Rota Zero
56 Desconhecido - parte 2
Notas iniciais
Haila
Desconhecido parte 2
— O que houve, qual é o efeito do Supersonic? – Tive de perguntar, – Couve-flor não esta tendo outro surto de medo, tem algo errado com ele.
Marlon sorriu, mas não era o mesmo sorriso que ele dera de satisfação pela batalha, era o mesmo sorriso carismático que ele me dera quando me cumprimentou assim que nos conhecemos. – Você conseguiu notar a diferença de comportamento, – comentou antes de prosseguir, parecendo verdadeiramente satisfeito, – Supersonic deixa os Pokémon momentaneamente surdos e dependendo da intensidade, até mesmo confusos. No momento, seu Sunflora não pode ouvir nada.
Ótimo, como eu venceria a batalha se Couve-flor sem experiência não ouvia meus comandos? Ele ainda me encarava falando sem parar. Estendi a mão e fiz um sinal de pare com ela aberta, ele encarou o sinal por alguns instantes e depois fez algo como um suspiro e então se acalmou. Depois apontei para o meu ouvido e fiz um sinal negativo.
Eu não sabia se ele poderia entender o que eu queria dizer, mas de qualquer forma ele sabia que eu entendia sua condição e tentava me comunicar.
— Agora a coisa fica seria. Mantine – Marlon chamou – Confuse Ray.
Mantine surgiu a alguns metros e lançou as esferas na direção de Couve-flor. O Pokémon me olhava nervoso. Eu precisava pensar, não podia simplesmente deixar que ele fosse atingido ou tudo estaria terminado. Então tive uma ideia, não parecia muito inteligente e definidamente era muito constrangedora, mas era tudo o que eu tinha. Me joguei no chão e fechei os olhos, cobrindo a cabeça com as mãos.
Ouvi quando Deedee arfou e em seguida começou a comemorar. Só então levantei a cabeça e me deparei com Couve-flor deitado com os braços de folha sobre a cabeça. Ele tinha me imitado, tinha dado certo.
Fui tomada por uma euforia momentânea. Ele era muito esperto para uma plantinha.
Marlon continuava sorriso, um sorriso largo e generoso. – Essa é nova pra mim.
Assim que me ergui novamente respondi – pra mim também.
Assim que o ataque se dissipou Sunflora se levantou meio temeroso. Mantine se mantinha na agua, a alguns metros a sua frente, bem abaixo de mim, esperando ordens do líder. – Agora, Bubble beam.
Assim que a rajada de bolhas foi lançada na direção de Sunflora comecei a mover meus braços pra frente, imitando o movimento que eu havia visto Couve-flor fazendo mais cedo. Me sentia uma idiota, mas assim que ele começou a lançar as folhas cortantes contra as bolhas toda essa vergonha se tornou pura alegria.
— Vai Haila – Lila gritou – isso ai!
— Mudou de lado agora? – Deedee parecia incrédulo.
— Ah! – Exclamou – sabe como é.
O ataque de Couve-flor superou as bolhas e acertou a cara de Mantine que gemeu em descontentamento e desapareceu na agua. – Surpreendente, – Marlon admitiu. – Vamos ver o que você faz quanto a isso. Mantine, Wing Attack.
Mantine saiu da agua depressa, suas nadadeiras se iluminaram enquanto ele dava uma volta veloz pela arena, ganhando uma velocidade feroz no ar. Couve-flor o olhou preocupado e em seguida me encarou com uma expressão temerosa.
Fiz um movimento com os dedos para que ele apenas olhasse para mim, se ele o fizesse, se confiasse em mim talvez não ficasse muito nervoso e conseguisse concluir o movimento.
Assim que Mantine se curvou e foi em direção a Couve-flor eu repeti os movimentos com os braços. Ele respondeu na hora lançando folhas cortantes na direção de Mantine que precisou iniciar uma sequencia de giros no céu para tentar desviar.
Sua velocidade diminui em consequência. Assim que se aproximou o bastante me joguei no chão de costas e movimentei os braços para o auto, ignorando a dor do impacto e Imitando de certa forma a tática que Deedee tinha usado no Contest, quando Chiclete se fingiu de imobilizado para acertar o oponente.
O Pokémon seguiu meus movimentos, conseguindo desviar do ataque, acertando ainda por cima uma sequencia de Razor Leaf no estomago de Mantine.
Mantine não caiu, mesmo gemendo de dor continuou seu voou, dando uma volta em Marlon e voltando em direção a Couve-flor – Hydro Pump e Wing Attack novamente, amigão.
Uma explosão de agua foi arremessada em direção a Couve-flor enquanto Mantine se aproximava com as nadadeiras brilhantes. Couve-flor tentou saltar atrapalhado para a próxima boia, mas não conseguiu alcança-la e acabou caindo na agua.
Couve-flor recebeu o ataque voador em cheio sem ao menos ter tempo para entender o que estava acontecendo. Desapareceu na agua durante alguns segundos desconcertantes e em seguida apareceu boiando de barriga pra cima com os olhos fechados. – Sunflora está fora de combate – Morel fez anunciou – a vitória da segunda rodada é de Mantine.
Trouxe o Pokémon de volta e diminui sua Ball. Não podia negar que me sentia frustrada pela batalha ter terminado tão rápido, mal tive tempo de montar uma estratégia ofensiva. As coisas não estavam indo tão bem quando pensei que iriam. – Obrigada, você fez um ótimo trabalho, merece um bom descanso – mesmo assim agradeci a Couve-flor, não era culpa dele. E mesmo ele precisando de mais treinamento, ele tinha se saído incrivelmente bem.
— Pronta para a rodada final? – O líder perguntou. – Estava ansioso para conhecer o tal Serperior.
— Ele é bem selvagem. O capturei evoluído recentemente, ele pode ser perigoso – tentei advertir.
— Vamos ver o que posso fazer quanto a isso.
Peguei a GreatBall de Serperior e suspirei. Ser firme com ele o fez parar quando ele estava atacando o Deerling. Eu não gostava de ter que tomar esse tipo de atitude em relação a um Pokémon, mas se ele não fosse mesmo obedecer pelo amor...
— A nível C, ou classe C como também é chamada,– Marlon começou a falar chamando minha atenção – é conquistada quando o especialista mostra que tem capacidade de combate. É baseado na força e também é a base de toda a cadeia. Para alcançar o segundo nível o treinador deve apresentar as insígnias conquistadas ao Centro de pesquisa Pokémon e esse entrará em contato com algum especialista do mesmo tipo para que esse possa dar treinamento e avaliar o seu conhecimento acerca daquele tipo de Pokémon.
— Treinamento? Conhecimento? – Não estava ainda muito claro.
— Já percebeu que vários lideres de ginásio tem aprendizes? – Concordei com a cabeça, – os aprendizes no geral pretendem se tornar especialistas tal qual seus mestres. Funciona da mesma forma, você será designada a um especialista Pokémon do mesmo tipo que o seu, e ele te fará passar por provas que testarão seus conhecimentos sobre, como no seu caso, Pokémon Grass.
Ate ai tudo bem, mesmo que eu não fizesse ideia de que tipo de conhecimento seria cobrado. Eu odiava estudar. – Eu precisarei treinar pra isso?
— O treinamento na maior parte das vezes serve como critério de julgamento, – contou balançando a cabeça de forma engraçada. – Esse treinamento pode durar um mês, ou em alguns casos, como a maioria dos que ocorre em Unova, o trainer prefere passar seis meses ou um ano como aprendiz de um líder, o que o exime da necessidade de obter insígnias.
“Pense dessa forma – ele continuou, – ele pode fazer um quis de perguntas e respostas ou ficar um tempo contigo até ver o que você sabe. Dai ele dará a posição dele após achar que já descobriu o suficiente de você para o Centro de Pesquisa Pokémon e esse te dará ou não a mudança de nível”.
— Mas não há especialistas tipo Grass em Unova – acabei pensando alto.
— Nem todos os especialistas são lideres de ginásio ou da Elite Four – tentou ser didático. – E mesmo que não haja eles te encaminharão para outra região, ou se você tiver sorte algum especialista pode vir até aqui. – Franziu o cenho parecendo estar pensando em algo e depois soltou – acho que a ultima especialista em Grass da região foi Creslian, mãe daqueles trigêmeos que foram lideres há alguns anos.
— A mãe de Cilan – sussurrei. Então minha mente mudou completamente de rumo. – Eu não venci a batalha, você não precisa ter me contado.
Ele deu de ombros – tome como um favor.
— Eu não gosto de dever favores a ninguém – reclamei fazendo careta.
— Bem, então que seja um presente, – mexeu no bolso e retirou outra Diveball, – se estiver pronta.
Olhei para Deedee e Lila mais uma vez, tomando coragem, antes de pegar a Ball de Serpio. Essa era a parte final da batalha, só precisava que ele derrotasse o Pokémon que Marlon escolhesse e eu poderia recolhê-lo depressa antes que ele resolvesse fazer merda.
Ao mesmo tempo algo ainda queimava dentro de mim. Um sentimento de raiva que ainda não havia desaparecido depois do que havia acontecido com Deerling. Fechei os olhos por um ultimo instante tentando controlar isso, guardar bem fundo dentro de mim.
Ele era apenas um Pokémon, uma criatura bestial e irracional, que apenas sabia viver sob suas próprias regras e instintos. Não éramos tão diferentes.
Libertei o Pokémon em cima da boia amarela no meio da arena. Nem tão perto de mim, nem de Marlon. – Serpio, preciso que me empreste sua força, – pedi com um tom firme na voz. Ele olhou tudo em volta e por um segundo fez como se quisesse entrar na agua, mas hesitou e ficou lá parado.
O líder de ginásio deixou seu Pokémon na agua. Envolto por uma carapaça roxa, o Pokémon era como uma perola negra. Cloyster, um Pokémon comum em Nuvema. Eu o conhecia bem o suficiente para saber que ele tinha ataques tipo gelo e até agora eu não tinha lidado com nenhum.
— Poison Spike, Cloyster – Marlon foi rápido.
— Evasiva, salte para desviar – pedi com urgência, mas Serperior não me ouviu. Ao invés disso sua cauda brilhou, um brilho esverdeado e intenso. Girou seu corpo com violência e acertou o golpe venenoso do inimigo. Leaf Blade fez o ataque se dividir em dois, passando cada metade de um lado, sem tocar nele, se desmanchando em partículas segundos depois.
Saltou sem minha ordem e girou o corpo, folhas começaram a surgir e o ar a ficar turvo. Era um Leaf tornado. Quando o ataque tocou a agua ganhou ferocidade, puxando agua para si. O tornado se tornou algo como um furacão, erguendo boias e as lançando para os lados.
Marlon arregalou os olhos, e não posso mentir, eu mesma estava apavorada. – Cloyster, vá para o mais fundo que conseguir.
O Pokémon desapareceu em um instante, mas o ataque continuou, mesmo perdendo força. Marlon teve que se jogar na agua para desviar do pequeno furacão que transpassara o palanque onde ele estava.
Serperior sibilou e balançou a cauda, fazendo o barulho dos chocalhos. Parecia estar satisfeito com o resultado do seu ataque.
Assim que Marlon conseguiu se recuperar, voltando para passarela, passou a mão pelos cabelos molhados e comentou – belo ataque. – Se puxou para cima e correu de volta para o palanque – Cloyster, Ice Beam.
O Pokémon apareceu na superfície tão logo que foi chamado, abriu e a boca e um raio luminoso foi desferido dela. Assim que a luz tocou a agua embaixo da boia que Serperior estava, ela congelou. O Pokémon usou sua habilidade e pulou tão rápido para a próxima boia que mal pude acompanha-lo.
— Serpio, use Razor Leaf e salte para tentar acertar o Leaf Blade – gritei. Mas ele não estava interessando em mim, essa situação já estava me deixando louca. Saltou direto de uma vez e sua cauda voltou a brilhar. Ele estava abusando, o brilho era azulado, o cretino estava usando Dragon Tail só pra me desafiar.
Cloyster apenas abriu a boca e o raio de acertou Serpio diretamente. O Pokémon rodou no ar como se fosse um pedaço de pano molhado e acertou a agua com um tapa, espirrando grande quantidade para os lados.
— Não pare, – Marlon parecia decidido a não deixar a batalha continuar, – Icicle Crash.
Cloyster se impulsionou para fora d’agua e sua face tomou uma coloração azulada. Assim que ele abriu a boca algo como um vapor de gelo começou a sair e projéteis de gelo, como estalagmites, foram arremessados em direção a Serpio.
A Serpente não teve tempo de tentar esquivar, recebeu o golpe por completo, sibilando e se retorcendo pela dor. Ataques gelados eram super efetivos contra Pokémon tipo Grass. Eu só podia ter vindo ao ginásio errado, porque tudo que eu vira até agora era efetivo contra mim.
Assim que o ataque sessou Serpio nadou até a boia mais próxima, assim que conseguiu se enrolar em cima dela começou a balançar a cauda. Sua cabeça estava erguida o que significava que ele estava pronto para se defender caso Cloyster se aproximasse. Mas seu orgulho com certeza estava ferido o que me fez sorrir internamente.
Esse instinto selvagem não venceria a batalha. – Serpio, eu preciso que você me escute, você não pode se aproximar dele. – Serperior mal esperou que eu terminasse de falar, sibilou para mim, abrindo a boca para me mostrar seus dentes. – Me escute seu idiota, ou você vai apanhar até voltar para o hospital.
O Pokémon nada fez, apenas voltou sua cabeça para Cloyster, ainda balançando a cauda. Como se dissesse “venha seu idiota e eu vou morder você até que não sobre mais nada”.
— Entendo – Marlon soltou, olhando para Serperior. – Que tal se mudarmos ainda mais o jogo? Cloyster, congele a arena.
— Como assim? – Ouvi a voz de Deedee atrás de mim.
— Espere, você já vai ver – Lila respondeu parecendo animada.
Cloyster saltou e acertou o raio de gelo na agua abaixo de si. A agua do mar começou a se congelar onde o Ice Beam tocava, transformando aos poucos toda a arena num ringue de patinação irregular. Serperior saltou, se esquivando do golpe e deslizou até uma deformidade congelada causada por uma boia.
Senti o frio quando o raio de gelo congelou tudo abaixo de mim. A arena ficou completamente congelada em poucos instantes, uma leve neblina até se formava a centímetros do gelo. – Serperior vai sentir a cada minuto que passar em cima do gelo. Um campo inteiro efetivo contra ele.
— Como você agiria nessa situação inesperada? – Marlon perguntou. Ele voltava a cruzar seus braços, parecia estar me avaliando.
Serrei os punhos. Aquilo não era nada bom, eu precisava do dinheiro e já tinha perdido uma batalha e empado outra. Eu precisava vencer, precisava que Serpio me obedecesse. – Serperior, temos que terminar a batalha depressa. Salte e use Leaf Tornado de novo. Podemos atingi-lo à distância. – Serperior não se mexeu, continuou no mesmo lugar, tentando com dificuldade por causa do chão liso, se enrolar.
— Amigão, use Hydro Pump no chão e depois Dive – Cloyster estava em cima de uma boia congelada, parecia bem a vontade envolto de gelo. Empurrou seu corpo para frente e acertou um forte ataque no chão, abrindo um buraco. Se jogou dentro dele e desapareceu.
— Suba para a boia, como ela está presa pelo gelo vai amortecer o impacto – ordenei o mais rápido que pude, mas Serperior apenas sibilou pra mim, – você vai se machucar, me escute – gritei ficando angustiada.
Cloyster surgiu debaixo dele, quebrando o gelo que se estilhaçou no alto junto com Serperior. O Pokémon fez um som horrível, provavelmente pela dor e caiu com força sobre o gelo que rachou, mas não cedeu.
Começou a se debater na mesma hora, mas foi atingido em seguida por um Hydro Pump que o fez escorregar no gelo até debaixo de mim. As costas dele estavam arranhadas pelo gelo que aumentava cada vez mais a quantidade de nevoa sobre ele.
— Icicle Crash, de novo Cloyster – Marlon continuava comandando de braços cruzados. Parecia confiante de mais e aquilo estava começando a me tirar do serio.
— Salte, por favor – Gritei e ele me olhou, – por favor! – Dava para sentir a angustia em minha voz. Eu não conseguia entende-lo, ele tinha escolhido vir comigo, tinha escolhido entrar na Greatball, mas não aceitava me obedecer.
Eu sabia que era difícil porque ele nunca convivera com humanos, entendia seu orgulho e respeitava isso, mas eu não o entendia. Ele não estava se tornando meu escravo, não estava preso. – Me ouvir não vai fazer menos de você, estou pedindo sua ajuda. Por favor.
A primeira estalagmite de gelo explodiu no píer a poucos centímetros de mim, enviando estilhaços no meu rosto. Fui puxada para trás e apenas ouvi os outros quebrarem, quando abri os olhos e me deparei com Deedee me segurando percebi que Serperior não estava mais ali.
Ele tinha saltado e estava pousando sobre uma boia. Seus olhos estavam grudados em mim. – Use o Leaf Tornado no chão e depois Razor Leaf nele – pedi tão depressa quanto podia. Meu coração estava batendo rápido, minha respiração estava pesada.
Ele girou o corpo e enviou o ataque no chão, na direção de Cloyster, em seguida começou a mandar inúmeras folhas no tornado que se juntaram a ventania aumentando ainda mais a intensidade do golpe, assim como eu tinha lido no livro da folha.
O ataque acertou Cloyster em cheio, fazendo o Pokémon gemer de dor. – Salte agora e use Leaf Blade.
Enquanto o tornado ainda se desfazia ele me ouviu. Usou sua habilidade de pulo e como se tivesse molas se atirou para cima de Cloyster, sua cauda brilhou verde e depois de mover seu corpo como um chicote ele acertou o Pokémon crustáceo de cima para baixo. O impacto fez o gelo quebrar e o Cloyster afundar na agua com um grande som de estalar.
— Parece que agora as coisas ficaram interessantes – Marlon comentou sorridente. Agora não estava mais com os braços cruzados, parecia animado, com os punhos fechados um pouco a frente do corpo. – Dive, depois Blizzard.
— Serpio, uma boia depois Leaf tornado com força total.
Quase não consegui terminar a frase, o gelo já começara a rachar onde Serpio estava um segundo atrás, explodindo em cacos enquanto o Pokémon crustáceo surgia em meio a um jato de agua.
Quando um segundo depois atingiu o ponto mais alto seu corpo se iluminou em um azul tão claro que quase poderia ser confundido com branco e uma onda de neve furiosa partiu em direção a Serpio, varrendo tudo na arena.
Serperior mal teve tempo de lançar o Leaf tornado. Os ataques se chocaram e por alguns momentos os dois se mantiveram em igualdade, mas antes que Cloyster voltasse a cair sobre a arena o Leaf Tornado já sucumbira lançando folhas congeladas na direção de Serperior que foi varrido até o píer onde Marlon também tentava se proteger.
Abri a boca, pronta pra dizer qualquer coisa, mas as palavras não saíram. A força do ataque havia sido surpreendente. Deixando Serperior, que acabara de se levantar, coberto por uma fina camada branca.
Ele tremeu todo e sibilou, mas desta vez mais fracamente. Bateu com a cauda forte no chão e fechou os olhos, tomando um segundo para si antes de voltar para modo de combate. Infelizmente acabou Haila. – O líder falou comprimindo os lábios – Cloyster, Surf.
O Pokémon mergulho de repente no buraco que acabara de abrir com o Dive, algo começou a brilhar na agua embaixo do gelo e a se mover em direção ao mar aberto. No horizonte a agua ficou curva e a se erguer. Era uma onda se formando, mas de acordo com que foi se aproximando foi ganhando tamanho desproporcional aquela parte do oceano. – Serpio, contra ataque com Leaf Tornado, depois o encha com Razor Leaf e Salte – pedi me assustando com a magnitude que a cada momento aquela onde adquiria.
Cloyster apareceu no topo da onda, literalmente surfando sobre ela quando ela começou a se quebrar quase sobre a arena. Dei um passo para trás com medo de ser varrida junto. Não havia como escapar. Serperior fez o que eu pedi e os dois ataques se chocaram.
Mas não havia comparação, por um segundo pensei que o ataque de Serperior poderia conter o Surf, mas ele reagiu primeiro que eu quando percebeu que não seria bem assim. Saltou, mas a onda foi mais alta que seu próprio pulo, acertando toda a arena, mas somente ela, e levando consigo todas as boias e pedaços de gelo que se partiram brutalmente com o impacto.
O poder de Cloyster e Marlon era incrível. Um ataque poderoso como aquele poderia varrer vários Pokémon de uma vez. Serperior foi engolido e apenas um sibilo foi ouvido antes que ele desaparecesse no quebrar borbulhante da onda.
Eu ainda estava surpresa com sua precisão, o píer e o palanque de Marlon ficaram completamente secos. Abri a boca tentando dizer alguma coisa, mas não tive palavras. Aquilo deveria ter gasto anos de treino. O poder de um líder de ginásio poderia ser esmagador.
— Serperior está fora de combate, Closyter é o vencedor da rodada. A vitória é de Marlon, líder da cidade de Humillau.
Peguei a Greatball de Serperior que surgiu boiando a alguns metros fora da arena junto as boias e só então percebi que tinha perdido. – Obrigado Serpio, até que não somos uma dupla tão ruim – sussurrei para a esfera.
De alguma forma era como se um peso houvesse sido removido dos meus ombros. Ainda tinha um longo caminho para percorrer até que Serperior finalmente confiasse em mim, mas Marlon havia me ajudado diretamente a fazer com que ele desse o primeiro passo.
– Você ótima, foi incrível – Deedee pós a mão no meu ombro.
— Meu primo é mais, você sabe... Mas você foi ótima – foi à vez de Lila, o que claro não ajudou muito.
Marlon veio correndo, atravessando a passarela de madeira. – Parabéns, foi uma ótima batalha – o líder me cumprimentou.
— Imagino que sim – respondi meio sem lugar. Mas ele estava certo, foi à batalha mais extensa que eu já tivera e também uma das mais difíceis, o sabor da derrota não era doce. Mas meu corpo ainda estava banhado de adrenalina.
O líder mexeu no bolso da calça e retirou uma insígnia em forma de nadadeira a estendendo para mim. – Tome, você mereceu.
— Uh – Lila gemeu de forma engraçada.
— Mas eu perdi a batalha. Eu não mereço a insígnia – respondi fitando sua expressão.
Ele sorriu e repetiu – você merece. – Ainda com a mão estendida disse – os lideres de ginásio não dão insígnias apenas por vitorias. Eles também dão insígnias quando o trainer mostra que tem capacidade para superar o desafio do seu ginásio.
— Mas eu... – tentei debater, mas ele continuou.
— Você veio para um ginásio tipo agua para enfrentar Pokémon do mesmo tipo, cujo seus Pokémon deveriam ser super efetivos contra, mas ao invés disso teve de lidar com não conseguir ver o inimigo e ataques tipo areio e gelado que na verdade são efetivos contra os seus. Além disso deu comandos para um Pokémon que não podia te ouvir encenando seus movimentos e conseguiu controlar um Pokémon que não te obedecia. – Ele deu um passo chegando mais perto de mim, pegou minha mão e colocou delicadamente a insígnia nela, – se isso não é aprender a lidar com o desconhecido e mostrar que sabe lidar com surpresas, eu não sei mais o que é.
— Obrigada! – Disse tomada por uma felicidade boba que eu não sabia medir. Marlon tinha mudado minha opinião sobre os lideres de ginásio. Convivi com vários atuais e ex-lideres, mas até então não tinha tido a oportunidade de vislumbrar que eles eram muito mais do que apenas especialistas e ótimos treinadores. O papel deles era muito maior e mais importante do que apenas batalhar e entregar um prêmio. Eles preparam os treinadores para o mundo.
— Eu que agradeço. Admito que peguei pesado contigo, mas queria saber até onde você poderia chegar, já que não conhecia sua motivação para se tornar uma especialista tipo Grass. – Recuou um pouco e suspirou, – mas depois dessa, não há duvida que há talento em você.
— Eu cresci brincando na floresta com meu irmão, ou como na grande maioria das vezes sozinha. Nunca tive muito amigos além de Leaf e brincar ao redor de Nuvema se tornou um refugio pra todo o resto. É complicado explicar porque eu pretendo me tornar uma especialista em tipos Grass porque não foi um determinado fato que me fez escolher isso, mas um monte de pequenos deles. – Parei por um instante. Era meio constrangedor repetir aquilo que só havia sido dito a Desmond – não foi eu quem escolhi isso, a vida me escolheu.
Marlon se abaixou um pouco, ficando na altura dos meus olhos. Havia um grande sorriso ostentado em seu rosto – chamamos isso de “o chamado”. Comigo foi assim também – voltou a estender seu corpo e colocou as mãos no quadril. – Bem, os próximos níveis são mais complicados e demandam tempo. Para ser considerado Classe ou nível A você tem que ser avaliada por criador Pokémon onde você apresentará um Pokémon do tipo que você se especializou e ele avaliará as condições dele.
“Eu não entendo muito bem como isso funciona pra ser sincero. Mas para ser considerado um especialista completo você tem que saber aplicar seu conhecimento e força a uma boa criação. Pokémon criados por especialistas geralmente são mais fortes e tem habilidades que fogem do comum, um especialista sabe explorar o melhor de seus Pokémon. Mas se eu fosse você não se preocuparia com isso. Se tornar Classe A vem naturalmente.”
— E o nível S?
— É considerada uma condecoração por grandes atos ou habilidades demonstradas – contou dando de ombros, – a maioria dos nível S são da Elite Four – terminou com desdém.
— Então o nível C é dado quando o treinar mostra capacidade de combate, vencendo pelo menos quatro ginásios usando Pokémon apenas daquele tipo – comecei a repassa, – nível B é uma avaliação de conhecimento acerca dos Pokémon e A é avaliação de um criador.
Ele balançou a cabeça positivamente – Força, Conhecimento e cuidado. São os requisitos que formam especialistas. Entenda que até que você alcance o classe A você será julgada como aspirante, ou especialista júnior, mas como eu disse o resto vem naturalmente.
— Obrigada, você me ajudou mais do que imagina.
— É o meu trabalho – respondeu coçando a nuca meio constrangido. – E me desculpe pelos seus Pokémon, eles ficarão bem depois de algum descanso. Nenhum deles chegou a se ferir.
Olhei para trás e encontrei o olhar orgulhoso de Deedee, um sorriso enorme enfeitava seu rosto. Minha pulsação ainda estava acelerada e por algum motivo até mesmo minha respiração parecia um pouco ofegante.
Eu não me importava se tinha perdido a batalha, ela tinha me mostrado a diferença entre minhas habilidades e a força de um líder de ginásio. Eles tinham lutado de igual para igual com a Team Plasma no passado e isso apenas confirmava aquilo que Desmond me dissera no topo da Celestial Tower.
Se eu tivesse seguido sozinha apenas teria matado Leaf e Serpio no caminho, talvez, até eu estivesse morta. Isso deixava claro que eu estava negligenciando meu treinamento e de meus Pokémon. Mesmo que eu não fosse mais atrás da Team Plasma eu queria estar preparada para qualquer coisa.
Perder só tinha alimentado ainda mais a chama que crescia dentro de mim, me empurrando para frente e me fazendo querer ainda mais ser forte e me tornar uma especialista Pokémon.
— Você se saiu bem, mesmo não tendo chance – Lila me cumprimentou de forma animada, como se o que acabasse de dizer não fosse meio rude.
Sorri mesmo sem achar a mínima graça e ergui a sobrancelhas de forma preguiçosa antes de responder – acredite, eu sei.
=8=
No final do dia, depois de pegar minha premiação fui até o Market do Centro Pokémon comprar os medicinais que Deerling precisaria em seu processo de recuperação. Depois que o garoto me entregou o saquinho contendo os remédios fiquei ali parada um tempo revendo tudo que eu tinha vivido até então e não consegui deixar de me sentir grata por todo mundo que conheci no meu caminho até ali.
Era um pensamento bobo e vindo do nada. Mas talvez, simplesmente saber pra onde eu tinha que ir depois de tanto tempo perdida estivesse me deixando mole.
— Vamos? – Dee chamou – Os Psyduck vão acabar destruindo outra coisa se demorarmos.
— Deixe que quebrem, – respondi animada encontrando Lila correndo atrás das bolas amarelas pelo saguão, – coisas boas acontecem quando somos expulsos de Centros Pokémon.
Fale com o autor