As cabeças rolavam pelo chão. Os bonecos de palha e madeira estavam todos destruídos em vários cantos do pátio. Todos os dias antes do sol nascer, Mikken, o ferreiro e armeiro de Winterfell, acordava cedo e colocava vintes novos bonecos de treino espalhados pelo pátio, ajeitava os alvos de arco e flecha, e ia embora para seus aposentos para trabalhar. Antes mesmo de ele desaparecer do pátio, Bran já lutava com os bonecos. E quando o resto dos cavaleiros chegava para treinar, os bonecos já estavam todos destruídos por Bran. Causando a ira de Mikken que tinha que, novamente, colocar novos bonecos de treino.

Para Bran os dias não parecem terminar nunca, dava o maior de si nos treinos para se sair bem no torneio de Harrenhal. Lya via que a todo tempo seu irmão ficava horas e horas no pátio treinando com seu com seu garanhão e em sua mão direita a sua espada.

Ela observava da janela de seu quarto, seu irmão, mais uma vez, treinando no pátio com um cavalheiro, a todo tempo Bran errava os golpes no cavalheiro, o que deixava o rapaz com mais raiva.

— Logo ele cairá – proferiu a Velha Ama com seu pequeno tricô.

― Cairá? – perguntou Lya se virando para a Velha Ama.

Velha Ama é uma velha muito feia e muito encolhida. Ninguém sabia ao certo sua idade. Mas Lorde Rickard disse que ela já morava em Winterfell antes de ele nascer.

— Sim. Ele usa muito a força, tenta mostrar o máximo do que sabe lutar. Mas não usa a inteligência. Grandes homens são aqueles que pensam antes de tudo – disse ela tricotando.

― Em um campo de batalha tem que se mostrar a força – pestanejou Lya.

— Mais antes da batalha o que vem primeiro? As táticas, a inteligência. Outros grandes homens hoje estão mortos, porque não usaram a inteligência acima de tudo. Primeiro pense em sua estratégia, depois a execute. Quando o inimigo está perto de mais, seja rápido e pense em uma saída para derrotá-lo, não sai jogando vários golpes sendo que ele sabe o seu jogo – disse Ama sem tirar os olhos do tricô.

― O que a senhora entende de batalhas? – Lya perguntou com descrença.

— Muito mais do que você menina loba – respondeu agora a olhando – Vou lhe contar uma história.

― Não quero saber de histórias – retrucou Lya voltando a olhar pela janela. Já fazia tempo em que ficava fascinada com as histórias da Velha Ama. Antes gostava muito delas. Mais agora não. Achava que eram apenas contos para fazer criança dormir. E ela já não era mais uma criança. Assim achava.

— Você quer sim minha menina. Só tem medo – disse a Velha.

― Que medo?

— O medo de ver a verdade. De perceber que mesma para uma velha eu estou certa. O medo de agir antes de pensar fazendo assim escolher caminhos sem volta e perigosos. Temos que escolher as coisas certas, por mais que possam ferir as pessoas que amamos, mesmo que possa ferir a nós mesmos, temos que usar a inteligência para fazer o certo independente de tudo, para fazer o bem maior – disse a Velha Ama olhando para a parede do quarto.

― Conte-me a história então – seu deu por vencida Lya.

A Velha olhou para ela e voltou a tricotar.

— Há muito tempo, antes do desembarque de Aegon, o Conquistador. Quando os invernos pareciam ser eternos, o sol não era nunca visto no céu, os reis morriam apodrecidos em seus castelos. As mulheres se desesperavam sufocando seus próprios filhos, em que a cada instante o medo predominava. Surgiu um homem. Uma esperança. Ele tinha uma tarefa: derrotar os Outros. Mas precisava de uma arma digna de um herói para derrotar o mau que habitava a terra. Então durante trinta dias e trinta noites ele forjou sua espada. Mas quando colocou a lâmina na água, a espada se quebrou. Mas ele começou novamente. Então na segunda vez ficou cinquenta dias e cinquenta noites para fazer a espada, ainda melhor que a primeira. Para testá-la, capturou um leão e enfiou a lâmina em seu coração, mas a espada se quebrou novamente. Na terceira vez, quando parecia que não tinha esperança e com o coração destruído, ele trabalhou por cem dias e cem noites. Ele então chamou sua esposa e pediu que ela descobrisse o peito, ela estava confusa, não sabia o porquê de seu marido pedir isto a ele. E então ele enfiou a espada no coração de sua amada, e a alma e a coragem dela se combinaram com o aço da espada, criando assim a Luminífera, uma espada de fogo. Ele derrotou os Outros, acabando com aquele inverno tenebroso. E trazendo de volta a esperança naqueles que não tinham mais. Mas o que acima de tudo ele teve? A inteligência. Ele foi inteligente para trabalhar em sua espada por tantos dias, foi inteligente para perceber de que tinha que matar sua esposa para conseguir, ele usou seu conhecimento, sua inteligência acima de tudo, antes de sair para lutar, mesmo ferindo a ele mesmo por ter matado sua amada, ele teve que ser inteligente para escolher o certo, mesmo que certo parecesse o errado.

Ouviram alguém batendo a porta. Lya deu uma última olhadela para a Velha Ama e foi à porta.

― Benjen, não deveria estar no treino? – perguntou Lya ao irmão mais novo que estava parado no batente da porta

— Deveria, mas quero lhe mostrar uma coisa – disse ele estendendo o braço para Lya.

Lya lhe deu o braço e desceram as escadas. Deixando para trás a Velha Ama. Os dois atravessaram o pátio cantarolando a canção Um Rochedo de Pedras, a canção favorita de Lya quando pequena, sua mãe sempre a cantava antes de por Lya para dormir.

Correram até a um rio perto do Jardim de Vidro e da ponte, onde se sentaram as margens do rio, escorados em um tronco de árvore caído.

A floresta que rondeava o Jardim de Vidro, era cercada de carvalhos velhos, pau-brasil, várias flores faziam fileiras pela estrada. Diferente do Bosque Sagrado, as árvores não chegavam a tampar a entrada do sol.

― Lembro-me no dia em que pegamos galhos quebrados e fingirmos serem nossas espadas – disse Ben.

— Eu era bem melhor que você – disse Lya rindo e mexendo a mão na água gelada.

― Era sim – admitiu Ben – Mas só porque eu era pequeno.

Lya soltou uma gargalhada acompanhada de Ben.

— Não mesmo. Eu sempre fui e ainda sou melhor que você.

― Daria uma bela de uma cavalheira se o nosso pai a deixasse empunhar uma espada – disse Ben cessando com as gargalhadas.

Lorde Rickard sempre fora um homem bondoso, justo e leal. Mas privava Lya de tudo aquilo, que segundo ele, não era uma tarefa de mileide. Como empunhar uma espada para lutar. Lyanna sentia inveja, enquanto seus irmãos lutavam, treinavam e bebiam vinhos saborosos. Ela só podia tricotar, cantar e beber pequenas doses de vinho, isso apenas em ocasiões especiais, o que não aconteciam com muita frequência.

— Sou uma mulher. Isso já é muita diferença na sociedade – reclamou Lya com um olhar vago.

― Competiria no torneio? – perguntou Ben.

— Sem pensar duas vezes – respondeu de imediato e o silêncio retornou novamente, lembrou então o porquê de seu irmão ter a levada até ali – O que você quer me mostrar? – voltou Lya a perguntar a seu irmão.

— Fique aqui – ele mandou e se levantou indo até o tronco caído onde estavam sentados. Voltou trazendo um embrulho em um manto de couro.

— Demorei dias para convencer Harold a fazer isto para mim, e mais uns dias até ficar pronto, já que ninguém podia ver o que ele estava montando – falou Ben voltando a se sentar ao lado de Lya, enquanto a menina olhava o embrulho com cenho franzido – Abra – pediu Ben empurrando o embrulho a irmã.

Lya desfez o nó que segurava o manto e abriu. Dentro estava uma armadura um tanto o quanto estranha. A armadura era composta de pedaços de ferros, aparentemente armaduras já usadas e que são incompatíveis umas com as outras já que as peças pareciam mal ajustadas nele. Junto com a armadura estava um escudo, nele tinha a imagem de uma árvore branca com um rosto vermelho e sorridente. A armadura era maior que o corpo de Lya, e os moldes, mesmo que maus feitos se assemelhavam a um corpo de um homem.

— Para que isso? – perguntou a menina.

— Pedi para Harold fazer está armadura. Os moldes dela se encaixam ao meu tamanho. Eu disse que precisava de uma para os treinos, e depois de muito pedir ele fez um para mim.

— Então por que está me mostrando isso? – perguntou Lya.

— Eu já tenho uma armadura, meio gasta, mas já tenho uma. Então pedi para que ele juntasse peças de uma armadura velha e fizesse uma nova para mim. E eu meio que menti para Harold sobre o que tinha acontecido com ela, como eu disse a armadura é para o meu tamanho, já que eu não podia contar a ele que queria lhe dar – ele disse suspirando enquanto Lya arregalava o olho – Enfim, quero lhe dar isto porque você é minha irmã, e sei que você ama isso. Lutar. Por mais que seja proibida de fazer isso. Quero que você tenha um pouco de liberdade antes de se casar. Quero que use está armadura quando quiser passear, treinar. Use sempre que quiser, mas é claro a esconda de todos para que não descubram, se o papai souber, nós estaremos ferrados – disse o menino segurando na mão da irmã, que sorria de felicidade.

— O que vai fazer em relação a Harold quando ele vir que não está usando essa armadura? – perguntou Lya e o menino sorriu.

— Deixa que com ele eu me entenda.

— Estou realmente muito agradecida com este presente – disse-lhe a menina dando um abraço no irmão – Mas posso lhe pedir uma última coisa?

— Claro.

— Poderia você levar está armadura para Harrenhal, como se ela fosse sua. Depois do torneio não terei muito tempo, mas lá poderei treinar um pouco com ela. Pode fazer isto por mim?

— Posso sim – ele disse e sorriu para Lya.

A noite ela já estava em sua cama, quando enfim adormeceu. Sentia-se feliz e grata ao irmão por ter lhe dado à armadura, não poderia usa-la constantemente, principalmente depois do casamento. Estava ansiosa com o torneio, ansiosa para conhecer coisas novas e “fugir” um pouco de seu lar. Mas depois ela seria aprisionada novamente, era o que significava para ela desde quando foi prometida a Robert, ela se sentia em uma prisão. Ela gostaria de poder fugir, de amar o que ela escolheu. De ser livre, era o que ela mais queria.