Roses and Demons: Hell's Flower

18 A Mulher Chamada Annemarie


As manhãs frias de Chesord não intimidavam Lince Walters. Como de costume, ele levantou cedo e, pouco menos de quinze minutos depois, já estava com a armadura vestida e comendo um prato de sopa. Da mesma forma que os demais comandantes do exército conjunto, Agas e Froz, ele tinha um quarto só para si no Forte Brokefront. Esse privilégio também era estendido a qualquer eventual representante da Ordem da Rosa Branca, mas já havia algum tempo que nenhum dos membros do grupo se fazia presente lá. Até mesmo Anya Wald, que oficialmente não possuía autoridade sobre as tropas, tinha seus aposentos na fortificação e participava das reuniões estratégicas.

A chegada repentina de Agas Pyrath obrigou Walters a interromper sua refeição por um momento. Ele voltou a comer enquanto ouvia o relatório do general sobre os acontecimentos da noite passada, mas não por muito tempo. Bastaram apenas algumas poucas palavras para que o discurso fosse quebrado pelo som da colher de metal caindo sobre a mesa. Sem se importar com o fato de que estava espalhando sua sopa, Lince saltou da cadeira, gritando a plenos pulmões enquanto esmurrava a superfície de madeira diante de si.

—Como é que um demônio invade o acampamento e vocês não me avisam?!

—Acalme-se, rapaz. A ameaça foi neutralizada assim que a identificaram e não houve baixas. – Respondeu o pai de Yasmin com serenidade. – É claro que tivemos que designar uma boa parte do contingente para proteger o buraco na muralha, mas isso também já está sendo resolvido.

—E como pretendem consertar um buraco sem o Ent por aqui?

—Acho que você deve lembrar tão bem quanto eu o quanto suas amigas bruxas são engenhosas. – O Pyrath sorriu.

Kate estava exausta. O esforço de canalizar continuamente a energia espiritual necessária para alimentar sua magia a deixou no limite, mas ainda não podia se dar ao luxo de parar. Mesmo que sua consciência estivesse à beira de um colapso, agora que estava tão perto iria até o fim. Mais um pouco e conseguiria tirar o acampamento de sua atual situação de vulnerabilidade.

—Se pelo menos minha manipulação fosse tão forte quanto a do Ent, ela não teria que se esforçar desse jeito. – Disse Luna, observando a situação com uma pontada de culpa.

—É melhor desta forma. – Apontou Anya, que também se fazia presente em meio à multidão de soldados prontos para um eventual combate. – Essa magia de restauração é realmente poderosa. Quando Kate tiver terminado, será como se esse buraco nunca tivesse sido feito.

A fenda no muro construído por Ent, antes grande o bastante para permitir que um homem adulto passasse com facilidade, agora havia sido reduzida a apenas alguns centímetros de diâmetro. Ela continuava a se fechar lentamente enquanto a bruxa chesordiana recitava palavras místicas no centro de um círculo de runas. Quem observasse teria a impressão de que a própria madeira se regenerava a partir das bordas, preenchendo o espaço vazio e recuperando sua forma original.

Finalmente, a última fresta se fechou e, com um sorriso de alívio, Kate deixou seu corpo tombar sobre a grama. Enquanto os soldados irrompiam em vivas, Erika e Esther correram para amparar a amiga. Visto que não havia mais necessidade de proteger a bruxa, um oficial ordenou aos guerreiros que retornassem a seus afazeres corriqueiros e assim eles se dispersaram.

—Estou surpresa, Kate. Sua magia é realmente surpreendente. – Disse a jovem de cabelos dourados.

—Nem foi grande coisa. – Veio a resposta. – Para uma bruxa poderosa de verdade, fechar aquele buraco seria brincadeira de criança.

—Foi grande coisa sim. – Retorquiu Anya, de braços cruzados. Sem relaxar a expressão severa, ela virou o rosto na direção dos soldados. – Não ouviu eles comemorando agora há pouco?

As palavras secas intimidaram Kate a ponto de deixá-la incapaz de dizer qualquer coisa em resposta. Timidamente, ela acenou com a cabeça de forma afirmativa e continuou a ouvir o que a mulher mais experiente tinha a dizer.

—Chega a ser surpreendente, mas os soldados de Chesord e Empericia aqui já agem como se fossem todos parte de uma mesma unidade militar. Nem parece que estavam em guerra há quase um mês atrás. Por outro lado, os chesordianos nos olham com desconfiança, graças aos trezentos anos de preconceito contra as bruxas neste país. Essa é uma realidade lamentável, mas que você pode ajudar a mudar.

—Eu, senhora Wald? – Perguntou a garota, perplexa.

—Eu e minhas discípulas somos estrangeiras. Podemos até ser um exemplo de que nem todas as bruxas são malignas, mas quem realmente pode provar que esse preconceito foi construído em cima de mentiras são você e suas irmãs.

A expressão de Kate se acalmou conforme ela começava a entender o quão grande era sua responsabilidade ali.

—Madame Papillon e o clã Datch já estão fazendo a parte deles, protegendo os sobreviventes junto com a Ordem da Rosa Branca, mas a única que está aqui para mudar a concepção dos militares...

—Sou eu. – Completou a jovem bruxa, resoluta. – Você tem razão, senhora Wald. Prometo que vou me esforçar.

Anya sorriu enquanto as três garotas retornavam para junto das outras bruxas. Rispidez não era de seu feitio, mas ela já havia entendido que a única forma de preparar suas discípulas para a guerra contra Pravus era sendo rígida. E a mulher sabia que o verdadeiro horror nem sequer havia começado.

—“Até agora o forte resistiu bem, mas com certeza isso é porque Banemare ainda não veio nos enfrentar com força total. O pior ainda está por vir...”

Àquela altura, Ent já havia perdido a conta de quantas vezes vira o procedimento de transporte mágico sendo realizado entre o esconderijo do clã Datch e o castelo do rei Secrett. Ainda assim, o encantamento projetado pelo esforço conjunto das bruxas ali presentes e dos sábios de Empericia continuava a impressioná-lo. Também não lhe escapava a ironia de que o mesmo método utilizado para infiltrar William e Fernand em Chesord agora servisse para levar os refugiados para a relativa segurança do reino vizinho.

Contudo, haveria um preço a ser pago para isso, e não seria uma dívida fácil de saldar. Negociada diretamente entre o rei Jack Secrett e Inferno, o asilo só foi autorizado mediante a promessa da colaboração absoluta da Ordem da Rosa Branca e de um significativo pagamento em ouro. Desta forma, todos os chesordianos resgatados receberiam abrigo e comida, na condição de trabalharem como súditos da família real durante a estadia.

A única alternativa além dessa seria condenar o povo à morte. Um pesadelo que Ent, em todos os seus anos, nunca imaginou ver, mas que agora o assombrava nos olhares sem esperança dos sobreviventes, decepcionados com o fracasso da Rosa Branca em proteger o reino.

—Apenas oito pessoas hoje. – Disse ele enquanto a magia começava a engolir o pequeno grupo a ser transportado numa bola de luz. – Talvez ainda haja mais sobreviventes, mas resgatá-los vai se tornar cada vez mais arriscado.

—É verdade. – Devolveu Inferno. – Ainda assim, nós continuaremos fazendo buscas até termos procurado em cada canto de Chesord.

—Meu desejo é o mesmo. Só não podemos esquecer de agir com cautela, ou estaremos assumindo riscos maiores do que podemos lidar.

—Vou manter isso em mente.

Com o fim do ritual, a maioria das pessoas presentes começou a deixar o salão e o líder da ordem se juntou a elas, caminhando em direção à saída. Eventualmente restaram apenas algumas poucas bruxas inspecionando o círculo mágico em busca de sinais de desgaste e, supervisionando esse trabalho, a própria Madame Papillon.

Dos membros da Rosa Branca, o único que havia permanecido lá era Ent. Assim como os demais integrantes do grupo, o controlador de plantas vestia um uniforme branco composto por uma camisa e uma calça simples em aparência, mas feitas com um material particularmente resistente. Por cima ele usava um sobretudo de mangas curtas, adornado no peito com um escudo cinza e triangular sobreposto por uma rosa. De cada lado do sobretudo havia cordões trançados, um par verde e o outro azul.

O próprio Ent era careca, com olhos num tom de verde escuro e sobrancelhas esbranquiçadas. Embora suas feições fossem as de um idoso, tal aparência contrastava com sua personalidade vibrante e seu vigor invejável. Com efeito, mesmo já tendo 61 anos, era capaz de enfrentar quase todos os membros da Ordem da Rosa Branca em pé de igualdade, e até superar alguns.

Por cerca de um minuto ele ficou em silêncio num canto, apenas fitando Madame Papillon. Algo na matriarca do clã chamava a sua atenção, e não se tratava da beleza daquela mulher que, apesar de ter uma idade próxima da casa dos cinquenta, era dotada de exuberância capaz de rivalizar a da própria Samantha.

Assim como todas as bruxas que viviam naquele esconderijo, Papillon tinha um tom de pele acentuadamente pálido que contrastava com seus longos cabelos de ébano. Estes desciam até perto da altura dos pés com ondulações sutis, por vezes se misturando com o preto dos trajes que ela usava. Seu vestido escuro era confortável, com a barra retalhada alcançando a altura dos joelhos pela frente e descendo um pouco mais por trás. Ademais, ela também vestia luvas e uma meia-calça, peças da cor roxa, e adornava o pescoço com uma gargantilha de prata.

Com elegância quase sobrenatural, ela caminhava ao redor do círculo rúnico. Seus sapatos negros, enfeitados cada um com um pequeno laço roxo, faziam soar pequenos ruídos no piso de pedra a cada passo dado. A atenção da bruxa então foi desviada para a aproximação de Ent, que rapidamente atravessou a distância que os separava. Houve um momento de silêncio enquanto o homem admirava a cor lilás dos olhos de Papillon. Belos olhos que ele tinha certeza de já ter visto antes, evocando uma nostalgia que atravessava as décadas.

—Eu gostaria de ter uma palavra com você a sós, Madame Papillon. – Disse ele, por fim.

A bruxa fechou a porta atrás de si após Ent passar. Aquele era o laboratório particular da mestra do clã Datch e suas discípulas sabiam muito bem o que a porta fechada significava. Madame Papillon não desejava ser importunada.

—Não faço ideia do assunto que você quer tratar comigo, mas se for algo delicado aqui teremos privacidade. – A mulher estava um tanto curiosa, mas escondia isto muito bem por trás de uma expressão impassível.

—Eu sinto muito por importunar você dessa forma, Madame Papillon. Sei que no momento existem prioridades maiores, mas tem algo me incomodando desde que vim para cá junto com o resto da ordem.

—E qual seria o problema?

Ent suspirou, perguntando a si mesmo se realmente valia a pena desenterrar aquilo depois de tanto tempo. Provavelmente teria desistido, mas os olhos lilases que o miravam com intensidade, como se já soubessem o que viria a seguir, urgiam que ele encontrasse a coragem para continuar.

—Quarenta anos atrás, antes dos tios do rei morrerem, uma garota chamada Annemarie Follet morava no castelo. Madame Papillon, esse é o seu verdadeiro nome, não é mesmo?

—Meu nome verdadeiro é Annemarie Datch. – Ela corrigiu. – Mas sim, eu sou a prima de David Follet, Peter.

—Eu sabia. – O sorriso de Ent era de alívio, mas trazia consigo uma grande amargura também. – Você ficou muito parecido com a sua avó. Parece até que aquele quadro pendurado no segundo andar do castelo é seu.

Em sua reminiscência, o velho lembrou-se também de que sua conhecida era apenas treze anos mais nova. Ao se dar conta de como a diferença de idade aparentava ser muito maior, ele completou.

—Vejo que o tempo foi bem mais gentil com você do que comigo.

—A essa altura já devia ter se dado conta de que nós bruxas somos cheias de truques. – Annemarie sorriu também, enigmática. Não fosse ela já uma senhora, Ent ousaria dizer que estava sendo travessa.

—Já faz quarenta anos que você sumiu. Nunca imaginei que acabaria reencontrando você também, Annemarie, e muito menos que você se tornaria a líder de um clã de bruxas.

—Reencontrando? – Papillon se exasperou, dando sinais de que perdia a compostura.

—Se pelo menos Danielle ainda estivesse viva. – O manipulador de plantas continuou, melancólico. – Ela sentia muito a sua falta.

—Danielle...

A menção daquele nome deixou a bruxa sem reação. Ela apenas fitava o vazio, boquiaberta e de olhos arregalados, como se tivesse visto um fantasma. Gaguejando, ela tentou encontrar algo para dizer.

—V-Você encontrou minha irmã...? Depois que o convento da Madame Scorpia foi destruído?! – Papillon agarrou as vestes do velho, desesperada para saber o que havia acontecido com sua irmã mais velha. – Responda, Peter!

—Sim, Annemarie. É justamente sobre ela que eu queria conversar.

Notas finais
Duas garotos que tiveram a família destruída por Vladmir Banemare. Capítulo 249: Irmãs Datch Em breve.