Rosa e Sangue - Cartas de Eleonora
8 7ª Carta
– Solte-me!
Não conseguia ver direito o semblante dele, porque meus olhos estavam embaçados pelas lágrimas. Mas eu sabia que Willian carregava aquela expressão triste no rosto que me remoía por dentro. De certa forma, era bom mesmo que eu não pudesse vê-lo com clareza. Eu precisava dizer adeus.
– Uma mentira... Esse tempo todo...
– Esse tempo todo foi real!
– Você devia ter me contado tudo antes, Willian! Agora eu não acredito mais em você!
– Elie...
A mão dele vacilou no ar e desistiu de tocar a minha novamente. Se Willian pudesse chorar, certamente aquele seria o momento em que o faria. Só que nenhuma lágrima sairia de seus olhos, porque era uma característica do que ele era. Vampiros não choravam, ao menos que fosse algo extremamente insuportável, e não era o caso. Afinal, eu apenas o estava deixando.
– Eu não podia contar tudo, Elie – ele disse seriamente. – Você acha que foi fácil pra mim? Mas eu nunca menti sobre os meus sentimentos. Eu daria minha vida por você se precisasse. Mataria. Faria qualquer coisa.
Mentira. Não podia ser real.
– Faria qualquer coisa? – Ri de nervoso. – Você me deixaria em paz se eu pedisse?
Willian ficou mudo, arregalou os olhos.
– É o que desejo. Quero que você suma da minha vida, que nunca mais me procure. Quero que leve todas as suas mentiras com você.
******
O ar chegou aos meus pulmões em desespero e eu me levantei em um salto da cama. Quando minha respiração se normalizou, fechei os olhos e a primeira coisa que me veio à cabeça foi a palavra “vampiro”. As imagens daquela estranha situação continuavam vivas e logo vieram me atormentar também.
Por mais que eu tivesse visto com meus próprios olhos, ainda parecia loucura. De fato, eu achava que no momento em que assumisse aquilo tudo estaria assinando meu atestado de insanidade.
– Vampiros não existem – disse pra mim mesma. – Aquilo foi apenas um pesadelo.
Tirei o mais rápido que pude aquele maldito vestido e guardei os sapatos, a bolsa. Tudo o que me lembrasse daquele dia seria devidamente mantido longe.
Quando cheguei ao banheiro para tomar uma bela chuveirada, uma sensação horrível veio do meu estômago até a garganta. Meu corpo se inclinou rapidamente, liberando o que me fazia mal. Resmunguei para o ar. Ficar doente era a última coisa que podia acontecer naquela altura. De toda forma, não era como se eu estivesse me cuidando. Dormir estava fora de questão, porque os pesadelos me forçariam a acordar de qualquer jeito, e a alimentação não era uma grande preocupação naquele momento.
Entrei no chuveiro sem olhar meu reflexo no espelho. Estava com vergonha de mim mesma, aborrecida pelas enormes olheiras abaixo dos meus olhos e minha aparência de desgaste.
— Quando eu poderei relaxar? – perguntei pra mim mesma.
A campainha tocou assim que acabei de me vestir. Pelo olho mágico, a cabeleira loira logo denunciou.
Willian entrou apressadamente, olhando para todos os lados ansiosamente.
— Está tudo bem aqui?
— S-Sim...
— Graças a Deus – ele disse, aproximando-se e me beijando.
Senti algo molhado sobre minha barriga e precisei me afastar. Foi só então que percebi que a blusa de Willian estava completamente encharcada de sangue.
— O que acont?...
Puxei a blusa dele sem permissão. Não dava para ver a ferida por que o sangue a cobria. E havia tanto sangue que eu não sabia como Willian continuava de pé. Aliás, não sabia nem mesmo como eu continuava ali, porque foi só ver aquele estrago todo que minhas pernas cambalearam e fiquei enjoada outra vez.
— V-Você precisa de um médico!
Willian olhou para sua barriga com um semblante de quem não se dava conta da gravidade do problema. Ele mordeu o lábio inferior e disse:
— Não é tão grave...
— Não é? Parece que você vai morrer! – Revirei os olhos, um pouco tonta. – Vou ligar para...
— Você não vai ligar para ninguém.
A voz de Willian saiu firme e grossa, mas ele não parecia exatamente aborrecido. O loiro me segurou pelos braços e guiou meu corpo cambaleante até o sofá.
— Quem parece que precisa de um médico é você.
Pisquei algumas vezes e tive a impressão de que Willian também estava prestes a cambalear. Então ele caiu de joelhos no chão e eu me senti a pessoa mais inútil do mundo. Desejava tanto poder ajudá-lo, mas...
De repente Paloma entrou pela porta aberta do meu apartamento e correu na direção de Willian. Ela colocou os braços entre os dele e o puxou, erguendo-o com uma força que não parecia pertencê-la.
— Você é muito inconsequente, Willian. Eu disse que cuidaria das coisas por aqui! – Willian resmungou em resposta, então ela continuou: – Sinceramente, não sei nem por qual dos dois começo.
******
Olhando-o dormir no sofá tão tranquilamente, era quase difícil de acreditar o que acontecera mais cedo. Foi só o tempo de ir à rua comprar remédios e produtos para curativos que tudo se ajeitou
— Oh, Elie, você demorou! – Paloma disse, pegando a sacola da minha mão. – Não está mais enjoada, certo?
— Não...
— Não está grávida, não é?
— P-Paloma! Mas é claro que não!
Paloma riu, divertindo-se da minha expressão.
— Talvez você devesse fazer um teste.
Paloma se ajoelhou em frente ao sofá e colocou lentamente os produtos no chão.
— Como ele está?
— Agora está melhor.
Enquanto Paloma organizava tudo para cuidar da ferida de Willian, fiquei observando seu rosto. A pele branca, os olhos com aquela espécie de fluorescência e os caninhos pontudos aparecendo cada vez que ela abria a boca.
— Você também... – não consegui terminar a pergunta.
— Sim, Elie, também sou vampira.
Mordi o lábio inferior, fiquei tensa.
— Você não se importa com todo esse sangue?
— Não. – Puxou um pigarro. – E eu também não vou atacar seu pescoço, se é essa a pergunta que você está com medo de fazer.
— Eu...
Paloma ficou em silêncio enquanto molhava uma gaze com soro fisiológico.
— Desculpa, eu não entendo muito sobre – a voz falhou – vampiros e acho que ainda não aceitei isso tudo.
— Não é mesmo uma questão de aceitação.
Quando Paloma ergueu a toalha que cobria a barriga de Willian, fiz uma cara feia. A ferida não parecia tão profunda, mas, em outra situação, provavelmente precisaria de alguns pontos. De toda forma, não era algo muito bonito de se ver e novamente fui pega por um mal-estar.
— Querida – Paloma puxou meu queixo com a mão livre, desviando meu olhar da ferida –, não olhe pra isso está bem? – Quando assenti com a cabeça, ela sorriu e continuou: – Quer saber como conheci o Willian?
Minha cabeça balançou de cima para baixo, mas Paloma ainda ficou um bom tempo em silêncio. Ela parecia concentrada, cuidadosa. Então, quando uma gaze suja foi deixada no chão, Paloma começou:
— Eu vendia o meu sangue por dinheiro, e dentre os vários vampiros que bebiam da minha veia, um me chamou atenção em especial. Nós nos apaixonamos, ele me transformou e me fez sua companheira. No entanto, o comportamento dele começou a me incomodar com o passar do tempo. Seus princípios e ideais pareciam insanos, então resolvi fugir. Não se pode cortar um laço de sangue tão facilmente, ainda mais por que além de meu amante, ele era o meu criador também. Mas eu tentei, porque estava com medo, porque não achava suas atitudes corretas. – Fez uma pausa. – Meu criador me achou e tentou me matar, e foi assim que Willian me encontrou. Desde aquele dia tenho jurado lealdade a Willian.
Quando o curativo foi terminado, voltei a olhar para Willian. As palavras de Paloma... Meu peito se aqueceu de repente, aqueles sentimentos sem nome tomaram conta de mim.
— É alguém bom, Elie. Ele só se preocupa demais.
— Eu sei – as palavras saíram sem que eu percebesse.
Paloma abriu um grande bocejo e disse:
— Estou muito cansada. Será que você pode cuidar das coisas agora? Será que você pode cuidar dele agora por mim?
******
Soube que Willian havia acordado pelo barulho de algo pesado tocando o piso. Felizmente, o loiro não havia caído, como imaginei, mas acordou assustado e deu um salto para fora do sofá, chegando pesado ao chão.
— Esse cheiro...
— Eu fiz um bolo – disse, apesar da estranha sensação de não ser sobre esse cheiro que Willian se referia. – Tem café também. Você quer?
A cabeça de Willian balançou de cima para baixo lentamente. Nós fomos para a cozinha envoltos por uma atmosfera estranha, Willian mantendo certa distância. Ele se sentou enquanto eu colocava o café em uma xícara e partia um pedaço de bolo.
Os olhos de Willian pairavam por todo o lugar, desde o papel de parede até o relógio velho da cozinha, e ele só reparou o bolo e o café à sua frente um tempo depois. Enquanto brincava com a comida, percebi que sua pele estava tão branca que todas as suas veias pareciam incrivelmente vivas, nítidas. Sua boca estava seca, os olhos, estranhamente escuros. E quando ele abriu a boca para a garfada de bolo, os dois caninos longos e pontudos fizeram meu coração acelerar repentinamente.
Willian mastigou lentamente e bebeu um pouco de café logo depois. Quando ele me encarou, seus olhos pareciam irritados, as íris enormes. Um arrepio passou pela minha espinha.
— Você tem ideia do quanto o seu cheiro é bom?
Recolhi e louça, levando-as para a pia. Minhas mãos tremiam e precisei ter cuidado para não derrubar tudo. Quando foi a vez de lavar a faca, hesitei. Uma sensação ruim arrepiou todos os meus pelinhos e fiquei pensando se aquelas palavras de Willian era um mal sinal.
Se eram ou não, o fato é que em menos de um minuto Willian estava atrás de mim, o nariz respirando sobre o meu pescoço.
— Você sabe o quanto eu preciso disso nesse momento?
— Vá embora... – a frase saiu mais como uma súplica que uma ordem.
— Não vai doer...
Foi com dificuldade que me virei, porque ele estava muito próximo. A faca ficou erguida à minha frente como uma ameaça, mas não era como se eu pudesse fazer alguma coisa. Referindo-se a Willian eu era totalmente impotente, física e emocionalmente.
Willian pressionou minhas mãos ao redor da bainha da faca e a guiou para o seu peito. A ponta do objeto tocou a superfície de sua pele, fazendo um pequeno corte.
— Pare com isso!
— É bem aqui no peito que você deve atingir, mas geralmente um vampiro não morre assim. – A faca chegou ao seu pescoço, então ele continuou: – Você precisa cortar o pescoço, arrancar a cabeça. Queimar também é uma possibilidade.
— Pare, Willian!
Willian sorriu docemente. Ele puxou a faca das minhas mãos e a jogou longe.
— Você precisa saber disso. – Ele virou o meu corpo, abraçou-me por trás. – Mas não precisa se preocupar quando a mim, porque nunca a machucaria.
Uma fisgada, a dorzinha incomodou apenas quando os caninos abriram espaço pela minha pele. O que veio depois foi puro prazer. A língua e a boca dele se movimentando, meu sangue sendo sugado aos pouquinhos. Um dos braços de Willian envolveu a minha barriga enquanto o outro atravessou o meu peito, a mão segurou meu pescoço pela frente. Um turbilhão de sensações explodiu dentro de mim e eu me inclinei na bancada, não mais sentindo minhas próprias pernas. Meu corpo ficou quente, gotas de suor escorreram pela minha testa e talvez eu tenha gemido baixinho.
Willian parou repentinamente e lambeu gentilmente meu pescoço. Eu continuei imóvel, ainda sem compreender por que meu corpo tinha ficado tão... excitado.
— Parece que eu não sou o único precisando de você por aqui – falou, ondulando minha barriga com a mão esquerda. – Perdoe-me por tirar isso de você. Não tomei muito sangue, mas trate de se cuidar, está bem?
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