Rota Zero
17 Encontro
Notas iniciais
December
ENCONTRO
A semana passou rápida, mas não meu sentimento de culpa. Eu ainda me sentia mal por ter induzido Haila de que a batalha contra Burgh seria fácil, ela por outro lado, parecia não se importar com fiasco que foi a luta e estava mais preocupada em treinar seus Pokémon e se sair bem no emprego.
Às vezes, ela ainda torcia os lábios ao se lembrar da derrota e fechava a cara quando recordava que Kara havia vencido e ostentava a insígnia. Isso só a fazia pegar ainda mais pesado no treino de seus parceiros e consequentemente surrar os meus, já que treinávamos juntos.
Seu emprego estava indo muito bem, ela funcionava como distribuidora, abastecendo vários estabelecimentos da cidade com carregamentos de Casteliacone. Ela cruzava diariamente a cidade toda de bicicleta, fazendo as entregas e chegava exausta no final do dia. Parecia feliz, mas não perdia uma oportunidade de jogar na minha cara como meu emprego era infinitamente melhor, menos cansativo e de que eu não o merecia.
Eu continuava na galeria de arte, espanando quadros, tendo que conviver com o mau humor de Clarice, as zombarias de Louis e os sorrisos afetados do Burgh. A inauguração da exposição seria no final de semana e finalmente receberia meu salário e nunca mais precisaria ver a cara daquele líder afeminado.
Era final do expediente, eu já tinha me livrado daquele uniforme ridículo quando Clarice me parou no corredor. Ela estava mal humorada como sempre e achei que fosse ser repreendido por alguma coisa errada que fizera.
– Amanhã é seu último dia aqui – informou cruzando os braços. E só podia imaginar que ela estava comemorando internamente por finalmente se livrar de mim.
– Sim.
– Talvez pudéssemos sair e beber alguma coisa, como uma despedida, sabe – qualquer pessoa no mundo teria corado ao dizer tal coisa, mas as feições dela permaneciam implacáveis.
– Por que nós faríamos tal coisa? – Questionei sem entender, ela me odiava por que fazer uma despedida, só se fosse para esfregar na minha cara que nunca mais nos veríamos.
– Porque eu quero. Então amanhã é bom que você traga uma roupa melhorzinha, porque vamos direto daqui – virou as costas e foi embora, sem esperar que eu respondesse.
No dia seguinte coloquei uma roupa melhor na mochila e sai, avisando a Haila que talvez chegasse tarde, mas ela não pareceu minimamente interessada no porquê.
No final do dia, Clarice estava me esperando na saída da galeria e trajava um vestido amarelo cheio de babados e outras firulas. Estava com o cabelo preso e sorriu ao me ver, e eu nunca a vira sorrir até então, era um sorriso incrivelmente bonito. Me aproximei e perguntei onde estava o resto do pessoal, ela franziu a sobrancelha e disse que não convidara mais ninguém. Só então percebi como ela estava bem arrumada e cordial, aquilo era um encontro.
Mas não fazia sentido, ela me odiava por ser o preferido do Burgh e sempre fazia questão de ser um pé no saco. Se quisesse me matar acharia perfeitamente natural, mas um encontro?
Andamos aproximadamente dois quarteirões quando ela apontou para um café e perguntou se poderíamos parar lá. Eu passava todos os dias em frente ao local, era caro e sofisticado. Burgh finalmente tinha me pagado no final do expediente, era um salário generoso, mas eu não queria deixar todo meu dinheiro ali. Sorri sem graça e sugeri outro local. Ela franziu o cenho quando disse o nome do lugar, ela não conhecia, mas no final concordou e fomos até lá.
A lanchonete era do outro lado da praça principal, depois de atravessar uma viela, numa região não muito movimentada. Era um lugar barato onde eu almocei algumas vezes com Louis, era bastante simples, mas a comida era ótima.
Clarice não pareceu muito impressionada e suspeitei que ela quisesse ir embora, mas não o fez. Entramos, a sineta da porta tocou e o senhor Joslyn saiu de trás do balcão e veio nos atender. Ele estava por volta dos quarenta anos e estava ficando calvo e o pouco cabelo que restava estava grisalho, assim como o bigode. Ele nos indicou uma mesa, apesar do lugar estar vazio e ajudou Clarice a se acomodar. Entregou-nos os cardápios antes de voltar para sua posição atrás do balcão.
– Não há nada realmente interessante – disse a garota após folhear o menu desinteressadamente. – Por que escolheu esse lugar? – Porque era barato, mas só sorri e perguntei se ela não queria tomar um suco. Deu de ombros, então fiz sinal para o senhor Joslyn e ele desapareceu na cozinha.
O homem voltou alguns minutos depois trazendo um suco de laranja em uma grande jarra e dois copos. Serviu-nos e se retirou. Clarice tomou um gole e pareceu surpresa que o suco fosse realmente bom, presumo que ela não esperava nada do lugar.
– Você até tem seu charme – disse me encarando – acho que entendo porque o mestre tem tanto interesse em você. – Permaneci em silêncio, não fazia ideia de onde ela queria chegar. – Você tem se esforçado muito desde o torneio, talvez seja isso que Burgh tenha visto em você e não em mim – completou com um muxoxo.
Eu sabia muito pouco sobre Clarice. Ela tinha se tornado treinadora aos doze anos e com quatorze foi aceita como aprendiz do líder de ginásio de Castelia. Agora, aos dezessete, ela tentava uma carreira como coordenadora, sem muito sucesso. Louis me dissera que a maneira fria e distante com que ela tratava seus Pokémon impediam-na de evoluir, mas ela parecia convencida que o método que adotara, sem se apegar demais, era o mais correto.
– Eu não sou assim tão esforçado – sorri sem graça, porque realmente não era. – Mesmo assim, acho que você também é. Você é sempre tão preocupada com as regras e horários e...
– Você quer dizer chata? – Ela arqueou a sobrancelha e sorriu torto.
– Claro que não. Eu gostaria de ser mais disciplinado como você – e queria mesmo.
– E eu queria ser autentica como você. Eu não consigo ser assim, natural – tomou mais um pouco do suco – você age desse seu jeito peculiar sem se importar com que os outros vão pensar de você. – Presumo que com jeito peculiar, ela quis dizer idiota, mas vou levar isso como um elogio. – No torneio, as pessoas ficaram comovidas com seu empenho de iniciante. Você foi tão carismático. Quando eu participei a primeira vez, morria de medo das pessoas descobrirem que eu nunca tinha feito aquilo e zombassem da minha inexperiência. Burgh disse que eu deveria aprender mais com você.
– Por isso desse encontro? – Ela me encarou surpresa, mas a expressão estava leve.
– Talvez – e sorriu novamente. Eu poderia me acostumar facilmente àquele tipo de sorriso.
A sineta da porta tocou novamente e um homem corpulento entrou na lanchonete. Ele usava uma roupa discreta, mas trazia um grande broche prateado com detalhes em azul na altura do peito, era bonito e chamativo. O senhor Joslyn ficou pálido ao avistar o homem e rumou do balcão na direção do visitante.
Os homens começaram a conversar quase aos sussurros no meio da lanchonete. O homem do broche falava muito rápido e gesticulava, enquanto Joslyn tentava arranjar uma forma de interromper a conversa e colocá-lo para fora. A conversa parecia caminhar para a discussão quando a sineta da porta soou novamente e desta vez fui eu quem empalideceu.
Haila estava parada na porta, com uma caixa cheia de Casteliacone. Provavelmente, ela deveria estar fazendo uma das suas últimas entregas antes de voltar para o hotel. Ela encarou o dono do estabelecimento que ainda tentava tirar o homem da lanchonete, e lentamente deslizou os olhos até a mesa onde eu estava.
Os orbes azuis pareceram surpresos por me ver ali, ainda mais bem vestido, na companhia de uma garota. Então os lábios se rasgaram com um sorriso irônico e tive certeza de que ela iria me provocar muito quando estivéssemos no hotel. Ela fez menção de ir até nossa mesa, mas a discussão entre os dois homens ficou ainda mais inflamada e o cara do broche empurrou Joslyn, fazendo-o esbarrar em Haila e derrubar a caixa de Casteliacone.
– Saia daqui – gritou Joslyn enquanto se apoiava em uma mesa tentando recuperar o equilíbrio e Haila encarava os cones que rolaram pelo chão de madeira. – Eu já disse que essas coisas ficaram no passado e eu não sou mais um de vocês. – Esbravejou encarando o homem muito maior do que ele.
– Você sempre será um de nós – o outro homem sorriu enviesado – afinal nós somos uma família. – E puxou uma pokeball. Um enorme Krookdile saiu do raio avermelhado e fez um barulho gigantesco ao ser libertado.
Com uma violenta chicotada de rabo derrubou as mesas e cadeiras, abrindo espaço no meio da lanchonete. Haila deu um passo para trás e Clarice me puxou pelo braço, impedindo que eu fosse atingido por uma cadeira.
– Vocês, saiam daqui! – Joslyn gritou indicando a porta, enquanto sacava sua pokeball e libertava sua Zebstrika. Corremos em direção à porta, mas repentinamente um Scraggy e um Drilbur bloquearam a passagem.
– Oh, mas as crianças não vão ficar para a festa? – O cara sorria segurando outras pokeball. – Scraggy, Drilbur, ataquem e não deixem nossos convidados entediados.
A dupla de Pokémon veio na nossa direção, Haila avançou, puxou a pokeball do bolso e libertou Simisage, o símio correu em direção aos Pokémon, desviou do Scraggy e atingiu Drilbur com um poderoso soco no meio do rosto. Clarice liberou seu Audino que foi na direção de Scraggy, mas não foi tão rápido quanto Simisage e foi derrubado pelo Pokémon. Atrás de nós, Krookdile e Zebstrika duelavam. A zebrinha invocava poderosos ataques elétricos que mal faziam cócegas na dura carapaça do Pokémon de terra.
Simisage recuou e atacou com Seed Bomb, fazendo o Pokémon toupeira vacilar. Drilbur usou suas garras e escavou o chão da lanchonete, fugindo de uma nova onda de ataques. Scraggy estava sobre o pobre Audino que já estava virando uma massa desforme de tantos socos que levava. Embora o Pokémon rosado estivesse levando uma surra homérica, Clarice não o chamava de volta. Ela curvou as sobrancelhas e movia os lábios de forma indecifrável, enquanto apertava a pokéball com força exagerada.
– Clarice, chame-o de volta – pedi.
– Não posso!
– Do que está falando?
– A posição em que o Scraggy está bloqueia o acesso do meu Audino a pokéball – estendeu a bolinha branca e vermelha na direção dos dois e chamou seu Audino, mas a luz avermelhada era desviada pelo braço do Pokémon lutador. – Isso nunca aconteceu antes.
– Mas desse jeito ele irá morrer – a cena me lembrava de quando Peach esmurrou o Dunsparce até ficar inconsciente e isso não era algo bonito de se ver.
– Se Scraggy está bloqueando, arranje outro jeito – a voz de Haila saiu ríspida e autoritária e nunca imaginei que a ouviria falar daquela maneira. Os olhos ainda estavam presos em Simi que tentava localizar o monstrinho que agora se escondia sob nossos pés. A garota do vestido amarelo titubeou sobre o que fazer e isso pareceu deixar Haila bem irritada. – Bela dupla de idiotas vocês fazem – ironizou. – Deedee, pare de ser um inútil e faça alguma coisa.
Eu não gostava de batalhas, já tinha entrado em algumas, mas definitivamente não gostava, só que aquela não era hora para me preocupar com o que eu gostava ou deixava de gostar. Puxei a pokéball do bolso e meu Tepig apareceu no campo de batalha. Ele pareceu feliz ao ver Simisage ao seu lado, mas os olhinhos miúdos mudaram ao ver Scraggy e Audino.
– Bacon, use Tackle! – Pensei em usar Ember, mas o golpe de fogo poderia atingir o Pokémon de Clarice. O Tepig correu na direção da dupla e atingiu o Pokémon lutador com uma cabeçada, não foi forte suficiente para dar muito dano, mas ao menos o fez sair de cima do Audino. – Muito bem, Flame Charge! – Eu tinha treinado o movimento várias vezes, mas nunca o usara em um batalha real.
As labaredas envolveram o Scraggy, chamuscando cadeiras, mesas e parte do papel de parede no processo. Clarice aproveitou a deixa e convocou seu Audino, o rosto pareceu bastante aliviado ao tê-lo em seus braços novamente, por mais que tentasse disfarçar isso.
Apesar do golpe, Scraggy não estava machucado e parecia muito furioso, correu na direção do meu Tepig e tentou atingi-lo com uma sequência de socos. Apesar da agilidade de Bacon, um acabou atingindo-o no focinho, fazendo-o rolar pelo chão e gemer de dor.
De repente, senti o chão sob nossos pés estremecer e do nada o terreno rachou e se abriu, dando passagem para Drilbur que tentou atingir o símio com suas poderosas garras. Simisage se moveu rapidamente, desviando do ataque e revidou com Fury Swipes, lançando-o contra a parede.
Apesar da derrota para Burgh, Simisage estava lutando lindamente, como no dia em que conheci Haila. Se pudesse, até pararia minha luta só para assistir ao Pokémon de planta surrar aquela toupeira superdesenvolvida. Aparentemente, não fui o único a ver as ótimas habilidades do macaquinho, porque no meio de toda a barulheira produzida pelas lutas que se desenrolavam pude ouvir a voz do cara com o broche passar um novo comando para um de seus Pokémon.
– Scraggy, plano B. – Não fazia ideia do que era, já que não era um comando, mas pela direção que o bicho tomou, abandonando sua luta com Bacon, achei que ele fosse salvar Drilbur que estava tomando uma nova saraivada de Seed Bomb, só então percebi que ele mudou de direção e com um salto foi para cima de Haila.
Depois disso, tudo aconteceu muito rápido. Eu gritei algo no calor do momento, sem ter certeza do que, Haila me encarou com seus grandes olhos azuis, Simisage se voltou para a treinadora e Scraggy cerrou o punho para um soco bem doloroso. Mas nada aconteceu com a loira, ela viu uma sombra laranja passar por si e aparar o golpe.
– Bacon! – O grito da garota me trouxe de volta a realidade. Haila estava bem, mas meu Tepig tinha usado o próprio corpo como escudo. Havia um hematoma gigante na parte superior da cabeça e ele mal parecia ter forças para ficar em pé.
A distração fez Simisage perder a vantagem e ser dominado por Drilbur. Scraggy se posicionou e avançou para Haila novamente, ignorando meu Tepig que tentava debilmente manter a guarda da garota. Vi a mão da loira deslizar para a bolsa, na tentativa de pegar a pokéball de Leaf, mas pela velocidade que o Pokémon lutador avançava, ela não teria tempo de invocar a parceira.
O soco veio, Bacon se colocou na frente de novo e desta vez uma luz forte e brilhante envolveu a dupla. Eu não sabia o que estava acontecendo e comecei a ficar apavorado com a possibilidade que algo ruim tivesse acontecido ao meu Pokémon, mas quando finalmente o clarão reduziu e meus olhos se acostumaram a luminosidade local, pude ver um grande porco laranja e preto, com uma cauda engraçada e expressão marrenta no rosto, que segurava o soco do Scraggy como certa dificuldade.
– Mas que porra é essa? – Foi tudo o que consegui indagar, não estava entendendo nada.
– Pignite – Clarice resmungou ao meu lado – seu Tepig evoluiu – constatou animada. Haila parecia tão surpresa quanto eu, pois permanecia imóvel, segurando a pokéball de Leaf sem invocá-la.
– Ok – disse tentando ordenar as informações novas. Aquele bicho enorme era o Bacon, certo? Eu sabia que Pokémon evoluíam, mas não sabia porque o meu o tinha feito. – Bacon, use Flame Charge!
Desta vez as labaredas foram mais intensas, as cadeiras e mesas queimaram e Scraggy praticamente sumiu no meio do círculo de fogo. Simisage aproveitou a chance e atingiu Drilbur com um soco e finalizou arremessando-o na direção do Scraggy. A toupeira aterrissou sobre o colega e ambos permaneceram estirados no chão.
Pignite caiu sobre um dos joelhos, arfante e pude perceber como ele estava cansado e machucado. Os olhos miúdos desviaram para Haila, como se conferisse se estava tudo bem e depois correram para mim, daquele jeito pidão que fazia. Sorri para mostrar que estava tudo bem e os olhinhos brilharam.
– Acho que nós temos um problema – Clarice chamou a atenção apontando para o pequeno incêndio que eu causara. O fogo estava consumindo os móveis, devorando o papel de parede e se alastrava rapidamente para a porta, nossa única saída. – Acho melhor sairmos daqui.
– Ora, mas eu ainda não terminei de brincar com vocês – o homem do broche sorriu. Como poderia estar tão confiante se tínhamos derrotado dois dos seus Pokémon? Só então vi a Zebstrika caída no chão, havia profundas marcas de mordida por todo o corpo, ela tentou se levantar, mas pernas finas oscilaram e ela desabou com o próprio peso.
O Pokémon não era o único ferido, Joslyn tinha um profundo corte na cabeça e parte do seu rosto e roupas estavam cobertos de sangue.
– Deixe-os ir, essa luta é nossa – a voz falhou.
– Eu não posso permitir que esse grupo de crianças irresponsáveis fique por ai, abusando dos Pokémon – e o sorriso sumiu. – A Team Plasma vai ensinar uma lição a vocês. Vá Krookodile!
O crocodilo veio na nossa direção e eu não tinha ideia do que fazer. Simisage estava cansado, Bacon estava ferido e Audino fora de combate, eu não sabia se Clarice tinha outros Pokémon, mas Leaf e Chiclete não dariam conta.
– Vanilite – Joslyn jogou a pokéball no ar – Mist! – Instantaneamente, antes mesmo que eu conseguisse enxergar qual Pokémon tinha sido chamado, uma névoa branca e fria cobriu o local, reduzindo a visibilidade a praticamente zero. Eu podia apenas divisar o fogo que aumentava, mas mesmo Clarice, parada ao meu lado, mal enxergava a silhueta. – Fujam! – O homem gritou desesperado.
Antes que eu pudesse pensar, senti uma mão me agarrar pelo pulso e me puxar na direção da porta. Em segundos, Clarice rebocava Haila e eu para fora do estabelecimento, nós só tivemos tempo de chamar nossos parceiros de volta. Ficamos parados no meio da rua, um pouco distante da lanchonete, a viela estava vazia, tinha escurecido rapidamente e os postes de iluminação estavam acesos.
– Por que você nos trouxe para fora? Nós tínhamos que ajudá-lo – resmunguei puxando o braço do aperto da garota. Eu não tinha síndrome de herói, mas o velho era simpático e sempre contava histórias interessantes quando almoçava lá. Pelo estado em que estava, ele não conseguiria vencer o homem misterioso.
– Ele se arriscou para nos salvar. Como iriamos fazer algo contra um Pokémon daqueles? – E mesmo que eu não quisesse concordar, Clarice estava certa, que chance teríamos?
– Talvez nós devêssemos pedir ajuda – Haila respirou fundo e encarou o final da viela que tinha mais movimento do que onde estávamos.
– Tem um posto policial aqui perto, vou até lá pedir ajuda – Clarice informou – você – e apontou para Haila – ligue para a emergência, aquele senhor está bastante ferido. – Pude ver estampado na cara da Haila que ela não gostou nada de receber ordens da garota de amarelo, mas devido às circunstâncias, não protestou.
Antes que Clarice fosse para a outra rua ou Haila contatasse ajuda, senti o chão estremecer como um pequeno terremoto. Achei que poderia ser o Drilbur em um novo ataque, mas de repente, a lanchonete explodiu. A porta foi lançada do outro lado da rua, atingindo o prédio defronte, os vidros da fachada estouraram e os cacos preencheram a calçada como flocos de neve, enquanto altas labaredas e muita fumaça saia do prédio.
Fiquei vendo o prédio queimar, sem saber o que fazer, não sabia se os homens ainda estavam lá dentro, nem o que tinha causado a explosão. Clarice parou ao meu lado, entrelaçou os dedos aos meus, fiquei surpreso com o contato, mas não tirei a mão, ela parecia muito assustada e aquilo parecia mantê-la presa a realidade. Já Haila quebrou o silêncio com um xingamento. Ela tinha parado a bicicleta que usava no trabalho ao lado da entrada da lanchonete e agora podia ver o que sobrara do veiculo sendo consumido pelas chamas.
Rapidamente a rua se encheu de curiosos, que comentavam e apontavam para o prédio incendiado. Não demorou para que a polícia e os bombeiros chegassem e fechassem a viela. Os bombeiros demoraram uma hora para extinguir totalmente o fogo, enquanto a polícia recolheu nossos depoimentos, com o nervosismo acabei esquecendo de dar detalhes sobre o broche que o homem misterioso ou a menção que fizera a Team Plasma. Algum tempo depois, Burgh chegou em um chamativo conversível rosa para nos buscar e apesar do seu jeito, parecia bastante preocupado conosco.
A viagem até nosso hotel foi rápida e silenciosa. Quando Burgh estacionou, Haila desceu e agradeceu com uma pequena mesura, fiz o mesmo, mas era visível como eu estava desconfortável.
– Não é culpa sua, December – a voz afetada do líder ecoou pela noite – o prédio explodiu devido a um vazamento de gás.
– Mas fui eu quem provocou o incêndio. Além disso, o senhor Joslyn... – senti minhas mãos tremerem. Eu não conhecia o homem muito bem, mas era uma pessoa agradável, não queria que nenhum mal tivesse acontecido a ele.
– Os bombeiros não encontraram nenhum corpo no prédio, ele deve ter conseguido fugir.
– O outro homem, ele disse algo sobre a Team Plasma – falei de repente, eu era péssimo para decorar nomes, mas talvez porque Cassie já os havia citado antes, eu ainda me lembrava. Burgh empalideceu diante da menção do nome e depois sorriu falsamente.
– Impossível, a Team Plasma está fora de atividade faz um bom tempo, você deve ter se confundido.
– Eu tenho certeza que ele disse algo como a Team Plasma irá nos punir.
– Pode ser um imitador. Quando eles estavam no auge, muitos ladrõezinhos de quinta fingiam ser da equipe só para provocar medo nos cidadãos. Deveria ser só uma desculpa para roubar o lugar – e se apoiou no volante do conversível.
– Mas...
– Você teve um dia longo, meu querido. Deveria descansar – Burgh me interrompeu. – Além disso, amanhã será um grande dia, você precisa estar na inauguração da exposição e leve sua amiga – o olhar desviou para Haila que o fuzilou com o olhar. Ok, talvez a raiva da derrota não tivesse passado de todo.
Haila me esperava na entrada do hotel, eu estava exausto e achei melhor deixar minhas dúvidas sobre a tal Team Plasma temporariamente de lado. Agradeci novamente e me despedi, mas antes do carro partir, Clarice sorriu daquela forma encantadora.
– Nós deveríamos fazer isso mais vezes.
– Fugir de gente estranha e explodir prédios? – Curvei as sobrancelhas.
– Claro que não! Mas o encontro foi divertido e você foi incrível – senti minhas bochechas corarem diante do elogio.
– Oh, o amor juvenil florescendo é tão lindo – Burgh guinchou no banco do motorista. Clarice instantaneamente fechou a cara e lançou um olhar em desagrado para seu mestre, ele tinha estragado todo clima, se é que tinha a possibilidade de haver algum.
O carro partiu e sumiu no final da rua, Haila estava parada na entrada, me encarando de um jeito que não sabia dizer o que significava, mas de alguma forma aquilo me deu certo conforto.
– O que vai fazer sobre a bicicleta? – Perguntei me lembrando.
– Eu não sei – ela revirou os olhos – espero que esteja no seguro – falou sem certeza alguma e eu entendia sua aflição, se não estivesse ela teria que arcar com o prejuízo.
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