Rosa dos Ventos

9 IX • Temos uma ACA


Notas iniciais
Oláááá lindos e lindas do meu coração! Aqui está o capítulo IX, e gostaria de dizer que, mais uma vez, fui acometido por um ataque do coração... seria arritmia? enfarte? Não: a linda Dayene Albuquerque deixou uma recomendação nessa fic!!!! É a terceira, e vocês não tem noção de como isso me deixa feliz. A fic, apesar de já estar no nono capítulo, está praticamente no início, e três recomendações é muito mais do que eu poderia ter imaginado quando postei. Vocês são uns amores, sério. Agradecendo sempre e mais uma vez à voces que comentam aqui: PS, Fujoshi Rosianne, Mililika, Maria Antoniette, Twenty one pilots, e deem boas-vindas ao queridíssimo e lindíssimo Fly. Amo todos vocês. Bom, parei de enrolar, podem ler agora. Kisses no coração.

— ESCUTA AQUI, VOCÊ ESTÁ APAIXONADO POR MIM ou apenas gosta de visitar a enfermaria? Estou cogitando seriamente a primeira opção. — Cynthia disse, me passando mais uma toalha.

Apesar da situação, tive que me controlar para não rir. Cynthia lembrava em muito aquelas negras gordas cheias de atitude dos filmes americanos, de modo que qualquer coisa que ela falasse se tornava automaticamente engraçada. Dessa vez, o pijama rosa e os bobes nos cabelos ajudaram.

— Eu... eu... arf. — Tentei responder, mas fui acometido pela sensação de que tinha alguém pressionando meu tórax. Por dentro. Eu não sabia que era tão fraco pra essas coisas.

— Deixe pra lá. Tente descansar um pouco. Vou cuidar do seu amigo, aqui. — Ela falou, apontando para a maca ao meu lado. Segundo o relógio pendurado na parede à minha frente, já era quase meia-noite. Umas duas horas depois de eu ter entrado em pânico ao ver o menino deitado sobre ela se debatendo no fundo da piscina.

Ok, não fora exatamente algo heroico, confesso. Assim que eu bati os olhos sobre a cena e depois de passar uns bons segundos para absorver que era aquilo mesmo que estava acontecendo. comecei a fazer coisas úteis, do tipo correr pela borda, desesperado, gritando feito uma garotinha: "Ai meu Deus, socorro. Alguém me ajuda aqui. Aaaahhh, meu Deus. Socorrooo". Foi então que decidi tomar vergonha e me jogar lá para salvar quem quer que fosse.

O saldo tinha sido de uma boa porção de chutes e tapas na minha cara, mas, aos trancos e barrancos, consegui arrastar a pessoa até fora da piscina. Agora eu me perguntava se tinha sido realmente uma boa ideia.

— Será possível que você... não vai me deixar... em paz nunca? — Eu disse a ele, com dificuldade para respirar, assim que Cynthia se afastou para pegar algo na despensa.

Denis olhou desconfiado pra mim, e não me respondeu nada, o que não era do seu feitio. Percebi na hora que alguma coisa muito errada tinha acontecido.

— O que foi que aconteceu? — Insisti, vendo que ele não ia falar por conta própria. Sua cara se fechou ainda mais.

— Não foi... nada, ok? Me deixe... em paz.

Cynthia voltou carregando mais duas toalhas limpas.

— Vocês dois, viu... acho melhor passarem a noite aqui e...

— Não Cynthia... eu acho que... acho que estou bem. Vou pro meu quarto.

Ela me olhou de cima a baixo, me escaneando até a alma. Nos conhecíamos há muitos anos (ela fora enfermeira em outro colégio no qual eu estudara), de modo que fiquei com medo que ela percebesse que eu só queria sair dali.

— Você é quem sabe. Mas qualquer coisa é só voltar pra cá. Você engoliu muita água. Precisa descansar.

— Tudo bem, juro que volto se me sentir mal. Eu vou indo Cynthia. — Eu disse, e me despedi. Denis não olhou pra mim.

O dia seguinte era uma quinta feira, o dia da semana em que os quatro primeiros anos, um de cada ala, se reuniriam para a aula de Educação Física conjunta. Nosso professor, o Sr. Hudson, havia programado uma atividade surpresa para ser utilizada como método de avaliação, no lugar da prova. Eu, particularmente, achei a ideia esplêndida. Existe algo melhor do que receber nota por dar umas corridas pra lá e pra cá ao invés de escrever até a mão doer? Certamente, não.

Logo após o almoço, perto das duas da tarde, o grupo de aproximadamente cinquenta alunos já estava aglomerado na quadra de esportes. Fiquei um tempo tentando procurar na multidão os garotos da minha sala que eu era mais próximo, mas o barulho de conversas ali era tão grande que resolvi ficar parado, esperando o professor aparecer e dar as instruções.

— Atençãooo, atençãooo, mocinhaaas. Vamos colaboraaar fazendo silênciooo. Atençãooo. — A voz amplificada por um alto-falante do Professor Hudson, surgiu quase imediatamente. Passei os olhos por todos os lados, mas não o encontrei.

— Aquiii em cimaaa, anjinhooos. — Ele disse, e então eu vi um megafone cor de laranja neon balançando no topo da trave de basquete. O professor estava sentado lá no alto, suas pernas balançando alegremente. Todos os alunos, incluindo eu, começaram a rir.

— Ei, qual é, não sejam tão estraga-prazeres. Muito bem, reuni vocês aqui hoje para nossa primeira Atividade Coletivamente Avaliada, ou a primeira ACA. — Ele disse, usando os braços para formar cada uma das letras, de um jeito engraçado. — A ideia surgiu de uma parceria entre mim e o Professor de Moral e Cívica de vocês, o Sr. Leal. Hunn, ele pediu pra lembrar que isso não vale ponto extra na matéria dele. — Um suspiro entristecido saiu da boca de todo mundo.

— A atividade consistirá no seguinte: foram espalhados pela escola objetos semelhantes a este. — Ele segurou acima da cabeça algo do tamanho da palma de sua mão. Era um triângulo muito pontudo, com metade da face preta e metade branca. Reconheci como sendo uma das setas de uma rosa dos ventos. — Sim, isso mesmo. Vocês deverão se reunir em quartetos e cada um desses grupos deverá montar sua própria rosa dos ventos. O tempo será convertido em pontos, contados de maneira que, quem terminar a atividade em dez minutos terá a nota máxima e, quem levar mais de uma hora e meia... bem, acho que nos veremos na recuperação.

Engoli em seco. Ao meu lado, os garotos já conversavam entre si, procurando parceiros para seu próprio quarteto. Xinguei-me mentalmente por não estar perto de meus amigos, mas o professor Hudson continuou.

— Opaaa, esperem aí, pequenos gafanhotos. Os quartetos serão sorteados. E eles serão compostos por um garoto de cada Ala. Cooperação sempre. Agora se vocês puderem esperar um pouco... — Ele disse, fazendo em seguida uma série de acrobacias desajeitadas para conseguir descer da trave de basquete. Alguns alunos tiveram que ajudá-lo no fim da operação para que ele não batesse com a cabeça no piso da quadra. — Ok, primeiro os garotos da Ala Norte, venham até aqui.

Os treze meninos que estudavam na Ala Norte se aproximaram do professor, e após alguma dificuldade, foram tirando, um a um, de uma sacola preta, os nomes dos garotos da Ala Leste. Estes sortearam os da Ala Sul e, finalmente, os da Ala Sul sortearam os da Ala Oeste. O suspense estava me matando.

Ouvi meu nome ser chamado, finalmente, por um garoto magricela de quem eu lembrava vagamente. Aproximei-me meio acanhado do grupo que era formado, além dele, por um garoto grandalhão da Ala Norte e um menino de pele parda com o cabelo cortado rente da Ala Leste.

— Estão todos em seus respectivos quartetos? Ok. Últimas instruções: não tentem roubar a peça do coleguinha de vocês, isso é feio. À medida que vocês forem achando, tragam até aqui. Ah, e uma vez que você entrega uma peça, não pode mais ir atrás de outra. Cada membro da equipe precisa ter sua própria peça. Acho que isso é tudo. Vããooo! — Ele gritou, animado, pelo megafone.

Assim que foi dada a ordem, os alunos saíram em debandada para fora da quadra. Alguns começaram a se estapear devido a uma confusão na entrada, que era apertada demais para a vazão de todos de uma vez só. Aquilo ia ser uma carnificina.

— Acho melhor nos separarmos. — O garoto da Ala Leste disse para mim e os outros dois. Parei para observar seu rosto... ele me era familiar. — Abimael, você fica com o saguão de entrada, a sala dos troféus, a sala de música e o estacionamento. Você — Ele apontou para o grandão da Ala Sul, que se chamava Xavier. — fica com a biblioteca, as salas de aula do primeiro andar e os banheiros. Ulisses, você fica com o refeitório, a sala de informática e nós dois nos dividimos entre as salas de aula do térreo. Também fico com toda a área dos jardins e da piscina.

Os outros dois saíram correndo assim que receberam suas ordens, mas eu fiquei ali, encarando-o, tentando entender o motivo de suas feições não me serem estranhas. Havia algo relacionado a ele que eu não estava conseguindo lembrar. Olhei o nome em seu crachá: Igor.

— Está tudo bem? — Ele me perguntou, e eu soube que percebera que eu estava tentando reconhecê-lo.

— Está, sim. — Respondi, e corri logo depois em direção ao refeitório.

Foi a primeira vez que tive ideia de como aquele lugar era grande.

Eram, aproximadamente, vinte mesas de uns bons seis metros de comprimento cada uma, que eu teria que conferir de um lado a outro. Além disso, me acotovelando com os outros pobres garotos que haviam sido designados para aquela parte do colégio.

Quase fui atropelado, assim que cheguei, por um menino que já trazia entre os dedos uma das peças preto-e-branco. Duvido que ele carregaria uma barra de ouro com tanta ferocidade.

Uma a menos, pensei, lastimoso.

Comecei o trabalho imediatamente, lembrando que, quanto mais eu demorasse, maiores seriam minhas chances de ir pra recuperação. Percebi que os garotos que já estava ali vinham procurando do lado oposto do refeitório em direção à entrada, ou seja, para pegar qualquer peça que tivesse por ali, eu teria que fazer o caminho contrário.

Fiquei uns bons cinco minutos fazendo isso, até que o filho da mãe à minha esquerda deu um arquejo de satisfação e saiu correndo, com a pecinha em mãos.

Merda, praguejei. Ele estava na mesa ao meu lado. Não havia como ter mais uma no refeitório. Xingando mentalmente todos os palavrões existentes em meu vocabulário, corri para meu próximo destino, a sala de informática.

— AAHHH! — Gritei, quase sendo atingido por um transeunte alucinado novamente. Só que, dessa vez, não era um aluno do primeiro ano. Vi os dread-locks, ouvi a risada tresloucada e soube quem era.

Jeremias trazia consigo uma peça de rosa dos ventos e, atrás dele, uma multidão de uns dez garotos corria enfurecida, reclamando a posse do objeto.

— Pega! — Disse um deles.

— Agarra! — Gritou outro.

— Mata! — Exclamou um terceiro.

Jeremias apenas gargalhava. Ele deu a volta à esquerda, provavelmente correndo para a área dos jardins. Imaginei que sua saúde estaria seriamente ameaçada caso fosse pego pelos calouros.

Entrei na sala de informática que, felizmente ou não, estava vazia. Procurei como um louco atrás de cada monitor, CPU, embaixo de cada cadeira, mesa, entre os fios, mas não encontrei nada. Não era possível, tinha que ter uma peça em algum lugar ali!

Consultei a hora no meu celular. Já haviam passado quinze minutos desde o começo do jogo, ou seja, já não íamos tirar a nota máxima.

Foda-se, pensei, eu só não quero ficar de recuperação.

Perguntei-me se meus colegas de equipe já tinham conseguido suas peças. Se sim, a nota deles estava nas minhas mãos, e eu não podia me dar ao luxo de demorar muito mais.

Saí da sala de informática e fiquei parado na porta, procurando energia para seguir para as salas de aula. Foi então que, ao olhar para a quadra e ver o garoto da Ala Leste por lá, ao lado dos meus outros companheiros de equipe, meu cérebro associou seu rosto a seu nome, e onde eu o conhecera. De uma vez só, a lembrança de uma certa sala dos troféus, umas certas revistas e um certo diretor maquiavélico voltaram à minha mente.

Igor. Fora ele o menino que tinha sido avaliado antes de mim. O que havia se denunciado pela ereção ao ver a foto do cara sem roupa.

Fiquei com pena dele na mesma hora. Lembrei-me de que todos os calouros que não haviam "passado no teste" foram obrigados pelo Sr. Rondarolli a fazer algo na quadra. Até hoje eu me perguntava o que aquele monstro teria planejado.

Então, mais uma coisa acendeu em minha mente. A Sala do Diretor Rondarolli! Como eu não tinha pensado nisso antes? Era o lugar menos provável para ter uma peça e, mesmo quem pensasse nele, não teria coragem de ir até lá.

Dei as costas para a quadra e, ao começar a correr em direção à ela, fui surpreendido por Nathan, encostado na parede logo atrás de mim.

— Ah!... Como você faz isso? — Exclamei, me recuperando do susto.

— Qualquer dia eu te digo... e aí, já conseguiu sua peça?

— Não, ainda não... ei! Como você sabe...

— Detalhes, detalhes. Espero que não esteja pensando em ir à Sala do Diretor. Eu não arriscaria.

Olhei zangado pra ele.

— Escuta, essa é a minha única chance. Eu não quero ser responsável por uma nota baixa de todos da minha equipe.

Ele deu de ombros.

— Você é quem sabe, mas eu aviso: ele está completamente furioso. Ontem houve mais um ataque do Gênio da Porta ao Lado.

Fiquei alguns segundos tentando entender o que ele tinha dito. Será que ele se referia...

— Ataque do... Gênio da Porta ao Lado... O que isso significa?

— Desde o ano passado isso vem acontecendo. Sem nenhum motivo, e sempre durante a noite, garotos do colégio são encontrados se afogando na piscina. A gente sabe quando um ataque acontece porque o Rondarolli fica trancado em sua sala o dia todo, não dá nenhum anúncio. Dizem que o responsável por isso tudo é o Gênio da Porta ao Lado.

Ele estava falando aquilo pra mim por algum motivo. Será que Nathan tinha ideia de que eu havia salvado a vida da última vítima?

— E quem foi que se afogou dessa vez? — Perguntei, para ver se ele demonstrava alguma reação. — As vítimas não dizem quem é o tal Gênio?

— Ainda não sei quem foi dessa vez, e não, nenhum deles, por mais que as pessoas insistam, dizem quem é o autor dos ataques, nem como os comete. Isso irrita o Rondarolli ainda mais. Ele acumula esse ódio desde o ano passado.

— Então, eu acho melhor... acho melhor não ir lá.

— Acho bom mesmo. Já existem ameaças demais aqui dentro — Nathan falou, segurando a minha mão gentilmente. O gesto me deixou desconfiado. —, você não precisa correr direto pra boca de mais uma.

Assim que sua mão soltou a minha, senti que ele deixara algo comigo. Encarei, incrédulo, o objeto.

Ele foi embora, assoviando tranquilamente, como se não tivesse acabado de me entregar a salvação para a nota de Educação Física da minha equipe.