Rosas e demônios
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Quando adormeci, tive um sonho que, de longe, foi o mais estranho da minha vida. Em meu sonho estava andando por uma rua de aparência antiga. Calçadas largas e planas, e ruas bem amplas. Não havia nenhum carro ou outro automóvel nas ruas.
As casas eram de pedra lisa e estavam coladas umas as outras e quase não havia árvores, tirando por uma ou outra, colocadas ao londo da calçada. o céu estava escuro e não tinha nem mesmo o brilho das estrelas, o que dava a sensação de se estar em um lugar coberto, porém também não havia sinal de ter um teto.
Reparei que as poucas pessoas que caminhavam pela rua tremeluziam com um leve tom de azul. Também percebi que elas não podiam me ver, já que tive que pular para o lado ou seria atropelado por um pedestre que estava claramente olhando na direção em que eu estava
Então essa é a sensação de não poder ser visto?! Eles vestiam roupas dão diferentes umas das outras que bem que poderiam estar em países e épocas diferentes. Vi um homem usando um terno risca de giz caminhando ao lado de outro homem, este usando um sari indiano. Do outro nado da rua havia uma mulher com um elegante vestido dourado, que era provavelmente do século XV.
É isso! Finalmente percebi então onde estava. Estava na cidade das almas. Agora eu me lembro, eu já vim aqui antes só não me lembro de quando e nem com quem. Imediatamente senti como se estivesse fazendo algo errado, mesmo sem saber o porquê.
Dentre os espíritos tremeluzentes algo me chamou a atenção. Um garoto. Ele era mais solido que os demais, tinha cabelos castanhos formando um topete pequeno. Não pude ver seus olhos, mas por algum motivo sabia que eram de um azulo elétrico. Provavelmente não era um dos espírito.
O que mais me chamou a atenção foi uma espada que pendia do seu cinto, do lado esquerdo do corpo. Tinha o cabo enfeitado com uma flor, cujo caule serpenteava pelo punho até alcançar a lâmina singelamente. Ele desembainhou a espada e, com um movimento contínuo, atravessou uma das almas que se transformou em uma esfera que brilhava em um tom branco e puro. Mas bastou um toque dele para que a bolinha se tornasse de um tom alaranjado escuro de aspecto contaminado e sujo. A alma fora corrompida.
Por instinto, me escondi atrás de uma árvore de tronco largo. Sabia que era desnecessário já que não poderiam me ver, mas fiz assim mesmo. O garoto continuou a fazer esse mesmo movimento com as outras almas até que a rua inteira estivesse tomada pelo brilho das almas corrompidas.
De repente algo tocou meu ombro. Era Cassandra. Em seu rosto pude ver sua preocupação estampada, ela realmente não sabia disfarçar, ou não queria fazê-lo. A menina usava o mesmo vestido de quando fora ao meu quarto, mas ele estava parcialmente encoberto por uma capa negra que tinha um capuz, que estava jogado para traz.
–Sinto muito que tenha que descobrir desta forma, mas não podia lhe contar na frente do Dêniss. — sua voz era calma e controlada, porém seu olhar apontava para o nada e sua cabeça estava abaixada o que denunciava sua insegurança e nervosismo – nós estamos com alguns problemas, como você deve ter notado. – Disse, apontando na direção das almas corrompidas. — Não o traria para cá se não estivéssemos.
– É percebi. Mas o que isso tem a ver comigo? – a cada coisa que eu descobria outra dúvida surgia.
– Tem tudo a ver. Você é um dos nossos, nos precisamos da sua força. – ela estava ficando cada vez mais nervosa, como se temesse que eu recusasse uma oferta muito importante.
– E o que eu tenho de tão especial? Qual é a minha força afinal?
– Isso eu não posso contar. Terá que descobrir sozinho. – sua voz era honesta e com um toque de compreensão. — E é melhor acordar, o mundo dos sonhos pode ser traiçoeiro para pessoas como você...
Antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, o sonho começou a se dissipar e a perdi de vista. Ficou tudo preto por um tempo. Então acordei.
Estava suado e completamente atordoado. Olhei para os lados na esperança de me encontrar em casa e que aquilo tudo não passasse da um sonho ruim, mas o que encontro é um menino. Ele não deveria ter mais de doze anos, mesmo tendo o cabelo totalmente branco. Usava roupas que com certeza não eram de nosso país ou mesmo de nosso tempo. Ele era um espírito. Tudo aquilo fora real.
O menino carregava um copo que estava cheio, mas não consegui ver do que. Percebi que ele me fitava com olhar de súplica e temor. Estendeu o copo em minha direção eu o peguei e levei a boca. Surpreendi-me ao reconhecer a bebida. Era iogurte de morango, minha bebida favorita. Okay, talvez eu não devesse aceitar bebida de um total desconhecido, mas preferi acreditar que não tentaríam me envenenar.
Voltei-me para o menino, uma sobrancelha levantada em uma expressão interrogativa. Meus lábios se moveram em uma pergunta silenciosa. “o que?”
– por favor, nos ajude, lorde Louis! Ele está corrompendo todos nós. Ele quer...
– Calma! – o interrompi – Ele quem? E como assim lorde Louis? A cada minuto eu entendia menos do que estava acontecendo...
– O nome dele é Elric, oras! Ele é um dos demônios renegados! Eu estive espionando eles, e me parece que ele é o líder. — O menino estava começando a se acalmar, mas não parava de olhar em volta esperando que algo ruim acontecesse.
– Um dos? Quantos eles são? – minha voz saiu um pouco ríspida demais o que fez o menino se encolher atrás do criado-mudo. – Me desculpe! Não era minha intenção assustá-lo.
Ele continuou encolhido e me fitava com ar de dúvida e medo. Respirei fundo para poder me acalmar. Se queria saber mais sobre o que estava acontecendo não poderia sair assustando quem poderia me ajudar. E com muito cuidado para manter o tom de voz e a expressão neutra, comecei a falar novamente:
– Qual o seu nome afinal? E de onde você é? – ele ficou calado por um momento, ainda me observando um tanto inquieto, mas então, com um leve dar de ombros, se aproximou da beirada da cama.
– Meu nome é Mack, eu vivia na Inglaterra entre 1899 e 1911 – Sua voz estava trêmula e baixa – Os renegados são um grupo de quatro demônios que foram banidos, e com certeza Elric é o pior deles. Afinal ele era...
Antes de terminara frase Mack tapou a boca com ambas as mãos. Pergunto-me o que ele teria dito e por que ele não pode dizê-lo. Mas não tive tempo para pensar no assunto pois neste momento alguém bateu na porta e fui pego por uma sensação ruim sobre o meu passado.
Olhei para a porta na esperança de ver Cassandra, mas sabia que era pouco provável que fosse ela. E no fundo eu sabia muito bem quem realmente estava ali.
– Pode entrar – disse finalmente.
Pelo canto do olho, vi Mack atravessar a parede atrás da cama, deixando para trás o copo, agora vazio. Então olhei diretamente para a porta à minha frente enquanto ela era aberta.
Quem veio me visitar era um homem alto e forte, com olhos e cabelos negros. Usando um manto escarlate sobre vestes simples e pretas. Em sua mão, segurava um cajado enfeitado com uma caveira e algumas pedras preciosas.
Arregalei os olhos ao reconhecer a pessoa parada a minha frente, ou devo dizer o Deus parado a minha frente. Não havia dúvidas sobre quem era ele, afinal quem mais poderia ser?
– Olá, pai! – Hades, o Deus dos mortos, e meu pai, estava parado bem na minha frente com uma expressão severa, mesmo assim arrisco continuar – acho que mereço alguma explicações agora, não é mesmo? Eu já sei sobre o que Elric está fazendo com as almas, mas não entendo o porquê e nem sei quem exatamente ele é.
– É. Acho que isso é normal já que passou tempo demais com os mundanos. – ele disse secamente.
– Como assim tempo demais? Eu sempre vivi lá. Pelo menos é o que eu achava até ontem. — rebati um tanto irritado por não entender mais nada.
– Isso é um dos efeitos de um demônio conviver demais com os humanos, vocês perdem sua memória e sua identidade como demônio. Passam a achar que são um deles. – ele me encarava com certo nojo no olhar. – detestável!
Não estava gostando nada de conversar com o meu “pai”. Um nó se formou em minha garganta. Ele disse “vocês” o que ele quis dizer com isso? Tem mais alguém como eu? O silencio que se forma era palpável e quase insuportável. Ele fez menção de sair do quarto, mas antes de fazê-lo virou-se para mim e disse:
– Venha! Ou pretende ficar neste quarto pelo resto da eternidade? Daqui a pouco o almoço será servido e quero você presente. Espero que ainda saiba o caminha até a sala de refeições.
E, sem nem ao menos ouvir a minha resposta, saiu do quarto, deixando a porta aberta.
Saia deste quarto e veja se lembra de algo. Disse para mim mesmo.
Levantei da cama sem muita pressa, não queria encontrá-lo no corredor. Ao chegar até a porta, senti um vento fresco vindo do corredor, aqui tinha alguma janela ou outra forma de refrigeração? Dei uma olhada para os dois lados e me perguntei para onde iria. Não conhecia aquele lugar, ou pelo menos era o que eu pensava.
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