Rose à Trois

5 Dans ses Genoux


A semana seguiu num ritmo parecido, com revisões interrompidas apenas pelas refeições, que os elfos começaram a trazer no quarto depois que Bervely lhes mandou uma nota; definitivamente ser monitora-chefe tinha as suas vantagens.

Madame Pomfrey passava no seu quarto uma vez por noite, anotava a sua temperatura e pedia o "relatório do dia" para Tara. Elogiou a garota por seu nível de detalhes e "amizade devotada", sem saber que na verdade Tara estava se aproveitando da situação para ter sua parceira de magia só para ela de novo e assim garantir o melhor desempenho possível nos NIEMs. Elas eram melhores estudando juntas, afinal; não era à toa que a cerimonia de seleção da Durmstrang as colocara juntas naquele primeiro dia, há quase seis anos.

Oliver continuava a aparecer várias vezes por dia com diferentes desculpas esfarrapadas, até que, na quarta, ele chegou sem nenhuma desculpa e com uma muda de roupa na mochila. Elas estudavam Transfiguração, mas o nível de detalhes da matéria estava deixando Bervely cansada e sonolenta. Ela podia sentir uma nova febre se instalando, amolecendo seu corpo como se fosse uma injeção de poção corrosiva.

— Vamos dar uma pausa. – anunciou, no meio de um bocejo. Tara esticou a mão e lhe ofereceu a poção, mas ela recusou. O uso contínuo da maldita coisa estava lhe dando azia, que era ainda pior do que aguentar a febre. – Estou bem, só vou tirar um cochilo. Posso confiar que vocês não vão matar um ao outro?

— Vou me comportar se ele se comportar. – Tara se resguardou, apontando o queixo para o grifinório. Ela estava um pouquinho azeda, porque Oliver roubara seu lugar na cama, de onde ele podia sempre se esticar e beijar um ponto do pescoço de Bervely quando ela estava distraída, inclinada para ler o livro.

Bervely se enrolou numa bola, imitando uma posição que Jinx usava de vez em quando, e dormiu poucos minutos depois. Quando acordou, havia um estranho som de risadas preenchendo o quarto, coisa que a alarmou muito mais do que aconteceria se ouvisse gritos.

— E aí ela perguntou que parte do cachorro eles tinham assado! Porque, você sabe, cachorro quente é feito com salsichas...

Tara explodiu em risadas, e Oliver também. Bervely sentou na cama, de cara feia e mau humorada para toda a animação.

— Capitão Delícia estava me contando como foi o primeiro encontro de vocês no mundo trouxa. – explicou a ruiva, achando que Bervely precisava da sinopse, confundindo o estreitar perigoso dos olhos dela com confusão. – Minha nossa, Rose, eu não fazia ideia de que você podia ser tão divertida.

— Eu juro que só contei as partes apropriadas. – Oliver brincou, também ignorando o estado de humor dela, porque ele ainda estava rindo das lembranças – E todas as suas reações ao filme... Sabia que Holmes já foi ao cinema duas vezes? Ela até consegue lidar com escadas rolantes...

— É mesmo, Wood? Eu espero que sua língua fique enrolada na escada ondulante, pra ver se você para de ser um linguarudo, e se vocês já acabaram com o surto imbecil de risadas, será que dá pra alguém me passar a porcaria da poção pra dor?

Eles ficaram parados num silencio atônito.

— Está no banheiro. – disse Tara, quebrando o silencio – Eu vou...

— Não se incomode. – disse bruscamente, se levantando e cruzando o quarto até o banheiro. Bateu a porta atrás de si com força, descontando sua raiva na madeira.

Quase instantaneamente ouviu batidas na porta.

— Rose, será que dá...

— Me deixa, Wood. – disse por entre os dentes, irritada demais e sem nem saber porque. Seu aspecto no espelho não era dos melhores. Ela nem tentou melhorá-lo com metamorfomagia dessa vez, sabia que era inútil. Alcançou o frasco de poção verde para dor, mas ele escorregou de seus dedos e se espatifou no chão. – Droga!

Oliver entrou no banheiro e fechou a porta atrás de si. Não havia mais nenhum resquício de riso em seu rosto, só um pouco de preocupação e culpa.

— O que está doendo?

— É só minha cabeça. Me deixa.

— Você não tomou a poção para a febre, deve ser por isso...

— Ou então porque vocês não pararam de tagarelar um minuto enquanto eu dormia, e de se divertir às minhas custas, porque oh como ela é divertida sendo ignorante no mundo dos trouxas babacas!

— Não foi isso que eu estava dizendo. – ele retrucou, num tom magoado. – Só estava contando como a gente se divertiu aquele dia.

— Há! E porque você tinha que contar qualquer coisa? Vocês se detestam e de repente estão dividindo os bons momentos da vida? Os nossos momentos? O que há de errado com você?

— Desculpe! Eu não sabia que isso ia te irritar tanto. Pensei que você contasse as coisas para ela, ela não é sua amiga?

Bervely respirou fundo, buscando paciência onde não havia. As coisas eram simples no mundo encantado do Oliver, onde amigos contavam tudo um para o outro.

— Não, eu não contei as “nossas” coisas pra ela. Nem a ninguém, na verdade.

— Por que você tem vergonha delas? – ele ofereceu, azedo. Bervely balançou a cabeça. Será que o cabeça dura não entendia?

— Porque elas são nossas coisas, Oliver.

Ele cruzou o quarto e a abraçou. Bervely não entendia direito porque as pessoas faziam isso, mas não ofereceu resistência. Podia ser a doença falando, mas a vontade de derreter em um par de braços fortes como os dele era quase irresistível.

— Desculpe. – pediu, com os lábios contra seu cabelo.

— Isso é o que você continua dizendo. – ela suspirou, cansada.

— Sim, eu sou um idiota. Não vou contar mais nada nosso, prometo.

— É tarde demais, Oliver. Você abriu um precedente. É como ter uma ferida aberta, por onde uma infecção pode entrar, e essa infecção é a Tara, que agora vai te comer até os ossos.

Ele riu, seu peito se sacudindo debaixo delas.

— Amizade estranha, vocês tem. E eu nem estou falando da parte em que vocês eventualmente se pegam. Pegavam. Sei lá.

Foi a vez de Bervely sorrir, com seus lábios fechados.

— Vamos voltar para a cama. Minha dor de cabeça está quase passando.

— BD-

Talvez pagando pela rebeldia de não beber a poção quando deveria, Bervely teve o seu pior episódio aquela noite. Ela foi acometida por uma onda de náuseas fortes, que torceram seu estomago e a fizeram despejar todo o seu jantar para fora, e se tinha uma coisa que ela odiava era vomitar na frente de outras pessoas, então ela precisou gritar, de forma muito contundente, que queria os dois fora dali naquele exato momento, era uma ordem, ponto final.

— Eu vou sair sim, e é para chamar Mme. Pomfrey. Fique de olho nela.

— NÃO! — Bervely gritou através da porta fechada do banheiro – Sem Pomfrey, sem Oliver!

— Você sabe o quanto doentes mandam em sua própria vida, Bervely? – disse Tara num tom jovial, que era fingido, porque na verdade ela estava bem preocupada. – Nadica de nada. Volto já, Wood.

Bervely botou sua dignidade para fora mais algumas vezes, sentada decadentemente no chão do banheiro, depois esperou os joelhos recuperarem força e entrou na banheira, ligando a torneira na água quente e deixando que se enchesse do jeito trouxa mesmo, enquanto ia tirando peça por peça de roupa molhada. Só saiu dali quando se sentiu limpa, teve certeza que não ia vomitar de novo e seu hálito cheirava fresco como hortelã e malva. O resto dela rescendia a alecrim e bardana, os dois principais componentes da fórmula mágica do seu xampu.

Saiu enrolada na toalha, tendo certeza que encontraria o quarto vazio, mas Oliver ainda estava ali esperando paciente, sentado na poltrona. Ele lhe deu um olhar severo que ficava muito engraçado em seu rosto juvenil.

— Mais um minuto e eu ia invadir o banheiro pra ver se você tinha se afogado.

Ela atravessou o quarto, indo até ele. Estava dolorida, exausta e cansada de se fingir de forte. Só uma vez, só um minuto, decidiu se render um pouco e admitir que estava péssima. Fez isso sentando no colo dele, passando os braços em torno do seu pescoço e deixando a cabeça pender no ombro do capitão da Grifinória, apesar do cabelo ainda molhado, de ela ainda estar molhada, apenas envolvida na toalha felpuda que levava o brasão da sonserina bordado na barra.

Oliver passou os braços ao redor dela, sem se importar com nada disso.

— Vem, vamos te colocar na cama.

Ela se deixou levar, sonolenta e muito confortável antes mesmo de seu corpo atingir o colchão. Vagamente, sentiu que ele enxugava seu cabelo e depois passava uma camiseta larga pela cabeça dela. Bervely não viu Madame Pomfrey chegar com Tara, nem ouviu Oliver contar a curandeira que Bervely já estava dormindo. Ele a acordou gentilmente para tomar a poção anti-enjoo e depois a deixou dormir, salvo pelo fato de que não saiu de perto dela nem por um minuto.

— Vou deixar vocês em paz. – Tara anunciou depois que Mme. Pomfrey foi embora, catando suas coisas espalhadas pelo quarto, livros e material de escola. Oliver, que estava deitado na cama atrás de Bervely, um braço passado em torno de sua cintura, balançou a cabeça.

— Está tarde, Holmes. Pode ficar.

A ruiva o encarou, só surpresa nos olhos verde–oliva.

— Tem certeza?

Ele assentiu. Tara largou as coisas no chão e achou um espaço para se deitar do outro lado de Bervely, confortável como se dividisse camas com outras duas pessoas o tempo todo.