Rota Zero
70 Chuva em Twist Mountain - parte 3
Notas iniciais
December
CHUVA EM TWIST MOUNTAIN — parte 3
Quando abri os olhos, demorei para me acostumar o claridade do dia cinzento e chuvoso. Lila estava caída ao meu lado, mas parecia bem. Havia árvores caídas e a rocha onde o lendário estava não existia mais. No lugar onde o Golem e o Onix estavam havia uma cratera imensa e pedaços da rocha, de todos os tamanhos, tinham voado para todo lado, deixando uma nuvem de pó que a chuva dissipava rapidamente.
— Lila, você está bem? – Disse tocando seu ombro. Ela abriu os olhos escuros e demorou até se orientar. Então sentou, espanando o pó das roupas.
— Sim, eu acho. E Butterfree? – Perguntou receosa. Apontei e o Pokémon estava próximo a nós, braços estendidos e pela primeira vez pude ver o escudo invisível do Protect com uma rachadura enorme.
— Obrigado, Buttefree – agradecemos em uníssono e ele respondeu com um som alegre.
Marsh se levantou do meio do cascalho, ao meu lado. Irritado de estar sujo e molhado, mas não parecia ferido.
— E os outros? – Lila questionou enquanto tentava encontrar alguém.
Nós levantamos e começamos a andar lentamente por ali. Não havia sinal do lendário, mas não demorou até que eu diferenciasse entre as pedras, a cabeça do Onix de Dan. O resto do corpo não existia mais e o que sobrara da língua pendia para fora da boca aberta.
Ouvi um remexer de pedras e folhas e Des apareceu, com algumas escoriações leves, acompanhado de Bacon.
— Vocês estão bem? – Perguntou ao nos ver, Lila correu até ele e o abraçou. Ele retribuiu e se levantou. – Onde está a Haila e o Dan?
Dei de ombros e continuei encarando o local desolado, parecia uma zona de guerra. Bacon veio ao meu encontro, e deu uma longa olhada, conferindo se eu estava bem. Passei a mão sobre sua cabeça, confortando-o e ele deu um pequeno grunhido.
— Você consegue achar a Haila? – Perguntei me lembrando do seu faro e ele prontamente começou a procurá-la.
Não demorou para que a encontrássemos sob uma pilha de cascalho. Ela estava bem, Serpio tinha se enrolado nela e servido de escudo para as pedras que caiam. A menina quase não tinha ferimentos, mas o buraco de bala que estava quase cicatrizado estava sangrando.
— Você está bem? – Me ajoelhei ao lado dela e ela confirmou positivamente com a cabeça. E Serpio se desenrolou dela. Ela passou a mão em sua cabeça como agradecimento, mas ele não foi muito receptivo.
— E os outros? – Perguntou encarando meu semblante cansado.
— Des e Lila estão bem – respondi com um sorriso fraco.
— Dan? – Mas eu não sabia o que tinha acontecido com ele. – O lendário?
— Deve ter fugido.
— A Team Plasma?
— Não faço ideia.
— Dan, Dan! – Des chamou e percebi que havia urgência em sua voz. Ele estava abaixado ao lado de uma rocha, próximo de onde estávamos.
Ajudei Haila a levantar e nos aproximamos. Damian estava caído, com um corte na cabeça que vertia sangue. Des o chamava e checava seus sinais vitais.
— Ele está... – comecei, me engasgando com as palavras.
— Ele está desmaiado – respondeu enquanto tirava um curativo da mochila e aplicava sobre o ferimento da cabeça. Senti o corpo todo formigar em alívio. – O ferimento na cabeça não é grave, mas isso não é nada bom.
Des apontava para uma grande pedra. Ela estava caída ao lado do corpo do aprendiz e um dos seus braços estava embaixo dela. O braço estava todo torto e esmagado, uma parte do osso quebrado tinha rasgado a pele e uma quantidade absurda de sangue jorrava dali, tingindo o chão e as roupas de vermelho.
— O osso deve ter rasgado alguma artéria quando se quebrou – disse analisando a cor do sangue.
— Ele vai ficar bem? – Eu não tinha a menor noção da gravidade daquilo.
— Se ele perder muito sangue vai entrar em choque. Ele precisa de um hospital.
— Talvez possamos remover a pedra – disse sem realmente saber o que dizer.
— Como? – O fotógrafo indagou. Bacon e Chiclete juntos talvez pudessem levantá-la, mas Bacon estava cansado e Chiclete fora de combate. Os Pokémon da Haila eram muito pequenos e com o Onix morto não tínhamos força suficiente.
– Talvez meus Psyducks consigam – Lila sugeriu e libertou-os. Chardy tinha recuperado seu ferimento com Aqua Ring e estava praticamente novo. Mas mesmo em conjunto com Bulba, eles não conseguiram mover o pedregulho.
De repente, Dan acordou. Os olhos se abriram e encararam o céu cinzento, então, antes que Des pudesse fazer algo, ele tentou se levantar e o movimento fez seu braço estalar, avisando de mais um osso quebrado.
Vi o aprendiz empalidecer e dar um grito tão pavoroso que parecia que as portas do inferno estavam se abrindo. Parecia uma dor horrenda e no desespero, Dan se debatia mais, piorando sua situação e espalhando sangue para todo lado. Des tentava acalmá-lo sem sucesso.
— Você precisa se acalmar, você só está se machucando mais – Des empurrou seus ombros de volta no chão tentando segurá-lo.
Demorou alguns minutos até que Des o acalmasse, mesmo assim, o aprendiz choramingava e aquilo me deixava cada vez mais angustiado.
— Dan – Des se voltou para o aprendiz. – Alguns dos seus Pokémon ativos sabe usar Dig, talvez possamos cavar em volta do seu braço e... – mas o aprendiz parecia preso dentro de sua própria dor, apenas gemia, sem realmente responder.
Dan se inclinou, remexendo nos bolsos do outro, mas só havia duas Pokéball, Gligar e Sandshrew, e ambos tinham sido abatidos.
A garoa tinha engrossado, grudando o cabelo escuro de Dan no rosto e ensopando suas roupas e se misturando ao sangue. O solo estava mais lamacento, mas mesmo assim não conseguíamos libertá-lo.
— Talvez eu possa voltar à cidade... – Sugeri, era a única coisa que conseguia pensar.
— Você nem sabe para que lado fica – Des comentou enquanto guardava as Pokéball de Dan. Ele tinha razão. Eu não fazia ideia de onde estávamos nem a distância que teria que percorrer, mas eu precisava fazer algo, não podíamos deixar o Dan morrer ali. Mesmo que não fossemos amigos realmente, ele havia nos mantido seguros.
— Eu posso ir, eu sei ler o mapa – Lila cortou.
— Nem pensar, você é a única com Pokémon prontos para lutar – e era verdade. Haila tinha Serpio, mas ele não era exatamente confiável e Couve-Flor. Eu só tinha Marsh, pois Bacon estava exausto. Peach não me obedecia e Abóbora era muito pequeno para batalhas. Liepard estava ferido e os de Dan também estavam abatidos.
— Mesmo que você consiga fazer o caminho sem problemas, Dan não tem tudo isso de tempo – e mesmo eu poderia prever isso. Dan ainda estava acordado, mas estava extremamente pálido e gemendo muito. Cada vez mais seu sangue se misturava a chuva e coloria suas roupas.
— Os Xtransceiver – comecei, mas me lembrei que eles não funcionavam ali.
— O que vamos fazer então? – Haila questionou.
Marsh deu um grito angustiado e caiu no chão, como se tivesse sido atingido por um ataque invisível. Só então vi algo que pareciam chamas, mas arroxeadas orbitando seu corpo.
— Marsh!
— Você não é o único com uns truques na manga. – Saindo de uma pilha de pedras, Ianto apareceu. Havia escoriações no rosto que mascaravam sua expressão entediada e o cabelo tinha se soltado. Um Gengar flutuava ao seu lado.
— Desde quando... – minha voz falhou. Eu tinha certeza que ele não tinha mais Pokémon algum.
— Com a explosão o Mean Look foi quebrado, mas eu posso ter meu Pokémon de volta – Mean Look?
— Então era por isso – Haila resmungou. Encarei sem entender. – Mean Look mantem os Pokémon numa espécie de prisão invisível, por isso, o lendário não saia daquela posição.
Encarei novamente o Gengar. Mas não era um Haunter que pairava ao lado do lendário? Não podia acreditar que o Pokémon tinha evoluído em um momento desses.
— Ajude o Des, eu vou dar um jeito nele – e avançou na direção do Team Plasma – Serpio! – E a serpente deslizou pelas pedras e cascalho parando ao lado de Haila.
Retornei Marsh para a Pokéball, Bacon parou ao meu lado como se me questionasse se entraríamos em batalha, mas eu apenas pedi que ele ficasse na retaguarda.
Dan sangrava cada vez mais e estava ainda mais pálido. Des tinha uma expressão tão sombria que eu não sabia o que significava.
— Deedee, vou precisar da sua ajuda e do Bacon – disse me chamando.
— O que você precisar – respondi prontamente. Eu não iria deixar outra pessoa morrer diante de mim.
Des fez sinal para que eu me abaixasse ao lado dele, então se virou e pegou algo na mochila. Era uma faca que eu sempre o via carregar, mas nunca usar. Tinha um punho trabalhado e fora dado por sua avó quando ele finalmente saiu em jornada.
— O que você...
— Eu preciso que você fique calmo e mantenha o Dan quieto – eu percebia que suas mãos tremiam e a ponta da faca balançava como um metrônomo.
— Você tem noções de medicina? – Perguntei sem ter certeza se queria a resposta para isso.
— Eu faço uns curativos, só isso... – respondeu com um sorriso sombrio.
— Tem certeza disso? – E senti meu estomago revirar. – Quer dizer, Lila talvez seja uma assistente melhor.
— Se Haila perder, Lila é a única em condições de batalhar. Nós vamos precisar da proteção dela. E você é mais forte do que imagina, vai ficar bem... – Eu não tinha muita certeza sobre a última parte, mas respirei fundo.
Quando eu morava com meus pais, ocasionalmente eu assistia alguns programas de seriados médicos. As pessoas sempre trajavam branco, resolviam as coisas em salas de emergência verdes e faziam coisas impensáveis para salvar a vida do paciente. Tudo era muito charmoso e gracioso, nada parecido com o que eu presenciava.
Des pegou um pedaço de tecido rasgado da própria blusa e fez um torniquete no início do braço, quase no ombro, bem apertado. Então me pediu para segurar Damian bem firme, quando questionei se não seria melhor o garoto estar apagado, Des disse que era pior pois ficava mais difícil monitorar as funções vitais, malditos seriados médicos onde todos sempre estão anestesiados.
Então com um movimento rápido, ele enfiou a faca no braço fazendo um rasgo não muito fundo. Dan deu um grito terrível e tentou se debater, apoiei minhas mãos no seu peito e tentei mantê-lo imobilizado. Vi o sangue escuro e grosso correr e instintivamente virei o rosto.
Eu podia ouvir o som da carne sendo rasgada, os gritos de Dan e o som da chuva e tentava ao máximo pensar em outras coisas porque sentia minhas mãos fraquejarem a cada novo grito que o aprendiz proferia. Eu podia ouvir Haila passar comandos e Lila usar Protect para impedir algum dano no Serperior, mas não tinha certeza do que estava acontecendo.
Dan estava com a cabeça apoiada contra minhas pernas, o rosto coberto de lágrimas, os olhos parcialmente abertos e a respiração pesada. O braço tinha sido cortado na articulação do ombro e o sangue, graças ao torniquete não fluía tão intensamente. O restante do braço estava embaixo da pedra, sujo de sangue, torto com os ossos expostos e rasgando a pele.
— Deedee – Des me chamou. Ele tinha sangue até os cotovelos, a faca estava tingida de sangue até o cabo e balançava debilmente em sua mão. – Preciso que Bacon cauterize – falou mecanicamente.
O suíno se aproximou incerto e sob o comando de Des lançou pequenas labaredas na lâmina, depois de aquecida, o ruivo pressionou contra o resto do braço. Dan gemeu, mas era uma dor muito menor do que a da amputação.
— Ele vai ficar bem? – Perguntei para Des, que agora começava a ficar pálido. Ele mal me respondeu, virou para o lado e começou a vomitar.
— Eu vou ficar bem... – Dan gemeu com a voz fraca encarando Des que parecia prestes a desmaiar. – Eu disse que iria proteger vocês – e apagou logo em seguida.
Espiei por cima do ombro e vi que Serpio estava coberto de sangue, mas não tinha certeza se era dele, pois havia um ferimento enorme no Gengar. Chardy e Bulba estavam caídos aos pés de Lila e Butterfree tentava dar suporte a serpente esverdeada.
As duas meninas pareciam exaustas e mesmo que o Team Plasma também mal parasse em pé, parecia em melhores condições.
— Will-O-Wisp – e labaredas surgiram em torno do Pokémon fantasma e Serpio pareceu recuar. Mesmo que ele fosse muito feroz, sabia que se meter com fogo nunca era uma boa ideia.
O Gengar se aproximou, circundado pelas labaredas, mas foi atingido por uma espada de luz, que o atravessou, abrindo-o em dois. As partes caíram ensanguentadas com um baque suave no solo cheio de pedras.
Lila levou as mãos a boca assustada e Serpio eriçou os pelos das costas. O olhar de Haila se voltou para o alto, e flutuando acima da copa das árvores, estava o lendário. Sem o Mean Look que o aprisionava, ele parecia muito mais imponente.
Ouvi um som seco, como de uma rolha estourando em uma garrafa de champagne e quando dei por mim, o lendário já estava caído a poucos centímetros de Haila.
— Não – a voz dela ecoou pela floresta.
Em volta do pescoço havia algo que parecia um colar, mas tinha um dispositivo eletrônico nele e em intervalos curtos, ele disparava uma descarga elétrica.
— Belo tiro, Fome – E três membros da Team Plasma se aproximava pelo outro lado, vindo de uma área arborizada.
A voz que fizera o elogio me era familiar e pertencia ao homem com a cicatriz no rosto que os membros da Team Plasma chamavam de mestre em Seaside Cave. Ele trajava roupas cinzentas com um corte sofisticado, ao lado dele estava uma mulher. Ela era tão alta e magra como Elesa, mas não era tão bonita.
Tinha o cabelo claro e ondulado que caia volumoso sobre o uniforme que possuía um decote generoso. Ela carregava um equipamento que parecia um lança morteiro e sorria presunçosamente. Ao lado deles, estava Bellamy, que embora usasse roupas comuns aos membros, trazia um broche diferente, como se tivesse sido promovida.
— Com um alvo desse tamanho seria vergonhoso errar – e deu uma risadinha histérica. A voz era a mesma que ouvira no megafone.
— O que fizeram com ele? – A voz de Haila saiu alta.
— Ora, ora, o que temos aqui? – A voz feminina saiu divertida. – É a irmã do Guerra? – A mulher questionou incerta e Bellamy sussurrou algo em resposta.
— Quem diria que a irmãzinha foi quem atrapalhou seus planos na Seaside Cave – e deu um tapinha no ombro do homem da cicatriz, que não pareceu nada feliz com o gesto.
— Vamos acabar logo com isso, e pegar o Cobalion, estou cansado dessa chuva – rebateu o homem pegando uma Pokéball de coloração diferente na mão.
— Vocês não vão levá-lo – Haila tinha fechado a pequena distância e se colocado diante do lendário. – Não sem uma batalha – e vi a mão dela ir ao bolso.
— Qual é garotinha, apenas saia da frente. Guerra não iria gostar que eu machucasse esse rostinho bonito – disse fazendo beicinho.
Haila fechou o cenho e apertou a última Pokéball que restava na mão. Atrás dela, o Cobalion se debatia a cada nova descarga elétrica, mas tentava se pôr em pé.
— Acho melhor você aumentar, ele está tentando reagir – o homem da cicatriz cuspiu, fazendo sinal para Bellamy, que tirou um aparelho do bolso e apertou um botão.
Uma luz acendeu no colar que Cobalion usava e uma corrente mais intensa correu pelo metal do dispositivo. Cobalion caiu no chão se debatendo e espumando.
— Parem com isso! – Haila gritou novamente.
— Deixe-nos capturar e o sofrimento dele será interrompido – a mulher que atendia por Fome sorriu.
— Nunca – e eu poderia ver fogo saindo dos olhos da Haila.
— Bellamy, cuide dessa fedelha, não temos para ela.
— Sim, senhora – e sacou uma Pokéball, liberando o Cryogonal.
Vi Haila vacilar, Serpio estava exausto e Couve-Flor não daria conta do Pokémon. Abri a boca para que Bacon tomasse a dianteira, mas um jorro de água atingiu o Pokémon que acabara de se materializar na luz avermelhada: Butterfree.
Bellamy fechou a cara e bufou exasperada pela interrupção.
— Haze – comandou secamente e uma névoa se formou em torno do Pokémon, tornando o dia incrivelmente frio. A chuva que caia foi esfriando até se tornar pedaços de granizo.
Serpio se remexeu tentando fugir das pequenas lascas de gelo que caiam como agulhas. Butterfree tentou usar Protect, mas ele estava cansado e não conseguia mantê-lo por muito tempo.
— Serpio – Haila chamou – Bite!
A cobra se enrolou e preparou um bote, mas no meio do voo, Cryogonal se virou lançando um Ice Beam direto na boca aberta. O sangue que estampava a cabeça congelou, os olhos giraram nas orbitas e ele caiu duro, como um picolé na grama molhada.
— Serpio – Haila gritou. O Pokémon raramente era derrubado, mas como ele estava molhado, o efeito do Ice Beam somado ao Haze deveria ter se intensificado.
Cryogonal se aproximou flutuando para desferir o golpe de misericórdia, Butterfree pulou na frente, tentando usar novamente Protect, mas o efeito do Haze tinha congelado suas patas.
— Dê adeus a essa cobra idiota – Bellamy resmungou com desgosto.
— Flame Charge – uma torrente de fogo cruzou o campo atingindo Cryogonal. Apesar do frio e da chuva, o Pokémon pegou fogo e começou a flutuar a esmo, indo na direção da treinadora. Bacon também estava incomodado pelo granizo, mas era o único Pokémon que ainda estava em pé.
No pavor, Bellamy derrubou o dispositivo que carregava. O equipamento bateu contra uma pedra e uma nova corrente foi mandada para o colar de Cobalion. Os olhos giraram nas orbitas, ficando totalmente brancos e ele parou de se debater como se estivesse morto.
— Sua imbecil – Fome gritou encolerizada enquanto Bellamy retornava o Pokémon a Pokéball. – Não sei por que Dreidan te achou merecedora desse posto. – Bufou. – Eu mesma vou acabar com isso.
E uma Nidoqueen surgiu da Pokéball arremessada pela mulher. Haila tinha recolhido Serpio e Couve-Flor estava em seu lugar. Os olhos estreitos tremeram ao ver a grande Pokémon se aproximando. Bacon estava ao lado dele, assim como Butterfree, mas todos estavam esgotados.
— Venoshock – e o sorriso se abriu. A Pokémon fez um barulho com a garganta, como se fosse vomitar, então lançou uma espécie de gás que se expandiu rapidamente em todas as direções.
— Corram – Haila gritou desesperada.
Bacon passou a pata roliça pelo corpo magro de Couve e rolou pulando em uma pequena abertura entre dois pedregulhos. Mas Butterfree não foi tão rápido e acabou envolvido pela nuvem de gás. O Pokémon rosado caiu no chão e começou a respirar com dificuldade.
Ouvi Lila dar um gemidinho ao lado da loira e retornar seu Pokémon. A morena estava fora de batalha.
Enquanto Fome tentava nos exterminar, o homem da cicatriz se aproximou do Cobalion e lançou a Pokéball. Vi a bolinha dar um voo em arco e se abrir, mas foi arremessada para longe quando o Liepard de Des se colocou no caminho e a rebateu com a cauda.
Nem tinha reparado que Des tinha se levantado e dado a volta em Dan e eu. A expressão dele não era nada segura ou feliz. Liepard estava machucado e ele estava enfrentando um dos generais da Team Plasma.
— Eu se fosse você, moleque, teria ficado quieto, seria maior sua chance de sobrevivência – E lançou um Shedinja no campo. Eu não entendia muito de Pokémon, mas aquele inseto não parecia realmente muito assustador. – Leech Life– E o Pokémon lançou um ferrão em Liepard e lentamente começou a sugar sua energia vital.
— Vamos querida – Fome gritou para Haila. – Volte seus Pokémon na batalha.
A loira cerrou o punho, Bacon e Couve ainda estavam protegidos na vala. O Venoshock não era um golpe fácil de desviar. Eu não tinha ideia do que fazer, ainda estava com Dan, relativamente longe de onde a batalha se desenrolava e Haila teria que comandar a dupla sozinha.
– Lie, Pursuit – Des ordenou. O Pokémon estava cansado e ferido, se ele não fizesse nada, o inseto sugaria o resto das forças que ele tinha.
Mas o Liepard sequer fez seu movimento, foi atingido por uma cabeçada violenta que o mandou aos pés de Desmond. O fotografo se abaixou, acolhendo o Pokémon desacordado.
Cobalion estava em pé, os olhos brancos, o colar ainda tinha as luzes acesas. Ele expirou pelo nariz fazendo um barulho ruidoso e bateu as patas violentamente no chão. Aquilo não era um bom sinal.
Eu poderia dizer que Cobalion estava descontrolado e isso não seria uma mentira, mas também seria errôneo, pois ele não ficara como Chiclete durante o Contest ou o Mamonswine após o Confusion. Ele não estava correndo a esmo e atingindo qualquer coisa que se movesse pela frente.
Seus passos eram leves e seus movimentos precisos. Quando ele atingiu o Liepard, foi apenas para tirá-lo do caminho e a investida que deu em Shedinja, que não surtiu efeito algum, não pareceu ter toda sua força aplicada. Mas não posso dizer o mesmo de quando ele investiu contra Morte.
O quadrupede correu em disparada na direção do membro da Team Plasma e só parou quando bateu em uma parede invisível e foi repelido. De onde eu estava não dava para ver ao certo, mas Shedinja deveria estar usando Protect ou algo parecido. O lendário continuou colidindo contra a parede invisível, tentando uma passagem.
O homem da cicatriz não parecia realmente abalado, apenas analisava o Pokémon que batia com os chifres tentando passar a defesa.
— O que está esperando? Capture-o logo – Fome gritou, mas Morte sequer se abalou, continuou estudando o lendário e fez sinal para Ianto se aproximasse.
Dando a volta por trás, o membro emparelhou com o líder e curvou as sobrancelhas sem entender. Quando Cobalion fez uma pequena pausa, recuperando suas energias, Morte ordenou que Shedinja baixasse o escudo protetor.
Eu achei que ele iria aproveitar a brecha e capturar o lendário, mas empurrou o rapaz pelo braço, fazendo- o cair no chão diante do Pokémon e ordenou que Shedinja levantasse as proteções novamente.
Ianto levantou a cabeça, encarando os olhos sem vida que o fitavam sem realmente vê-lo. O ar saiu ruidoso pelas narinas e Cobalion baixou a cabeça, quase como uma reverência. Não tive muita certeza do que aconteceu depois, mas quando percebi um dos chifres já estava enfiado no peito do membro da Team Plasma.
Um jorro de sangue saiu pela boca e os olhos se arregalaram, perplexos. Cobalion levantou a cabeça, com o rapaz preso no chifre e girou a cabeça, fazendo com que o apêndice cravasse ainda mais no peito, atravessando-o.
O lendário começou a agitar a cabeça, como quem tenta se livrar de uma folha no cabelo, e a balançava o corpo. Os olhos de Ianto ainda estavam abertos e golfadas de sangue saiam pela boca, mas ele não gritava, parecia preso em uma espécie de torpor que o impedia de reagir. Eu só poderia presumir que seu assombro não era por causa do lendário, mas sim por seu mestre que o usava como sacrifício.
— Interessante – Morte exclamou enquanto assistia a cena, como se tivesse descoberto algo. Mas nada daquilo fazia sentido para mim.
Cobalion demorou um tempo razoável chacoalhando a cabeça e balançando o corpo no ar, cada movimento produzia um som de pele rasgada e o buraco no peito de Ianto se alargava, até se tornar tão grande que com um movimento mais exagerado, o corpo se soltou caindo inerte no chão.
Quando o rapaz não era mais um obstáculo, Cobalion voltou a se chocar contra a parede invisível criada por Shedinja. Eu não sabia nada sobre lendários, mas aquele tipo de atitude não combinava em nada com o que eu ouvira até então, mesmo que eles não fossem bons, eles eram justos e matar alguém que sequer reagira não me parecia justiça, por pior que fosse.
Além disso, quando encontramos com Keldeo, ele apenas derrubou humanos e Pokémon, deixando-os desacordados, sem realmente feri-los, o que me fazia imaginar que aquele comportamento excessivo só poderia ser causado pelo colar.
— Couve, Razor Leaf – ouvi Haila comandar.
Eu tinha me esquecido completamente da luta entre Fome e ela, e aparentemente as duas também. Bacon e Couve-Flor tinham saído da vala e tinham voltado ao campo de batalha. E embora estivessem a poucos metros da Nidoqueen, eles não se atacavam, apenas se estudavam enquanto suas treinadoras pareciam compenetradas nas ações de Cobalion.
As folhas cortantes não foram para cima de Nidoqueen, mas na direção de Cobalion. A loira apontava diretamente para o colar e Couve-Flor se esforçava para acertar um alvo tão preciso em uma distância tão longínqua. As folhas tilintaram contra o metal do colar, mas não fizeram mais do que arranhões, parte do ataque atingiu a pelagem azul e mesmo que uma falha pronunciada pudesse ser vista, não foi fundo o suficiente para tirar sangue.
Cobalion se voltou para a direção do ataque e encarou o pequeno Sunflora que tremia na base. O quadrupede ganhou velocidade, vindo em trote acelerado para cima do pequeno Pokémon.
Haila comandou que ele desviasse, mas as perninhas magrelas balançavam tanto que era visível que ele não conseguiria sair dali.
— Bacon – gritei o mais alto que consegui – proteja o Couve.
Mas meu comando nem era necessário, o suíno já estava se movendo com esse propósito antes mesmo do meu comando, mas a Pokémon venenosa girou na base, fazendo um circulo com o corpo e o atingindo com uma chicotada de cauda. Antes que ele pudesse se desequilibrar totalmente, a cauda azulada enrolou na pata roliça e o girou, lançando para longe, como homem que lança um disco.
Bacon voou e caiu quase ao lado do Mamonswine, que ainda estava desacordado. A grama molhada e os galhos caídos amorteceram sua queda e segundos depois ele já estava em pé.
Cobalion tinha ganhando muito terreno e Haila parecia incerta do que fazer, Couve não se movia em seu pavor. Ela puxou a Pokéball na mão e se preparou para retorná-lo, mas o lendário fez um contorno e passou a milímetros do Pokémon que caiu no chão com ar produzido. Só então me dei conta, não era o Couve-Flor que Cobalion mirava.
As patas retumbavam no cascalho e Haila deu um passo para trás. Momentos antes, o lendário tinha ajudado Haila a derrotar o Gengar e agora se voltava contra ela. Ela afastou mais um passo, mas sabia que mesmo que corresse não seria tão rápida.
Cobalion estava muito perto, mas parou de repente e seus olhos vazios encararam o céu. Talvez seja exagero da minha parte, mas foi como ver o céu se abrindo. As nuvens pareceram se afastar e a chuva intensa diminuiu e no meio disso tudo, Keldeo surgiu majestoso.
Ele flutuava lentamente e foi descendo até suas patas tocarem o chão. Ele estava parado na frente da Haila, como se a protegesse e ela poderia tocar seus pelos se estendesse a mão. Quando o vira em Seaside Cave ele parecia grande e poderoso, mas agora, ao lado de Cobalion, ele parecia apenas um Ponyta azul. Ainda havia graça e nobreza, mas era como se Cobalion estivesse em um posto muito mais alto.
Os dois se encaravam em silêncio e vez ou outra balançavam a cabeça, como se conversassem telepaticamente.
— Cuidado – Lila gritou e pude ver que Fome tinha recuperado sua arma e atirava um colar contra Keldeo.
O pônei deu um salto, desviando do colar que passou direto e voltou a sua posição. Cobalion fungou e partiu em corrida, na direção da mulher. A Team Plasma deu um comando e Nidoqueen pulou na frente, protegendo-a, em posição de batalha. Mas os dois Pokémon nunca chegaram a se chocar.
Keldeo abriu a boca e lançou uma poderosa rajada de água com pressão contra o companheiro que escorregou no cascalho e tombou. Os pelos azuis ficaram encharcados, mesmo assim, quando Cobalion se levantou, ele continuou seu percurso, na direção de Fome.
Keldeo repetiu o ataque e a cena toda se repetiu novamente, então deu um salto e parou entre Cobalion e Nidoqueen, fazendo um gesto negativo com a cabeça. Cobalion deu um passo para o lado, como se pretendesse contornar Keldeo, mas este repetiu o movimento, fechando a passagem. Então virou a cabeça para Nidoqueen e fez um barulho agudo. A Pokémon apenas começou a se afastar, usando o corpanzil para arrastar a treinadora consigo.
— O que está acontecendo? – Questionei para mim mesmo sem entender. Bacon parou ao meu lado e deu um grunhido baixo, como um lamento. Os Pokémon sabiam o que estava acontecendo, mas nós humanos não.
=8=
Havia cenas que eu vivenciara que eu gostaria de manter na memória pelo resto da minha vida e havia outras que eu gostaria de esquecer, como alguém se sofre amnesia. Mas eu tinha certeza que as cenas que eu gostaria de esquecer eram as que ficariam mais tempo presas nas minhas lembranças.
Havia a morte de Draiden e o Zoroark que rasgara sua garganta sem cerimônias, havia o som do concreto e ferro da barragem rompendo em Opelucid. Havia o som do Team Plasma sendo esmagado pelo próprio Mamonswine, os gritos de Dan enquanto Des o socorria e a expressão vazia de Ianto enquanto morria. Mas todas elas me pareciam muito pequenas perto daquela que provavelmente ficaria gravada na minha retina pelo resto da vida: a luta entre Cobalion e Keldeo.
Ver um lendário era algo que eu sequer poderia ter sonhado, muito menos dois e menos ainda vê-los lutar.
Os jatos de água tinham sido apenas um aviso de Keldeo, mas Cobalion os ignorou. Então, o pônei precisou ser mais incisivo e quando o lendário de metal fez menção a avançar sobre Fome, Keldeo avançou, atingindo com coices e mordidas. Cobalion girou, conseguindo fugir do ataque, mas Keldeo mandou um novo jato de água derrubando-o no chão.
O Pokémon se levantou, balançando o couro e tirando o excesso de água e finalmente a mulher pareceu deixar de ser seu alvo, pois ele avançou sobre Keldeo com uma cabeçada. O golpe mandou o ser contra as árvores na orla da clareira. A madeira estalou e o tronco pendeu para o lado, se prendendo na árvore adjacente.
Keldeo se apoiou nas patas dianteiras, tentando levantar, mas Cobalion já estava sobre ele, quase como se tivesse se materializado ali, e com um coice o derrubou novamente. Então subiu sobre as costas do menor, pateando violentamente e mordendo na altura do pescoço, arrancando parte da pelagem azul e sangue. Keldeo deu um guincho e enfiou a cara no chão lamacento. O sangue corria absurdamente pela ferida e Cobalion pateou mais algumas vezes até ter certeza que o Pokémon abaixo de si estava imóvel, então voltou sua atenção para os humanos que o rodeava, mais precisamente, Des, Dan e eu, que éramos os mais próximos da orla da clareira.
Enquanto avançava na nossa direção, com passos decididos, Keldeo começou a se mexer lentamente, as patas tentando se alinhar para coloca-lo em pé. Então seu corpo começou a brilhar, envolvido por uma luz intensa, como se estivesse evoluindo.
Cobalion foi atraído pela luz intensa e se voltou para o Pokémon. Quando a luz se desfez, Keldeo parecia diferente, mesmo sem mudar muito. A crina era mais volumosa e mechas coloridas saiam da cabeleira avermelhada, como um pequeno arco-íris. O chifre, que era um pequeno apêndice, tinha dobrado de tamanho e parecia mais rijo, como se feito de osso. A cauda balançava graciosamente atrás de si, mas o rasgo que Cobalion havia feito no pescoço estava lá, pedaço de pelo e carne faltando, manchando o pelo azul e branco de sangue.
O lendário de metal avançou, Keldeo saltou por cima, mas antes que pudesse tocar as patas no chão, Cobalion o atingiu com um coice certeiro. O pônei caiu desajeitado e lançou o golpe da espada de luz.
Cobalion saltou para o lado antes de ser atingindo e avançou com uma cabeçada. Keldeo saltou, mas escorregou no piso enlameado. Os chifres se encontraram em um som agudo e fagulhas pareceram voar por todos os lados.
Os dois ficaram se empurrando e girando no piso acidentando. Keldeo, apesar de ser menor e mais leve, conseguiu girar o corpo e derrubar Cobalion no chão com um Take Down. Um dos chifres de Cobalion se quebrou com o impacto, se misturando a grama úmida. Keldeo aproveitou o Pokémon caído e atacou com Retaliate.
Cobalion se contorceu durante o ataque, exprimindo um guincho que pareceu preso na garganta. Keldeo continuava a perder sangue e toda a parte dianteira do seu corpo estava tingindo de vermelho e marrom.
Ele deu um passo para trás, respirando com dificuldade e fez o mesmo som característico que fizera antes de começar a batalha. Mas mal terminou de proferi-lo, Cobalion se virou e pulou sobre ele, jogando todo seu peso.
Keldeo caiu com um baque no chão. Os dois se engalfinhavam e se debatiam de forma tão confusa que era impossível dizer quem estava levando a melhor. O chifre de Keldeo passou rasgando e abriu um enorme talho no rosto do Cobalion, um corte do focinho até a orelha.
O pônei tentou um novo disparo de água, mas suas forças tinham se exaurido e ele só conseguira molhar Cobalion, sem ter forças para tirá-lo de si. Entretanto, tinha conseguido acertar um coice em uma das patas traseiras do maior e fora possível ouvir o osso estalar enquanto quebrava. Mas mesmo assim, Cobalion não se deu por vencido.
Baixou a cabeça e usando o único chifre que agora possuía, rasgou a barriga exposta de Keldeo. O sangue demorou a verter, mas quando o fez, partes de vísceras apareciam pela abertura. O pônei deu um grito pavoroso e ergueu a cabeça em um último esforço, tentando atingi-lo com o chifre. O osso azulado acertou o pescoço, raspando contra o metal do colar e destruindo o dispositivo de comando.
A ponta do chifre se quebrou, ficando enroscado no colar. As forças sumiram e a cabeça foi ao chão, os olhos voltados em minha direção. A respiração era pesada e ruidosa e pouco tempo depois sangue saia pelas narinas.
As luzes do colar se apagaram e com um click, o dispositivo caiu do pescoço, rolando pela grama junto a ponta do chifre quebrado. Cobalion estava parcialmente em pé, mas suas pernas cederam e seu peito foi de encontro ao de Keldeo, que gemeu quando sentiu o peso desabar sobre si.
O sangue que escorria do rosto cobria quase todas as feições de Cobalion, mas através dos olhos semicerrados era possível ver que suas orbitas tinha voltado ao normal. Ele tentou levantar novamente, mas a perna quebrada falhou, mandando-o ao chão. Ele tentou um novo esforço, mas sumiu em uma luz avermelhada.
Morte estava ali com uma Pokéball na mão e um sorriso rasgando as feições já destruídas. Cobalion não tinha feito qualquer esforço perante sua captura e a considerar seu estado, mal deveria ter percebido o que acontecera.
— Deveríamos capturar os dois – Fome pareceu zangada.
— Não podemos fazer nada, Keldeo já está morto – cuspiu o homem.
Só então percebi que apesar dos olhos abertos que me fitavam, não havia mais vida neles e eternamente ele encararia o vazio. Eu podia ouvir Lila chorando, mas eu não tinha processado realmente a informação até ouvir Haila gritar.
— Seus desgraçados – e sua voz cruzou a floresta como um rugido. – Isso não vai ficar assim.
— E o que você vai fazer menininha? – Morte questionou achando graça ao encarar Couve-Flor.
— Razor Leaf – gritou em meio ao ódio e uma chuva de folhas cortantes atravessou a floresta apenas para caírem diante do escudo do Shedinja.
— O que deveríamos fazer com eles? – a mulher questionou.
— Nossa missão era capturar o lendário – e girou a Pokéball na mão. – Mas você pode se divertir com eles se quiser. Só não machuque muito a garotinha aqui – e apontou para Haila – você sabe como Guerra é sentimental.
Fome abriu um sorriso diabólico e sua Nidoqueen voltou em batalha. A Pokémon mal teve tempo de se ajeitar e foi coberta por uma chuva de folhas cortantes, entretanto, apesar do golpe certeiro, não provocou muito dano e logo a Pokémon estava retribuindo com Venoshock.
Dan começou a gemer no meu colo e abriu os olhos encarando o dia que me parecia mais cinzento. Des, que já tinha guardado seu Liepard, e se abaixou ao meu lado.
— Vá ajudar Haila – indicou com a cabeça – eu cuido dele.
Enquanto me levantava, vi que Morte e Bellamy se afastavam, voltando para onde tinham surgido na clareira. Eles iriam fugir. Eu não podia deixar que eles levassem Cobalion embora.
— Pegue o Dan e a Lila e saiam daqui.
— O quê...?
— Apenas faça – e senti uma vontade enorme de chorar.
Des gritou para Lila o ajudar com Dan enquanto eu fazia sinal para Bacon me acompanhar. A garota correu espaventada e ajudou Dan a ficar de pé. Ele parecia bem, mas com muita dor e lentamente, os três começaram a tomar caminho pelo lado oposto da clareira.
Quando cheguei até Haila, a Nidoqueen estava cheia de cortes na couraça, mas nenhum muito profundo, por outro lado, Couve estava exausto. Fome os tinha vencido sem mexer um músculo, deixando o Pokémon atacar até se exaurir.
— Você acha que esse seu Pignite vai me conter? – E riu histericamente. – E não adianta vocês tentarem me atrasar para seus amigos fugirem – disse espiando por cima do meu ombro. – Eu vou acabar com vocês e vou matar todos eles.
— Eu vou acabar você – e me assustei ao notar que fora minha voz ao proferir aquelas palavras. Eu não era nenhum maluco e nem tinha confiança que derrotaria a Team Plasma. Ela tinha uma Nidoqueen em perfeito estado e talvez outros Pokémon e eu só tinha um Pignite cansado e uma Patrat desobediente.
Mas eu não podia ficar de braços cruzados, não depois de tudo o que tinha acontecido. Draiden tinha morrido em Opelucid e eu fora um mero espectador, eu não poderia mais me dar ao luxo de deixar as pessoas resolverem as coisas por mim. Se eu não queria que a Team Plasma ficasse com o lendário, não poderia esperar que Roxie viesse salvar o dia, eu teria que lutar por isso.
— Haila, preciso que você mantenha a Nidoqueen ocupada para mim e quando eu disser, corra, vá com o Des e fuja.
— Do que você está falando? Eu não vou ...
— Apenas faça, por favor – pedi e senti minha voz me trair. Eu estava assustado e com medo, mas precisava fazer algo ou nunca me perdoaria por ter deixado a Team Plasma levar a melhor novamente.
Não era uma competição e eu não estava fazendo aquilo para provar que eu era o tipo heroico, porque não era. Mas ali estava a ideologia que havia me feito vacilar, me fizera sentir culpado e brigar com minha melhor amiga, que quase me convencera a deixar tudo o que eu acreditava. Ideologia essa que eu ainda julgava correta, mas que se esfarelava diante dos meus olhos a cada ação da Team Plasma que eu presenciava.
— Certo – Haila respondeu incerta – Razor Leaf e finalize com Grass Whistle.
A chuva de folhas não foi tão intensa, talvez por causa do cansaço de Sunflora, mas foi o suficiente para cobrir a visão de Nidoqueen e Fome do nosso lado do campo.
Passei um comando para Bacon e ele correu para a borda da clareira, sumindo em meio às árvores. Eu contornei o campo pelo outro lado, passado o mais rápido que pude pela Nidoqueen que ainda estava ocupada com o Razor Leaf.
Quando o ataque se desfez, a voz fininha de Couve soou no campo, melodiosa e ritmada. Vi as pálpebras da Nidoqueen pesarem e o corpo cambalear. O efeito não atingia apenas a Pokémon, pois sentia meus olhos lentamente se fecharem, mas eu não poderia ceder, não agora.
— Vamos, Nidoqueen – Fome gritou em meio a um bocejo e só pude agradecer a Haila por usar esse ataque. A Pokémon não obedeceu, caiu no chão como um saco de batatas e começou a cochilar com a placidez de uma criança.
Quando a mulher deu por si, eu já estava ao seu lado e com um encontrão, derrubei-a no chão. Ela era muito mais alta do que eu, mas eu a tinha pegado desprevenida.
— Haila – gritei, mas não me virei para ver se ela tinha realmente me obedecido. Eu fazia um esforço enorme para segurar a mulher no chão, principalmente porque o efeito do Grass Whistle estava passando. – Bacon. – E o suíno saltou em meio às árvores, parando diante de Morte e Bellamy. Shedinja avançou e se posicionou pronto para proteger seu mestre.
— Incinerate – gritei o mais alto que pude.
Shedinja levantou o escudo, mas Bacon não mirou nele, se virou e lançou o sopro de chamas infernais sobre as árvores. Mesmo com a garoa que caia, as copas das árvores arderam e o fogo se alastrava rapidamente.
Morte recuou e me encarou por cima do ombro com um esgar estampado na face. Fome conseguiu se virar, me empurrando de lado, e encarou o fogo que corria de uma árvore para outra. Bacon lançara o ataque em quatro pontos diferentes de forma que o fogo se alastrava veloz.
A chuva tentava impedir seu progresso, mas isso produzia uma fumaceira desgraçada que começava a preencher o centro da clareira. Se meu plano desse certo, o formato circular contribuiria para que o fogo formasse um anel e prendesse os Team Plasma. Só havia um problema, eu tinha ficado preso dentro desse halo.
As primeiras árvores queimadas cederam sobre o peso e foram ao chão, levantando fagulhas e espalhando o fogo pela grama molhada. Se ali ele não propagava bem não poderia dizer o mesmo dos galhos retorcidos que queimavam em segundos.
Fome tinha recolhido sua Pokémon e Morte e Bellamy discutiam algo que eu não poderia ouvir a distância. Olhei por cima do ombro e vi que a maioria das árvores da clareira já estavam queimando e fumaça preta dançava densa e asfixiante. Por causa dela eu não conseguia precisar se Haila e os outros tinham escapado, mas eu rezava muito para que sim.
Fome começou a tossir, enquanto inalava fumaça e em poucos segundos eu a acompanhava com uma tosse engasgada. Eu precisava de forças para chegar até Morte e de alguma forma pegar a Pokéball do lendário, mas minha visão começava a ficar turva e eu só conseguia distinguir as labaredas altas que dançavam a minha frente.
Mesmo com a chuva que caia, o interior do círculo começou a ficar muito quente e cheio de fumaça e eu não conseguia mais respirar direito. Agora, na prática, percebia que tinha uma falha enorme no meu plano, mas qualquer coisa era melhor do que deixar a Team Plasma fugir.
Tentei dar um passo, me orientando pela luz do fogo, mas em meio às labaredas altas, pude ver o contorno humanoide e a pelagem escura, que sorria com escarnio, Zoroark. Tropecei em algo e fui ao chão. Chamei por Bacon, mas não houve resposta. Uma nova árvore cedia ao seu peso e caia no centro da clareira, ruidosamente. Folhas flamejantes levantaram voo e a figura desapareceu em meio à confusão de fogo e fumaça. Senti uma delas atingir meu braço, deixando seu desenho chamuscado. Apesar do ardor, eu já não podia perceber o mundo a minha volta e em pouco tempo, tudo ficou escuro.
=8=
Era um hospital, eu sabia porque já tinha ficado em um leito similar quando tentei proteger Chiclete no Contest de Nimbasa. O mesmo quarto branco e sem graça, com grandes luzes no teto e uma maca dura e gelada.
Desta vez, tinha aparelhos presos em mim que apitavam e monitoravam meus sinais vitais, mas eu não entendia a maioria deles. Eu sentia um incomodo no braço e quando espiei, vi que o esquerdo estava totalmente enfaixado.
Tentei me sentar, mas me enrosquei em algum fio que se soltou do aparelho e começou a apitar escandalosamente, como se eu estivesse morrendo.
— Ele acordou – reconheci a voz. Era Roxie e ela entrou no meu campo de visão, enquanto tentava me ajeitar na cama. – Você está bem? – Curvou as sobrancelhas claras.
— O que você está fazendo aqui? – Respondi com outra pergunta. – Onde eu estou?
— Icirrus – falou mecanicamente e eu não sabia exatamente onde era isso. – Haila me ligou, por isso estou aqui.
— Haila? E ela está bem? – Minha voz saiu em tom de urgência.
— Muito melhor do que você, eu diria – e apoiou as mãos na cintura. – Quantas vezes vou ter que falar que não sou babá de vocês? É só eu sair de perto que vocês já se metem em problemas...
— Roxie – uma voz masculina a cortou. Cheren. Ele estava encostado contra a porta do quarto e tinha a cabeça baixa, todo o cabelo caído no rosto. Eu podia entender o porquê de Roxie estar ali, mas não ele. Afinal, ele tinha que estar em Nimbasa tentando entender os textos que Lenora havia deixado.
— De qualquer forma você teve sorte – retomou a mulher e encarei-a sem entender. – Além de uma queimadura de segundo grau que poderia ter sido muito mais grave – disse apontando para o meu braço enfaixado – você poderia ter se asfixiado com a fumaça.
As coisas começaram a parecer mais nítidas na minha mente e me lembrei do círculo de fogo e da...
— E a Team Plasma?
— Fugiram, provavelmente. Haila só encontrou você lá.
— Haila?
— Sim, ela e a Lila voltaram para te buscar quando viram como o fogo tinha se alastrado. Aliás, se não fosse os Pokémon de nomes esquisitos da Lila apagarem o fogo, elas não iriam conseguir te tirar de lá.
— Oh – quem diria que Chardy, Bulba e Butterfree salvariam minha pele. – E Bacon?
— Está com a Haila, eu acho, todos os seus Pokémon estão. Precisam de descanso e algum cuidado médico, mas estão bem – confirmou com a cabeça.
— Você não deveria fazer esse tipo de coisa estúpida – e dessa vez era Cheren falando. Ele tinha se afastado da porta e caminhava em direção a cama. Encarei os lençóis brancos que me envolviam, não sabia o que responder. – Você poderia ter morrido lá – e seu tom foi tão grave que me senti uma criança tomando bronca do pai.
— Eu sei, mas eu não poderia deixar a Team Plasma fugir sem fazer nada – mesmo que aparentemente, eles tivessem fugido de qualquer forma. Aquilo me deixava frustrado e mal-humorado. Eu era um inútil, quase tinha morrido por nada e agora Cheren estava ali apenas para me lembrar de que eu não deveria ficar brincando de gente grande.
— Como eu disse, não faça coisas estúpidas. Eu fico preocupado com você – ele tinha tirado o cabelo do rosto e estava com uma aparência cansada, como se não dormisse há semanas.
— Não precisa, eu sei que você está aqui só porque minha mãe te mandou ficar de olho em mim – disse sem pensar. A verdade é que eu não precisava que Cheren ficasse atrás de mim, bancando o irmão mais velho, formidável e acusador. O tipo que eu nunca iria superar e que sempre estaria ali para me diminuir, mesmo que o fizesse com palavras gentis.
Ele se inclinou sobre mim e me puxou violentamente pelo cabelo, até me obrigar a encará-lo. Me olhava com tamanha intensidade que não duvidaria que pudesse me matar apenas com aquilo.
— Nunca mais diga isso de novo – a voz saiu baixa e profunda, e havia algo na maneira como ele dissera aquilo que parecia carregado de decepção. Então soltou meu cabelo e saiu do quarto batendo a porta atrás de si.
— O que houve com ele? – Resmunguei enquanto massageava o couro cabeludo.
— Ninguém gosta de ter seus sentimentos colocados a prova – Roxie disse encarando a porta. – É evidente que a preocupação dele com você é autentica. Assim como a minha – e ela me encarou. – Sei que estamos em guerra e medidas drásticas precisam ser tomadas, mas não quer dizer que vamos deixar de sofrer uns pelos outros.
E Roxie tinha razão.
Quando ela saiu, Lila e Haila entraram no quarto. A morena pulou no meu pescoço e me apertou tão forte que parecia que estava sufocando novamente. As duas estavam sujas e cansadas e me disseram que nem vinte e quatros horas tinha se passado dos acontecidos em Twist Mountain.
Haila tinha contado como tinha voltado para me buscar e Lila explicou que estávamos em Icirrus porque era muito mais próximo de onde estávamos na montanha do que voltar para Driftveil.
A polícia tinha encontrado o corpo de Clay e dos trabalhadores fuzilados na entrada do novo ginásio e havia equipes nas montanhas tentando localizar a Team Plasma, mas por enquanto tinham encontrado apenas alguns corpos carbonizados, difíceis de identificar.
Driftveil ficaria em luto oficial por três dias, mas Dan ainda não sabia disso. Estava se recuperando no quarto ao lado e de acordo com as meninas estava bem, mesmo que fraco, pela perda excessiva de sangue.
Des tinha levado nossos Pokémon ao Centro e Roxie, Cheren e Skyla discutiam no saguão do hospital. As meninas tinham contado o que ocorrera na montanha, sobre Cobalion e Keldeo e a Team Plasma. Haila tinha entregue uma das cópias dos arquivos do Clay para Skyla. Mesmo que aquilo fossem pistas para um lendário, já não serviriam mais, imaginei. Mas de acordo com Haila, Cheren analisaria aquilo e cruzaria com as informações que tinha, pois poderia ser um padrão, e isso ajudaria a encontrar os lendários restantes. Eu não sabia o que tinha acontecido com a outra cópia.
— Então é isso que o colar faz? – Disse assombrado após as duas me contarem o que tinham ouvido do trio de líderes.
— Pelo menos é o que Skyla acredita – Haila confirmou. – Ela disse que no passado eles usaram um dispositivo semelhante.
Aparentemente o colar não era como uma coleira, que te permite dominação mais facilmente, mas coibia o uso de golpes especiais. Isso explicaria porque Cobalion atacou apenas com golpes físicos, sem apelar para nenhum Close Combat ou similar.
— Cheren acredita que a descarga excessiva tenha feito o Pokémon entrar em pane – Lila complementou.
— Isso explica porque ele não mirava os Pokémon, apenas os humanos – Haila continuou. – As lendas dizem que o Sword of Justice protegem outros Pokémon, e faz muito sentido. Então, nós humanos, somos uma ameaça.
— Mas Keldeo não nos via assim – disse me lembrando do pouco contato que tivera com o lendário.
— Cobalion também não, ao menos não de forma tão incisiva – e a loira puxou uma mexa de cabelo atrás da orelha. – mas nunca saberemos que tipo de efeitos esse colar realmente tem.
— E quanto ao Keldeo? – mas eu não tinha certeza do que questionava com essa pergunta.
— Ele era um lendário menor – Lila explicou. – quase como um guarda-costas para os outros lendários.
— Ele não teria chance contra o Cobalion – Haila deu um muxoxo.
— Então tudo o que fizemos não serviu de nada? – E minha voz saiu chorosa. Keldeo, que tínhamos lutado para proteger em Seaside, estava morto, Cobalion capturado, a Team Plasma tinha fugido, Clay morto, o saldo não era nada bom.
Como sempre acontecia nessas horas, tive uma vontade enorme de correr para casa e chorar no colo da minha mãe até adormecer. Eu era patético e tinha colocado minha vida em risco e preocupado meus amigos a troco de nada.
Sentia aquela sensação amarga na boca do estômago que te faz sentir totalmente impotente e desgraçado. A Team Plasma estava cada vez mais poderosa e cada vez mais longe das palavras agradáveis que Rose me dissera. Quanto mais lutávamos menos progresso parecíamos ter e mais pessoas se feriam.
Respirei fundo, limpei ás lagrimas que se formavam no rosto e encarei a janela que exibia outro dia modorrento e sem graça. Eu não sabia mais pelo que estava lutando.
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