Rosa dos Ventos
12 XII • Je ne regrette rien... ok, talvez um pouco.
Notas iniciais

UMA PALAVRINHA SOBRE O DESTINO: ele é um filho da puta.
OK, eu não podia reclamar da minha recém-adquirida autoridade suprema sobre o Rosa dos Ventos. Na verdade, já estava usando e abusando daquela frase famosa de Luís XIV: "O Internato sou eu", ou algo assim.
Aquela semana correu às mil maravilhas. Logo após conquistar minha dura chantagem sobre o Rondarolli, andei com o nariz mais em pé quanto possível até a sala de aula onde o Professor Leal ainda estava aplicando a prova. Entrei, peguei meu teste na sua mesa e saí da sala gargalhando.
Recebi minha justa nota 10 uma semana depois, e após uma conversinha com o diretor. A conversa entre ele e Leal deve ter sido muito divertida, do tipo "Trate de dar a nota máxima ao seu aluno Ulisses Pompeia." "Por quê?" "Porque sim, idiota!", mas não quis presenciá-la. Eu tinha duas coisas mais importantes para resolver.
E é por isso que o destino é um filho da puta. Essas duas coisas levaram-me a presenciar, da pior maneira possível, uma das situações mais terríveis da minha vida.
Tudo aconteceu no sábado, um dia depois das últimas provas da primeira unidade. É claro que ninguém entendeu nada quando eu cheguei na quadra, vestido com o uniforme de futebol do time, cumprimentando a todos e com uma bola debaixo do braço.
— E aí, pessoal? Tudo de boas? Por onde começo? — Perguntei, bem alto, enquanto dominava a bola com o pé.
Todos eles se entreolharam, sem entender bulhufas. É claro que sabiam de toda a história a respeito da briga, minha expulsão etc (ah, e não, o Júnior não tinha sido expulso do time, o que faz com que minha chantagem ao Rondarolli seja ainda mais justa).
— Ulisses, o que... o que você tá fazendo aqui? — Nathan se aproximou, com a expressão mais surpresa do que qualquer outra coisa.
Confesso que fraquejei na minha confiança quando o vi, e eu não queria entender o motivo. Não havíamos nos falado — nem sequer nos visto direito. — depois da... ocorrência na biblioteca, e eu ainda estava meio encabulado de ter que olhá-lo nos olhos.
— Agora faço parte do time, ué. Tem algum problema? — Perguntei, tentando manter a voz o mais neutra possível.
— Não... mas... — Ele me olhou de uma maneira que não pude entender, mas percebi que seu rosto se deixou transparecer um tiquinho de felicidade logo em seguida. Eu sabia que teria que explicar tudo a ele depois.
Diferentemente do que eu imaginava, o resto do time não relutou nem um pouco com a minha aparição repentina, na verdade, todos — à exceção óbvia de Júnior — se mostraram muito receptivos. Principalmente porque, aparentemente, eu era realmente bom em futebol.
— Pra mim, pra mim! — Gritei para um garoto da Ala Leste que estava com a posse da bola. Eu tinha o caminho livre pro gol, e após recebê-la, chutei-a com a maior força que consegui naquela direção.
A bola explodiu nas mãos de Jeremias, que era o goleiro. Com o impacto, ele tropeçou para trás e caiu sentado no chão.
— Ai, caralho! Minha bunda. — Ele exclamou, se controcendo no chão, com os olhos lacrimejando. Aquilo devia ter doído.
— Essa frase soa meio estranha, sabia? — Eu disse, rindo, ao dar a mão para ajudá-lo a se levantar.
Ele segurou-a e deu um impulso. Assim que suas partes traseiras pareciam bem, ele me olhou com desconfiança, e depois deu uma risada.
— E você tá muito fodido, sabia? Todo mundo vai querer saber como foi que você conseguiu voltar pro time.
Olhei pra Nathan, do outro lado da quadra. Ele enxugava o suor do rosto com a barra da camisa — deixando, inclusive, parte daquilo que eu poderia chamar de tanquinho de fora. — e me encarava com curiosidade no olhar.
— Digamos que o que eu estou fazendo vai deixar esse colégio muito melhor.
Jeremias me olhou por cima mais uma vez, tentando decifrar o que eu queria dizer. Por fim, acabou me mandando correr e jogou a bola de volta pro jogo.
O resto do treino não correu muito bem. Havíamos dividido os dezesseis jogadores que haviam na equipe em dois times, de modo que eu, Nathan, Jeremias e outros cinco garotos havíamos ficado em um, e Júnior e outros sete em outro. Ou seja, eu e Júnior em times contrários. É claro que isso não acabou bem.
Em uma disputa de bola, no meio do campo, tentei driblá-lo de modo que pudesse entrar pela direita e passar a bola para o atacante, um garoto alto da Ala Norte. Consegui fazer o drible, mas Júnior não ficou muito feliz por ter sido feito de idiota e me puxou pela camisa com força. Eu caí de costas no chão.
Aquilo doeu muito, mas a raiva por ele ter feito aquela coisa tão desnecessária simplesmente por birra se sobrepôs à dor e eu me levantei na mesma hora. Acho que eu só lembrei da briga no refeitório e das suas consequências, nem sequer lembrei de meu novo poder sobre o Rondarolli, por isso não desferi um soco em sua cara, mas dei-lhe um empurrão que fez com que ele também caísse no chão.
Ele se equilibrou sobre uma mão antes de bater de fato no chão e se levantou logo em seguida, vindo pra cima de mim. Por sorte, foi parado no meio do caminho por outros dois garotos, que o seguraram pelos braços.
— Mas será possível que você dois não podem ficar a menos de cinco metros de distância sem quererem enfiar a mão na cara um do outro? Chega de treino por hoje. — Nathan falou, do alto de sua posição de capitão do time. O resto dos jogadores deu um suspiro chateado e se dispersou. Júnior foi embora impetuosamente da quadra, pisando forte e resmungando.
Eu também estava bastante irritado, e não queria ter que conversar com Nathan, que era um dos poucos que ainda estavam por ali. Ajudei a arrumar os cones e a guardar a rede do gol e saí dali.
Foi quando eu notei alguém sentado no primeiro banco da arquibancada. Seu rosto exibia uma seriedade incomum, mas assim que viu eu me aproximar, abriu os dentes num sorriso.
— O que você tá fazendo aqui? — Perguntei, sem conseguir disfarçar nem um pouco a rispidez na voz. Ver Samuel era um exercício de auto-controle para não avançar nos seus cabelos e bater com a cabeça dele na parede até ele desmaiar.
— Gente, qual o motivo de tanta raiva? Eu é que pergunto: você não tinha sido expulso do time?
Suspirei, impaciente. Minha cabeça ainda não estava boa por causa do desentendimento com o Júnior, e eu percebi que ia acabar explodindo com Samuel na primeira oportunidade.
— Eu... não posso contar. Olha, eu preciso tomar um banho, nos vemos mais tarde. — Dei as costas a ele, me virando para a saída.
— Espera, Ulisses. — Samuel me segurou pelo pulso. — Por que você está tão distante de mim esses dias? Eu te fiz alguma coisa?
Voltei-me novamente para ele, e finalmente, depois de quase uma semana sem fazer isso, olhei-o novamente nos olhos.
— Quer saber? Fez sim, Samuel. Você quebrou minha confiança. Eu te acompanhei durante uma droga de mês inteiro para tirar aquele merda dessa sua cabeça oca. Mas, pelo visto, não deu muito certo não é?
— E-eu... de onde você...
— Não adianta mentir pra mim, eu vi. Você devia ter mais cuidado com certas paredes, às vezes, sabia? Algumas delas têm janelas que dão pro banheiro. — Eu disse, apontando com o queixo para o nicho onde eu vira Samuel e Júnior se agarrando, logo atrás da arquibancada.
Samuel arregalou os olhos, surpreso, assim que eu disse isso. Certamente não tinha ideia dessa informação.
— E não conte mais comigo para nada relacionado a isso. Venha falar comigo quando decidir ter amor próprio.
— Ulisses, por favor... — Samuel disse. Duas lágrimas já se formavam em seus olhos.
Mas eu já estava andando, indo embora, deixando Samuel sozinho. Talvez assim ele finalmente caísse na real.
Ouvi um soluço embargado vindo de minhas costas, e mesmo com toda a raiva que me revolvia a cabeça, senti meu coração apertar.
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Passei quase uma hora dentro do banheiro, tentando pôr as ideias no lugar.
Metade desse tempo consistiu em minha pessoa sentada no vaso sanitário com a tampa fechada, me arrependendo amargamente de ter discutido com Samuel que, apesar de tudo, era meu melhor amigo.
Acho que era a primeira vez que eu realmente me sentia mal depois de gritar com alguém. Geralmente, as consequências eram somente as consequências de fato, ou seja, tudo aquilo que resultava da minha atitude precipitada, e que nunca me davam tempo de pensar na besteira que eu tinha feito.
Entrei debaixo do chuveiro, fazendo o máximo de esforço para o som da ducha bloquear meus pensamentos. Não deu muito certo.
Quando eu decidi sair, com os dedos já enrugados e, provavelmente sem um miligrama de sujeira em minha pele, encontrei Nestor deitado em sua cama, com os braços atrás da cabeça e uma perna por cima da outra. Ele me encarou no caminho do banheiro até minha cama, e eu fiquei um pouco tenso, afinal, eu estava só de toalha, e ele jamais tinha olhado pra mim por mais de cinco segundos.
Virando-me rigidamente, abri a porta da parte do armário que me cabia e procurei uma roupa confortável. Mesmo de costas, pude sentir o olhar de Nestor sobre mim. Por que ele estava fazendo isso?
Pus a roupa sobre minha cama, que era vizinha à dele, e me preparei para passá-la (sim, no internato nós tínhamos que passar nos próprias roupas, o que fazia parte, como o Professor Leal dizia, da disciplina), quando Nestor se ergueu da cama e ficou sentado, virado em minha direção, e agora me encarando descaradamente.
— Não fala mais comigo não? — Ele perguntou.
Fiquei uns belos cinco segundos olhando incrédulo para ele, sem acreditar que, uma vez na vida, ele tinha falado comigo sem antes eu me dirigir a ele, e ainda por cima com essa pergunta esquisita. Foi quando ele deu um sorriso de lado e meu cérebro uniu os pontos.
— Meu Deus, seu idiota! Você me assustou, sabia? — Eu gritei, atirando um travesseiro nele. Nathan se esquivou, gargalhando.
— Não sabia que você tinha tanto medo de meu irmão.
— Ah, cala a boca. — Falei, pegando o ferro de passar e começando a ajeitar minha camisa.
Ele ficou me observando, e notei um brilho esquisito em seu olhar, que me escaneava de cima a baixo. Foi então que o fato de que eu estava de toalha na frente clareou em minha mente. Pus a camisa na mesma hora, sem terminar de passá-la direito.
— Ahn... o que você está fazendo aqui mesmo? Achei que fosse proibido que alunos entrassem em dormitórios que não são seus.
Ele jogou a cabeça pra trás, dando mais uma risada.
— Pfff, não me diga que você leva isso a sério. Você acha o que? Que o Rondarolli vai aparecer magicamente pela porta cada vez que alguém faz algo errado? Aquela almôndega ambulante não faz esforço maior do que ficar no próprio quarto, batendo punheta com aquelas revistas velhas dele.
Prendi a respiração e olhei pra Nathan, atônito. Eu tinha ouvido aquilo mesmo? Ele estava falando sério ou só era mais uma de suas brincadeiras irônicas?
— Ehhrr... hum, verdade, você tem razão. — Voltei meu olhar novamente para minha calça. Quase deixara um buraco no tecido com o ferro quente. Terminei o trabalho e, depois de vestir a cueca sem tirar a toalha, fazendo um esforço imenso para não deixar nada aparecer, pus a calça e me dirigi até o espelho para me pentear.
Nathan se levantou e foi correndo de um jeito engraçado até o meu lado. Encolhi-me, acuado, pois aquele espaço do quarto era demasiadamente pequeno para duas pessoas ficarem ali ao mesmo tempo.
— Acho que mereço saber como foi que você conseguiu voltar pro time. — Ele falou, olhando nos meus olhos intensamente, através de nossos reflexos no espelho.
— Nathan, eu... olha, sai pra lá, não cabemos nós dois aqui. — Falei, dando um empurrãozinho nele com o cotovelo.
— Ei, claro que cabemos, é só apertar um pouquinho. — Ele disse, e então pôs o braço direito ao redor da minha cintura e uniu nossos corpos de lado.
Um sentimento de urgência, relacionado à possibilidade de que alguém entrasse e visse aquela cena, tomou conta de mim, e tentei me desenlaçar dele, mas Nathan segurou minha cintura com mais força e virou a cabeça meio de lado, em minha direção, apoiando-a ao lado da minha própria, por ser um pouco mais alto do que eu.
O sangue começou a pulsar mais forte no meu amiguinho lá embaixo, se é que vocês me entendem, e pensamentos esquisitos rondaram minha cabeça quando senti seu perfume. Finalmente, temendo aonde aquilo poderia chegar e lembrando do que acontecera na biblioteca uma semana antes, fiz um movimento rápido e fugi de seus braços.
Corri até minha cama e sentei-me, para calçar o tênis. Era impressão minha ou não tinham ligado o ar-condicionado naquele dia? Eu estava morrendo de calor.
Não vi quando Nathan se aproximou novamente de mim, por trás, e cochichou ao pé de meu ouvido.
— Você ainda vai ser meu, anote isso. — E me deu um beijo estalado na bochecha.
Ele saiu correndo do quarto e fechou a porta. Dois segundos depois, ele abriu-a de volta, fez um "psiu" e piscou o olho pra mim através da fresta, fechando-a novamente.
Apesar de estar totalmente constrangido e, provavelmente, vermelho como um tomate, tive que sorrir. Como ele conseguia ser tão ridículo e... (ahn, tá, a palavra é maravilhoso) maravilhoso, ao mesmo tempo?
Terminei de me arrumar e fiquei mais um tempinho no quarto, esperando o calor estranho passar, quando ouvi o clique da porta se abrindo novamente. Virei-me nervoso, achando que fosse Nathan novamente.
Qual não foi meu susto ao ver o rosto do garoto do dormitório de Samuel que andava pelos corredores à noite, e que parecia meio maluco, Edgar, surgir na porta, me encarando como se tivesse visto uma assombração. Vendo que ele não falava nada, resolvi perguntar.
— Você... deseja alguma coisa? — Olhei pra ele, tentando entender por que seu rosto me era tão familiar.
Ele tentou articular a frase, mas parecia muito tenso. Então ele disse:
— No estacionamento. Você tem que ir logo. — E fechou a porta logo depois, sem dizer mais nada.
No estacionamento? Que diabos ele queria dizer com aquilo? Minha curiosidade, associada a todo o medo que ele parecia estar sentindo, me fizeram sair correndo do quarto em direção ao estacionamento. Eu precisava saber do que ele estava falando.
Abri a porta e atravessei o corredor apressadamente. Desci Titã e atravessei o saguão de entrada do colégio. Era fácil chegar ao estacionamento pela parte da frente, e existia um portão de acesso por ali. Passei pelas duas estátuas carrancudas de leões que decoravam o corrimão da escada na porta do internato e fui até o portão.
Num primeiro momento, não vi nada demais. Como era sábado, pouquíssimos carros estavam estacionados: somente o do Rondarolli e de alguns funcionários que certamente recebiam um salário melhorzinho. Diferentemente dos dias de semana, em que todo o espaço era ocupado por carros de professores.
Quase dei meia volta, me sentindo enganado por Edgar, quando vi um pequeno grupo que se amontoava em um dos cantos afastados do estacionamento. Pude ver na mesma hora que não estavam fazendo nada de bom.
Foi então que ouvi gritos de dor, seguidos de chutes e socos, e, mal percebi, meus pés já estavam correndo até lá.
Primeiro, discerni três integrantes do grupo de sete que formava um semicírculo perto da parede: os cabelos loiros e a postura rija de Nestor (dessa vez eu sabia que era ele), a pele azeitonada de Júnior, e, finalmente, os cabelos pretos de Torugo, que estava alguns passos para trás, obviamente receoso de fazer o que os outros estavam fazendo.
E havia alguém no centro. Um dos garotos deu um empurrão forte no menino, que se bateu na parede e caiu no chão, sem forças.
Mesmo que fosse alguém que eu não conhecesse, eu precisava ajudar. Mas o destino, o destino filho da puta, fez com que fosse sim alguém que eu conhecia.
Quando cheguei perto o suficiente para ver quem era, minhas pernas fraquejaram.
Encarei, petrificado, o rosto contorcido de dor e os cachinhos castanhos de Samuel.
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