Rota Zero

23 A Dança e a Batalha - Parte 1


Notas iniciais
Feriado e cá estou para mais um capítulo. Páscoa chegando e se alguém quiser me dar algum dos bichinhos que vem no Kinder Ovo Natoon, eu aceito. Nem precisa do chocolate, só a pelúcia já me faz feliz. E o que temos para hoje? Contest!!!! Mas o capítulo ficou enorme e Julio e eu entramos em consenso que seria melhor dividir, assim teremos duas semanas seguidas de Deedee reinando. o/ Espero que gostem. Boa leitura!

December

A DANÇA E A BATALHA — PARTE 1

Haila estava feliz por sua vitória e eu feliz por ela. Na verdade, estava impressionado em como ela usara Couve-Flor habilmente, sendo que eu sempre tivera uma tremenda má vontade para treiná-lo. A luta dele me fez ter um orgulho gigantesco da plantinha e também me deixou meio mal por eu sempre ser meio negligente em seu treinamento.

Haila ainda estava conversando com a líder e eu deveria correr ao seu encontro, cumprimentá-la e ovacioná-la como imaginei que faria se ela tivesse vencido Burgh, mas não fiz nada disso. Não que eu não quisesse, é que ela estava lá. E digo por ela a menina mais linda que eu já vi na minha vida.

Assim que a luta entre Elesa e Haila acabou, a porta do ginásio se abriu e uma garota entrou. Talvez para não atrapalhar os cumprimentos de Elesa pela ótima luta que Haila fizera, ela permaneceu próximo ao hall. Mas mesmo naquela distância eu podia vê-la muito bem e ver como ela era incrivelmente linda.

Deveria ser mais velha do que eu e talvez mais alta. Tinha o cabelo longo, ruivo e usava uma roupa justíssima que demarcava cada curva do corpo e que corpo, fazia a magricela da Elesa parecer tão sem graça. Eu realmente gostaria...

Senti Haila me sacolejar e me encarar de soslaio. Estava na cara que ela tinha falado algo e eu não ouvira absolutamente nada.

– Vamos? – Ela deu muita ênfase a palavra, ou seja, ela já tinha dito aquilo antes. Concordei sem saber ao certo se ela tinha dito mais do que aquilo anteriormente e saímos do ginásio. Bom, não com essa facilidade, porque quando passei pela garota do cabelo vermelho e ela me lançou um olhar analítico, senti minhas pernas derretendo e que o resto do meu corpo ficaria por ali mesmo.

Quando finalmente atingimos a rua, a felicidade de Haila era tanta que eu sabia que nem iria perceber o rebuliço que passava na minha mente.

=8=

A semana passou mais devagar do que eu imaginei e isso só deveria aumentar minha ansiedade em relação ao Contest que seria no dia seguinte, mas a verdade é que eu estava totalmente desmotivado. Primeiro porque eu tinha imaginado mudar de categoria e concorrer junto com Peach. Só que ela não pareceu gostar nada dessa ideia, me atacou nos primeiros dias e depois se recusou a fazer qualquer coisa que eu dissesse.

A despeito dela não se dar bem com outros Pokémon, percebi que ela agia bem (dentro daquela indiferença e desprezo com a qual me encarava) próximo a Chiclete e ao menos era um pouco colaborativa quando ele estava nos treinos. Havia uma categoria para apresentações em dupla e me parecia bom unir os dois, até descobrir que eles eram de categorias diferentes e eu não poderia usá-los juntos. Bacon era desajeitado, Abóbora muito jovem e só sabia morder meus cadarços, Couve-Flor ainda estava se recuperando da luta no ginásio e eu nunca o tinha treinado para isso, eu estava ficando sem opções.

Diferente do desespero e desanimo que me acompanhavam, Haila ainda tinha o sorriso vitorioso no rosto e não seria ruim se ela não se gabasse da vitória sobre Elesa a cada cinco minutos e me pressionasse para ganhar a maldita fita. Ela estava tão feliz, que só faltava pendurar a insígnia na blusa como um broche e carregar uma placa com os dizeres “Massacrei Elesa, Kara!”. Sim, porque ela falava da Kara a cada segundo (mais até que da vitória) e eu tinha receio do aconteceria caso as duas se encontrassem.

Para completar, eu não tirava aquela garota ruiva dos pensamentos e isso estava atrapalhando meus treinos. Eu olhava cada garota de cabelo avermelhado que entrava no Centro Pokémon na esperança de encontrá-la, mas obviamente eu nunca mais a vi.

E eu estava nesse turbilhão de sentimentos quando me deu vontade de conversar com alguém. Haila estava ali, deitada na cama estreita do minúsculo quarto que dividíamos, lendo, mas eu não me sentia motivado a falar com ela. Pelo que a conhecia, iria zombar dos meus problemas.

Então decidi ligar para Cassie, ela era minha única opção, fora Haila e minha mãe, e era mais madura do que as duas juntas. A voz estridente da menina ecoou pelo quarto quando atendeu ao Xtransceiver e a loira até parou sua leitura do livro da Folha.

– Eu estou tentando falar com você faz dias – reclamou fazendo uma careta. – Eu estive em Castelia recentemente e tentei entrar em contato...

– Ah, eu estou em Nimbasa – não acredito que perdi a chance de ver Cassie. Mais uma coisa para fazer eu me sentir mal.

– Bem, de qualquer forma foi passageiro, era uma viagem escolar – e fez uma careta como se tivesse sido uma experiência horrível. – Mas o que você fez desta vez? – Encarei-a confuso. – Você só me liga quando faz alguma idiotice. – Pude ouvir Haila tentando reprimir um riso.

– Eu não fiz nada – revirei os olhos – só... As coisas só não estão dando certo – finalizei com um muxoxo. Percebi que Haila fechara o livro de vez e prestava total atenção a minha conversa. Cassie não comentou nada, fez apenas aquela expressão que me indicava que deveria continuar. – As coisas não vão muito bem com a Peach. Ela não me obedece.

– Ah, isso – ela pareceu aliviada do outro lado da tela – ela ainda não deve te considerar bom o suficiente.

– Mas eu precisava dela para o Contest – e vi que a menina me encarava desacreditada, ela sabia melhor do que ninguém que eu não queria seguir aquele caminho. – É – sorri sem graça – eu decidi participar para ver como era.

Cassie não disse nada nem eu. Ficamos nos encarando através da telinha miúda. Achei que ela me daria algum truque para controlar o gênio de Peach, mas aparentemente, não havia nada.

– E é só isso? – Eu não entendi – sua cara abatida é só por causa da Peach?

– Não, eu estou nervoso porque não vou me sair bem no Contest. Não que eu ligue, mas você sabe, várias pessoas vão estar assistindo e talvez ela também esteja ... – meu rosto corou instintivamente.

– Quem é ela? – Perguntou perspicaz. O problema é que ela não era a única a ter ouvido tal coisa, Haila praticamente se materializou ao meu lado, me encarando de forma que eu não saberia precisar, mas que não era muito animador. A cabeleira loira e o rosto redondo invadiram a imagem do Xtransceiver. – Essa é ela? – Cassie perguntou estudando o rosto de Haila. – Por isso você não me liga mais? Arranjou uma namorada? – Usava um tom dramático, como se tivesse a chutado para escanteio. Onde ela tinha aprendido a ser dramática assim? Parecia minha mãe.

– Não, não. Essa é Haila, minha amiga. Grande amiga – enfatizei. Não porque quisesse convencê-la, mas porque a loira era mesmo uma grande amiga.

– Mais sua amiga do que eu? – E fez um bico visível. Apesar de tudo Cassie ainda tinha dez anos e agia como tal. Ela não iria me fazer escolher entre as duas, iria?

– Oh, essa é a dona da Peach? – Haila comentou finalmente se ligando. – Eu achei que ela fosse mais velha. Não é estranho você ter amizade com uma menina tão nova assim? – Meu rosto deveria ter corado, mas a expressão que Cassie fez, só me fez rir. Ela parecia ficar muito chateada quando questionavam nossa diferença de idade.

– Se não é essa, então quem é? – A pirralha retomou o assunto. Vi que Haila também esperava por aquilo e acabei admitindo e contando toda a história (que não era nenhuma, na verdade) sobre a misteriosa moça ruiva.

– Você fala da Skyla? – Haila pareceu em dúvida quando arriscou um nome. – A única no ginásio aquele dia além de nós e a Elesa e sua assistente, era a Skyla, que nem sei quando chegou. – Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, Cassie me cortou.

– Sério que você está apaixonado pela líder de ginásio de Mistralton? Você não tem a menor chance – falava entre risos histéricos. E eu que imaginei que ela reagiria melhor do que a Haila.

– Espera, por que vocês duas sabem que ela é e eu não?

– Porque você é um idiota – responderam em uníssono.

A ligação, que era para ter me animado, melhorado meu humor e talvez dado uma luz sobre o que eu deveria fazer com Peach só serviu de uma coisa, fazer com Cassie e Haila tivessem motivo para zombar de mim até o final do ano.

Eu tive que desligar, depois de Cassie entrar em uma crise de riso e não conseguir mais falar. Mas se eu tinha me livrado dela facilmente, não poderia dizer o mesmo sobre Haila, que decidiu deixar sua vitória sobre Elesa de lado e me infernizar no restante do dia.

=8=

Eu voltara a estaca zero, não sabia o que fazer sobre o Contest e agora Haila me provocava a todo minuto por causa da Skyla.

– Nunca imaginei que ela faria seu tipo – Haila disse pela décima vez. Estávamos em um parque próximo ao Centro Pokémon. Eu treinava Chiclete, mas sem nenhuma empolgação, Peach havia se negado a sair da Pokéball e eu tinha desistido dela. O céu estava alaranjando e um vento frio anunciava o começo da noite.

Haila estava sentada em um banco, alimentando Leaf, Simi e Couve-Flor com pokéblocos específicos para Pokémon tipo planta. Meu Sunkern parecia feliz por todo aquele carinho e por estar em companhia de outros Pokémon parecidos consigo e não ter que apartar as brigas entre Bacon e Chiclete. Leaf estava naquela indiferença padrão e Simi parecia bem, apesar de ter várias escoriações e uma grande atadura em volta do peito. Apesar da vitória, ele tinha se ferido feio na luta no ginásio.

– Eu não tenho um tipo – resmunguei me jogando no gramado.

– Mas aquela garota de Castelia é bem diferente da Skyla – jogou o comentário no ar.

Clarice. Eu tinha me esquecido dela quase que completamente. Era uma garota bonita, mas nada espetacular. Ela tinha um jeito estranho de gostar de mim e eu não sabia se me sentia confortável com isso. Por outro lado, Skyla mal sabia que eu existia.

– Achei que você gostasse das sonsas – e eu sabia que Haila não ia muito com a cara da Clarice – mas os meninos são assim mesmo – disse em um muxoxo irritado.

– Assim?

– Não podem ver uma gostosona que já esquecem todo o resto – a frase saiu carregada de uma raiva desconhecida, que não parecia ser dirigida a mim.

– Você está falando de mim ou do Tom? – Provoquei, apenas para vê-la corar e me lançar um olhar fuzilante. Bingo, eu tinha acertado. Haila tinha alguma coisa com o tal de Tom, que pelo pouco que eu sabia, também tinha alguma coisa com a Kara. E Kara tinha um corpo muito mais bonito que Haila e por mais que nunca admitisse isso, ela deveria ter consciência dessa diferença.

– Você quer mesmo dar prosseguimento a esse assunto? – Ela é quem tinha começado, mas achei melhor não contrariar e me calei.

Ficamos ali em silêncio, Haila terminou de alimentar os Pokémon e brincou um pouco com eles. Eu encarava Chiclete, que ainda treinava seus movimentos sozinho, sem fazer ideia do que apresentar no Contest. Os movimentos dele estavam mais bonitos e ele tinha melhorado muito no combate desde que eu passara a treinar com a loira, mas mesmo tudo isso não parecia suficiente para entramos em uma competição.

– Melhor irmos, está ficando tarde – Haila retornou Simi para a Pokéball e pegou meu Sunkern no colo, Leaf estava ao seu lado. – Você terá um longo dia amanhã.

Na verdade, eu não teria. Apesar de ter ido ao parque para treinar eu já havia decidido que desistiria do Contest. Eu não estava animado e nem pronto. Não precisava ser humilhado publicamente como da outra vez. Só ainda não tinha achado um jeito de dizer isso a Haila.

Me levantei e fui ao encontro da menina, chamei Chiclete, mas ele não atendeu. Chamei novamente e vi que ele me encarava de um jeito estranho. Chamei pela terceira vez e me deu as costas. Haila fez uma careta, Chiclete nunca me desobedecera, mesmo no começo. Eu estava meio abobado sobre o que fazer, então com um empurrão ela me mandou acertar as coisas com o monstrinho e voltou ao Centro, dizendo para eu não demorar muito ou jantaria sem mim.

Me aproximei e tentei falar com ele, mas o azulado parecia chateado comigo por algo que eu não sabia o que era. Joguei a Pokéball que ele rebateu com tanta força que até fez um amassado. Algo estava errado, mas eu não fazia ideia do que eu tinha feito.

Finalmente quando me encarou, tinha uma expressão grave no rosto. Parecia bravo ou frustrado com algo. Começou a resmungar e balançar os braços energeticamente, mas nada daquilo fazia sentido. Ele estava bravo, certo. Mas com o quê? Ficamos naquilo por pelo menos quinze minutos, até que percebeu que eu não estava entendendo nada. Então parou, tomou distância e fez uma acrobacia perfeita, que eu nunca o tinha ensinado, mas já vira Simi fazer milhões de vezes.

Foi quando finalmente entendi, eu não queria participar do Contest, mas ele queria.

=8=

Acordei com meu Xtransceiver tocando e atendi sem ver o nome na tela.

– Onde você está? – A voz de Haila ecoou pelo quarto e eu quase cai da cama. Ela parecia estar em um telefone público e havia uma barulheira infernal no ambiente. E mesmo com ela aos berros, quase não podia ouvi-la. – A sua categoria do Contest vai começar em cinco minutos! – Ela encarou minha falta de reação – não acredito que você ainda está no quarto! Se você não aparecer e ganhar essa fita, eu vou arrancar a sua cabeça! – E desligou antes que eu pudesse dizer algo.

Depois de entender o que meu Riolu desejava, me convenci a dar uma chance ao Contest e treinamos até alta madrugada. Quando voltei ao quarto, Haila já estava dormindo e meu jantar frio esperava sobre a pequena mesinha.

A loira me acordou absurdamente cedo na manhã do Contest. Avisou que queria fazer umas compras e conhecer as lojas especializadas em itens para Pokémon de grama. Então, ela sairia mais cedo, mas me encontraria no ginásio do Contest a tempo de ver minha apresentação. Na verdade, eu não tinha certeza de se a conversa fora essa mesmo, porque eu simplesmente apaguei assim que ela saiu.

E agora ali estava eu, correndo por toda Nimbasa para chegar a tempo. Eu não ainda estava totalmente animado em participar, mas me sentiria péssimo em decepcionar Chiclete.

Quando cheguei, o Contest já tinha começado, um segurança tentou me barrar, mas mostrei meu Contest Pass e a contragosto me deu passagem. Eu estava tão exausto e eufórico que não tinha certeza se sobreviveria para me apresentar. Para minha sorte, que era algo raro, a categoria na qual eu fazia parte seria a última e a ordem das apresentações era por sorteio, minha vez ainda não tinha chegado.

Fui para o vestiário me arrumar. O lugar estava cheio, tinha muito mais participantes do que em Castelia. Havia vários Pokémon com lacinhos ou enfeites e seus coordenadores usavam roupas sofisticadas combinando com os acessórios dos parceiros. Eu não tinha nada disso. Tinha separado uma roupa toda preta, mas nada especial e uma faixinha para Chiclete, mas eram coisas muito módicas perto do restante.

Estava terminando de me arrumar e ajeitar a faixa em Chiclete quando um garoto apareceu. Ficou parado diante de mim, me encarando com um sorriso presunçoso.

– Então vai usar esse perdedor de novo? – Encarei o menino. Ele era mais jovem e menor do que eu, mas me parecia estranhamente familiar. – Terei um prazer gigantesco em massacrar essa bolota de pelos, ainda mais na minha casa.

Curvei as sobrancelhas sem entender, mas percebi que os outros coordenadores estavam fazendo um buchicho sobre o fato de aquele garoto estar falando comigo.

– Não vá perder antes de eu enfiar seu desempenho ridículo goela abaixo – eu não me lembrava do garoto, mas lembrava da frase. David, o garoto que me derrotara em Castelia. Por isso todo aquele frisson, ele era famosinho enquanto eu não passava de um ilustre desconhecido.

Se eu estava desmotivado antes, estava muito mais agora. Eu não precisava ser humilhado novamente e muito menos por ele. Mas Chiclete mantinha aquele olhar forte e determinado, e por isso eu não iria desistir.

Finalmente minha vez chegou e Chiclete e eu ingressamos no palco principal. Tudo o que eu vivenciara a primeira vez não servira de nada. Minhas pernas tremiam, minhas mãos suavam e minha vontade era sair correndo e me esconder embaixo das cobertas. Tentei encontrar Haila na multidão, mas o ginásio estava muito cheio.

– De-December, certo? – A apresentadora curvou as sobrancelhas e então sorriu condescendente. Era Cindy, a mesma que apresentara o Contest anterior. Aparentemente, ela tinha me reconhecido, ou meu nome pelo menos. – Se está pronto, pode começar. – E abriu espaço na arena, se afastando.

Eu estava pronto para começar, mas desviei o olhar para mesa de jurados e senti o mundo parar. Havia um homem que não fazia ideia de quem, já que perdera as apresentações, Elesa e Skyla. Ela me olhava seriamente, como se esperasse uma apresentação impressionante. As minhas pernas começaram a tremer e senti que arruinaria tudo. Chiclete deu um passo a frente e ajeitou a faixa no rosto, puxando as pontas para trás. Então fez uma mesura até quase tocar as orelhas no chão e começou uma sessão de chutes e socos ágeis. Os movimentos eram fluidos e precisos. Enquanto ele desferia os golpes fazia um circulo em torno de mim. A plateia estava em silêncio e isso estava me deixando nervoso.

Chiclete deu um urro ensurdecedor que fez muita gente na plateia pular da cadeira e parou em posição de ataque, virado de frente para mim. Tínhamos treinado aquilo dezenas de vezes na noite anterior, mas eu ainda estava inseguro.

Fiz uma breve reverência e também fiquei em posição de ataque. Com outro urro, ele abandonou a posição e veio para cima de mim, com chutes acrobáticos, enquanto eu desviava dos golpes. Pude ouvir alguns “oooh” vindo do público, mas eu não poderia me desconcentrar ou seria atingido de verdade.

Ele então deu um salto, pousou nos meus ombros e se inclinou até alcançar meus tornozelos. Deu um impulso para frente e fizemos uma sequência de cambalhotas duplas. Ele desfez o vinculo, deu um longo rolamento pela arena, enquanto eu me ajeitava e voltamos a nos encarar. Desta vez fui eu quem gritou e sai dando socos. Eu me sentia meio ridículo fazendo aquilo, porque eu não levava muito jeito, mas a plateia começou a vibrar, vendo que Chiclete desviava e fazia gracinhas para me provocar.

O azulado então deu um salto e pousou sobre meu peito com as duas patas, me derrubando no chão. Então sentou sobre mim na posição de lótus e fez uma breve mesura, antes de assumir uma posição meditativa.

Quando finalmente acabou, o estádio parecia em silêncio profundo e comecei achar que a apresentação tinha sido um desastre. De repente, o estádio explodiu em aplausos e eu tive que conter minha vontade de sorrir, afinal, eu estava morto no nosso teatrinho.

Chiclete pulou de cima de mim e fez uma profunda reverência. Eu me levantei e o acompanhei. Encarei Skyla de canto de olho, mas ela não parecia verdadeiramente impressionada e me senti desanimado por isso.

Cindy se aproximou, aplaudindo e sorrindo. – Foi uma apresentação incrível – parabenizou – Poucos coordenadores tem tamanha precisão para comandar seus Pokémon sem comandos vocais. – Eu não tinha comando nenhum. A ideia toda tinha partido ao observar as brincadeiras de Chiclete s Simi, podia-se dizer que era meu Pokémon que me coordenava e não o contrário.

Sorri, acenei para a plateia e me retirei. Sentia meu rosto ferver quando cheguei ao vestiário. David me encarou – Oh, agora você é um ninja? – Provocou. – De nada adianta suas apresentações afrescalhadas se você não sabe nem as vantagens e desvantagens de um Pokémon em batalha. – Percebi que alguns coordenadores riram diante daquele comentário, mas eu permaneci em silêncio, não precisava daquele tipo de problema.

Chiclete parecia feliz e animado e pela primeira vez percebi que ele realmente gostava de tudo aquilo, as apresentações, os treinamentos, os ensaios, os floreios, até mesmo os acessórios. Eu nunca poderia imaginar que um Pokémon selvagem pudesse tanto gostar dessas coisas artificiais.

Quando finalmente o último coordenador se apresentou, Cindy retornou ao centro da arena. Do vestiário só podia ouvi-la, mas sabia que ela estava diante de um telão que mostraria os rostos dos aprovados para a segunda fase.

Para meu desprazer o primeiro colocado tinha sido David. Pude ver o pessoal cumprimentá-lo no vestiário e ele sorrir arrogante. Para minha surpresa, eu ficara em quarto. Quase cai da cadeira quando ouvi meu nome. Riolu pulou animado e David me lançou um olhar de desprezo. Meu choque ficou por conta do oitavo colocado, Clarice. Eu não tinha visto sua apresentação e nem sabia que ela estava lá, pois os vestiários masculino e feminino eram separados. Não imaginei que ela fosse encontrá-la em Nimbasa.

Notas finais
N/T: O capítulo termina assim mesmo, com esse corte seco porque o resto só semana que vem. Beijokinhas e até!