Rose Gula: A vacina

1 1° Capítulo: Síndrome do Morto-Vivo


Uma equipe de um jornal americano, a New Horizon, conhecida por explorar o mundo e apresentar novas culturas aos telespectadores um dia foi parar em uma pequena ilha. Emma Garner, uma consagrada repórter narrava a experiência de estar naquela ilha até então deserta:

—O ar aqui é diferente, é puro, só respirei ar limpo assim no Amazonas. -Disse ela. Ela e toda a equipe de cinco pessoas estavam na beira do mar, o barco deles era grande e chamava a atenção.

Eles se aproximaram lentamente da floresta, estavam com roupas especiais para trilhas assim, o cinegrafista não deixava de filmar nada, estava encantado com a ilha:

—Emma, algo me diz que não deveríamos estar aqui. -Disse o medroso Jaime Ballet.

—Faço isso há dez anos, Jaime, eu sei muito bem o que estou fazendo.

Emma voltou a falar com a câmera:

—Esta ilha não tem muitos animais, a vegetação predomina, mas os animais não se manifestam, mal posso ouvi-los.

—Emma...

—Jaime, não enche!-Disse o cinegrafista farto de Jaime.

De repente, homens surgiram na mata com arpões, Emma ficou chocada ao ver o seus rostos, estavam completamente desfigurados, a pele deles parecia apodrecer:

—Sair. Já. -Disse um dos homens numa língua que ninguém da equipe entendeu.

A equipe se afastou menos Emma, que estava curiosa para saber o que aconteceu com aquelas pessoas, pois renderia uma ótima matéria. A mulher se ajoelhou lentamente no chão, Jaime arregalou os olhos:

—Emma o que está fazendo?!-Perguntou ele.

—Preciso saber o que aconteceu com esses homens, Jaime.

—Não, vamos embora, não somos bem vindos aqui!

Emma ignorou Jaime:

—Não queremos machucar!-Disse ela. Os homens ficaram alterados.

—Emma, vamos embora!-Gritou Jaime.

—Não, eu quero saber o que aconteceu com eles!-Disse Emma, os homens estavam cada vez mais agitados.

O cinegrafista notou que não tinha desligado a câmera e resolveu registrar o momento tenso, mesmo sabendo que o público acharia fake. Emma começou a se levantar lentamente, os homens começaram a gritar coisas naquela língua estranha, Jaime se desesperou, se alguma coisa acontecesse a Emma ele estaria morto. O sujeito franzino num ato de desespero empurrou um dos homens e o socou e como reação um deles enfiou um arpão na barriga dele e tirou bruscamente, a equipe inteira saiu correndo, menos o cinegrafista, que continuou filmando, mesmo estando aterrorizado:

—Droga!-Disse Emma, ela se levantou e saiu correndo, puxando o cinegrafista pela mão.

A equipe toda já estava no barco, todos chocados com que aconteceu com Jaime, Emma e o cinegrafista saíram correndo de dentro da mata, os homens estranhos estavam atrás deles, fazendo o clima de medo e tensão voltar. Os dois pularam no barco às pressas e a equipe foi embora em disparada.

Alguns agradeciam a Deus por estarem vivos e longe da ilha, já Jennifer pensava penitente no que aconteceu com o colega:

—Ele era casado e tinha um filho. –Disse Matt, o cinegrafista.

—Eu sei, ele veio me contando como foi a formatura do filho... Matt foi tudo culpa minha e da minha teimosia!

—Emma, não há mais nada a fazer.

—O que direi a família dele?!

—Nada, a emissora cuidará disso, é simples, ele morreu em serviço!

—... Você é tão frio.

—Não é frieza, também estou triste pelo que aconteceu com Jaime, mas alguém precisa ser racional.

Emma enxugou as lágrimas:

—... Acho que você tem razão. –Disse ela.

—O que é isso na sua mão? Sangue?

Emma olhou as mãos, havia sangue na ponta dos dedos e debaixo das unhas de uma delas, ela as lavou na água do mar:

—Devo ter arranhado um daqueles homens.

—Viu como eles eram feios? Pareciam zumbis!

—Matt, o que eles tinham era algo grave que tem que ser tratado, não tem nada haver com zumbis.

—O que acha que é então?

—Eu não sei, se eles não tivessem sido tão agressivos talvez eu teria descoberto... Por que achei que eles fossem ser amigáveis? Sou tão burra! E por minha causa Jaime...

—Ei, ei, ei! Não pira! Vai tudo ficar bem.

—... Espero.

As imagens que Matt registrou repercutiram no mundo todo, todos queriam saber quem eram aqueles homens de pele podre. A ilha de Rose Gula foi visitada várias vezes depois do que aconteceu, mas os visitantes sempre eram recebidos com violência. As coisas ficaram sérias quando Emma contraiu a doença, que naquela altura ficou conhecida como “síndrome do morto-vivo”, ou SMV, em dois meses toda a equipe de filmagens também contraiu a doença, mais dois meses depois a equipe médica que cuidou deles também contraiu a doença. Em um ano mais de 1.200 pessoas contraíram a síndrome do morto-vivo.

***

Brasil-2016.

Segunda-feira

Era mais uma segunda-feira comum da rotina de Maria Júlia, ou Maju, como os amigos a chamavam. Aquele era um ano importante, era a última chance de conseguir pontos para conseguir uma vaga no ensino médio em um bom curso técnico, mas isso ainda não a desesperava, ainda estava no final do primeiro trimestre e quinta-feira era o seu aniversário de 15 anos.

Levantou cedo e foi comprar pão na padaria perto de casa, havia uma grande fila, a menina estava quase dormindo em pé, despertou quando ouviu um alto “próximo!”:

—Bom dia, cinco pães. –Disse àquelas palavras que se tornavam cada vez mais automáticas, o bom dia que dizemos por educação e não por sentimento.

Mas a atendente não a escutou, olhava a TV com os olhos brilhando e boquiaberta Maju olhou curiosa para o que tanto chamava a atenção da mulher:

—Mais dez casos de SMV foram diagnosticados na Grande São Paulo e mais de 10.000 em todo o país, mas cientistas americanos dizem estar perto da cura.

—Graças a Deus!

Maju notou que a conhecia, o filho dela contraiu SMV e desde então a vida dela nunca mais foi a mesma, ela e o marido só podiam ver o menino de trás de um vidro, nunca mais puderam sequer tocá-lo. Maju queria comemorar com ela, dizer o quanto aquilo era bom:

—Moça... Cinco pães. –Mas foi tudo o que ela conseguiu dizer.

***

—Carlos!-Gritou a avó de Carlinhos, o menino bocejou e se levantou.

—O que foi, vó?-Perguntou ele colocando a prótese.

—Eu vou tirar a mesa, vem logo tomar café!

—Tá!

Ele levantou-se se apoiando na cama, estava sonolento e não sabia se tinha colocado a prótese direito. Pegou o celular para ver as horas, mas acabou lendo a briga que teve por mensagem com a namorada, eles estavam prestes a terminar:

—Carlinhos!-Ele ouviu a voz de Nandinho. –Eu vou comer os pães todos!

Nandinho era um traficante conhecido na região, considerava a avó de Carlinhos uma mãe, e consequentemente Carlos como um sobrinho:

—Até que enfim!-Disse ele, a arma em sua cintura estava a mostra, quando notou que Carlinhos a olhava com certo receio a cobriu rapidamente com a blusa.

Carlos sentou-se e olhou a avó, que lavava a louça:

—Vó, posso sair quinta?

—Vai aonde, menino?

—No shopping, é aniversário da Maju.

—É a sua mina?-Perguntou Nandinho, Carlinhos o olhou estranho.

—Minha mina é a Janaína.

—Ah, é verdade.

—Mas e então vó, eu posso?

—Ai, Carlos, pode, mas acontece que eu to sem grana.

—Fica tranquila, mãe, eu dou o dinheiro pro moleque.

—Ah, ok, então.

—Sério?-Perguntou Carlinhos. –Pensei que tava duro.

—Não mais, consegui vender umas paradas e agora to sussa.

—Ah... –Carlinhos sabia que aquele dinheiro era sujo, mas não gostava de depender dos amigos toda vez que iam para algum lugar.

***

Júlio César, ou Cezinha jogava há horas o novo jogos de zumbis que havia sido lançado de madrugada. Depois que baixou o jogo não fez nada, a única pessoa que se comunicava era Tadeu, seu amigo que nunca vira pessoalmente:

—É sério que você ainda tá aí?!-Disse Janaína de repente assustando o irmão, que a olhou rapidamente e depois voltou a jogar.

—Eu já to saindo, Jana!

—Eu não vou fazer a sua parte da faxina de novo, inclusive... –Janaína sacou o celular e tirou uma foto do irmão. –Boa sorte quando for se explicar com a mamãe!

Cezinha tirou os headsets tranquilamente e olhou a irmã mais velha de cima a baixo:

—Você brigou com o Carlinhos de novo, né?

—Isso não é da sua conta.

—Caramba, Jana, ele é super gente fina!

—Ele é um idiota, isso sim! Agora se mexe ou eu tiro mais fotos, eu vou te expor pra mãe!

—Ui!

***

Quinta-feira

Era aula de ciências, a única aula que a sala barulhenta de Maria Júlia ficava em silencio, mas não por que estavam interessados no assunto, e sim por que aproveitavam para dormir. Maju adorava ciências, mas naquele dia queria que a dobradinha da professora acabasse logo, era seu aniversário de quinze anos e ela comemoraria com os amigos no cinema depois da escola.

A garota estava avoada pensando nos cupons de descontos que conseguiu, no lanche que escolheria da cartela e se o filme de heróis que assistiria era tão bom quanto diziam na internet, ela passou a semana inteira se esquivando de spoilers. Ela despertou no susto quando o sinal tocou e todos começaram a conversar. Aquele era o momento que a professora ia embora e a sala aguardaria o próximo professor, como sempre, com baderna e zoação, mas aí um aluno gritou:

—Apocalipse vai começar, hein? Salve-se quem puder!

—Do que você está falando, Luan?-Perguntou a professora.

—Criaram uma vacina pra SMV, professora.

—Ah, que bom!

—Acho que vai dar ruim e a senhora?

—Não vamos ser pessimistas... –A professora pegou suas coisas. –Tomara que as pessoas melhorem, essa doença é muito traiçoeira.

A professora deu sua bolsa e alguns papéis para dois alunos segurarem e foi embora. Luan foi ficar na porta e assim um dia entediante de aula se arrastou.

Maju foi correndo pegar o ônibus para casa, precisava se arrumar em 15 minutos e se encontrar com o amigo Caio. No caminho encostou a cabeça na janela enquanto ouvia música, quando estava prestes a cochilar se assustou com o barulho de um helicóptero da polícia passando pelo céu já com algumas estrelas. A garota se levantou e desceu, já estava no seu bairro.

***

—Jana, eles já foram, só falta a gente!-Gritou Cezinha para a irmã. Carlos e ele esperavam por ela.

Eles ouviram algo de metal cair no chão e uma porta se fechar fazendo um barulho estrondoso. Janaína desceu as escadas, quando viu Carlinhos corou, eles tinham terminado o namoro de dois anos de madrugada por mensagem, vê-lo agora, ao vivo a fazia repensar se tudo o que eles tiveram realmente acabou:

—Até que enfim, hein?-Disse Cezinha.

—Eu nem demorei tanto, cala a boca!

—Tá, tá, tá, vamos logos, a Maju e o Caio já devem estar lá.

—Sério que vocês chamaram o Caio?-Perguntou Carlinhos e então Janaína se lembrou do por que do término.

—Algum problema?-Perguntou Jana.

—Não, não tem problema nenhum.

—Ótimo.

—Gente, eu sei que vocês terminaram e não tá sendo fácil olhar um na cara do outro, mas não dá pra continuar assim a noite toda! Hoje é o dia da Maju e não vai ser nada legal se vocês o estragarem com essas caras emburradas.

Os dois se olharam meio sem jeito. Janaína pegou as chaves na bolsa, Cezinha suspirou aliviado:

—Tchau mãe!... MANHEEE!-Gritou Cezinha.

—O QUE?!-Gritou a mãe do menino.

—TCHAU!

—Tchau, filho!