Rosas do Fogo
2 Rhaegar
Notas iniciais
Por entre os escombros destruídos, perambulava um som, leve e agradável. Sentado em uma das pilastras destruídas, que estava caída ao chão, ele fazia a sua mais nova canção. Seus dedos deslizavam em sua harpa com safiras azuis como o céu, as cordas produziam a sublime canção. Uma canção que leva donzelas, até mesmo alguns homens, as lágrimas. Sempre que ia a Solarestival ele conseguia fazer as melhores canções.
Solarestival foi o lar dos Targaryen, reis moraram no grandioso, agora destruído, castelo. Foi à residência oficial dos reis de Westeros e também um palácio de verão. O rei Aegon V, adorava Solarestival, mas adorava mais ainda tentar trazer de volta as criaturas do fogo, os pesadelos das crianças e as armas dos homens, os dragões, que estavam extintos a mais de trezentos anos. Ele tentava, a qualquer custo, chocar ovos de dragões, com o fogo, em uma destas tentativas incendiou todo o castelo. Matando a ele mesmo, seu filho e herdeiro do trono de ferro, o príncipe Duncan Targaryen, e várias outras pessoas que serviam ao rei.
Rhaegar estava em Solarestival quando tudo veio a ruir. Na mesma noite da tragédia a princesa Rhaella Targaryen deu a luz a Rhaegar, ela foi uma das poucas pessoas que sobreviveram ao incêndio, assim come seu pai Jaehaerys, filho de Aegon V, e seu irmão e marido príncipe Aerys que também conseguiram escapar do fogo.
Rhaegar Targaryen era filho de um incesto, o que é comum entre os irmãos Targaryen, agradecia a todos os deuses que conhecia por não ter irmãs, não lhe seria muito agradável desposar de uma irmã. Mas por outro lado lamentava os irmãos que perdeu, a rainha Rhaella perdeu muitos filhos natimortos, e outros que nem ao menos chegaram a nascer.
Colocou a harpa ao seu lado assim que terminou a canção, estendeu um manto dourado no chão frio do aposento, e logo adormeceu.
Os ventos sopravam lado a lado, zunindo baixinho em seus ouvidos. Andava pelo grande corredor de um castelo. Mas não parecia ser Solarestival.
Os corvos do outro lado do palácio bem no fundo, atrás de alguns escombros enormes, agitaram-se e gritavam como doidos:
— Fogo... Fogo... Fogo.
Sentiu um arrepio no lado esquerdo do rosto, como se alguém quase lhe tivesse encostado, se levantou com pressa e assustado.
— Quem está ai? – perguntou olhando para todos os lados do aposento. Apenas o luar da noite iluminava uma parte do quarto.
— São belos, mas são pedras. – uma voz grossa ecoou pelo aposento.
No principio não viu nada além de sua sombra. Caminhou, pisando firme, no chão de pedra e pegando sua espada de um aço firme, ele prestou atenção no reflexo, quando algo atrás dele se moveu. Seguiu a sombra desconhecida até um amplo corredor.
Cruzou todo o corredor ouvindo os corvos agitados, entrou em outro aposento, agora onde o enorme trono jazia quebrado. Percebeu que estava em Fortaleza Vermelha, sua casa.
Rhaegar subiu os três degraus, das escadarias do trono de ferro. O trono que ele iria ocupar logo após seu pai. Sentiu um calor nas costas, um fogo por todo seu corpo, como se ele mesmo fosse o fogo, ardia por todos os cantos. Olhou para cima e viu pelo telhado quebrado, três enormes animais voando a cima do castelo. Pareciam como:
— Dragões. – disse o príncipe surpreso. Não existiam mais dragões. Foram extintos. Todos diziam isso.
Reparou nas chamas de um azul-marinho que cruzaram todos os cantos do aposento. E de repente tudo ficou em silêncio, tudo desapareceu. Sentiu a neve lhe encostando a pele, flocos tão pequenos e frágeis que derretiam a toca- ló.
Andou mais um pouco e percebeu que agora estava pisando na neve, mas ela não afundava. A neve teria ao menos 4 metros, mas ainda sim, não afundava, não prestou muita atenção. Os ventos viam a todo vapor, traziam uma tempestade, avalanche, não soube diferenciar, mas era de neve. O ar era gélido e o tinha um cheiro adocicado.
Os cabelos dourados eram levados ao ar pelo vento, flocos de neve, que caiam do céu, amontoaram- se em seus cabelos. E novamente tudo mudou se viu em um deserto, quente, onde ventos arrancavam areias do chão, ouviu uma voz fina, que acompanhou outras dezenas as quais não reconheceu nenhuma.
— Nosso príncipe – saudaram todos.
Mulheres, homens, idosos e crianças, com seus corpos magros iguais a esqueletos, todos usando roupas rasgadas e imundas. Eles se ajoelhavam perante o senhor príncipe de Pedra do Dragão. Pediam misericórdia por algo que o príncipe não entendia, as crianças choravam, as mulheres se jogavam ao chão em desespero. Todos falavam a mesma coisa:
— Piedade senhor.
O deserto soprou uma tempestade de areia, o cheiro adocicado voltou novamente, ele se virou novamente para a multidão e viu todos os que lhe pediam misericórdia, caídos aos seus pés.
Seus olhos se fecharam ao sentir o fogo lhe possuindo, um calor que não pôde acreditar sentir, o ferro de sua armadura esquentava e quase derretia, ele a soltou, tirou- a por completo, mas assim que ouvia tocar o chão, o fogo se apagou, as chamas cessaram e a neve voltou a lhe tocar derretendo.
As chamas desta vez não o atacou, passaram sem que lhe ferisse, eram azuis quase brancas como a neve, lhe atravessou, o príncipe caiu de joelhos, e logo se deitou na neve sentindo o gelo derreter, ficou olhando para o céu se lembrando do que Meistre Aemon, irmão do falecido Rei Aegon V, lhe disse: Não importa o sonho, sempre acordamos dele. O Meistre fora o homem mais sábio que ele já conheceu. Fechou os olhos devagarzinho quando ouviu vozes em sua cabeça, distantes de seu sonho.
— Rhaegar... – a voz era grossa, tão alta que ouviria de um coma, tão direta que era como se estivesse em sua frente. – Rhaegar... – Rhaegar sentia- se enjoado, como se alguém lhe balançasse, lhe mexia, e sentiu o rosto molhado.
— Rhaegar!
Rhaegar sobressaltou do manto ao chão, tão rápido que os corvos se agitaram novamente, viu Solarestival, como vira antes de dormir, mas agora, o sol brilhava.
— Rhaegar, o que houve? – agora reconheceu a voz, era Sor Arthur Dayne, Espada do Amanhã.
Sor Arthur Dayne é amigo mais próximo de Rhaegar. É um dos melhores espadachins de Westeros, este feito fez com que ele se tornasse um Guarda Real do rei Aerys Targaryen. Seus olhos são iguais aos de Rhaegar lilases, o que muito raro de se ter em Westeros. Mas seus cabelos são escuros, como o de sua irmã Ashara.
— Não é nada – acalmou- lhe Rhaegar, limpando o canto da boca.
Sor Dayne lhe ofereceu uma garrafa com água e ele aceitou.
— Sonhava? – perguntou Dayne.
O príncipe sentiu uma tontura, se segurou apoiando- se na pilastra e assentiu para o Sor.
— Com o que? – perguntou novamente Sor Dayne.
— Futuro. Passado. Algum sonho estranho – disse sem querer prolongar o assunto.
Sor Dayne olhou por todo o aposento e viu na extremidade do quarto os corvos agitados, presos nas gaiolas.
— Então é por isso que nenhum corvo retomava a Porto Real, achávamos que alguém as derrubava – sussurrou a si mesmo Sor Arthur Dayne.
— Afinal de contas, porque diabo faz aqui? – perguntou Rhaegar caminhado até as aves para soltá-las. Rhaegar sempre ia a Solarestival para pensar, fugir um pouco de suas obrigações como príncipe, principalmente fugir de seu pai. Não gostava que ninguém o acompanhasse, a não ser que seja importante.
— Para lhe entregar isto – disse o guarda lhe estendendo uma carta assim que Rhaegar soltou todas as aves. Rhaegar percebeu que na carta um brasão ostentava nove morcegos negros e ele logo reconheceu ser o brasão da Casa Whent de Harrenhal. Abriu a carta e a leu.
— Mais um torneio organizado por um grande Lorde, desta vez em Hanherral – disse Rhaegar logo após de ler a carta.
— Dizem que este torneio entrara para a história, compositores por todos os cantos de Westeros cantaram este torneio, histórias serão contadas por todos os cantos, parece ser um grande feito – contou Sor Dayne.
— O que tem de tão importante neste torneio? – perguntou o príncipe.
— Não é o torneio qualquer, e sim as grandiosas lutas que irão acontecer em Hanherral. Lordes, cavaleiros e até mercadores do outro lado do Mar Estreito, membros importantes do reino estarão presentes no torneio – explicou o Sor Dayne.
— Não entendo ainda por que você veio para me entregar apenas uma carta para um torneio. O que realmente faz aqui Sor? – perguntou Rhaegar por mais que soubesse qual é a resposta. Rhaegar andou até um canto do quarto onde guardou cuidadosamente sua harpa.
— Seu pai, achou melhor que trouxe- se a carta até aqui, já que você não retornava as outras, ele exigiu que lhe levasse de volta. A grande reunião do conselho está chegando – explicou Sor Dayne. Rhaegar assentiu em desgosto e desceu as escadarias para selar seu cavalo.
— Tem alguma ideia de quem competirá no torneio? – perguntou Rhaegar enquanto montava no cavalo.
— Ouvi dizer pelos corredores de Fortaleza Vermelha, que Lorde Robert Baratheon de Ponta Tempestade irá competir. Um dos filhos do Lorde Rickard Stark de Winterfell também irá participar. Alguns filhos de Lorde Frey, entre outros. Como eu disse as mais importantes casas de Westeros e os melhores comerciantes de além do Mar Estreito estarão neste torneio, tudo em honra da filha do Senhor Whent. – disse Sor Arthur Dayne começando a caminhar para a estrada que leva a Porto Real.
— Irá competir? – perguntou Rhaegar brevemente ao cavalheiro da Guarda Real.
— Mais é claro. Você mais do que ninguém sabe que não perco um belo torneio. Além de que terá muitos bons cavalheiros para competir.
Não seria nenhuma novidade que Sor Arthur Dayne iria competir em um desses torneios, sua braveza o tornara o melhor Sor da Guarda Real, e um dos melhores espadachins de Westeros.
Durante o percurso até a vila de Piki eles não falaram mais nada. Chegaram até a vila pequena no meio da estrada que da a Porto Real. Já estava de noite, as estrelas brilhavam no céu limpo, sem nuvens.
Sor Dayne pediu duas taças de vinho e uma tigela de guisado. Eles comeram e beberam. E logo foram dormir em um dos quartos da estalagem.
Pela janela do quarto Rhaegar via todas as estrelas do céu. A noite estava bela, fechou seus os olhos e dormiu. Sem os sonhos desta vez.
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