lenora ria como se alguém estivesse fazendo cocegas sem parar e em meio a sua insanidade balbuciou, – nunca mais.
Deidran sorriu de volta e começou a gargalhar também, mas diferente dela bem mais contido. Deu alguns passos lentos até a mesa onde aqueles objetos estavam e pegou algo como um bisturi. Olhou para trás, encarando os dois soldados que agora fitavam a cena, perplexos e apontou para ela, como se Lenora fosse uma grande piada.
Voltou a tocar o rosto de Lenora, fazendo um leve carinha em sua bochecha e depois correu a mão devagar até a nuca da ex-líder. Comprimiu os lábios como se estivesse decepcionado e cravou o bisturi no olho de Lenora.
Ela começou a gritar, se debater, chacoalhar, tentando se libertar. Mas Deidran agora prendia sua cabeça, segurando seu cabelo com força pela nuca, forçando ainda mais a lamina olho adentro da mulher.
Os gritos de Lenora se tornaram pavorosos, transformando-se em uma exclamação aguda e agorenta que provavelmente eu nunca mais conseguiria tirar da mente. O homem forçou ainda mais, enterrando quase completamente o objeto prateado pelo orifício ocular de Lenora, agora destruído, fazendo o corpo de ela despencar de uma vez.
— Quem sabe então em outra vida, – ele comentou, puxando de volta o bisturi envolto de sangue, fazendo a cabeça de Lenora tombar para trás. E lagrimas de sangue escorreram pela face da mulher.
Mas um gemido baixo e sem sentido começou a vir de Lenora. Ela não se movia, mas de sua boca uma única nota alta e sem sentido ecoou por toda a sala fazendo os soldados se sentirem desconfortáveis o suficiente para começarem a mexer como se sentissem dor nas costas ou algo estivesse em seu sapato.
Em seus rostos estava claro o pavor com aquela cena, mas na face de Deidran só havia curiosidade – você realmente é durona. Sempre gostei da sua resistência. – Caminhou até a mesa e pôs a mão no queixo, olhando para os objetos sobre a mesa com a mesma curiosidade. Passou a mão por uns cortantes, por outros objetos pesados, até encontrar um pequeno pedaço de pau com um fio preso a ele e sua expressão se iluminar.
Caminhou até uma tomada próxima e plugou o fio a ela. Depois veio desenrolando calmamente o fio, segurando a ponta da madeira onde o fio tinha inicio. Brincou um pouco com objeto em suas mãos e sorriu, olhando para Lenora.
— Obrigado pelo tempo jogado fora, – ele disse casualmente, mas seu tom tinha uma pontada de ansiedade. Moveu um pouco mais o bastão e em um movimento rápido cravou a extremidade dele no peito de Lenora.
O corpo dela começou a tremer por inteiro e o grito escapou de sua garganta, seguido pelo zumbido da corrente elétrica que correu pelo seu corpo. Eram movimentos curto e rápidos, como se ela estivesse levando golpes de todos os lados.
Seu cabelo seu ouriçaram e sua roupa começou a tomar uma coloração escura, então Deidran parou e ela pendeu para o lado, deixando o grito morrer em sua garganta. – Isso é mais divertido do que eu pensei, – ele comentou animado.
Deu um passo para o lado e se moveu depressa, acertando agora a ponta do bastão no pescoço de Lenora. Outro grito veio da garganta da mulher, mas não parecia ser humano. Era algo aterrorizante, cheio de agonia e ódio.
A pele onde o bastão tocava começou a ficar preta, seu corpo começou a se mover com mais violência e os homens no canto finalmente viraram seu rosto, tapando o nariz com as mãos. Deidran pareceu se animar ainda mais, empurrando com mais força o bastão enquanto queimaduras começavam a surgir no corpo de Lenora.
Quando finalmente o grito teve fim e a camisa de Lenora, já deformada pela eletricidade, se incendiou ele parou.
Estava tudo acabado. Meu corpo todo começou a tremer como se eu estivesse novamente na neve de Icirrus, minha garganta se fechou. Não havia palavras ou insultos, não tinha ato de fúria ou lagrimas suficiente. Deidran estava um nível a cima de tudo o que eu poderia imaginar.
— Não, não, não, não, não... – comecei a repetir correndo até o vidro, tentando chegar o mais próximo que podia para poder comprovar que não estava louca, que realmente estava dopada e aquilo tudo não passava de uma alucinação.
Era mesmo como aqueles espelhos, ninguém olhava para mim, ninguém sabia que eu estava ali e até mesmo eu preferia não ter estado. As juntas das minhas mãos ficaram doloridas tamanha a força que eu aplicava para fechar meus punhos.
Meu coração estava saindo pela boca. Batia tão forte que chegava a doer, enquanto o sangue corria furiosamente pelas minhas veias, tentando se certificar de que era o suficiente para me manter viva.
Lenora estava morta. Morta e novamente eu não pude fazer nada, mais uma vez tinha deixado que outras pessoas dominassem minha vida, o destino de quem eu gostava, me importava. Dei as cotas ao espelho e deixei meu corpo cair no chão, desta vez sem nenhuma relutância.
A bile subiu até minha boca, meu estomago se contraiu e eu senti a ânsia. Não tive tempo nem vontade de conter. Vomitei ali mesmo, deixando que tudo saísse.
Levei as mãos ao rosto limpando a sujeira e chorei como uma criança, um choro seco e quase sem lagrimas. Apenas sentindo meu peito convulsionar, buscando um consolo que não podia conseguir, não nesse momento.
Eu não tinha conseguido salva-la e todo esse tempo, que passe desde Black City viajando atrás dela, procurando noticias, batalhando contra a Team Plasma não valeram de nada. Nada do que eu e Deedee tínhamos feitos, nada do que os lideres estavam tentando estava realmente valendo de alguma coisa.
Talvez então a única verdade fosse que se eu me juntasse a Jaden, entrasse para a Team Plasma, eu teria uma chance de agir por dentro, de tentar pelo menos diminuir os estragos das ações deles.
O dialogo com Jaden me veio à cabeça e por mais que eu odiasse admitir, ele e Dee estavam certos. O ideal de Team Plasma não era totalmente ruim. Talvez realmente tivéssemos que repensar se os Pokémon deveriam mesmo passar por esse tipo de coisa.
Mas como uma onda devastadora todas as imagens desde Castelia voltaram a minha mente. A morte de Joslyn, a mulher do Emolga, o Centro Pokémon em chamas, Simi, Seaside Cave, Black City e o Fearow, Opelucid e Mistralton City, a morte brutal de Keldeo e por fim Icirrus.
Cada morte que eu carregava em minhas mais perturbadoras memorias, cada cicatriz em meu corpo, cada promessa feita me bateu com uma força descomunal fazendo meu choro se intensificar ainda mais.
Fazendo-me perder o rumo, a noção de tempo, da dor das feridas ainda abertas por todo o meu corpo. Essas marcas sempre estariam comigo, como uma tatuagem espalhada por toda a minha pele para me lembrar de que não importava o quão nobres fossem os ideais da Team Plasma, suas ações nunca poderiam ser justificadas.
E eu sozinha jamais poderia vencer. Desmond estava certo quando me disse isso no topo da Celestial Tower, eu só não estava preparada para ouvir. Serrei os punhos e me ergui. Minha respiração estava mais calma. Eu ainda era uma criança no meio de um tiroteio.
Lenora continuava lá, na mesma posição, mas Deidran e os dois Team Plasma tinham sumido. Eu provavelmente deveria ter perdido a noção do tempo enquanto estava sentada ali. Dei mais uma longa olhada em Lenora, para que eu nunca esquecesse o que foi feito a ela e prestei minhas honras, deixando a sala atrás de mim.
Sai correndo pelos corredores, passando por mais dois andares, desviando de soldados, me escondendo, me abaixando, esperando.
Não sei quanto tempo demorei, se dez minutos ou uma hora. Mas o tempo parecia mais lento. Eu estava entorpecida, talvez pelo que me deram ou mesmo quem sabe os sentimentos tinha se desligado dentro de mim.
Só sei que corri e finalmente achei a saída, sendo desperta pela surpresa que me aguardava no ultimo andar da base secreta. A luz do dia me acertou como fogo, fazendo meus olhos arderem e ofuscando as enormes velas brancas, da tão famosa barca voadora da Team Plasma. Ostentando seu brasão imperial a todos que conseguissem vê-lo em meio à floresta. Estacionada casualmente entre meio as arvores altas.
Reconheci no mesmo momento em que cheguei ao convés. Já tinha visto imagens dela antes e o vídeo do acontecido de Opelucid de três anos atrás nos jornais mais de uma vez.
Realmente havia Team Plasma com Pokémon libertos ali, fazendo guarda. E assim que consegui me orientar sobre onde realmente estava um Dewott me viu. Rose estava certa, só havia um jeito de sair dali. Correndo muito.
Disparei pelo convés até encontrar uma das cordas de amarração da vela pendendo para fora do navio voador. Agi depressa e consegui sair da vista do Pokémon, mas o infeliz começou a surtar, arrumando uma algazarra que chamou a atenção de mais soldados.
Assim que me consegui me agarrar à corda e iniciar a descida por ela ouvi vozes passando. Uma das turbinas estava bem abaixo de mim, desligada graças a Arceus. Parecia as que vi nos aviões de grande porte, no aeroporto de Skyla.
Mais um metro ou dois e minhas mãos fraquejaram, eu ainda estava muito tonta para conseguir descer até perto da turbina. A queda durou poucos segundos, mas o impacto me fez perder o ar por muito mais tempo.
Cai sobre troncos e folhas, que cortaram minha blusa, arranhando diretamente minha pele. Eu estava sangrando, mas aquilo não era nada perto da dor que senti nas costas. O lado direito doía mais que o esquerdo. A ferida da bala no meu ombro dera uma fisgada que me trouxe de volta, quando pensei que desmaiaria com a queda.
Me virei com dificuldade e me arrastei depressa para debaixo da turbina, me escondendo dos Team Plasma que pudesse me ver de cima. Fiquei ali sentada algum tempo, esperando que a dor sessasse, chorando em silêncio por Lenora e por tudo o que estava havendo em minha vida. Por tudo o que eu já havia perdido e sido obrigada a ver.
Assim que consegui ficar de pé apertei o passo, correndo para a floresta a minha frente. A mata era diferente da que eu estava acostumada, então não estávamos perto de praias. Mas também não eram como as de Icirrus, com copas mais pontiagudas, então não estávamos na região muito para nordeste.
Corri sem jeito pelas raízes e folhas secas, segurando meu dorso com o braço. Eu sentia o sangue escorrer e fazer minha camisa grudar, mas não havia sido nada fundo, apenas uma ferida superficial. Eu já conseguia notar essas diferenças.
Quando percebi , estava na frente de um rio caudaloso, me abaixei como um animal e tentei beber agua o mais devagar possível, tomando ainda sim grandes goles que me fizeram sorrir de desespero e felicidade boba.
Pela logica eu deveria seguir seu curso de para baixo e provavelmente chegaria em alguma cidade em algum momento, mas a Team Plasma estava estacionada muito próxima para eu poder voltar.
Eu conseguiria me esconder e sobreviver na floresta durante algum tempo se precisasse. Então decidi seguir o rio curso a cima e me esconder, pelo menos por enquanto. Depois de alguns metros andados, muitos, a vegetação começou a ficar mais baixa e uma montanha surgiu a minha frente.
Era quase hora do almoço, o sol estava a pico. Provavelmente já iriam notar meu desparecimento. Se já não tivesse ocorrido.
Mas nada disso importava, eu sabia onde estava, conhecia aquela montanha. Eu estava no Victory Road. O ataque eminente que Deidran citara a Lenora a Elite Four ocorreria bem na casa deles. Eu precisava avisá-los.
Fale com o autor