Rosa dos Ventos

5 V • Atendimento Emergencial em Equipe


Notas iniciais
BOA NOITE A TODOS. Gostaria de dizer que dois novos leitores ocupam agora o espaço no meu coração: Rosianne e PS. VOCÊS SÃO MARAVILHOSOS ME BEJEEEMMM. Esse capítulo está um pouco menor, mas eu teria que fragmentar o próximo numa parte digamos... CALIENTE heuheuhe mas, bom, podem ler agora.

TODA E QUALQUER DÚVIDA que eu tivesse a respeito de quão assustador e terrível pudesse ser um estupro estava tirada.

O garoto da tatuagem prendia meu tórax com um dos braços, para que eu não conseguisse me levantar, e, com o outro, desafivelava o cinto da calça.

— Então você gosta de se exibir, não é? Eu daria tudo pra ter estado naquela hora e ver suas joias aí embaixo. Dane-se, vou realizar esse desejo agora. — E riu.

Eu tentava desesperadamente me soltar, mas ele era muito mais forte, e eu tremia dos pés à cabeça. Quando eu vi que ele já abaixara as calças, exibindo o volume na cueca preta, um outro braço surgiu no seu pescoço. A cabeça dele foi puxada pra trás e a massa de dois corpos caiu lutando no chão.

Tentei me levantar, recobrando a respiração e cerrando os olhos para distinguir quem havia aparecido do nada pra me salvar. Ao pensar isso, já imaginei quem fosse.

Salvo pelo gongo.

Nathan o havia imobilizado, prendendo-o firmemente com o braço no pescoço.

— Me... largue. — O garoto disse, roucamente. Nathan o soltou depois de alguns segundos. Ele olhou com fúria pra nós dois e saiu correndo, subindo as escadas até seu dormitório.

Assim que ele desapareceu lá em cima, Nathan me estendeu a mão para que eu me levantasse.

— O-obrigado. — Eu consegui dizer.

— Não há de quê. Eu já esperava que o Denis fizesse isso com algum dos calouros. Ele foi rápido esse ano. Pera, você está todo sujo. — Ele fez menção de passar a mão pra ajudar a tirar a poeira da minha roupa, mas me afastei.

— Sim, ele foi rápido. — Falei, ainda tentando me recuperar do choque.

— Eu estava vindo da Ala Leste e vi o que estava acontecendo. Tive que ajudar.

Imaginei o que ele deveria estar fazendo em outra Ala àquelas horas. Boa coisa não era.

— Ah, e em relação ao time, pode aparecer lá amanhã mesmo, na quadra. Depende muito do seu talento, e eu vou... tentar ser imparcial. — Ele disse, piscando um olho, como se tivesse me dando um grande presente. Bem, acho que estava mesmo.

— Valeu.

Ficamos alguns segundos constrangedores sem saber o que falar, até que ele disse:

— Bom, então eu acho que eu vou... — E apontou a escada de onde tinha vindo. Não vou dizer que fiquei impressionado, mas realmente esperei que depois de uma cena como essa, ele tivesse perdido o apetite, ou algo assim. Enfim, havia um trabalho a terminar e acho que o garoto lá, quem quer que fosse, não ia ficar esperando.

Ele me deu as costas e subiu a escada, sorrindo uma última vez pra mim antes de desaparecer no corredor. Intimamente, fiquei agradecido por ele não ter sido frio dessa vez.

No meu quarto, o abajur de Jeremias era o único aceso, e pude ver que ele ainda não tinha voltado.

O resto do quarto estava imerso em escuridão. Decidi não acender o interruptor, pois não queria acordar meu outro companheiro de quarto. Andei cautelosamente pelo escuro e, ao sentar na cama, me dei conta de como estava cansado. Duas coisas inacreditavelmente tensas tinham acontecido no mesmo dia, e ainda nem havia começado as aulas. Nem vesti o pijama. Desabei e dormi na mesma hora.

✧

Naquela noite, eu tive um sonho muito estranho. Do tipo que você tem tanta certeza que é real que acorda se sentindo no corpo errado.

Eu cavalgava num cavalo cor de doce de leite, e me sentia muito feminino segurando na cintura do cara que guiava as rédeas. Apesar de algo me dizer pra confiar totalmente nele, eu não conseguia pensar em nada a não ser "eu vou cair, eu vou cair, eu vou cair".

Dito e feito, o cavalo empinou as patas dianteiras e eu caí com tudo no chão. Uma dor lancinante tomou conta de meu tornozelo, estrelas dançavam na minha frente. Eu me contorcia, rolando na grama, até que, quando começou a passar, levantei os olhos e vi outra paisagem.

O lugar era mais ou menos parecido com o anterior. Uma campina grande, vazia, só que essa parecia abandonada há anos, pois o mato era mal cuidado e chegava à altura dos meus joelhos.

Já de pé, e sem sentir dor alguma, vi que uma figura estava parada ao meu lado. Estávamos em frente a uma pilha enorme de escombros, que eu arriscaria já ter sido uma casa algum dia. Eu estava à beira das lágrimas, assim como a pessoa ao meu lado. Eu sentia muito por ela, e me doía não saber o motivo. A figura ficou de joelhos e começou a chorar, e o choro ficou mais alto, mais alto. E se tornou um grito de terror. Um teto em chamas apareceu sobre nós dois e logo depois caiu com um estrondo.

Acordei ensopado de suor. Fiquei alguns segundos agarrado ao colchão, me situando na realidade. O choro de lamento e a sensação de ser esmagado ainda estavam muito vívidos na minha cabeça. Não tinha mais ninguém no quarto, o que me desesperou mais ainda. Ao checar o relógio no criado-mudo, vi que ainda faltava meia-hora para a aula.

Menos mal, pensei, e fui tomar banho.

...

Desci Titã com pressa. Agradeci repetidamente a Samuel na minha cabeça por ter me ensinado onde ficava cada lugar, se não, estaria perdido. Corri na direção certa das salas de aula. Por eu ser da Ala Oeste, a minha ficava no térreo e no corredor esquerdo. Ao chegar na porta, conferi o relógio.

Cinco minutos. Respirei tranquilo.

A turma era estranhamente pequena: aproximadamente quinze garotos aparentando a mesma idade que eu e que já estavam devidamente enturmados. Escolhi um lugar na terceira carteira da primeira fila. Havia algo de estratégico em sentar colado na parede: muitas colas podiam ser passadas naquele canto, e qualquer ataque do sono era rapidamente resolvido pendendo a cabeça alguns centímetros para o lado.

Pus meu caderno e meus livros na carteira e me sentei. O garoto à minha frente digitava velozmente no celular e o de trás cochilava com o casaco sobre a cabeça. Tentei reconhecê-los da sessão maldita na Sala dos Troféus, mas lembrei que, na ocasião, eu estava evitando olhar qualquer um na plateia. Nada feito.

Eu estava prestes a pegar meu celular no bolso quando senti um toque suspeito nas minhas partes traseiras. Virei-me bruscamente e vi que a mão do garoto que antes dormia agora pendia em minha direção. Seu braço exibia o desenho estilizado de um dragão.

— Você? — Eu disse, já irritado.

— Calma, donzela. Ah... só de pensar em como cheguei perto de provar essa belezinha do melhor jeito... — Ele disse, estendendo novamente o braço e apertando minha bunda.

Levantei-me com um pulo. Alguns garotos olharam pra mim.

— Pare com isso! — Eu disse, a fúria tomando conta de mim.

— Você fala como se não estivesse morrendo de vontade. — O sorriso nojento dele me fez explodir.

— Não! Não estou. E fique sabendo que se estiver procurando algum rabo pra enfiar, vá atrás de um de seus machos, porque eu não tô a fim de ser puta de ninguém, está entendendo? E só pra constar: vá tomar no seu cu. — Esperei que ele respondesse à altura, mas sua expressão parecia estranhamente satisfeita.

Alguém pigarreou atrás de mim.

— Senhor Pompeia, imagino que já tenha ouvido falar do que acontece com quem não dobra a língua nas minhas aulas, não? — Disse uma voz grave que eu já conhecia.

Foi então que eu percebi que todos os alunos já estavam em seus lugares, me olhando como se eu fosse a próxima carne a ser servida no churrasco. O professor Leal me fitava friamente através de suas lentes retangulares de armação fina. Seu cabelo engomado cor de chocolate parecida tão rígido quanto sua voz.

— Sente-se antes que eu resolva te pôr na linha do pior jeito.

Obedeci na mesma hora, horrivelmente envergonhado.

— Muito bem — Ele disse, agora se dirigindo à turma. —, é exatamente esse tipo de comportamento que vamos aprender a evitar nas nossas aulas. Vocês podem me chamar de Professor Leal, ou Sr. Leal, tanto faz. Pra se darem bem na minha matéria, só precisam saber de uma coisa: respeito. — E me perfurou com o olhar novamente.

— A maioria de vocês não me conhece, salvo alguns que, por ocasião do destino, estão revendo a matéria pela terceira vez seguida. — Ele disse, olhando para o idiota atrás de mim, que agora eu sabia se chamar Denis. Isso explicava ele ter frequentado o colégio ano passado e mesmo assim ainda estar no primeiro ano.— Abram o livro na primeira página. Sinceramente, espero que vocês saibam pelo menos o Hino Nacional. Mas, pelo visto, ainda consigo me surpreender.

A aula levou muito tempo pra acabar. Os dois tempos de Moral e Cívica soaram como dois anos inteiros, com o professor olhando pra mim com o canto do olho a cada vez que falava algo relacionado a desrespeito.

— A hierarquia é uma das maiores bençãos criadas pela humanidade, que vocês podem usufruir aqui mesmo, no colégio. Além da obediência e respeito total aos seus superiores, devem-se evitar, inclusive, palavras de baixo calão.

Parecia que eu tinha sido alvejado por uma metralhadora de indiretas, de modo que fiquei imensamente aliviado quando o sinal tocou, anunciando que devíamos nos deslocar até a Sala de Informática. Não olhei ninguém nos olhos durante o caminho.

A porta era a reprodução em grande escala de uma placa-mãe, o que eu achei muito legal. Menor do que a anterior, a sala consistia em quinze computadores relativamente novos organizados na extensão de duas mesas compridas. Cada aluno escolheu um deles. Fiquei aliviado, pois ia finalmente trabalhar com algo em que eu era realmente bom.

O professor, um velhinho de aproximadamente um milhão de anos de idade, se dirigiu ao quadro e escreveu o nome com a mão trêmula.

Professor... Luís... Ariano.

Ele se deu por satisfeito e virou-se pra nós, a vozinha miúda.

— Bom-dia, a todos vocês. Podem me chamar de professor Luís, ou de Ariano, mas eu prefiro que seja Luís. Era como minha mulher costumava me chamar antes de bater as botas... Ou será que foi antes de perder a memória? — Ele começou a conversar baixinho consigo mesmo. Depois de alguns segundos, sua atenção voltou-se novamente para a turma.

— Ah... muito bem, liguem os computadores. O tempo urge!

✧

O resto do dia foi resumido em um professor de matemática com sérios sintomas de síndrome do pânico e no cochilo de incríveis quinze minutos tirado pelo professor de geografia. É claro que, no fim da aula, já existiam mais ou menos duzentas mil fotos do Professor Assis babando na mesa espalhadas por todas as redes sociais.

Depois do almoço, fui até a quadra na intenção dos testes para inscrição no time de futebol. A maioria dos alunos estava tirando uma soneca depois de comer, por isso eu esperava que a quadra não estivesse tão cheia. Rezei para que meus concorrentes tivessem tido a mesma ideia.

À primeira vista, pensei ter me enganado a respeito do lugar onde aconteceria a audição, pois a quadra estava completamente vazia, mas então notei uma bola parada, solitária, jogada aleatoriamente no meio da quadra. Eu devia estar adiantado.

Aproximei-me dela e me abaixei para pegá-la. Ao levantar os olhos, Nathan estava encostado na parede, a alguns metros de mim.

— Sério, como você faz isso? — Eu disse, me recuperando do susto. Ele deu um sorriso cafajeste.

— Eu tenho meus... segredos. — Falou, andando até mim.

Ele parou e ficou me olhando dos pés à cabeça.

— E então, onde estão os outros? — Eu disse.

— Ah... não te avisei? Você foi o único que quis participar...

Quase pulei de alegria, mas ele continuou:

— Maaas... somos obrigados a prestar anotações do desempenho dos jogadores no teste. Existe uma nota mínima que nós, jogadores que já estão no time, precisamos dar, já que seremos selecionados pra campeonatos intercolegiais etc. E, como eu fui o único que prefiriu vir aqui do que passar a tarde dormindo... acho melhor você conseguir me agradar. — E terminou a frase piscando um olho pra mim.

Tive que me controlar pra não deixar transparecer a fúria que se revolveu no meu interior. Eu ia ter que compactuar com as investidas dele se quisesse fazer parte do time. Isso me pareceu quase tão cruel quanto testar os alunos pra saber quais sentiam atração por homens ou não.

— E qual é a nota mínima? — Perguntei, cerrando os dentes.

— Hunn, normalmente é sete — Engoli em seco. —, mas não se preocupe, eu sou um bom avaliador. — E me engoliu com os olhos de novo.

— Ok, ok, vamos logo com isso.

Os testes não foram tão ruins, afinal. Ele me fez driblar cones na maior velocidade que eu conseguisse, chutar ao gol de diferentes distâncias, e cobrar pênaltis com ele como goleiro.

— Vai! Com força! — Ele gritou. Revirei os olhos pensando no óbvio segundo sentido da frase. Chutei a bola, que passou exatamente entre seus dois braços e balançou a rede.

— Muito bom... muito bom... — Ele disse, batendo palmas ao final da última prova.

— E então, estou dentro?

Ele coçou o queixo, como se estivesse muito indeciso.

— Acho que sim, mas... pelo que me consta E checou um papel numa prancheta. —, ainda precisamos avaliar as notas de Atendimento Emergencial em Equipe.

O Atendimento Emergencial em Equipe consistia em Nathan fingir estar contundido e eu procurar um jeito de amenizar sua dor, como em primeiros socorros. Só que eu desconfiava que massagens não fossem tão presentes em primeiros socorros.

— Fui atingido por um adversário na canela, uuuuii. — Ele dizia, e se jogava no chão, fingindo contorcer-se de dor.

Contra toda a minha vontade, eu ia até ele. Ao tocar na canela, ele dizia:

— Não. Acho... acho que eu preciso de uma massagem. — E virava de costas pra cima.

Eu fazia o máximo pra não encostar nele, o que era impossível. Claro que, como numa massagem de emergência verdadeira, o toque tinha que ser direto na pele. Ele tirava a camisa.

— Hunn. — Ele gemia, enquanto eu passava a mão com força pela extensão de sua coluna.

Eu estava ajoelhado ao seu lado, e então uma coisa muito engraçada aconteceu. Era como se... bem, eu acho que... eu estava meio que gostando de fazer aquilo. Ele estava com os olhos fechados, e eu só via seu sorriso zombeteiro, amando cada vez que meus dedos percorriam sua pele.

Meus braços começaram a doer, e em pouco tempo a massagem parecia mais um carinho. Não foi de todo ruim... acho. Tentei pôr na cabeça que meu interesse astranho se devia a alguém estar gostando do meu trabalho.

— Isso... é muito gostoso, sabia? — Ele disse, a voz macia.

— Ah, é? — Respondi, tentando manter a voz neutra.

— Sim, eu podia ficar aqui pra sempre...

Meu coração bateu mais rápido quando percebi que estava tendo uma ereção.

NÃO.

NÃO.

NÃO,

— Então, bom... acho que já está bom agora, não é? — Eu disse, tirando as mãos de suas costas.

Ele pareceu com preguiça de sair de sua posição, mas se levantou.

— Sim. Parabéns, você está no time! Treinos às terças, quintas e sábados. E eu te obrigo a viajar conosco para o intercolegial de junho. — Ele disse. Pegou a camisa e saiu com ela pendurada no ombro, assobiando como se o dia dele não pudesse ter corrido melhor.

Quando ele estava na porta da quadra, vi a prancheta jogada no chão ao meu lado.

— Ei, espere, você esqueceu isso! — Eu gritei, mas ele já tinha saído.

Apanhei a prancheta. Ao ler o que estava escrito no papel, não consegui definir se me sentia irritado ou se ria do fato de não ter nenhuma avaliação de Atendimento Emergencial em Equipe.