Roses
1 Capítulo único - Roses
Notas iniciais
Quem era Hibari para mim?
Ele era meu aluno... Não, ele era mais que isso. Ele era um garoto de olhos frios, um garoto determinado, um garoto sem medos. Ele era uma rosa.
Eu não sei ao certo dizer quando esse sentimento surgiu em mim, afinal, eu sempre fui tão sério com assuntos de trabalho e vida pessoal, sabia exatamente distinguir os dois, pelo menos até conhecê-lo.
O que Reborn me propôs parecia ser uma oferta normal, mas seria normal se fosse com um garoto normal.
Kyoya Hibari era um menino estranho, um menino misterioso, ele era algo intrigante para mim. No começo não aceitava o fato de treiná-lo, mas, seria um desafio a ser vencido se eu conseguisse ao menos me aproximar dele, além do mais, eu queria saber o que existia por trás daqueles olhos. Quem exatamente ele era.
Ao longo dos dias em que passei ao seu lado, certa face me assustava, certa parte dele me dava medo. Esta parte era movida por ódio, por arrogância, pelo simples prazer de vencer, de derrotar, de torturar, de matar.
Essa face era mostrada em nossas lutas, onde a única chamava que emanava de seus olhos era o desejo de ganhar, o desejo de ser alguém melhor, alguém superior a todos. Esta face apesar de tudo era o que alimentava a sua determinação, e era o que o fazia dar o máximo de si até ganhar.
E puxa, muitas vezes passamos tardes e mais tardes treinando sem um minuto de descanso, ele parecia ser imortal, ele parecia nunca se cansar, isso era outra coisa que me assustava.
Mas você pode estar se perguntando, qual é sua outra face?
A outra face, pouquíssimas pessoas viram, nem mesmo eu a conheço direito, eu só a ouvi e a senti.
O0o — o0O
A minha verdadeira análise começou quando Reborn teve a “maravilhosa” ideia de eu levar Hibari até a Itália, mais especificamente até minha mansão para treinarmos por exato um mês.
Na verdade ainda não sabia como Reborn tinha convencido o menino de sair por um mês de seu pai e deixar “sua” escola sozinha. Está ai uma coisa que ainda devo lembrar-me de perguntar para Reborn.
Enfim, durante o voo ele ficou completamente indiferente, a não ser pela ansiedade em lutar que podia se notar em seus olhos e seus punhos fechados.
— Tolice. — Ele disse olhando pela janela de meu jatinho.
— O que? O treinamento na Itália? — perguntei confuso por ele ter falado do nada — O que tem ele?
— O que mais poderia ser? Completa tolice viajar para um lugar sabendo que vou vencê-lo em qualquer lugar da Terra.
— Tsc. Isso é o que veremos. Gosto de sua confiança, mas não se iluda tanto Kyoya — Neste instante olhei bem fundo em seus olhos.
Aquele olhar me marcou o resto da viagem até pousarmos em minha terra natal.
— Ó lar doce lar.
— Que seja. Vamos logo, quanto mais rápido chegarmos mais rápido irei embora daqui vencedor — Ele falou com as mãos no bolso e uma cara já um tanto conhecida.
— Ora! Você deveria aproveitar um pouco mais Kyoya! A Itália é tão bela.
— Eu não vim para tirar férias, idiota. Não espere que eu aprecie a paisagem. — Ele disse já entrando no carro que nos levaria até minha mansão.
— É, eu já estava esperando isso Kyoya...
Ao chegarmos, foi a vez dele se surpreender, arqueou uma sobrancelha, mas continuou com o mesmo olhar. Entrou em casa em silencio e me esperou.
— Bom dia senhor Dino.
— Bom dia! — Respondi radiante — O quarto de nosso hóspede está pronto?
— É claro! Por ali senhor!
Depois de nos acomodarmos, ele nem esperou pelo almoço, já queria treinar. Apesar de eu não gostar muito da idéia, já que era um pouco guloso, pensei que seria bom treinar, afinal ambos acordaríamos. Mas estava errado.
Ele estava mais do que acordado, seus reflexos eram os melhores que já vi e sua confiança era exalada de forma que podia se sentir do outro lado do mundo. Mas não poderia esperar menos, ele era Hibari Kyoya.
Já era final de tarde, depois de muitos machucados, Kyoya e eu decidimos parar de treinar. Descansaríamos ao menos por uma hora.
Nessa uma hora procurei tratar de meus machucados, ou melhor, Romário quem cuidou de mim enquanto eu quieto tentava refletir mais sobre a luta, e o que deveria fazer para melhorar.
Depois de um tempo já com curativos decidi procurar Hibari.
Andando pela mansão não o encontrei em nenhuma parte, nem vestígios dele.
— Será que ele ainda está no campo treinando? — O procurei no quintal, no campo e em todos os lugares possíveis — Onde você se meteu?
Só quando passei por uma das laterais percebi, havia um vulto de frente para uma pequena e feia roseira.
No momento não poderia associar Hibari aquela pessoa, mas quando vi aqueles cabelos negros e aquela mão pálida tocando uma das flores, sua imagem veio a minha cabeça. O que ele estaria fazendo ali?
Decidi me aproximar em silencio, ele parecia estar acariciando de forma doce uma das pétalas, aquilo me intrigou. Será que ele gostava de rosas?
Mesmo se ele gostasse, pensei em porque ele não estaria no jardim, lá havia várias rosas, ainda mais bonitas que a que ele acariciava. Mas parece que ele tinha se encantado com aquela feia e sozinha roseira.
Decidi me aproximar ainda mais ficando ao seu lado.
— Gostou dela? — Perguntei.
— O que? Não. Ela apenas é diferente. — Ele disse de forma calma enquanto ainda a olhava.
— Oh... Se quiser no jardim tenho mais rosas, eu poderia te mostrar umas no...
— Não. Eu já disse que não estou aqui a passeio, muito menos para fazer curso de jardinagem. Vamos andar logo com isso. — Ele disse caminhando para o campo.
— Oh... — Ele ainda era frio.
Depois de lutarmos e de eu ter vencido por sorte, o sol já havia desaparecido e decidimos que era hora de jantar.
O jantar foi como esperava, foi calmo, foi tranquilo, foi do jeito de Hibari. Mas algo ainda estava em minha cabeça. O porquê de ele gostar daquela roseira.
Depois do jantar ele foi para a sala e se sentou com um livro enquanto eu apenas fiquei sentado na janela o observando.
Horas e horas ali, ele simplesmente não largou o livro. E eu não larguei minha janela. Pelo menos até ter coragem para questiona-lo.
— Hey Hibari...
— O que foi? — Ele disse com um tom zangado ainda com os olhos no livro.
— Hoje de tarde... Quando falei com você na roseira... — Suspirei me aproximei dele e o fitando nos olhos. — Porque você gostou tanto delas?
Hibari fechou seu livro o colocando sobre uma mesa ao lado do divã, ele me olhou de forma indiferente como sempre.
— Isso não é da sua conta.
— É sim! Quer dizer, eu nem conheço o aluno que tenho! Uma hora você se mostra de um jeito e outra hora de outro...
— Tolo.
— Viu? Uma hora você está me xingando e sendo frio e outra hora é doce, é... é... — Não consegui terminar minha frase.
— Vá dormir, está dizendo coisas sem nexos. — Ele desviou o olhar.
— Ora Hibari! — Apertei seu braço e o fiz olhar em meus olhos. — Quem você é?
— Me largue seu verme, ou então vou te bater até a morte! — Ele já estava pegando as tonfas quando eu o larguei.
— ...Tsc... Era de se esperar, ao menos uma vez eu queria saber quem você é.
— Eu sou eu. E porque você está tão interessado em saber quem eu sou? Um aluno não precisa ter nenhuma ligação com o professor.
— Aí é que você se engana, eu não quero saber só porque sou seu professor. Eu quero saber por que te amo.
Nesse momento tudo o que eu tinha vontade de dizer, saiu em apenas um fio de voz fraco, mas audível.
O silencio reinou e ele virou seu rosto, na hora entendi sua reação e me levantei.
Estava bravo e feliz comigo mesmo, seria a verdade a melhor coisa? Pensava que seria bom ter tido tudo o que pensava, assim não haveria mais segredos. Por outro lado, ver o modo como ele virou o rosto e nem se esforçou em me responder me fez ficar irado.
Caminhei até a cozinha, não sabendo ao certo aonde ia apenas me sentei no balcão e fiquei pensando no que havia falado. Depois de algum tempo ali Romário me procurou.
— Está bem senhor Dino?
— Nem um pouco Romário — Acabei desabafando — Porque eu não consigo mentir ou ficar quieto?
— Como assim senhor?
— Ah... Porque eu tenho sempre que acabar falando a verdade, a verdade sempre acaba mudando tudo.
— Bem... — Ele pensou durante um tempo — Esta é uma de suas virtudes senhor, aliás, é como dizem, é melhor uma verdade dita na cara do que uma mentira dita pelas costas.
— É... — Eu abri um sorriso e suspirei. — Até que faz sentido Romário.
— Bem, é só isso senhor? Quer algo mais?
— Não, eu estou bem, ou melhor, espero ficar bem, pode ir se recolher. — Disse com um sorriso.
— Obrigada senhor, se precisar...
— Já sei, já sei...
Romário se virou e me deixou novamente só naquele canto, até que o que ele disse me fez sentir melhor, mas não esperava menos do meu braço direito, do meu amigo.
Meus olhos começaram a se fechar, me deitar seria o melhor, depois de muitas emoções em apenas um dia, só conseguia imaginar uma cama bem fofinha para me deitar e ter uma maravilhosa e longa noite de sono.
Sem prestar muita atenção enquanto caminhava de volta para meu quarto, acabei pisando de forma errada no tapete e escorregando de cara no chão.
Uma risada tomou conta do ambiente, eu me sentei ainda rindo quando ouvi um suspiro.
— Romár...
— Deplorável.
Quando notei melhor o vulto do outro lado da sala, pude ver que era Hibari que ainda tinha seu livro na mão.
Ainda bravo e chateado resolvi me levantar e seguir para o meu quarto, mas sua voz me impediu.
— Ela tinha espinhos.
— Como? — Ele havia dito algo totalmente estranho.
— A roseira. A rosa que estava ali tinha espinhos, por isso eu gostei dela.
Agora mais confuso do que nunca eu o fitava, por que do nada ele me diria isso?
Só pude ver ele se levantando e passando por mim com seu livro fechado. Ele olhou de forma fria para mim como já estava acostumado. Mas ele se agachou. Frente a frente eu fitei seus olhos e seus movimentos atentamente.
Ele abriu seu livro em uma página onde havia um grifado, pegou minha mãe de forma doce e colocou o livro nela, me fitou de forma carinhosa e pela primeira vez na vida, vi em seu rosto um sorriso, um sorriso que não fosse pela vitória em alguma luta.
Ele se levantou e me deixou ali no chão sozinho.
O0o — o0O
Hoje eu sei explicar melhor o que houve, hoje eu sei qual é a outra face dele.
Hoje com o livro nas mãos, lendo e relendo o grifado eu vejo o porquê de ele gostar tanto daquela roseira.
Hoje eu vejo que ele é sensível, que ele tem medo, que ele é doce e carinhoso. Hoje eu vejo que ele é alguém que eu sempre imaginei que não fosse.
Hoje eu sei quais são as duas faces do garoto que amo.
Hoje eu sei quem é Hibari Kyouya.
E para quem ainda não presenciou sua outra face e pra quem nunca vai presenciar, apenas releio o grifado em claro e alto tom.
“O coração poderia ser considerado um ilusionista. O coração engana, o coração é capaz de enganar, criar e destruir. O coração é apenas um lamentável órgão que usamos para dizer que amamos. O coração é apenas um símbolo, é apenas uma esperança para os que não têm outra coisa a apegar, ele é apenas algo feito para fugir da dor.
“A dor ou a alegria de um coração não podem ser descritos nem comparados.
“Já este, pode ser comparado a uma rosa.
“Pois ambos são belos, são únicos e especiais ambos são admirados por muitos e ambos são capazes de trazer a tona até a mais escondida das sensações. Mas ambos têm espinhos. Ambos podem machucar.
“A maioria das pessoas optam por rosas sem espinhos, a maioria não quer sofrer, a maioria quer encontrar alguém.
“Já as rosas sem espinhos ficam a sobrar, para o deleito de escritores, pois rosas com espinhos afastam. Rosas com espinhos não querem se machucar, preferem ser solitárias assim como a lua prefere brilhar só em uma noite escura.
“Rosas sem espinhos amam que nem corações, mas rosas com espinhos têm medo de amar.”
Notas finais
Deixem reviews se puderem!
beijos e até mais!
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