Rota Zero

46 Conclusões nada preciptadas


Notas iniciais
Alô, Alô, graças a Deus. Você sabe quem tá falando? Temos finalmente, depois do capitulo de volta do semi-hiatus um capitulo mais "Deedee" de Haila. Não tem como dizer muita coisa sem estragar o capitulo. Espero que gostem.

Haila

CONCLUSÕES NADA PRECPTADAS

– Escolhas – sussurrei pra mim mesma tentando reencontrar o significado da palavra. Eu estava deitada na grama, debaixo de uma arvore a beira de um pequeno córrego na floresta. O som dos troncos estalando, das folhas balançando com a decorrência do vento, até mesmo o som do riacho me trazia certa nostalgia mórbida.

Todas as escolhas, mesmo as que não foram feitas por mim, conspiraram para esse instante quando por fim eu estava percebendo quem eu estava me tornando. Flashes da batalha contra Serperior, Clay e Skyla correram em minha mente. Eu tinha batalhado como nunca até então.

Continuava exausta. Fechei meus olhos quando uma brisa fria tocou minha pele. Não era aquilo que eu esperava quando decidi deixar Deedee em Nimbasa e ir atrás de Skyla. Escolhi abandonar meu melhor amigo para correr atrás de vingança.

– Não é justo – não consegui conter o comentário, mesmo que não houvesse ninguém para ouvi-lo. Eu precisava dizê-lo. – Não é justo – repeti mais alto e com a voz carregada de raiva.

Tive que voltar a me sentar, os sentimentos dentro de mim estavam me enlouquecendo. Leaf ergueu a cabeça e me encarou por um instante, antes de voltar a virar a cabeça, encarando as aguas rasas se moverem.

Ela não estava “falando” comigo. Era a primeira vez, desde que tinha lembrança que ela fazia algo assim. Já tínhamos discordado várias vezes, ela já havia se recusado a seguir alguns comandos como, por exemplo, Swift que ela não se sentia confortável usando. Mas nunca tinha me evitado. Leaf era meu ultimo porto seguro e agora isso também estava ruindo.

As últimas palavras de Skyla pra mim tinham sido: “espero que realmente aceite as suas escolhas. Você vai ter de viver com elas”, como se eu não soubesse o peso daquelas palavras. Como se eu não carregasse o fardo de ter causado a morte de Simi quando o coloquei para fora daquela Pokéball.

Como se não carregasse a sensação de que tudo o que fiz tinha causado algum desastre. Minha vida era baseada numa sucessão de erros e aquele havia sido apenas mais um deles.

Agora carregava o ódio de dois lideres de ginásio, e por mais que eu odiasse admitir, algo dentro de mim temia as consequências de tudo o que eu fiz. Como se a vida tivesse sido justa comigo, como se tivesse me dado escolha.

Fechei minha mão com força, agarrando pedaços de grama junto. Eu não pedi aquilo, sequer alguém deveria passar por tais coisas. Jaden e meu pai – como eles puderam ser tão idiotas? – Vociferei arrancando as plantinhas do chão – como eu posso ter sido tão idiota?

Levei as mãos ao rosto, ignorando a sujeira dos meus dedos. Fui tomada pelo cheiro de terra e um aperto ainda maior no peito. Peguei o livro da folha que estava aberto do meu lado, ainda na pagina que ilustrava o ataque que eu queria treinar com Leaf.

Me levantei e encarei-a por algum tempo antes de falar com ela. – Sei que não estamos bem, mas você poderia tentar dessa vez, – ela ronronou e depois me encarou com olhos preguiçosos. – Vamos, por favor – pedi mais uma vez e ela voltou a virar a cara.

Aquilo estava me matando. Sem duvida nenhuma eu preferia quando me xingavam, brigavam comigo, ou sei lá. Quando eu era ignorada algo dentro de mim começava a se roer, como se todo o resto do mundo não importasse mais enquanto aquilo não acabasse.

– Haila – Desmond me chamou com a voz carregada de repreensão. Era a terceira vez que ele me chamava a atenção. Ele estava deitado na grama a vários metros de distância, imóvel ha mais tempo do que poderia lembrar-me sozinha, junto de seu Liepard. A câmera posicionada a frente do rosto, focando no grupo de Cuttonee que flutuava despreocupadamente em volta da mãe, Whimiscott a sombra de algumas arvores altas no sopé da montanha.

Eu já tinha desistido de tentar acompanhá-lo, era impossível imaginar-me na mesma posição durante horas, esperando que o Pokémon fizesse uma pose interessante para a câmera.

Suspirei, meio desapontada com minha situação atual. Não que estivesse esperando que um rumo fosse me cair de mão beijada no colo, mas a sorte também não andava me sorrindo ultimamente. Não que eu entendesse que tudo o que aconteceu comigo foi puro azar. Julgar minhas próprias ações nunca foi meu forte, mas eu entendia porque Leaf não podia mais confiar em mim.

Atacar aquele Pokémon caído, era desumano. E eu me tornara o monstro que tinha coragem de dar aquela ordem.

Desmond havia dito que era apenas questão de olhar a situação como um todo. Meu mau-humor tinha chegado a um ponto critico, onde a falta de informação do garoto fez-me ter vontade de esganá-lo, então lhe contei tudo o que achei necessário para que ele entendesse o que estava acontecendo.

Ele chegou à conclusão, por si próprio, que eu tinha tido mais sorte do que julgava. O ataque de Nimbasa havia sido algo brutal, as pessoas estavam nervosas em todo o continente depois do acontecido que deixou dezenas de feridos e inúmeros mortos.

Mas eu tinha saído intacta. Ele compartilhava a mesma opinião que Dee sobre a morte de Simi; não era algo fácil de aceitar e a Team Plasma tinha sua enorme parcela de culpa, mas não era responsável pela morte do Pokémon.

Sobreviver ao ataque de um Pokémon selvagem e depois ter a oportunidade de batalhar com um líder de ginásio disposto a usar seus Pokémon mais poderosos não era algo que acontecia com qualquer treinador. Mesmo que eu ainda achasse que Clay não usou nem metade das suas habilidades na batalha.

E, apesar de Skyla ter apenas atacado quando seu Pokémon já estava deveras cansado de mais para continuar, eu tinha conseguido uma vitória fora de um ginásio contra uma das mais promissoras Lideres da região.

Era muito fácil ver a situação pelo ângulo trágico, mas algo de bom tinha surgido em meio a toda a desgraça e depressão. Leaf tinha ganhado mais força, agilidade e aprendido um ataque muito poderoso e por mais que eu não tivesse controle ainda sobre ele, Serperior era um Pokémon incrivelmente habilidoso e forte.

A morte de dois Pokémon e o ódio de dois lideres de ginásio, além da minha situação atual com Leaf não pareciam um preço justo a se pagar, mas eu tinha passado dos limites. Não só comigo mesma, mas também com Leaf.

Porém, ainda sim não conseguia entender o porquê de ela me ignorar. Minha cabeça fervia sempre que eu tentava entender o que se passava na cabeça dela, quando a minha já andava cheia.

– Vou subir um pouco mais o rio, você quer me acompanhar ou prefere montar acampamento? – Só reparei a presença de Desmond quando ele já estava praticamente em cima de mim. – Não sei quanto tempo posso demorar – ele comentou fazendo um gesto com o polegar indicando o lugar que estava.

Qualquer ação seria melhor do que voltar a me enterrar nos mesmos pensamentos, aceitei tão logo ele fechou a boca. Recolhi o livro da folha e comecei a caminhar junto com ele. Olhei para trás preocupada se Leaf nos seguiria, mas para o meu alivio me deparei com ela caminhando cabisbaixo a alguns metros em nossa direção.

– O que houve com vocês duas? – Me perguntou sem tirar os olhos da pequena trilha.

Eu deveria ter contado toda a história a ele, mas ele não precisava de todos os detalhes. – Nada – menti sem muita paciência pra render aquela conversa. – Mas então, como funciona esse lance de fotografo? – mudei de assunto.

Ele sorriu e me olhou como se eu tivesse dito que ele ganhou o Politzer – as pessoas acham que é apenas sair por ai colecionando imagens de Pokémon, mas é um processo muito mais complicado que isso.

– Mesmo? – Perguntei tentando transparecer minha ironia no rosto.

– Sério – ele confirmou – a revista me paga baseando em cinco requisitos. O primeiro dele é chamado de Special que é basicamente conseguir registrar o Pokémon em um momento inusitado ou interessante. Apesar do nome, ele é a base de tudo.

“O segundo deles é chamado de tamanho; apesar de ser bem obvio, é algo muito importante e difícil de calcular. O Pokémon tem de estar a uma distancia perfeita para que o foco seja relevante.

O terceiro é a pose e é uma das coisas mais difíceis de obter com qualidade. É a questão da postura do Pokémon, quanto mais naturais e automáticas suas expressões corporais parecerem, de maior qualidade e maior valor ela será considerada. E essa é a grande batalha dos fotógrafos, conseguir ser invisível para que o Pokémon haja normalmente.”

– É muito chato – soltei fazendo careta.

– Pode ser bem chato e costuma ser. Já passei dias esperando que um Pokémon raro aparecesse e quando finalmente o encontrei ele se assustou e sua foto não era viável para o artigo – me contou coçando a barba que ainda continuava a crescer. – Mas é incrivelmente recompensador conseguir retratar a relação de um Pokémon com seu meio ambiente. Poder criar uma ligação visual entre as pessoas e o Pokémon, as fazendo parar para pensar pelo menos por um momento, como é linda a vida natural e a importância de sua preservação.

– Pensei que só estivesse fazendo isso por dinheiro.

– É mais como juntar o útil ao agradável – ele deu de ombros. – Fui contratado por ter me destacado no curso de Comportamento Pokémon. Isso ajuda muito os fotógrafos a ter mais oportunidade de fotografar. A revista estava buscando estagiários então quando fui chamado, mesmo sem entender quase nada de fotografia aceitei.

– Entendo – respondi sem saber como continuar a conversa.

– Mas e você, porque se tornar uma especialista em Pokémon Grass?

Era a primeira vez que me perguntavam aquilo, mas mesmo assim eu tinha a resposta na ponta da língua. – Bem, unir o útil ao agradável – respondi não conseguindo conter o sorriso. – Quando Leaf evoluiu na floresta, quando era mais jovem, eu fiz questão de aprender todos os golpes que ela podia aprender. Meu irmão e eu sempre falamos sobre sair em jornada e nos tornarmos campeões da liga. Talvez até o champeon de Unova.

“Mas as coisas não saíram bem como eu planejava. Acabei saindo em jornada bem mais tarde que ele depois de Leaf veio o Simi e em uma oportunidade batalhei ao lado de um Sunkern chamado Couve-flor...”.

– Couve-flor? – Ele repetiu rindo.

– Pois é, Dee tem uma ideias estranhas sobre nomes pra Pokémon.

– Mas continue – ele pediu e eu o fiz.

– Então, eu não me vejo usando outros tipos de Pokémon. Eu gosto do porte, dos ataques, da sutileza que envolve seus movimentos. E nem preciso falar de quanto tempo passei na floresta. Eu não sei se viveria bem sem isso. Acho que essa foi uma daquelas escolhas que a vida fez por mim – terminei olhando para trás para dar mais uma conferida em Leaf.

=8=

Acordei no meio da noite ouvindo o barulho dos guizos da cauda de Serperior. Ele estava rastejando para longe do acampamento e Leaf e tentava impedi-lo, saltando na frente do Pokémon.

– O que está acontecendo? – Des perguntou, acordando desorientado.

– Não sei ainda – respondi dando um salto para fora do meu saco de dormir. Revirei minha bolsa ferozmente procurando a Pokéball do Pokémon e a arremessei para o alto, só por desencargo de consciência. Ele realmente tinha dado um jeito de escapar.

Liepard já tinha se colocado entre nós e o Pokémon, mas Serperior não parecia nada interessado na gente. – Leaf – chamei e ela apenas me olhou por um segundo antes de começar a fazer seu típico barulho.

Mas não era para mim e sim para Serperior. Não era em um tom agressivo, era como se Leaf apenas quisesse bater um papo com ele. Serperior parou e balançou a cauda, fazendo os guizos chiarem algumas vezes como resposta me deixando verdadeiramente confusa com a situação.

De súbito o Pokémon parou e começou a se enrolar, então usando o resto do corpo como base ergueu seu dorso se virando em minha direção. Leaf veio correndo até mim e balançou a cauda. A estranheza da situação me fez hesitar a primeira vez, mas quando ela balançou novamente o rabo daquela maneira eu soube do que se tratava – comida? – A Pokémon apenas me cheirou em concordância.

Busquei o pote de Simi e o enchi de Pokeblock. Eu já tinha dado comido aos dois mais cedo, não era para Serperior estar com fome. Comecei a caminhar em direção a ele e senti meu ritmo cardíaco acelerar. Dando passos lentos e firme fui me aproximando ao poucos.

Todos ficaram em silêncio, a floresta parecia mais quieta do que o normal, me fazendo ouvir o barulho da grama sendo amassada debaixo dos meus pés como se eu estivesse com a orelha colada ao chão. Eu não costumava chegar tão perto, deixava a vasilha a uma boa distancia e libertava o Pokémon tão longe quanto conseguia. A fome tinha o feito aprender a comer a ração.

Mas aquela não era uma situação comum. Quanto mais me aproximava, mais nervosa ficava, seu comprimento me dava arrepios. Finalmente parei com o coração na boca quando ele abriu a boca e fez aquele som aterrorizante.

Leaf surgiu do meu lado, como um guarda-costas mal encarado, mas não o atacou. Olhei nos olhos do Pokémon e deixei a vasilha no chão, me afastando o mais depressa que pude.

Ele rastejou até a vasilha e começou a devorar a ração, como se tivesse ficado dias sem comer. – Eu não teria coragem de chegar tão perto – Desmond comentou ainda sentado em seu saco de dormir.

Olhei para ele apenas por um instante, antes de voltar a encarar Serperior que comia com mais vontade que o normal, – ele é meu Pokémon afinal de contas – comentei mais para mim mesma.

Desmond vou a dormir, mas como o dia já estava por amanhecer decidi continuar acordada. Eu já não suportava mais os constantes pesadelos. Daria qualquer coisa para ter outra boa noite de sono novamente.

Ao contrario do que teria feito normalmente deixei Serperior fora da Pokéball e surpreendentemente ele se comportou normalmente. Deu algumas escorregadas em direção às arvores, chacoalhou seus guizos algumas vezes para sons que vinham da floresta e quando o sol finalmente começou a bater em nosso acampamento ele se enrolou e aproveitou o calor.

Continuei lendo o livro da folha até que Leaf acordou, então caminhei até ela e pedi novamente para treinarmos o ataque do livro. Desta vez, sem nenhuma relutância, mas ainda sim parecendo pouco disposta ela ficou me encarando, esperando que eu desse o comando.

– Certo. O nome do ataque é Giga Drain – contei pra Leaf olhando para as informações na minha frente – sei que nunca fizemos nada do tipo então você vai ter que ser paciente – Leaf fez uma careta e deitou no chão.

O livro da folha iniciava a explicação dizendo que quase todos Pokémon planta tinha habilidade de sentir a energia vital a sua volta. Sentir a energia nas plantas, na agua, no ar, em outros Pokémon e até nas pessoas.

Perguntei para Leaf se ela sentia algo assim e ela continuou me olhando como se achasse que eu estava louca. Pedi que ela fechasse os olhos e relaxe, que se concentrasse nos sons a sua volta e tentasse visualizar as coisas que estava a sua volta.

Eu não sabia o que estava dizendo, mas o livro dizia que o primeiro passo para conseguir usar o ataque seria sentir a energia fluir na vida a sua volta. Toda aquela conversa me parecia loucura, mas Lenora havia me dado aquilo e eu colocaria minha mão no fogo caso ela dissesse que me faria bem.

Continuamos quietas durante algum tempo enquanto Leaf continuava imóvel, com a cauda e a cabeça erguida. Até que por fim, depois de alguns minutos ela abriu os olhos e me encarou como se dissesse “e agora?”. – Deu certo? – Perguntei curiosa, mas ela continuou me encarando.

Dei de ombros e tentei continuar – agora é só absorver. – Leaf balançou a cabeça e virou a cara. – Eu não sei como isso funciona, depois de sentir a energia é só você trazê-la até você. Pokémon deveria fazer isso por instinto.

Ela ronronou em discordância e se sentou. – Talvez se você encontrar um Pokémon que tenha essa habilidade você possa pedir que ele mostre para Leaf – Desmond se enfiou na conversa de repente.

– Talvez você esteja certo, vamos continuar tentando essa coisa de sentir a energia até que eu descubra como fazer isso funcionar – disse para os dois.

Alguma coisa então começou a acontecer, esferas luminosas, como bolhas de sabão esverdeadas e transparentes começaram a surgir da grama a nossa volta. Olhei em volta assustada e me deparei com Serperior com o dorso erguido e os olhos fechados.

As bolhas luminosas iam calmamente em direção a ele, estourando em contato com seu corpo o fazendo reluzir quando aquilo acontecia. Fiquei sem palavras enquanto mais e mais bolhas surgiam.

Serperior não só estava prestando atenção no que eu tinha dito, como também estava tentando aprender o movimento. Quem sabe até mesmo já não soubesse e estava tentando mostrar a Leaf como se fazia.

Eu não tinha me dado conta até aquele momento que de alguma forma Serperior e Leaf tinham criado algum tipo de relação de respeito. Talvez, Leaf tendo o derrotado depois de uma batalha tão igual de poderes tenha feito Serperior enxerga-la como uma oponente digna e agora ele queria ajudá-la, talvez até retribuir o favor da noite passada.

Liepard fez um muxoxo e tentou estourar um das bolhas com a pata, mas ela passou por ela como se tosse intangível. De repente todas foram em direção a Serperior de uma vez, sendo sugadas com ferocidade.

Só percebi que estava sorrindo depois de algum tempo quando Leaf caminhou até Serperior e começou a falar com ele. Não dava pra entender o que eles diziam, mas pela primeira vez desde que sai em sua busca me senti animada por ter Serperior na equipe.

Fiquei ali a manhã inteira acompanhando os avanços de Leaf, sentada em um tronco de arvore perto das cinzas da fogueira extinta. Ficar olhando os dois interagindo me deixou verdadeiramente feliz, algo em como Serperior se portava com Leaf me fez vê-lo de forma diferente. Ele não parecia o monstro que tentou me matar, mas um Pokémon dócil que tentava ajudar o outro.

Desmond saiu para terminar seu trabalho e só voltou quando Leaf já conseguia fazer suas primeiras bolhas surgirem da grama. Nada tão esplendido quanto Serperior fazia, mas definitivamente, ela estava aprendendo.

Almoçamos o resto de pão e queijo que tinha na minha mochila e algumas frutas que Desmond colheu. Depois que terminamos o garoto me contou que finalmente havia conseguido o que queria. Fotos de uma Unfezant no ninho cuidando de seus filhotes.

Era realmente uma cena incrível, os Pidove estavam com os bicos abertos esperando que a mãe desse um pedaço da fruta amarela que carregava no bico. – Você não me contou quais eram os outros dois requisitos de um fotografo – voltei ao assunto enquanto caminhávamos por uma trilha na mata. Aparentemente ele queria me mostrar um lugar importante.

– As duas últimas não são tão interessantes. A quarta consiste em tirar varias fotos do alvo, em algumas situações você não consegue fotografar o Pokémon parado, isso te ajuda a ter mais oportunidade de capturar uma imagem melhor – ele me contou parecendo meio envergonhado – e a ultima é chamada de olhos. A ligação pessoal entre quem vê a foto e o Pokémon é muitas vezes sobre o contato olho no olho, por isso é importante fotografar os olhos corretamente. Se os olhos dos Pokémon selvagens estiverem nítidos e claros em suas fotos, provavelmente irá conseguir esse efeito de afinidade. Se os olhos estão fora de foco, ocultos na sombra, ou se o assunto pisca os olhos ou fica muito distante, a conexão é perdida, e a foto certamente vai falhar.

– Você tem razão – assumi balançando a cabeça – não são tão interessantes.

Ele sorriu e me deu um soco no ombro. Aquela atitude me lembrou de Deedee e eu senti uma pontada de nostalgia. Á ultima vez que ele tinha feito isso estávamos no estádio em Nimbasa antes do ataque. Tudo estava dando certo e nos estávamos contentes com o rumo que estávamos tomando.

– Chegamos – ele revelou.

Olhei em volta e percebi que tínhamos saído da floresta, estávamos novamente em meio à civilização. A nossa frente uma enorme torre que parecia ser de mármore se erguia metros em direção ao céu. Havia uma boa quantidade de pessoas indo e vindo, todas com idades bem variadas. – E onde seria isso? – Perguntei curiosa.

– Celestial Tower. Já ouviu falar? – Ele me perguntou voltando a andar, agora em direção a entrada. Acho que já tinha ouvido falar algo a respeito na TV, sabia que era um tipo de cemitério de Pokémon, mas não estava entendendo porque Desmond estava me levando pra lá.

Assim que entramos vimos dezenas de túmulos, plaquinhas levantadas de metal, mármore ou gesso exibindo o nome dos Pokémon ali jazendo. A lembrança do cemitério onde Simi estava me bateu como uma pedra. Senti um aperto no coração e aquele sentimento de vazio voltou a tentar me preencher. – O que estávamos fazendo aqui afinal de contas? – O questionei usando um tom meio rude.

– Quero te mostrar uma coisa – ele respondeu usando o mesmo tom e encerrou o assunto.

O segui por vários andares, subindo dezenas de degraus gélidos. Vimos no caminho varias pessoas debruçadas ou apoiadas a placas, algumas chorando, outras apenas mantendo-se em silencio. Em algum ponto enquanto subimos Pokémon em forma de vela chamados Litwick começaram a surgir. Ouvi dizer que eles guardavam os mortos e aquilo me deu arrepios.

Quando estávamos já ofegantes, vários andares acima de onde entramos a luz do dia começou a ser emitida por uma abertura. Demos um ultimo gás e chegamos o mais depressa possível a cobertura da torre.

Uma velha senhora usando um vestido cerimonial estava sentada costurando uma peça de roupa em frente a algo parecido com um altar. No topo dele um enorme sino com inscrições estava imóvel e majestoso.

– Olá vovó. Estava morrendo de saudades – Desmond cumprimentou caminhando depressa em direção à senhora, a abraçando com força depois.

Ela ficou toda sorridente e retribuiu o abraço com dificuldade. Parecia uma bonequinha de porcelana, sem querer ser chata, tão velha que parecia que se partiria que a apartesse forte demais.

– E quem é aquela? – Perguntou quando reparou na minha presença – uma nova namorada? Eu não gostava daquela outra alta.

Fiquei corada com o comentário da velha intrometida, eu nunca tinha pensando em Desmond daquela forma – sou Haila e não namoro seu neto.

– Deveria – a velhota aconselhou se livrando dos braços de Desmond – teriam filhos lindos.

– Vovó – Desmond a repreendeu, – viemos aqui pelo sino. Haila ainda não conhecesse sua história.

– Ó – a velhota arfou, fingindo surpresa com a revelação. Caminhou devagar até mim e me deu a mão, me puxando pelos poucos degraus acima até chegar ao topo do altar. A vista ali em cima era incrível, estávamos muito alto. A torre dava visão quase completa ao condado inteiro e a brisa era constante. Meu cabelo se desarrumar por completo, balançando insistentemente para o lado em decorrência.

– O sino da saudade – a velhota começou o relato, – muitas pessoas vem aqui todos os dias para saldar Pokémon que deixaram para trás. Há varias lendas sobre a Celestial Tower. Alguns dizem que foi construída pelo próprio Arceus para que as pessoas possam seguir em frente depois da perda de um parceiro.

“O sino deve ser tocado em memoria do Pokémon perdido, um toque para cada perda. De alguma forma o som é diferente para cada um que o toca. Dizem que esse som reflete a natureza de o faz e esse tem o poder de purificar o coração partido.”

Fiquei em silencio por um instante. A velhinha estendeu a mão e me entregou um martelo cor de chumbo. – É difícil acreditar em historia como essa – a velha quis completar, – mas ainda existe magia no mundo minha querida. Forças que não podemos compreender e que agem de forma misteriosa. Algumas vezes você só precisa querer acreditar.

Eu gostaria de acreditar. Ergui o martelo e pensei em Simi. Em como foi à sensação de recebê-lo de Cilan, de como ele estava ofegante depois de ajudar a mim e Dee a fugir dos assaltantes em Nimbasa, de como foi à batalha contra Elesa... Ele foi o melhor Pokémon que alguém poderia ter. Acertei com força a lateral do sino e senti minha mão tremer com o impacto.

Um som oco e grave reverberou tão alto que pude sentir a vibração dentro de mim. Meus olhos se encheram de lagrimas de repente, mas eu segurei, não queria mais chorar.

Eu não teria o soltado da Pokéball se soubesse que aquilo aconteceria. Se soubesse que depois de tudo o que passamos eu o veria morrer na frente de meus olhos. Eu não percebi quando aquela lagrima única lagrima correu meu rosto, apenas quando ela estava por um fio no meu queixo.

Eu não acreditava que um sino pudesse me libertar de toda a dor, que me fizesse superar tudo que passei como magica. Mas a velha estava certa em dizer que eu estava de coração partido. E isso estava me afetando profundamente. Quando eu estava no fundo do rio com Serperior ou enquanto estava presa no Wrap eu desisti de viver. Simplesmente aceitei a morte como se fosse à solução.

A mágoa estava se enraizando dentro de mim de uma maneira que eu acabaria não conseguindo mais contê-la se permitisse que continuasse. Toquei o sino que ainda vibrava levemente com a mão e senti o metal gelado sobre a pele. – Tenho que deixa-los ir. Não posso perder Leaf também – sussurrei e senti a mão da velha no meu ombro.

Assim que o som sessou eu tomei mais um folego. Me afastei um passo e pensei na batalha contra Clay. Steelix era um monstro enorme de metal reluzente que não hesitou enquanto tentava atacar Leaf. Eu não tinha nenhum tipo de afeição real por ele, mas assim como a Team Plasma com Simi eu havia causado sua morte indiretamente.

Acertei o sino com força e de algum modo à velhota estava certa, o som ecoou diferente. Desta vez soando mais agudo e em ondas. Fechei meus olhos e deixei que a vibração tomasse conta de mim.

Sequei meu rosto que ainda permanecia um pouco húmido do lado direito e me virei, encarando Desmond e sua avó. – Obrigada senhora – acompanhei meu agradecimento de uma reverencia. Ela sorriu e deu dois tapinhas nas minhas costas em resposta.

Caminhei até Des e parei em sua frente no momento em que um grupo de pessoas alcançou o topo da torre. – Obrigada – agradeci dando-lhe um abraço. Ele sorriu e correspondeu o abraço, colocando a mão atrás da minha cabeça, apoiando sua cabeça a minha.

– De nada, princesa.

– Viu só – a velha gritou do topo da escada – eu disse que vocês formariam um belo casal.

Empurrei Desmond e me virei furiosa – eu gosto de garotas, velha intrometida – menti tentando calar a boca da velha.

Ela levantou a mão e gritou de volta – meu neto também.

– Não dê corda – Des pediu – se não ela vai continuar o dia inteiro.

Caminhei até as barras de proteção que cercavam topo da Celestial Tower e as segurei com força, sentindo o frio metálico se espalhar pela palma da minha mão, ignorando completamente a velha desgraçada atrás de mim.

Dava pra ver tudo ali de cima. A enorme floresta que cercava a cidade de Mistralton se estendendo até o sopé das montanhas. Os rios se encontrando e se tornando mais fortes e maiores em determinado ponto do horizonte e alguns poucos aviões levantando voou no aeroporto. Além das varias rotas espalhadas pela floresta onde algumas pessoas caminhavam acompanhadas de seus Pokémon.

Eu tinha chegado enfim ao limite. Tudo em minha tinha se esgotado. Sem duvida quando fugi de casa era impossível imaginar que eu passaria por tudo isso. Que conquistaria amigos e os perderia, assim como Pokémon. Ainda não tinha conseguido encontrar a resposta pra simples pergunta; se eu soubesse que tudo isso iria acontecer, eu teria saído de casa?

Desmond surgiu do meu lado um instante depois, encostou seu ombro ao meu e encarou o horizonte. – É lindo não é?

– Um dos lugares mais bonitos que vi desde que sai de casa – confessei deixando transparecer o sentimentalismo na minha voz.

Ficamos em silêncio um pouco, apenas deixando que a brisa forte desorganizasse nossos cabelos. Ali em cima era fácil mergulhar em pensamentos e se perder em suas próprias dúvidas e tristeza. Celestial Tower, a torre das despedidas.

Tentei afastar a angústia, mas não era mais possível fazer isso. Tudo estava voltando à tona, mas diferente de todas as outras vezes eu não estava entrando em desespero. – O que eu vou fazer? – Sussurrei deixando as palavras serem levadas com o vento.

– Eu não sei – Desmond respondeu baixinho, – o que você quer fazer?

– Ir atrás da Team Plasma e fazê-los pagar por tudo o que fizeram – respondi sem pensar duas vezes. A resposta estava na ponta da minha língua.

– Tentar se vingar de alguém mais forte que você é burrice, Haila – respondeu com frieza, se virando pra mim.

Me virei olhando dentro dos olhos do garoto.

– E o que sugere que eu faça? Que simplesmente esqueça o que eles fizeram e siga em frente?

Ele balançou a cabeça negativamente, seu olhar fora tomado por um ar melancólico que eu nunca vira antes.

– Eu não falo de perdão ou esquecimento Haila, mas a vingança não valeria de nada se você ou Leaf morressem tentando fazer isso.

Comprimi meus lábios e desviei o olhar, voltando a encarar o horizonte. Ele estava certo, eu jamais conseguiria me vingar, ou fazer justiça sozinha. Eu já tinha visto o que a Team Plasma podia fazer e negar que aquilo me amedrontava era burrice.

Eu não ligava mais pra mim, mas Leaf tinha dado tudo de si pra me ajudar, tinha sido a melhor amiga que eu poderia pedir e eu passei dos limites com ela. Se não fizesse isso por mim, faria por ela.

– O que aconteceu... eu não sou mais a mesma pessoa, Desmond – desabafei lembrando de como eu tinha agido com Skyla, da pessoa horrível que eu tinha me tornada tomada pelo ódio.

– Você não pode aprender certas coisas sem sofrimento, eu acho – sugeriu ainda me olhando – mas o que você faz com essa dor é com você. – Ele ficou em silêncio um minuto e depois de hesitar uma vez continuou – perdi minha mãe quando era pequeno e meu pai nunca teve tempo para cuidar de mim porque precisava trabalhar. Acabei indo morar com minha avó mais tarde. Por muito tempo, eu senti raiva do meu pai por ter me mandado embora, mas hoje consigo ver que foi pro meu bem. Nem sempre dá pra ver a situação claramente, mas a vida dá um jeito de te mostrar o caminho.

Eu estava mesmo me perguntando de onde aquelas coisas tinham saído, Desmond era sempre muito brincalhão e calmo. Eu nunca poderia imaginar que ele tinha passado por algo assim, ou visse as coisas dessa maneira. Eu tinha me esquivado dele esse tempo todo, mas ele era um bom amigo.

– Ela podia apenas ser um pouco mais breve em me mostrar. Eu não sei pra onde ir agora.

– Porque não vem comigo para Lentimas? Tenho um trabalho lá e depois disso tenho que voltar pra sede da revista.

– Bem, não tenho nada melhor pra fazer – dei de ombros. Fosse qual fosse à resposta, no caminho volta não havia mais nada pra mim. Eu seguiria em frente.

Notas finais
Haila precisou organizar seus pensamentos, sua ideias e principalmente entender seu coração. Muita coisa mudou pra ela, mas ela mesmo ainda continua sendo a mesma, mais louca e perigosa. Espero que tenham gostado. E ai o que você achou?