Rosenrot - a Bloody Fairytale
1 A Rosa Vermelha
Notas iniciais
Também devo obrigação a Lady Myh Lee, que, muito disposta, usou todos os seus conhecimentos e betou essa fic. Muito obrigada!
Também agradeço a banda RAMMSTEIN, por possuir músicas e integrantes tão inspiradores.
"Trouxe flores mortas pra ti.
Quero rasgar-te e ver o sangue manchar
toda a pureza que vem do teu olhar..." (Legião Urbana)
Era uma vez, em um reino não tão distante assim, uma jovem de pele tão clara quanto a pálida neve que cobria os campos de trigo no inverno. Ela possuía cabelos curtos, o que a diferenciava das demais moçoilas, por ser algo incomum, que fugia aos padrões da época. Contudo, como era a princesa, caçula do Rei Charles IV, não era questionada. Seu nome era Branca de Neve – Mas não estamos aqui para falar dela. Não dessa vez.
O que poucas pessoas sabem, e principalmente o Clero faz questão de omitir, é o fato irrefutável de que Branca de Neve possuía uma irmã mais velha, que era ainda mais encantadora do que a pálida caçula. Rosa Vermelha fora agraciada com naturais bochechas rosadas, assim como seus lábios. Seus cabelos eram longuíssimos e ela levava na tez a ingenuidade de uma criança. Parecia ser a mais nova das filhas do Rei, porém, como as aparências enganam, Rosa Vermelha foi a primeira a ser chamada a obrigação do matrimônio.
Enquanto a princesa de face corada servia ao marido e cuidava do já idoso pai, Branca de Neve se entretinha cantando pelos jardins, brincando com pássaros e outros animais silvestres. Ao contrario da irmã, Rosa Vermelha nunca possuíra aptidão para o canto. Sua voz era tão infantil quanto sua face. Entretanto, a jovem dançava como nenhuma outra. Seus movimentos eram tão precisos e delicados que, sem ensaio, parecia uma pétala de rosa dançando ao ritmo da brisa, enquanto se deixava levar pelo som das canções festivas.
Coberta por jóias, ela admirava a paisagem dos arredores do reino pela janela da torre mais alta do castelo. Infeliz, escondia sua melancolia com cândidos sorrisos e seu jeito travesso de criança. Seu desprazer não era nem mesmo remotamente notado quando era chamada a dançar em público sendo exibida por seu pai e pelo futuro Rei.
Certo dia, quando Rosa Vermelha mantinha-se com a testa colada a janela, observando entediada os acontecimentos ao longe, notou uma movimentação estranha. Erguendo as saias acima dos tornozelos, algo nada apropriado para uma princesa, correu imediatamente para o salão principal, prevendo o que lhe aconteceria. Não sendo decepcionada, foi imediatamente convidada a dançar, para entreter os convidados de seu marido.
Um grupo de padres havia chegado ao reino. Sendo levados imediatamente à presença do Rei, sentaram-se junto às ilustres figuras presentes no recinto, sendo tão bem recebidos quanto marajás.
x.x.x.x
Till era meu nome, antes de tornar-me um servo de Deus. Quando tomei o fardo da santidade em meus ombros, fui batizado com um nome tão santo quanto eu me propunha ser. Já não ouso mais usá-lo.
E Till era como ela me chamava.
Lembro-me com clareza do momento em que, pela primeira vez, meu olhar recaiu sobre a figura de Rosenrot, a Rosa Vermelha deles. Entrando com meus cinco irmãos de fé em Cristo no salão daquele castelo, sentei-me junto à mesa de madeira nobre, satisfeito por conseguir abrigo após dias de peregrinação.
Foi então que meus olhos encontraram os dela. Eram escuros e insondáveis, mas sorriram para mim, acompanhados pela boca cor de maçã. Não esbocei reação. O choque tomava minha face.
Durante minha estadia naquele reino, passei a caminhar em companhia da princesa pelos arredores do castelo. Como velhos amigos, conversávamos sobre tudo. Rosenrot era muito curiosa e uma excelente ouvinte. Nunca chegou a se confessar comigo. Era eu quem quase lhe confessava minha crescente e imprópria admiração.
As noturnas sessões de penitência que sofria em companhia de meus irmãos, ficaram mais e mais violentas. A força das chibatadas com as quais castigava meu corpo era proporcional ao fascínio que Rosenrot passara a exercer sobre mim. Desmaiei na terceira sessão, sendo amparado por meus cinco irmãos, já incomodados com meus passeios em companhia da princesa.
Naquela tarde não pude encontrá-la. Estava fraco, meus cortes cicatrizavam lentamente, cobertos com sal. Eu delirava de febre, adormecendo e despertando por vezes seguidas, sempre com o rosto de Rosenrot a perturbar-me a alma. Sonhava com seu perfume de flores silvestres, seus longuíssimos cabelos de veludo negro e sua deliciosa risada pueril.
Quando a febre finalmente me abandonou, a madrugada já ia alta. Fui desperto por um roçar suave e acetinado junto a minha face. Um cheiro adocicado invadiu minhas narinas, fazendo com que eu abrisse meus olhos, confuso. Encontrei Rosenrot ajoelhada em minha cama, a meu lado. Segurava o longuíssimo e espinhoso caule de uma rosa vermelho-sangue, acariciando meu rosto com as pétalas macias.
- Não deverias... – murmurei com a voz tomada pela rouquidão.
- Senti tua falta. – a menina me roubou a fala. – Sabes que não tenho mais ninguém no mundo.
- Mentes.
- Preocupei-me com teu bem estar.
Ignorando aquela face cálida e gentil, prossegui em tom acusatório:
-Tens teu marido, que lhe aguarda neste instante em vosso leito.
Antes que eu pudesse prever, Rosenrot prendera o caule da flor entre minhas mãos. Apertando-as com as suas, senti sobre minha pele a arrepiante maciez de seus delicados dedos, pressionando os meus, me obrigando a apertar a flor vermelha e assim, rasgando a palma de minhas mãos com os afiadíssimos espinhos do caule.
Surpreso, ergui minhas mãos, descobrindo-as sangrentas. Entrevi o rosto de Rosenrot, magoado e enfurecido, por entre elas, mas no segundo seguinte a menina havia sumido.
x.x.x
Não sei exatamente quando aconteceu, mas minha sanidade já não me valia para amparar minha alma ou guiar minhas decisões. Minha mente era seu playground, meu coração seu bibelô. Hoje tenho consciência de que Rosenrot sabia muito bem disso.
A princesa estava sentada em um tronco velho, no alto de uma colina por onde costumávamos passar em meio a nossos infindáveis diálogos, quando a encontrei dias depois do episodio ocorrido em meu dormitório. Ela se entretinha com faixas de um tecido brilhante entre as mãos, os cabelos impecavelmente arrumados em duas tranças, que lhe acentuavam o ar infantil. Foi a primeira vez que se queixou. Não chegou a se desculpar pelos espinhos da rosa que rasgaram minha carne naquela noite, mas sua melancolia mostrava-se quase palpável, como nunca antes. Despejou suas mágoas sobre meus ombros onde as chagas ainda cicatrizavam, e eu, pela primeira vez, a vi como um pássaro aprisionado e não como a radiante flor misteriosa, a quem levava pelo braço pelos arredores do reino. Compadeci-me, talvez não de sua dor, mas de seus olhos que mesmo livres de lágrimas, refletiam uma alma atordoada e cativa. Rosenrot queria se ver livre da ingratidão do pai, do egoísmo da irmã e da brutalidade do marido. Queria quebrar as grades que a cercavam e ir de encontro a sua própria vida.
Pediu-me. E pediu-me com tanta tristeza, me envolvendo com seus ramos e folhas, arranhando meu coração com seus espinhos e enlevando minhas fantasias com suas pétalas que, naquele momento, achei tudo absolutamente plausível. Deveria ser feito. Em nome de Deus, eu precisava salvar aquela encantadora e injustiçada menina. A minha menina.
Apenas quando estávamos frente à porta da sala da lareira, no castelo, tive certeza de que precisava ser feito. Exatamente no momento em que Rosenrot tomou minhas mãos entre as suas, murmurando palavras convictas, fui impelido a acreditar completamente que aquilo não era uma loucura. Com seus olhos escuros e misteriosos como o breu da noite, ela me encorajava a prosseguir, sem planos, apenas com um objetivo. E depois de tudo feito, fugiríamos, sendo perdoados ou não, estaríamos juntos.
Raiva e esperança aqueciam meu coração em uma confusão em meu peito. Senti-me mais forte, deixando as mãos de Rosenrot para abrir a porta e adentrar tranquilamente, enquanto ela se deixava ficar, silenciosa e atenta. A calma se apoderara de mim. Fechando a porta a minhas costas, ouvi os cordiais cumprimentos que tomaram o recinto. Estranhamente minhas mãos estavam firmes quando, surpreendendo o futuro rei, ergui-o da cadeira, atirando-o contra a parede. Enquanto o corpo do atordoado marido de Rosenrot escorregava para o chão, a irmã, Branca de Neve, fez menção de gritar, mas sufoquei-lhe o grito antes que pudesse chamar a atenção dos guardas a metros dali. Apanhei uma adaga sobre a mesa de pedra, cravando-a no coração quente da pálida donzela. Quando puxei a arma, preparando-a para novo golpe, a lâmina suja manchou com o sangue nobre uma pintura mantida ali próxima, que retratava o suave sorrir de Rosenrot.
O Rei, pai das jovens, tentou intervir com seu andar idoso e mãos trêmulas. Antes que pudesse exigir a presença dos guardas com sua voz fraca e arrastada, debilitada pelos anos, soquei-lhe a face. Matei-o com minhas próprias mãos, quebrando-lhe os ossos da face. Surrando o corpo frágil de sua majestade, o encaminhei para seu julgamento divino, onde sua descendência e tesouros não lhe valeriam de nada.
O herdeiro do trono ameaçava despertar e quando abriu os olhos, encontrou os meus, possivelmente injetados e ameaçadores. Aquele sujeito não era digno das vestes reais que trajava, menos ainda de desposar Rosa Vermelha. Mas intentos financeiros possibilitaram aquele absurdo casamento, que acabara por unir dois reinos. Contudo, naquele exato momento, eu sufocava todos os planos das famílias reais com meus dedos fortes e calejados, esmagando a traquéia do futuro rei sob minhas mãos firmes.
Olhei uma única vez para trás, antes de abrir a porta de madeira e retirar-me. O Rei se tornara uma massa disforme, feita de carne sangrenta, caída próxima à lareira. Parecia uma estatua inacabada, descartada ainda nas preliminares de sua construção, deixando de ser moldada, talvez por tédio de seu escultor. Branca de Neve figurava no centro da sala, ainda mais pálida do que o habitual, com seus lábios sem cor e olhos vítreos, encarando o teto com a calma e o desinteresse provindo da morte. Caído próximo à porta, o marido de Rosa Vermelha mantinha-se imóvel, com os olhos fechados e marcas roxas por todo o pescoço. Sua garganta parecia mais estreita e seus lábios haviam se arroxeado, assim como a ponta dos dedos de suas mãos.
Fechei a porta às minhas costas, encerrando lá dentro o cheiro de morte e pânico. Levava comigo apenas uma sensação de dever cumprido e heroísmo, mais alguns respingos de sangue por minha face e vestes. Busquei Rosenrot com os olhos, com o coração ainda cheio de esperanças e a surpreendi sorrindo – mas não era o sorriso encantador ao qual eu já me habituara. Ela sorria de lado, apenas um canto de seus lábios rosados estava curvado para cima, lhe atribuindo uma aparência tão perversa que teria me sobressaltado, se eu não estivesse tão absorto em meus próprios sentimentos. Seus olhos escuros refletiam uma espécie de sadismo e satisfação, que desapareceram quase que repentinamente ao me encararem. Seu olhar se tornara frio e sua boca se contraiu em um ricto de desgosto, como se minha imagem lhe causasse repulsa.
Ela gritou. Com uma fúria que não combinava com seu delicado corpo apontou o dedo em riste para mim, cortando o ar com seu braço miúdo.
- ASSASSINO! TRAÍDOR!
Senti algo gelado se espalhando por meu peito e estômago. Posso jurar que meu coração parou de bater por alguns segundos. Estático, não conseguia assimilar o que estava acontecendo. Encarava o ódio acusatório de Rosenrot com uma expressão de completo choque estampado em minha face. Não consegui reagir. Minha garganta parecia seca e eu me esquecera de como fazer funcionar minhas próprias pernas.
E foi assim que eles me encontraram. Correndo chegaram guardas, camponeses que trabalhavam na cozinha e meus irmãos Padres. Todos preocupados com os gritos da princesa, mas pareceram ignorá-la, seguindo na direção em que ela apontava com tanta firmeza. Vinham ao meu encontro.
As primeiras pancadas não serviram para me despertar do choque e horror que acometiam meu corpo e mente. Surraram-me como a um animal violento. Tanta raiva fora desferida contra meu corpo que, se eu não fosse um homem de porte grande e forte, teria sucumbido aos golpes e falecido ali, no frio piso feito de pedras.
Minha sinistra sentença foi marcada para aquela mesma tarde fatídica. Fui amordaçado e amarrado a um tronco com brutalidade. Uma roupa especial de pano rústico cobria meu corpo, para que o fogo se espalhasse mais facilmente e um capuz ocultava minha face e cabeça, deixando visíveis apenas meus olhos apavorados.
Do meio da multidão que me rondava, assistindo a tudo como a um espetáculo, Rosenrot surgiu, se aproximando com passos lentos e delicados. Seus movimentos eram calmos e seu rosto inexpressivo. Não demonstrava qualquer vestígio de remorso, tristeza ou mesmo felicidade. Apenas se aproximou, com os cabelos arrumados em duas tranças, o que já fazia com que todos ansiassem por ampará-la. Ela apertava firmemente uma tocha acesa em sua mão pálida. Não hesitou, sequer pestanejou ao atirar a tocha com uma normalidade desconcertante, ateando fogo na palha a minha volta. Contorci-me, preso pelas cordas e tecidos, desesperado.
Alarmado pelas chamas que cresciam consumindo tudo a minha volta, não vi quando os cinco Padres, que antes me consideravam como um deles, jogaram suas próprias tochas, alimentando ainda mais o fogo que me cercava. O suor escorria livremente por minha pele, meus braços cortados pela pressão das cordas não me incomodavam tanto quanto o calor e o pânico que me assolavam. Meus olhos arregalados recaíram mais uma vez sobre Rosenrot. Ela foi acolhida pelo abraço de um dos Padres, que a consolava como quem ampara uma criança. Os olhos da menina me sondavam, inexpressivos. Sua face mantinha-se calma, tendo seus cabelos acariciados pelo Sacerdote.
As dores físicas já não posso descrever. As bolhas em minha carne, as chamas lambendo minha pele, o calor. Meu tempo se esvai junto a minha consciência. A fumaça me sufoca. Já não ouço meus próprios gritos.
x.x.x.x
As cinzas do padre conhecido por Baptista foram divididas em duas porções. Metade fora espalhada por um abandonado e sujo estábulo, localizado distante do reino. A outra parte fora enterrada em uma cova rasa, no cemitério destinado à escória daquela sociedade.
Os cinco padres restantes seguiram caminho após o ocorrido. Juraram não mencionar o nome do assassino pecador enquanto vivessem, tentando esquecer o caso e curar suas próprias feridas. Todos eles negaram-se a dar a extrema unção aos restos mortais do amigo de longa data, sem sequer rogarem por perdão em nome do falecido. Já não o conheciam. Era como se nunca tivessem compartilhado o pão, o vinho e a fé.
Rosa Vermelha subiu ao trono ainda naquela semana, assumindo o posto de Rainha. Causando certo espanto, durante sua longa vida chegou a ter filhos, que herdaram o trono, mas nunca aceitou casar-se por uma segunda vez. Completamente livre, viveu feliz para todo sempre.
THE END
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