Rosa dos Ventos
6 VI • Melhor um pássaro na mão...
Notas iniciais

EU DEFINITIVAMENTE NÃO ESTAVA PREPARADO pra descobrir uma coisa assim.
É sério, não queiram ter a sensação de alguém puxando um tapete debaixo de seus pés, porque foi assim que eu me senti. Na verdade, acho que a culpa foi minha mesmo, eu já devia estar acostumado com minha burrice a níveis críticos.
Encontrei Samuel na biblioteca. Ele encarava, emburrado, um livro particularmente grosso e batia os dedos na mesa com impaciência.
— E ai? — Eu disse, e me sentei em uma das cadeiras ao seu lado.
— Eu estou... estudando. — Ele respondeu, olhando para uma das mesas do outro lado da biblioteca. Seu namorado-ou-sei-lá-o-que Júnior e meia dúzia de amigos (um deles, o garoto de cabelos pretos do meu quarto) conversavam baixinho, como se mantivessem um segredo.
— Ah, estudando, claro.
— "Ah, estudando, claro." — Ele disse, numa imitação muito exagerada da minha voz. — Não me venha com ironia, tá? Não é nada disso que você está pensando.
Ele enfiou a cara novamente no livro, deixando muito óbvio que não estava lendo nada.
— Como foi o teste para o time? — Ele perguntou, ainda olhando as páginas.
Hesitei em responder. Minha reação normal seria, obviamente, nem sequer comentar a ceninha que havia acontecido com Nathan, mas aquilo estava me incomodando de um jeito que eu não conseguia entender. Resolvi contar uma meia-verdade.
— Eu consegui entrar... o que é bom. Mas eu queria te perguntar uma coisa.
— Sim? — Ele tirou os olhos do livro.
— Como é que... como que funciona aquilo que você me falou? Dos parceiros e tal? — Perguntei. Não acreditei que isso estava saindo da minha boca.
Samuel sorriu como se fosse tudo que ele estava esperando.
— Huuuuunnnn, então agora você está interessado. — Ele falou, unindo as duas mãos pelas pontas dos dedos.
— Não brinque, é sério.
— Bom — Ele disse, e se curvou até mim. — basicamente, arranjar alguém pra ser seu parceiro, principalmente um dos garotos do alto escalão de cada Ala, é uma garantia enorme de segurança. Geralmente os estudantes mais novos são obrigados a... fazer coisas que não querem, digamos assim, ainda bem que você ainda não passou por isso.
Fiquei calado, o que serviu pra ele deduzir a verdade. Ele arregalou os olhos.
— POR QUE VOCÊ NÃO ME CONTOU? — Samuel gritou, atraindo a atenção da bibliotecária para nós. Ela nos fuzilou com o olhar e depois voltou ao computador, onde provavelmente estava fazendo algo muito importante, como acessar o Facebook.
— Eu não sei... eu acho que fiquei com medo, sei lá. — Eu disse, a voz falhando. — É sobre isso que eu queria falar. Não chegou a acontecer realmente... outra pessoa me salvou.
— Quem?
— Então... foi um dos meus colegas de quarto, eu... eu desconfio que ele esteja interessado em mim. — Teria sido mais fácil engolir o livro que Samuel segurava do que falar aquilo.
— Um dos seus colegas? Mas... — Ele pareceu verdadeiramente confuso.
— Por que? O que é que tem?
— Não, nada... continue. — Ele disse.
— Enfim, eu não quero passar por aquilo de novo. Imaginei que se eu fingisse estar com ele, talvez estivesse seguro, algo assim.
Ele deu um sorriso de desdém.
— Fingir? Bem, imagino que ele não ficaria muito interessado. Nenhum deles ficaria. Eles querem algo efetivo, meu caro.
Passei a mão no cabelo, com impaciência. Eu ia acabar ficando louco com aquilo tudo.
— O que você acha que eu devia fazer, então?
— Escute, você não é o primeiro e nem vai ser o último a ficar com medo disso tudo, mas vai se acostumar. Com o passar do tempo... — Sua fala foi interrompida por uma risada muito alta do outro lado da biblioteca. Júnior e seus amigos aparentemente haviam descoberto uma piada particularmente engraçada.
Samuel olhou com amargura pra eles.
— Você não vai me dizer o que aconteceu? Digo, entre vocês?
— É que... — Ele respirou fundo. — Bem... existem no Internato aqueles que se recusam a se enquadrar nessa mesma coisa que estávamos discutindo. E do pior jeito possível. Caso alguém insinue que eles são gays, ou pelo menos faça qualquer coisa que eles considerem ofensiva a sua própria masculinidade, eles revidam... revidam com agressão, entende?
Juro que precisei de alguns segundos pra que aquilo se assentasse na minha mente.
— Isso não é possível. — Eu disse, sem acreditar.
— Sim, é. E eles já fizeram muitas vezes.
Tive vontade de ir lá e socar cada um no olho. Por mais que eu não quisesse algo assim, ou não concordasse, jamais usaria a força pra me impor. Aquilo era cruel.
— Mas... e o Júnior, você me disse que...
— Ele está no grupo, mas só pra manter as aparências. Ele gosta de mim, ele me diz isso. Mas sei que não hesitaria em me abandonar caso alguém desconfiasse que estamos tendo alguma coisa. Ele fica afastado de mim por dias, às vezes não me olha por semanas. Isso me deixa completamente destruído por dentro.
O rosto de Samuel parecia muito mais velho ao dizer aquilo. Percebi que essa era a única coisa que tirava seu bom humor.
— Que babaca. — Concluí.
Ele balançou a cabeça, como se espantasse os pensamentos.
— Mas então, você vai procurar o Jeremias para ser seu parceiro ou não? Que eu me lembre, ele está enrolado com um garoto da Ala Sul.
Fiquei um momento sem entender o que ele havia dito.
— Jeremias? Mas... mas não é ele. Não foi ele que...
Samuel parecia tão perdido quanto eu.
— Não é ele? Mas o seu colega de quarto está lá, olha, na mesa. — Ele disse, apontando a mesa de Júnior com um gesto de cabeça.
O garoto de cabelos pretos estava lá, conversando entrosadamente no grupo.
— Não, não é dele que eu estou falando. É do... — Mas então eu vi. O cabelo loiro. O olhar frio que eu o vira usar algumas vezes comigo. Nathan sentou-se, cumprimentando os amigos, como se organizassem o jeito mais prazeroso de me espancar até a morte.
✧
Eu precisei de muito tempo pra me acalmar.
Samuel não entendeu nada quando me levantei bruscamente e saí da biblioteca correndo. Senti vontade de vomitar, pensando na falsidade sem tamanho a que eu fora submetido.
Quais seriam seus planos? Descobrir se eu sentia atração por homens, assim como o Sr. Rondarolli havia feito, e então procurar uma hora propícia pra me transformar em saco de pancadas? Ou me transformar no próximo Samuel, sofrendo pelos cantos pelas migalhas de amor a que tinha acesso?
Ambas alternativas me pareceram sordidamente horríveis, e por causa da vontade de chorar de raiva, não questionei a mim mesmo se estava me sentindo traído por alguém que eu gostava.
Bati a porta do meu quarto com força. Provavelmente o som ecoou por todo o corredor, mas eu estava pouco me lixando. Eu só queria quebrar alguma coisa com minhas próprias mãos.
O abajur balançou quando eu chutei meu criado-mudo. Prometi a mim mesmo nunca confiar em ninguém naquele lugar. Talvez, exceto, Samuel. Afundei a cara no travesseiro.
...
— Não sei... deve estar dormindo...
— Vamos logo com isso.
Abri os olhos. O quarto estava escuro. Eu não tinha a menor noção de que horas eram, e nem de que havia dormido tanto. Duas vozes cochichavam ansiosas ao meu lado. Fiquei imóvel, tentando reconhecê-las.
— Silêncio, por favor. Se ele nos ouvir...
— Pare de falar ,então.
A cama rangeu um pouco.
Eu estava estático. Não ousava respirar. Tinha dois garotos fazendo algo além da minha imaginação a poucos metros de mim, e eu estava morrendo de vergonha.
Tentei não prestar atenção aos gemidos, mas era impossível. As vozes não me pareceram familiares num primeiro momento. Levei os dedos aos ouvidos muito lentamente, para que eles não vissem (o que era desnecessário, já que o quarto estava um breu) e eu não ouvisse mais as exclamações de prazer que vinham da cama ao lado.
Passaram-se muitos minutos, talvez até uma hora, meus olhos abertos encarando o vazio negro à minha frente, os pensamentos mais cabulosos passando pela minha cabeça. Eu preferiria não ter que contar isso, mas eu estava num estado por demais... excitado, digamos assim. Senti vontade de acariciar meu próprio pênis, que estava muito duro, mas então voltei ao meu estado normal de lucidez e afastei aquilo da cabeça.
Então a luz do corredor entrou timidamente no quarto. Alguém abrira a porta, e fechei meus olhos o máximo que pude, pra não ser visto. Deixei apenas poucos milímetros de abertura entre as pálpebras pra ver o que estava acontecendo.
O corpo nu de Nathan parecia divinamente desenhado, com a luz do corredor atingindo-o apenas pela metade e definindo o desenho de seus músculos. Ele era atlético, e parecia muito mais bonito do que de costume com apenas o lado direito do rosto iluminado. Aquele idiota. Meu coração bateu enlouquecidamente quando abaixei minha visão um pouco, até onde seu membro balançava, ainda meio duro.
Ele chamou a outra pessoa, um garoto que eu não conhecia, até a porta. O menino se aproximou, já vestido, deu-lhe um beijo na boca e saiu furtivamente pelo corredor. Nathan fechou a porta.
Fiquei ali muitas horas mais, pensando na tonelada de informações que acabara de presenciar. Nathan era da turma violenta do colégio, mas estava tendo um caso com um outro garoto. Não consegui decidir se sentia pena ou ciúmes desse menino.
E eu o vira completamente nu...
Eu tinha visto um homem nu! Isso me pareceu nojento, ao pensar depois, mas a visão de seu corpo não abandonou a minha cabeça por meio segundo sequer. Odiei a mim mesmo por isso. Eu não ia falar nunca mais com aquele babaca. Nunca mais.
✧
— Eu posso saber onde o senhor se meteu ontem durante a tarde e a noite toda? Isso é totalmente suspeito, se quer saber.
Ok, eu não ia poder contar a Samuel, mesmo que eu confiasse nele. A história toda envolvia coisas demais. Além de ter que voltar ao assunto de ontem, que eu definitivamente queria esquecer.
— Eu fiquei com dor de cabeça... daí deitei e acabei dormindo esse tempo todo.
— Você dormiu durante quinze horas seguidas? — Ele disse, fingindo surpresa.
A verdade é que eu passara praticamente a madrugada toda acordado, digerindo as coisas. Só fui pegar no sono às quatro da manhã.
— Ehr... hun, sim.
— Se você estiver escondendo algo de mim eu arranco suas bolas fora.
— Não duvido disso. — Concluí.
Os alunos chegavam à aula um pouco mais animados hoje. Samuel estava comigo na porta de minha sala, esperando o sinal tocar e falando sobre bobagens ocasionais. Aparentemente, Júnior fora falar com ele logo depois do jantar, e eles se beijaram. Não era coincidência, portanto, o bom humor particularmente mais acentuado dele hoje. Fiquei me perguntando se aquilo não funcionava como uma espécie de droga pra ele: o prazer proporcionado após o uso e o arrependimento e a amargura depois de um tempo de abstinência.
— Quem é o seu primeiro horário de hoje? — Ele me perguntou. Olhava de tempos em tempos para a porta da sala do Terceiro Ano, na esperança de que Júnior saísse de lá de dentro.
— Acho que é Português... me esqueci do nome do professor. — Respondi.
Ele arregalou os olhos.
— Professor? — E deu uma risada. — Digo e repito: você ainda tem muito a aprender.
...
Digo e repito: eu não gostaria de ter tanto a aprender.
O Professor Leal pareceria um ursinho de pelúcia perto da Professora Margarida. Apesar do nome simpático e florido, eu tinha certeza que ela era um general preso num corpo de uma mulher de duzentos quilos.
— SENTEM-SE. — Ela gritou, a voz muito mais grossa que a de qualquer homem que eu já tivesse ouvido. — Meu nome é Margarida, mas me chamem somente de Senhora Professora. Eu não admito que um aluno abra a boca durante as minhas aulas ou se levante pra qualquer coisa. Se quiserem ir ao banheiro, prendam até a bexiga estourar. A menos que estejam morrendo, não levantJOGUE FORA AGORA MESMO ESSE CHICLETE SEU MOLEQUE.
Quase suspeitei que ela estivesse apontando pra mim, mas seu dedo ia em direção à carteira atrás da minha. Se uma sensação pudesse se equiparar ao orgasmo, eu estava sentindo ela nesse momento.
Denis se levantou, completamente encolhido, e cuspiu o chiclete no cesto de lixo. Ele voltou até a carteira, vermelho de fúria.
— Da próxima vez que eu vir alguém mascando essa substância de Lúcifer na minha aula eu enfio minha mão entre seus dentes e arranco à força eu mesma. — Ela bateu com a mão na mesa. — Abram o livro na página quinze. VERBOS.
Os dois tempos seguintes foram de Física, e acho que não tenho nada muito interessante pra falar do Professor Nilton, exceto que o único motivo de eu não ter dormido em sua aula foi porque a verruga bem no meio do seu queixo era bizarra demais para não ficar encarando.
Na hora do intervalo encontrei Samuel ainda radiante em uma das mesas. Ele mastigava animadamente uma maçã e acenou pra que eu sentasse ao seu lado.
— Puxa, porque está aqui tão longe? — Perguntei, pois ele se encontrava na mesa mais afastada do balcão onde nos servíamos.
— Ah, quis variar hoje. — Ele disse, sem perceber que eu tinha muita noção do motivo verdadeiro. A mesa onde eu sabia que Júnior e seus colegas sentavam era quase vizinha.
— Como foi a aula? — Ele continuou. — A Professora Margarida arrancou muitos chicletes da boca de alguém hoje? — E deu uma risada.
Conversamos um pouco sobre os professores que eu ainda não tinha tido aula, pois não queria mais uma surpresa desagradável dessas.
Mas, então, vocês devem estar se perguntando: "Ué Ulisses, então aquilo que você disse no começo, sobre se sentir enganado, sobre puxarem um tapete sobre seus pés, foi saber que Nathan era um dos hardcores da escola, né?"
Não, não era.
Na verdade...
Pouco mais de cinco minutos depois, o grupinho de Júnior — entre eles, Nathan — entrou no refeitório. Samuel se retesou um pouco, e observou-o se servir e logo depois caminhar até a mesa ao nosso lado.
Assim que Júnior ia se sentar, Samuel lhe deu um sorriso, mas o que eu temia aconteceu: Júnior ignorou-o e sentou-se como se nada mais do que um ocasional encontro de olhares com um completo desconhecido tivesse lhe ocupado meio segundo de sua vida. Antes de servir-se de suco de laranja, ele disse:
— Não suporto esses viadinhos.
Vi Samuel transformar completamente a fisionomia. Eu esperava que, no máximo, ele ficasse de cara feia pelo resto do dia, mas eu definitivamente não estava preparado pra vê-lo chorar.
As lágrimas pingaram na mesa quando ele abaixou o rosto pra eu não ver que ele chorava. E então decidi adicionar mais um acontecimento para os Atos Completamente Loucos e Impensados de Ulisses Pompeia.
Levantei-me, e qualquer um que me olhasse naquele momento saberia que eu não ia fazer coisa boa, andei os quatro passos até a mesa do grupinho onde Júnior estava e olhei-o nos olhos. Antes que ele abrisse a boca pra falar alguma merda relacionada a eu ser um viadinho, enfiei a mão debaixo de sua bandeja e virei-a. Por um milésimo de segundo, a grande massa de suco de laranja, purê, pão com queijo e iogurte pairou no ar, e logo depois se espalhou sobre ele.
Admirei seu rosto espantado.
— QUE PORRA É ESSA? — E me olhou irritado. — VOCÊ VAI ME PAGAR SEU VIADO NOJENTO.
E veio como um torpedo pra cima de mim, as mãos direto em meu pescoço. Seus amigos, feliz e aparentemente, não aprovavam agressão em público, ou pelo menos por esse motivo, e tentaram nos separar. Eu me debatia, tentando socá-lo, mas ele me segurava com força.
Eu ouvia Samuel e várias outras pessoas gritarem ao meu redor. Tive a visão de Nathan vindo correndo pelo espaço entre as mesas. E o rosto de meu agressor se contorcia de ódio. Enfiei a mão em sua cara, numa tentativa frustrada de afastá-lo.
Muitas mãos nos puxavam. Num lapso de algo que me soou como dèja vu, vi os braços de Nathan envolverem o pescoço do Júnior. Ele se contorceu pra trás, e outros braços me puxaram na direção oposta.
— Você... você me paga... — Júnior dizia, arfando. Atrás dele, Nathan olhava com desprezo pra mim. Quase havia me esquecido que era daquele idiota que ele era amigo, e não de mim.
O braço de alguém ao meu lado se interpunha entre mim e Júnior, numa atitude de quem queria simplesmente me defender. Quase pensei que fosse Samuel, mas a pessoa era mais forte, e tinha cabelos... os cabelos eram...
A pessoa olhou pra mim.
E então algo muito estranho aconteceu, pareceu que não somente um tapete, mas o solo terrestre todo havia sido retirado debaixo de meus pés.
Lá estava ele, segurando Júnior... e aqui estava ele, me protegendo. Ao mesmo tempo. Os dois rostos terrivelmente idênticos me encaravam.
Agarrei-me ao Nathan ao meu lado.
Eu havia escolhido meu gêmeo.
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