Rosalie Evans E O Tigre De Bronze
1 Meu último dia como mortal
Notas iniciais
Estava sentada no banco de trás do ônibus escolar ao lado de Jordan, meu melhor amigo, que era um carinha com dreads no cabelo longo e negro, andava totalmente desengonçado e fazia “béééé” sempre que ficava nervoso ou com medo (não me pergunte por que), indo para algum museu de NY que falasse sobre mitologia grega, o tema de história desse mês que, por sinal, era muito chato e ridículo. Essa história de deuses, monstros, poderes e guerra eram ridículas! Jordan acreditava nos deuses e dizia que Zeus ia jogar um raio em mim e eu ia morrer frita que nem as batatas que ele comia no Mc Donald’s.
Lá na frente, todos cantavam uma música típica de viagem, como: “Casa do João” ou “Seu Lobato tinha um sítio”. Nossa professora de história, Srta. Cooper cantava junto com os alunos. Ela tinha cabelos longos e negros, olhos azuis escuros e usava sempre vestidos longos para esconder as cicatrizes que tinha na perna devido a um acidente de carro, era o que ela dizia. Olhei pra ela, que me encarava de modo maléfico. Por um segundo, seus olhos ficaram amarelos, sua língua se bifurcou e ela sibilou. Arregalei os olhos e pisquei, mas quando os abri, ela cantava alegremente com os outros alunos. Olhei para Jordan, que suava, apertava as dobras das calças e mordia seu dread. Ele sempre fazia isso quando estava nervoso.
–Hum... Jordan- o chamei. Ele me olhou, tremendo. Que esquisito- Está tudo bem?
–Claro!-ele me deu um sorriso forçado e começou a cantar a música que todos cantavam.
Peguei minha mochila e a abri, procurando o anel que minha mãe me dera. Minha mãe sumira quando eu tinha alguns dias e meu pai nunca me disse por que. Talvez nem ele soubesse. Ele não fala muito sobre ela, mas dizia que ela era linda. Tinha uma foto dela guardada na mochila. Ela tinha olhos azuis claros, que nem os meus, cabelo longo e ruivo. Ela usava um vestido azul escuro e estava descalça em uma praia. A lua nova pairava acima de sua cabeça, deixando a cena mágica. Ela usava o anel que me dera. Era um anel de bronze com uma lua de prata como pingente. Tinha algo escrito nele, mas era em outra língua e a minha dislexia atrapalhava a leitura.
O ônibus parou em frente a um museu branco. Coloquei o anel e me levantei. Jordan pegou sua mochila e me disse pra eu ir na sua frente. Eu, hein. Garoto estranho. Nós saímos do ônibus e fomos direto pra escadaria. A Srta. Cooper veio logo depois, com a inspetora Vanda atrás. A inspetora era uma mulher de quase 60 anos e vive cismando comigo. A Srta. Cooper começou a falar sobre como a mitologia grega era importante e que deveríamos anotar tudo o que ela fala se quiséssemos passar na matéria dela. Ela nos conduziu para dentro e Jordan disse que nós tínhamos que entrar rápido, me empurrando, fazendo com que eu caísse no meio do hall de entrada. Todos riram de mim e Jordan ficou pedindo desculpas o tempo todo. Esse garoto é muito estranho.
–Aqui- a Srta. Cooper parou em frente a uma estátua de mármore branco. Era uma mulher de vestido longo e descalça, sentada em um trono. Ela erguia uma taça e sorria-temos a estátua de Circe, deusa da magia. Era conhecida como a deusa mais perigosa para os homens, pois, diz a lenda, que ela transformava os homens em porquinhos-da-índia e acolhia as mulheres em sua casa. Não é permitida a entrada de homens em seu templo. Por aqui crianças- enquanto todos se afastavam, eu e Jordan ficamos olhando para a estátua de Circe.
–Bonita, não?-ele me perguntou. Assenti. Algo naquela mulher me era familiar, mas ignorei esse fato- Vamos, antes que a Vanda nos pegue.
Saímos e eu dei uma última olhada na estátua. Voltei a andar e encontrei todos saindo da sala, indo para uma pracinha com barraquinhas de comida.
–Hora do lanche- Jordan disse, indo em direção a uma barraquinha de tacos.
–Rose- a Srta. Cooper me chamou-posso falar com você?
–Claro-ela me deu o braço e me guiou até uma sala vazia. Quando entramos, ela trancou a porta- Sobre o que quer falar, professora?
Virei-me e vi as pernas da professora crescerem e se tornarem duas caudas de cobras. Sua pele se transformou em escamas verdes, seus olhos ficaram amarelos e ela cresceu até chegar a três metros de altura.
–Enfim ssssósss!- ela sibilou. De repente ela avançou e eu, não sei como, passei por ela, que agarrou o ar. Corri para porta e vi que Jordan tentava abri-la. A destranquei e ele me puxou pra fora e começamos a correr pra saída.
–Jordan, o que é isso?-perguntei enquanto corria.
–É uma Dracaenae da Cítia!-ele respondeu como se fosse óbvio.
–Draca o quê?-perguntei. Saímos do museu e começamos a correr pelas ruas de Nova Iorque, em direção ao metrô. Quando estávamos virando a esquina, escutamos um estrondo e vimos a Draca- sei lá das quantas em forma de Srta. Cooper gritando para alguém nos segurar, pois estávamos fugindo da escola. Entramos em um beco e nos escondemos. A Srta. Cooper/Monstro passou correndo pelo beco.
–Jordan me explica o que está acontecendo!-pedi.
–Olha Rose. Sabe essa história de deuses e deusas da mitologia grega?-Assenti- Bom, elas são verdadeiras. E às vezes, os deuses se apaixonam por mortais e tem filhos com eles. Esses filhos são chamados de semideuses e você é filha de uma deusa, isso te torna uma semideusa-olhei pra ele, assustada. Acreditava nele, porque algo me dizia que era verdade.
–E como você sabe que eu sou uma semideusa? Como você tem certeza?-perguntei e ele abaixou as calças, revelando pernas e cascos de bodes. Dei um pulo pra trás, caindo no chão.
–Eu sou um sátiro e sátiros são enviados para escolas para encontrar semideuses e levá-los para o Acampamento Meio-Sangue, que é o único lugar seguro no mundo para semideuses. Antes eu não tinha certeza, por isso não falei com você, mas quando eu vi aquela Dracaenae atrás de você, eu tive certeza de que você era uma semideusa.
Abri a mochila e peguei meu celular, enquanto ele subia as calças e colocava os tênis com pés falsos. Por isso ele andava estranho. Digitei o número do meu pai e tentei ligar pra ele.
–Por Zeus, o que você pensa que está fazendo?-Jordan perguntou, tirando o celular da minha mão e o desligando-o.
–Ei! Eu estava ligando pro meu pai!-falei, indignada.
–Olha Rose. Celular atrai monstros. Semideuses atraem monstros. Um semideus usando um celular atrai muito mais! Entendeu? Nada de celular, ouviu?-assenti- Agora vamos sair daqui. Tem um metrô ali na frente. A gente vai pra lá e vamos pro Acampamento Meio-Sangue, lá você vai conversar com Quíron e o Sr. D.
–Quem é o Sr. D?-perguntei, enquanto saíamos do beco. Atravessamos a rua e andamos mais um pouco.
–Sr. D é o deus Dionísio- ele falou, fazendo uma cara estranha ao dizer esse nome.
–Jordan, você tá falando do Dionísio, deus do vinho?-perguntei surpresa.
–O próprio. Mas não se anima não, hein? Se pisar em falso com ele, ele te transforma em golfinho- engoli seco ao pensar nisso.
–Jordan, — parei de andar, fazendo com que ele parasse também- e o meu pai?-perguntei com medo da resposta. Ele voltou a andar, com um pouco mais de pressa.
–Rose, seu pai vai ficar bem. Mas vamos logo que estou sentindo cheiro estranho.
Andamos mais rápido, sempre olhando em volta, a procura de qualquer sinal de algo diferente. Descemos as escadas rolantes correndo em zigue-zague, devido à quantidade de pessoas nas escadas. Entramos na fila de atendimento preferencial, pois éramos estudantes. Comprei os bilhetes e fomos para a plataforma. Escutamos um barulho vindo das escadas e vimos a Srta. Cooper acompanhada de mais duas mulheres: uma loira e outra ruiva. Elas se separaram e começaram a andar pelas pessoas, provavelmente nos procurando. Escutamos o barulho do metrô chegando e nos acotovelamos no meio das pessoas para entrar primeiro no trem. Assim que os vagões se abriram, nós entramos e corremos para o último vagão. Escutamos barulhos vindos dos vagões de trás. Olhei pra trás e vi a ruiva, ainda na forma humana, farejando o ar.
–Jordan! Elas estão chegando!-ele olhou pra trás e arregalou os olhos.
–Rose, a gente vai ter que saltar na próxima estação e pegar um táxi ou um ônibus ou roubar um carro- arregalei os olhos e ele levantou as mãos, em um ato de rendição- Você é que sabe!
–Qual é o meio mais rápido?-perguntei. Ele sorriu e depois fez uma cara de medo.
–Táxi- respondeu, engolindo em seco. Um estrondo invadiu o vagão e as Dracenae, em forma humana, entraram no vagão.
–Rose! Jordan!-a Srta. Cooper apareceu, com as outras duas atrás- Seus pais vão ficar preocupados! Voltem comigo!-estávamos quase na parede quando uma voz no alto falante anunciou a chegada em uma estação. Olhamos-nos e andamos por trás das pessoas. Assim que as portas se abriram, nós pulamos pra fora do trem e saímos correndo, subindo as escadas e saindo no meio de uma rua movimentada. Fomos correndo até passarmos por dois quarteirões. Paramos, arfando, e nos sentamos em um banco.
–Bom, -Jordan pegou uma moeda de ouro, que eu não conhecia, se levantou e entrou em um beco- vamos?-ele perguntou e eu o segui.
–Como vamos pra lá nesse beco?-perguntei.
–Espere e verá-ele disse misterioso. Ele disse “Stêthi, Ô hárma diabolês!” e jogou a moeda no chão- Isso é um dracma de ouro- A moeda não bateu no chão! Ela afundou no asfalto e desapareceu! Bati no chão e vi que estava duro! Como assim? Então, onde antes estivera à moeda, o asfalto escureceu me fazendo andar para trás, até a parede. O asfalto virou uma poça do tamanho de um carro e saiu um táxi cinza daquela lama cinzenta! Parecia feito de fumaça. Estendi a mão para tocar o táxi e a porta se abriu, me assustando. Jordan fez um sinal com a mão para que eu entrasse e assim o fiz. Ele entrou logo atrás, fechando a porta. Três velhas estavam sentadas no banco da frente. A do volante gritou:
–Passagens! Passagens!
–Duas passagens para o Acampamento Meio-Sangue, por favor- Jordan falou- Coloque o cinto, Rose. Não vai querer ficar sem andando com as Irmãs Cinzentas- ele sussurrou, colocando o seu cinto. O obedeci, automaticamente.
–ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE!-a do meio gritou. A mulher que dirigia acelerou e nós berramos. A mulher ia numa velocidade muito alta. Quase atropelamos toda a Nova Iorque.
–Vai com calma, Vespa!-a mulher do canto gritou, com uma voz esganiçada.
–Me dá o olho que eu vou, Ira!-como assim “me dá o olho”? Olhei pra Jordan, que ria.
–Jordan, me explica o que está acontecendo ou quando a gente chegar lá, eu juro que eu te mato!-gritei.
–Rose, as Irmãs Cinzentas não tem olhos!-ele sorriu e eu arregalei os olhos. Olhei pra elas, que se viraram, sorrindo. A do volante, Vespa, sorriu. Não tinha olhos, nem dentes. A do meio sorria com um dente e a do canto, Ira, sorria com um olho esquerdo. Berrei mais alto.
–Me dê o olho, Ira!-gritou Vespa, quando elas se viraram.
–Só se Tempestade me der o dente!-Ira gritou.
Vespa largou o volante e tentou pegar o olho de Ira, que tentava pegar o dente de Tempestade, que tentava dirigir. Ira pegou o dente e gritou um: “Ahá!”. Tempestade deu um tapa na cabeça de Ira, que deixou o olho cair no colo de Jordan. Ele parou de rir e gritou, jogando o olho no meu colo. Peguei o olho, que me olhou. Era um olho normal, cinza-escuro.
–Me dê o olho!-Vespa gritou. Dei-lhe o olho e ela o colocou. Virou-se de frente e acelerou. O táxi das Irmãs Cinzentas, finalmente, parou em frente a uma colina. Jordan as pagou com dois dracmas de ouro e saímos. O táxi acelerou e partiu, sumindo como fumaça. Começamos a subir a colina, quando escutamos um rosnado. Começamos a correr e de repente um leão com cabeça de mulher apareceu na nossa frente, rosnando.
–Esfinge!-Jordan gritou. A Esfinge avançou em Jordan, o derrubando. Como aquela coisa havia parado ali? Talvez o cheiro dos semideuses a tivesse atraído- Rose corra! É logo ali em cima!-ele apontou para um pinheiro com uma pele de ovelha dourada e um arco escrito Acampamento Meio-Sangue.
–Não posso te deixar aqui, Jordan!-gritei. A Esfinge tentou morde-lo e ele desviou.
–Então use o anel, Rose!-ele gritou. Tirei o anel e vi aquela inscrição, que agora estava mais clara. Estava escrito: “επίθεση”. Por incrível que pareça, eu entendi! Sabia que era grego e sabia o que isso significava. Significava “Ataque”. Pronunciei a palavra em grego e o anel brilhou. Uma luz azul escura, que ficou branca e de repente, meu anel era uma luva de bronze, parecida com a do Homem de Ferro. Coloquei a luva e dei um soco na Esfinge, que voou longe. Levantei Jordan com a outra mão e saímos correndo colina acima. Quando estávamos chegando, Jordan tirou as calças e o tênis, saindo trotando e passando pelo arco. A Esfinge rosnou e eu cometi o erro de me virar.
Levei uma patada na cara e voei, batendo a cabeça em uma árvore. A luva voou longe, se transformando no anel. A Esfinge veio em minha direção, armando o bote. Estendi a mão, tentando pegar o anel, mas ele veio até mim, voando. Olhei para o anel e pronunciei a palavra “επίθεση”. Ao invés de se tornar uma luva, virou uma espada de bronze com o símbolo da lua no cabo e uma inscrição na amina, mas estava sem tempo para ler. Quando a Esfinge saltou em minha direção, levantei a espada e cortei o ar, atingindo a Esfinge no pescoço, transformando-a em pó dourado. Restou apenas uma garra. A peguei e a guardei no bolso. A espada voltou a ser um anel e eu o coloquei. Levantei e saí à procura da entrada para o Acampamento Meio-Sangue.
Chegando lá, me senti tonta e senti, também, uma dor no braço. Olhei para o braço e vi que ele estava torcido! Gritei assustada e pela dor. Jordan apareceu, com um exército de adolescentes, sátiros, um senhor que carregava uma taça de vinho (possivelmente, Dionísio) e uma coisa, metade homem e metade cavalo.
–Jordan!-sussurrei-me ajuda!
Caí e um menino alto, loiro, bronzeado e forte me segurou. A última coisa que eu vi foram seus olhos azuis escuros e depois tudo escureceu.
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