Roseira
2 Despertar
Notas iniciais
Desabou ao chão sob a vigia preocupada do espectador, agora único – findo seu papel aos deuses, fora deixado ao profano –, agarrando o braço machucado e arrependendo-se no instante seguinte, castigado pelo sal nas mãos. A pedra de fogo fora abandonada ao chão, os cristais esverdeados gelavam-lhe a pele.
O outro pusera-se a correr, alcançando logo o ferido. Transtornado, hesitou em tocá-lo, temeroso em macular o rito antes de seu fim. Tentou formular um pedido, mas o aceno desesperado de Tiernan em meio aos soluços mostrou que compreendia a insegurança; a negava, Joshua podia, por favor, socorrê-lo. Ajudou que se sentasse, contrabandeando afagos rápidos pelo cabelo úmido, e abriu com as mãos trêmulas um cantil de odor atraente, despejando com um cuidado apavorado a infusão sobre a mão que segurava com delicadeza em sua própria.
A respiração do mago dançarino oscilava enquanto a poção varria folhas e impurezas para longe de seu braço, ora curta e rápida, ora inexistente, presa entre os lábios que mordia na tentativa de desviar a dor. Reprimiu os soluços, mas lágrimas insistiam em cair, aumentando o desespero que compartilhavam. Ergueu timidamente o braço são e agarrou a pedra no peito, murmurando baixinho um pedido de cura. Encontrou o olhar do outro e, sob o azul, lágrimas como as suas.
Absorto na sacralidade do ritual que presenciara, palavra alguma deixara seus lábios pelo que pareciam horas. Ainda temia os Antigos e sua fúria, ignorante aos termos da cerimônia, e temia atrair sua ira sobre o corpo torturado que abraçava contra o próprio, oposto aos espinhos que selavam a torre. Ainda assim chamou o nome de seu sacerdote, impelido pelo carinho e preocupação. Atrás dos dois, em sua Vontade, um nó de soltou, libertando uma égua desatenta da árvore que o abrigara do vento. “Vai ficar tudo bem”, prometeu, antes de virar-se para o animal. Estalou a língua e gritou seu nome. “Por favor, por favor, não adormeça”.
Mesmo com a visão turva, o branco puro do tecido que o outro puxava da bolsa em seu cinto era belo a seus olhos. Atentou-se ao pedido e resistiu à urgência de fechá-los, esgotado e aflito. As feridas queimavam contra a sensação gelada da infusão, resistindo ao amortecimento que o líquido deveria causar. Drenavam ainda agora sua força, espalhando um veneno singular forjado no coração do mago. Sentiu ser destruído mais uma vez. Puxou o braço com medo ao sentir o tecido que o envolvia, traindo a própria vontade e cooperação. A reincidência da dor clareou sua mente; viu a culpa nos olhos do segundo. Gemeu um pedido de desculpas, desfigurado pela respiração errática, e ofereceu-o com dificuldade de volta às mãos gentis. Nem mesmo o tecido fino se igualava ao toque do artista que os tecera. O mago dos fios engoliu o ar (e talvez uma parcela de seus receios) ao ver o animal que se aproximava.
“Eu… eu não quis te machucar. Consegue se sustentar? Não precisa levantar. Só senta aqui”. Pouco podia esperar pela resposta. Tiernan assentiu com um aceno e um desvencilhar desanimado de suas mãos (quando haviam se encontrado?), apoiando-se no chão com o braço esquerdo e afastando-se com saudade.
“Joshua?”, chamou Tiernan. Conseguiu sua atenção, sempre a tinha. “Obrigado.”. Refletiu por um segundo. “Por estar aqui.”, completou.
Joshua sorriu. Os lábios de Tiernan refletiram a expressão.
Joshua alcançou a égua, procurando o material nos alforjes presos ao dorso do animal. Voltou a Tiernan com dois frascos e um rolo de tecido.
“Rosas tem veneno?”
“Aquelas têm.”
Era esperado. Não era do feitio de magos sucumbir a arranhões. Abriu um frasco, dessa vez com firmeza, e deslizou a bandagem pelo ar sobre a pasta. “Vai ajudar com a dor. Há algo que eu precise saber sobre o veneno?”
“Não agora.”
Dentro de seu peito, os pulmões se retorciam. O fôlego necessário para as frases curtas era custoso, mas o ancorou na realidade quando se fez notar. Espantando a tontura e o princípio dos delírios febris do veneno, organizou a mente. Secou os olhos enquanto observava o curativo. O bálsamo demonstrava seu efeito, aliviando a sensibilidade na carne dilacerada, e o novo tecido era quase confortável sobre a pele. Notou o vento marinho ao seu redor, lembrando-se de como estava frio. Julgou engraçada a situação; o curativo sobre seus machucados tornava confortável a mão ante ao frio, colocando em desvantagem o braço imaculado.
Joshua completou a volta sobre o antebraço, unindo por fim as fibras como se tecidas de uma só vez. Separou, com os Vontade, o tecido remanescente em faixas mais finas, tendendo então aos quatro dedos vitimados pela planta.
“Joshua, você… você conseguiria uma rosa para mim?” Uma pausa. Ele engoliu ar. “Do topo da roseira. Branca”.
A razão lhe voltava pouco a pouco, junto ao fôlego e a clareza, mas uma sensação atenta se escondia em seu interior. Era sorrateira e difícil de encontrar e, uma vez libertada, o envenenava com seus próprios sentimentos. Ajeitou-se no chão mais uma vez enquanto Joshua se levantava para cumprir seu pedido, observando o cuidado com qual tratava a planta. Seu toque era sempre delicado. Cortou o caule com uma discreta tesoura, evitando tocar os espinhos, e enrolou a preciosa flor em um dos muitos lenços que trazia consigo.
A mão estendida de Tiernan tremia mesmo sem corte algum, exausta pelo ritual, desequilibrando-o no momento em que a tirou do solo para receber o favor. Os olhos preocupados notaram suas falhas, depositando, ainda assim, a flor deitada sobre a palma que o outro lhe estendia.
“Não faça esforço. Eu posso guardá-la.”
“Não, eu acho que… o veneno. Eu posso passar pra ela.”
Ainda ofegava, mas estava mais desperto. Joshua confortou-se por alguns segundos na ideia, vendo a antiga habilidade do sacerdote na figura puida que velava com carinho.
Tiernan inclinou a rosa para perto de si, revelando as pétalas traiçoeiras ao desembrulhar a flor. O topo bordado do lenço caía sobre sua mão, ainda preso em torno da flor, protegendo-o inutilmente dos espinhos em seu mais inofensivo estado. Concentrou-se nela, pensando em devolvê-la o veneno que haviam criado juntos. Hesitante quanto ao sucesso do encantamento, primeiro encostou numa pétala a lateral suja de sangue do dedo, sentindo algo fresco e bondoso na suavidade da planta. Continuou a encará-la enquanto parte dela se tingia de um instável rosa, diluindo-se em seguida para retornar à brancura original. Sentiu-se aliviado com o resultado da tormenta que dançara, mas algo entre a dor e a aflição o impediam de sentir alegria. Sua mente se fez turva mais uma vez, em resposta a calmaria, e a urgência da própria Vontade tomou Tiernan. Tentou separar a sutil toxina do sangue onde nascera, expulsando-a do corpo com ajuda da rosa, rezando pelo fim da maldição junto ao fim da bênção que a exigia.
Não foi ouvido. Ante aos olhos aflitos de Joshua, cedendo ao cansaço enquanto tentava combatê-lo, Tiernan desmaiou.
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