Alguém comemorava seu aniversário naquela noite e o barulho estava mais alto que o normal na Overdose. Eram pelo menos umas dez pessoas gritando, cantando e falando ao mesmo tempo, e se a minha cabeça já estava latejando antes de eles chegarem, a coisa só piorou com o passar do tempo.

– Pelo amor de Deus, Alberta, diz que você tem um remédio para dor de cabeça aí...

Alberta mordeu o lábio.

– Desculpa, eu tomei o último na semana passada e me esqueci de comprar mais.

– Droga... Parece que minha cabeça vai explodir.

– Talvez você possa ir pra casa mais cedo...

– Tudo bem – peguei a bandeja –, acho que aguento mais um pouco.

Mirei meus próprios pés enquanto caminhava, tentando não prestar atenção na barulhada ao redor. As vozes chegavam a mim como fortes marteladas em minha cabeça. Depois de entregar os pedidos da mesa do aniversariante e voltar ao balcão, meu corpo ameaçou fraquejar. Respirei fundo, fechei os olhos e...

O nariz dele quase encostou no vidro do aquário. Bastou meus olhos encontrarem com a imagem de Willian que me esqueci de toda a dor.

– Ele é realmente lindo, Elie.

A voz de Alberta chamou minha atenção.

– Ele parece tão... misterioso.

– Hum? – O queixo de Alberta se apoiou na lateral da bandeja quadrada que a ruiva segurava. – Você não o conhece?

— Não...

— É mesmo? – Pareceu surpresa. – Eu jurava que vocês saíam antes do... Quero dizer, acho que vi vocês juntos algumas vezes.

– Nós? Juntos?

— Talvez você tenha se esquecido, sabe... – A ruiva voltou a mirar Willian ao longe. O loiro continuava observando o aquário com atenção, como se não tivesse mais ninguém ao seu redor. – Eu sinceramente não sei o que ele vê de tão interessante nos peixes para que os observe com tanta curiosidade.

Meus olhos passaram de Willian para Alberta e sem querer reparei que havia um machucado em seu pescoço. Duas feridas pequenininhas.

— Oh, você está bem?

Alberta deu um pequeno salto, tampando o machucado com a mão esquerda. Depois de assentir com a cabeça, aparentemente nervosa, mudou de assunto:

— Talvez você deva falar com ele.

— O-O quê? Não tem como isso acontecer, Alberta!

— Por que não? Assim você descobre se havia algo entre vocês no passado.

“Não se esqueça de mim, Elie”, aquelas palavras vieram a mim novamente. Podia aquilo tudo ser apenas uma construção da minha mente? Parecia tão real, não podia ser apenas minha imaginação, certo? Além do mais, Willian foi a primeira pessoa que apareceu na minha cabeça depois do acidente, o que significava que eu não o havia esquecido...

– E você trabalha aqui, pra começo de conversa. – Riu. – É sua função atender os clientes.

Dei o primeiro passo quase que inconscientemente. Você precisa ir até ele. Outro passo. Vá até o Willian. Mais outro. Willian é...

No meio do caminho meu corpo pesou novamente. Minhas pernas tremeram, eu me lembrei daquela terrível dor de cabeça. Então apaguei.

******

Continue respirando, eu ficava repetindo mentalmente.

Não havia mais dor, meu corpo estava completamente paralisado. O frio... Eu sabia o que aquilo queria dizer. Não havia mais caminho para mim. O coração dentro do meu peito batia lentamente, os pulmões ameaçavam falhar.

Aquilo era a morte.

– Willian, você não quer fazer isso – uma voz feminina ecoou.

Meus olhos estavam inchados demais para serem abertos, mas eu sabia que conhecia aquela mulher. E o homem que acabava de pegar minha mão.

– Afaste-se dela, Willian.

Um beijo no pulso. E as sombras chegaram até mim.

A primeira coisa que vi foi a incrível cabeleira ruiva de Alberta caindo sobre o meu rosto. Ela se ergueu, juntou as duas mãos e disse:

– Graças a Deus!

Quando me levantei, percebi que João e o meu chefe também estavam por perto, ambos com expressões assustadas.

– O que aconteceu?

– Você desmaiou – João respondeu.

– Está se alimentando direito? – Meu chefe perguntou. – Parece bastante pálida.

Respondi balançando a cabeça para cima e para baixo, embora fosse mentira. Naqueles dias, a saúde era a minha última preocupação.

Quando meus pés tocaram o chão, precisei de mais alguns minutos para me sentir completamente segura. Alberta me veio com um comprimido e um copo de água, os quais que tomei de uma vez só.

– Você pode ir para casa, é melhor descansar...

– Agora que tomei o remédio, acho que...

– Ora, Elie, o chefe te deu o resto da noite de folga – Alberta cruzou os braços –, trate de ir pra casa e relaxar!

Alberta já havia arrumado meus pertences e carregou minha bolsa enquanto caminhávamos para a saída. Nossos braços estavam entrelaçados e a ruiva mantinha um sorriso estranhamente satisfeito no rosto. Meus cabelos voaram com o vento assim que pisei fora do bar, por isso, levei uns cinco minutos tentando arrumar a juba em um coque improvisado. Não adiantou, a coisa foi se desfazendo aos poucos, o que me fez desejar nunca mais andar de cabelo solto na vida.

Foi só quando parei de dar atenção aos meus cabelos que reparei a presença de mais alguém naquela esquina.

Os sentimentos sem nome...

– Olha só que coisa! – Alberta disse, animada. – Você realmente esperou durante esse tempo todo.

Calça jeans clara, uma camisa de botões preta e tênis simples. Seus cabelos estavam presos em um rabo baixo, as sobrancelhas caíam para os cantos externos e aqueles belos olhos verdes me encaravam. Havia uma interrogação em seu rosto, como se ele visse algo que não entendia, e um estranho ar de mistério.

– Você está bem?

Abri a boca, mas as palavras não quiseram sair.

– O Willian vai te levar pra casa, Elie. – Alberta me entregou a bolsa. – Foi realmente uma grande gentileza. Não se esqueça de agradecer.

As palavras de Alberta me deixaram da cor de seus cabelos. Ela saiu rapidamente aos risinhos.

– Eu sinto muito por... A Alberta às vezes faz essas coisas...

– Tudo bem. Fui eu mesmo que me propus a acompanhá-la.

De perto Willian era ainda mais radiante. A pele dele era tão livre de falhas, parecia lisa como uma porcelana, e seus olhos eram profundos e estranhamente iluminados.

Um minuto e não havia mais mundo ao nosso redor. Lá estava eu, mergulhada naquela cor esmeralda. E ele me encarava com a mesma intensidade, as sobrancelhas se juntando no meio da testa, os lábios se metendo dentro da boca.

Quando a boca de Willian voltou à posição normal, uma linha fina de sangue escorreu do lábio superior ao inferior. Ele mordeu a si mesmo e aquilo estranhamente chamou minha atenção. Meu indicador seguiu quase que inconscientemente para o líquido vermelho, mas Willian me impediu de continuar. Ainda segurando minha mão, ele lambeu a boca, limpando o sangue.

Willian começou a caminhar na minha frente, deixando minha mão se libertar da dele lentamente. Não falamos nada pela maior parte do percurso e aquilo foi um tanto constrangedor. Quando chegamos à minha casa, Willian disse:

– Você sabe... Eu moro bem ali – apontou para sua casa do outro lado da rua. – Você pode me chamar se precisar de alguma coisa.

Corei. Willian sabia que eu o observava algumas vezes?

O loiro deu as costas antes que eu pudesse agradecer. Em menos de um minuto ele se voltou novamente pra mim, exibindo uma mistura de melancolia e hesitação em seu rosto.

— Você se esqueceu de mim, Elie?

Foi como uma paulada na cabeça, um susto. Eu fiquei sem saber o que fazer ou falar, porque ainda não conseguia absorver as palavras dele. Não era um sonho, afinal. E eu não tinha me esquecido de Willian.

De repente ele estava próximo, tocando meu rosto com as duas mãos abertas. Willian fechou os olhos, encostou a testa na minha.

— O que eu sou, Elie?

Não respondi, estava embriagada pelo cheiro dele, por aqueles sentimentos inexplicáveis dentro de mim. Era tudo tão bom e ao mesmo tempo tão enigmático que me deu medo. Ansiosa, respirei fundo e coloquei as mãos sobre as dele para afastá-las. Willian foi resistente, seu corpo me pressionou na parede e minhas pernas tremeram.

– Tudo bem, Elie, não é a primeira vez que fazemos isso.

Quando aconteceu, demorei para acreditar. Os lábios gelados dele ficaram parados sobre os meus por um tempo até que eu finalmente me entreguei.

– O que eu sou, Elie? – Mais um beijo. – Um vampiro, é isso o que você precisa responder.