Roseira Púrpura
1 O artista
Notas iniciais
Ela veio em minha direção, calma e sublime, com seu andar elegante e carregando em seu rosto um sorriso malicioso.
—Parece que você tem mais bonecas que da última vez... Você não consegue mesmo se controlar, não é, Allen?
Eu permaneci calado enquanto a tirana se aproximava mais, toda cheia de si para me provocar. O que ela dizia poderia ser verdade, mas colecionar bonecas não é uma doença, ela apenas não entende o quanto isso é importante para mim.
Senti vontade de rir escandalosamente, mas não o fiz; Ao invés disso eu apenas dei um meio sorriso, finalmente focando-se nela e não no chão de madeira empoeirado.
—Eu vou voltar Allen.
Seus olhos expressavam culpa e não sei dizer o porquê, mas acreditei neles.
Tudo que eu queria de verdade é que tudo voltasse a ser como era antes, eu sentia muita falta daquele passado.
—Certo.
Foi tudo que consegui dizer, ela ainda me encarou por alguns segundos com aquela expressão de tristeza em seu rosto, eu continuei quieto e inexpressivo, ela então virou as costas e saiu pela porta da frente, deixando ela aberta fazendo com que a casa fosse preenchida por aquela corrente de ar gelada.
Levantei da cadeira no final do corredor e fui até a porta, fecha-la. Em cima do tapete ela havia deixado um colar, que eu reconheci imediatamente.
Era feito artesanalmente, com uma linha marrom e um coração de quartzo, que eu havia retirado de um anel achado na praia. Lembro de que eu havia dado aquilo de presente já que eu não poderia comprar nada para o aniversário dela devido a situação em minha casa.
Suspirei e peguei o cordão, eu achei que estragaria ainda mais as coisas se não o guardasse comigo, na verdade a minha intuição me dizia que com toda certeza eu deveria ficar com ele. A linha estava muito bem conservada, ela havia tido muito cuidado com meu presente... Isso de certa forma piorava a situação para ela.
Voltei para a sala, o relógio mostrava que já estava na hora de organizar tudo.
Acendi as lâmpadas e fui fechar as cortinas, eu já podia ouvir o barulho das engrenagens no segundo andar... Minha irmã demorou demais, eu estava atrasado.
Eu tinha um motivo para viver em uma casa longe da cidade e de todas as pessoas que eu conheci, praticamente sozinho. Eu não podia contar isso a qualquer um. Todas as minhas bonecas estão vivas, assim que o sol se põe... Elas acordam.
Algumas são de porcelana, elas têm dificuldade de se locomover, outras são parcialmente ou completamente mecânicas, algumas dessas possuem um sistema velho de engrenagens e outras peças, mas há duas que são semelhantes aos robôs atuais. Eu comecei a montar e colecionar bonecas quando era criança, era um jeito realmente prazeroso de passar meu tempo, sozinho encerrado em um galpão lotado de ferramentas e materiais... Mas minhas primeiras obras foram fracassos, obviamente.
A primeira delas foi feita de argila, seu nome era Rolf, o mesmo que Flor. Seu fim foi numa noite de tempestade, uma enchente tomou conta de todo o bairro e o galpão estava praticamente submerso, perdi ela e todas as outras peças de argila.
Depois de já ter me assegurado de que os móveis estavam no lugar certo e nenhuma boneca quebraria, coloquei cerca de 350 ml de água para ferver e organizei o jogo de chá sobre a mesa de jantar, adicionei uma colher de sopa do chá Adonis no bule e esperei que a água fervesse para que eu o terminasse.
Enquanto isso, Rolf se aproximou de mim, as articulações de seu corpo estavam gastas demais e a pequena tinha de andar apoiada em alguma coisa para não cair. Estendi minha mão á ela, que imediatamente aceitou a ajuda, ela simplesmente caminhou até o lado da minha cadeira e sentou-se ali no chão.
Preparei o chá e enquanto o bebia, observava todas as cabecinhas perto de mim, seria por causa do acontecimento mais cedo que todas elas estavam tão grudadas em mim?
Estas bonecas apenas não querem ser abandonadas, elas odeiam a solidão tanto quanto a maioria dos humanos.
É irônico que alguém tão solitário cuide delas?
Notas finais
Essa história vai ser bem louca.
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