Rosas
1 "Wendy... não chore."
Notas iniciais
– Você aceita minha proposta, Wendy Louver?
– Sim, eu aceito!
Digo sem pensar nas consequências. O desejo de vingança foi mais forte.
Acordo um tanto cansada, perdida. Olho para os lados e avisto uma pessoa me encarando; esfrego os olhos e vejo olhos cor de mel. Lizzy...
– Bom dia! – levanto-me lentamente.
Ela nega com a cabeça, ela estava mais pálida que o normal. Seus olhos expressavam dor, e o jeito que estava sentada, com as mãos na barriga, me fez ter certeza que ela estava passando mal. Ela foi abandonada há uns três meses atrás e, infelizmente, achada por Mendel, a dona desta casa onde estamos, ela é uma empregada, mas o trabalho somos nós que fazemos. Lizzy tem uma doença incurável, os pais dela abandonaram-na por causa disso.
– Lizzy, você não está nada bem! – digo, preocupada.
Passos na escada.
Mendel está vindo, e ela não pode ver Lizzy assim. Corro até ela e ajudo-a a se levantar, murmurando para aguentar só um pouquinho. A porta é aberta e aparece uma mulher de cabelos pretos e olhos bem escuros, pele branca, de certo modo bonita, segurando a maçaneta.
– Ainda de pijama?! – Mendel nos examina, olhando mais atentamente para Lizzy. – Arrumem-se! Hoje trabalharão na cozinha...
Seus olhos negros, nos olham mais uma vez, parando novamente em Lizzy como se dissesse que qualquer erro, ela iria para o quartinho. Nome incrivelmente infantil para um lugar onde às outras crianças que estiveram ali morreram. Ela os tranca lá dentro e dependendo do grau da travessura, ela nos deixa lá, sem comida, por dias... É difícil aguentar, e tenho certeza que Mendel a mandaria para a morte, com a desculpa de que ela irá morrer logo, ou que morreu por sua doença.
– Não se esforce tanto, trabalharei mais hoje.
– Wendy, não precisa... – ela tosse – Não posso te passar mais trabalho do que já tem.
Eu sorrio e digo:
– Tudo bem, estou acostumada. Sempre que ela está de mau humor, me passa mais trabalho.
Antes que ela responda, pego nossas roupas, dois vestidos pretos e nossas sapatilhas, também pretas. Colocamos a roupa e o avental por cima, prendemos o cabelo e descemos para a cozinha, onde a empregada demoníaca nos esperava.
– Farão as coisas em casa hoje, daqui a seis horas virão buscar a mercadoria – ela se senta na poltrona. – cortem todas as carnes, as empregadas da casa as assarão.
Vamos até a cozinha, tinha muita carne! Vai dar muito trabalho cortá-las e ainda cobrir um pouco do trabalho da Lizzy, mas me esforçarei.
– Acho melhor começarmos logo...
Ela emite um “sim” e nos colocamos em frente ao balcão, pegando as facas e colocando um pedaço na frente de cada uma. Por sorte, a carne não tem osso. Lizzy começa a tossir bastante, coloco uma mão em suas costas e acaricio, como quando minha mãe fazia. A tosse vai parando e digo:
– Sente-se, buscarei água!
Vou em direção à pia, pego um copo e o encho, levo o copo para Lizzy. Viro-me novamente para lavar o copo; Mendel não suporta que deixemos louça suja.
Ouço o barulho da porta sendo aberta... Ela não pode ver Lizzy desse jeito! Não pode! Não pode!
Quando olho para trás, Mendel está segurando Lizzy, e sussurrando algo em seu ouvido. Dou alguns passos para frente, e ela me olha.
– Porquê não disse que Lizzy estava impossibilitada de trabalhar? – ela solta uma risada, um tanto macabra. – Como eu já disse e direi novamente, gente inútil só presta para fazer volume neste mundo miserável.
Ela sai segurando-a pelo braço, a última coisa que vejo é o olhar assustado de Lizzy.
– Você realmente pensa que deixarei mais uma coisa dessas passar? – olho para a faca em cima do balcão. – Você está enganada.
Pego a faca e finjo estar cortando a carne. Não aguento mais ver as pessoas que amo serem mortas...
– Menina, você deve terminar isso rápido.
– Claro, Mendel... – viro-me para ela, que está parada na frente da porta, não estou tão perto, muito menos muito longe.
Dou um sorrisinho; ando em sua direção, escondendo a faca atrás. Olho para suas mãos e as chaves estão na mão direita. Eu fico frente-a-frente com ela e tiro a faca do esconderijo.
– Você quer salvar sua amiguinha? – ela sorri.
– Sim, eu quero... Mas não apenas quero, como farei.
Prenso a faca em seu braço e ela urra de dor, levando a mão para o local e derrubando as chaves. Pego as chaves e a empurro, ela cai no chão com um estrondo e vejo seus olhos cheios de raiva.
– Sua... Sua desgraçada!
Saio correndo, passando pelos corredores. Tentando não prestar atenção nos respingos de sangue em minha mão e muito na faca ensanguentada. Chego na porta e digo:
– Lizzy?
– Wendy? – ouço uma voz sonolenta e triste.
Pego a primeira chave e tento abrir a porta, não dá. Tento uma outra, essa também não deu. Ouço um grito e barulho de alguns livros caindo. Eu pego a próximo e tento novamente, nada.
– Eu vou te pegar, menina!
Só mais duas chaves... Não posso perder agora! Tento a próxima.
Isso! Consegui!
– Lizzy, rápido! – abro a porta e ela está parada na frente, estendo minha mão para ela. – Ela está perto...
Ela pega minha mão e começamos a correr em direção a saída. Que por sorte não precisamos passar pela Mendel. Chegando na porta, encontro-a trancada também. Entrego a chave para a Lizzy;
– Tente abrir com alguma. – ouço a risada da Mendel perto.
– Meninas mal criadas merecem punição... – ela me lança um sorriso diabólico e chega mais perto.
– Não chegue mais perto! – aponto a faca, ficando em uma posição de defesa.
– Acha mesmo que tenho medo de você? Está muito enganada, filha da maldição. Não passa de uma criança que não me machucará por ter medo... – ela chega mais perto. – De quem é a culpada pela família ter morrido? Se você não tivesse nascido, estariam todos vivos e felizes... Você só traz desgraça e infelicidade...
Meus olhos começam a lacrimejar, minhas mãos começam a ficar trêmulas e começo a me lembrar de coisas...
“– Filha, se esconda e não faça nenhum barulho... E quando achar que pode fugir, o faça!
– Mas, mamãe! E vocês?
– Nós ficaremos bem, agora vá!
Corro para um armário que tinha na sala e me escondo lá. Abro uma fresta e vejo um homem de preto de costas e escuto:
– Achem a menina! Ela não pode sair viva!
Todos começam a se movimentar e vejo meu pai... imobilizado e... sangrando? Sufoco um grito, papai... Sinto muito não poder fazer nada! Sinto meu rosto ficando molhado e começo a morder meu braço para não gritar.
Ouço o grito de meu pai e o homem lhe perguntando:
– Onde está ela? Você sabe muito bem o que fará o futuro...
Meu pai gospe sangue e olha para ele:
– Poupem-na! Ela é apenas uma criança! Não sabe o poder que tem...
– Ela cresçerá e descobrirá, precisamos matá-la antes disso.
Ouvir tais palavras... machucaram-me. Fecho o armário e deixo minhas lágrimas escorrerem silenciosamente. Quero apenas que isso acabe.
Mas esse foi um pedido ímpossivel. Ouço a voz da minha mãe e abro novamente a fresta.
Um erro.
Vejo uma espada sendo levantada, e sendo fincada bem em seu coração.
Fico paralisada, sem conseguir respirar, gritar e muito menos chorar...”
– NÃO! – vejo um vulto, com cabelos castanhos claros se jogando em minha frente.
O corpo caído é de Lizzy e ela está pressionando sua barriga. Vejo a roupa dela ficando levemente avermelhada e olho para frente. A faca de Mendel está respingando sangue. Direciono meus olhos para o rosto dela e vejo satisfação. Nada, nem uma pitada de terror, tristeza...
Fico com muita raiva, eu ando para frente, desviando de Lizzy no chão e ela me encara. Coloco a faca em sua barriga e pressiono levemente.
– Você não tem coragem...
– Sim, cara Mendel... – olho em seus olhos. – Eu tenho.
Pressiono a faca mais fundo.
E sinto uma dor na lateral do meu corpo. Dou um gritinho, fecho os olhos e empurro mais a faca, só que dessa vez, levando-a para cima.
Não posso chorar agora.
Sinto mais dor no local que ela tinha fincado a faca e vejo que ela a puxou com tudo. Eu puxo a faca e coloco na direção do coração, e afundo. Ouço um grito e a empurro.
Ela cai no chão e viro-me com os olhos cheios de lágrimas.
Vou em direção à Lizzy e me ajoelho ao seu lado, ela está de olhos fechados. A pego em meus braços, delicadamente. Sinto sua pele fria, minhas lágrimas logo começam a descer.
– Wendy... – ela levanta o braço e enxuga minhas lágrimas. – Não chore.
– Desculpe-me... Você consegue se levantar?
Ela balança a cabeça em negativo.
– Adeus Wendy e obrigada por tudo que fez por mim.
Fale com o autor