Rosa dos Ventos
2 II • A diferença que um nome faz
Notas iniciais

— OK, VOCÊ É MUITO GATINHO. — Alguém disse ao meu lado. Não esperava que fosse realmente comigo, embora já tivesse levado uma centena de cantadas desse tipo, mas o que realmente me assustou foi que, ao virar o rosto, me deparei com um garoto.
Ele tinha uns dezoito anos, o cabelo loiro até os ombros, e era meio musculoso. Me olhava de cima abaixo, como se conseguisse enxergar através de minha roupa. Conferindo rapidamente a identificação dele, soube que se chamava Pierre.
— Eu... ahn... obrigado. — Respondi, meio sem jeito com a declaração inusitada.
— Não precisa agradecer. Apenas falei a verdade. — Ele disse, virando-se em seguida para a quadra, onde um grupo de aproximadamente quinze meninos apresentava uma coreografia no estilo militaresco com as bandeiras da escola. — Uhuuu, detona eles!
Outro garoto, que parecia ter saído de um book de modelos europeu, acenou para o que estava ao meu lado, piscando o olho com muita sensualidade.
A cena estava me deixando um pouco constrangido, por isso resolvi procurar outro lugar na arquibancada, onde não precisasse falar com ninguém.
— Já vai?
— É, eu... eu vou procurar água.
— Tá bom, nos vemos mais tarde. ARRASA COM ESSA BANDEIRA, VAI!
Desci do lugar em que estava e dei a volta por trás, onde não havia praticamente ninguém. Apenas um vão de alguns metros separava a parte anterior da arquibancada da parede da quadra, ocupado somente por folhetos, latas de refrigerante, papéis de bala. Encontrei até mesmo guimbas de cigarro e uma embalagem de camisinha.
Comecei a andar em direção à outra ponta, na esperança de encontrar um lugar mais discreto para sentar e assistir às apresentações. A plateia vibrava lá em cima. Quando estava a pouco mais da metade do caminho, comecei a perceber um pequeno nicho na parede, que aumentava à medida que eu me aproximava. Tive que segurar um grito de susto quando um rosto apareceu de lá de dentro.
— Hun, hun, não é permitido passar por aqui, sabia? — O homem com cabelos cor de chocolate, curtos e engomados me falou. Não precisei de muito mais tempo para deduzir que ele era um dos professores.
— Então... o que é que você está fazendo aqui? — Falei, sem pensar. Me arrependi de soltar isso na mesma hora que deixou minha boca. Certamente levaria uma punição pelo meu atrevimento.
Ele, ao invés de sacar um boletim de notificações ou algo do tipo, apenas me olhou com curiosidade, como se essa fosse a única resposta que ele não havia pensado que eu fosse dar.
— Volte lá pra cima e aprenda as regras. Não vou ser tão bonzinho com calouros da próxima vez.
Apenas assenti e saí andando depressa. Não queria arriscar uma briga com um professor no meu primeiro dia no colégio. Voltei para a arquibancada, mas aparentemente todos os lugares já estavam ocupados, e havia uma centena de pessoas assistindo de pé.
Resolvi ficar na grade mesmo, dava pra ver muito melhor dali e não precisaria conversar com ninguém. Me apoiei ao lado de uma das traves de basquete, meio escondido. Nesse momento um grupo de garotos muito mais velhos que eu realizava várias apresentações de artes marciais, seguindo o ritmo da música ao fundo. Pelas idades, iam sair da escola esse ano. Ou até mesmo já haviam concluído as aulas ano passado.
Perguntei-me se as opções de esportes só incluíam esse tipo de coisa disciplinar e patriótica. A única que me dava chances de realmente ser bom era futebol, já que eu sempre conquistara o título de capitão em todas as escolas e internatos que frequentei.
No decorrer de uma hora, ao final daquela que era a última apresentação, a de uns meninos que tinham mais ou menos a minha idade com rifles (que eu desejei sinceramente não serem de verdade), uma figura paquidérmica subiu animadamente os degraus do palco ao fundo. O Sr. Rondarolli tocou com as pontas das salsichas que eram seus dedos algumas vezes no microfone, emitindo um som de alguém-à-porta que se espalhou pelo estádio.
Vendo que as conversas não haviam cessado, ele aproximou a boca bigoduda do objeto e gritou:
— Vou providenciar um encontro com a Madame Branca se não calarem a boca AGORA.
Quem quer que fosse a Madame Branca, a menção ao seu nome surtiu efeito. A plateia de alunos silenciou de imediato.
— Muito bem. Senhores e... hun, senhores, tenho a honra de iniciar oficialmente o ano letivo do Internato Rosa dos Ventos!
Uma salva de palmas dispersa e claramente forçada se manifestou aqui e ali.
— Primeiramente, muitas boas vindas ao nossos calouros desse ano. Não tenho palavras para descrever a profunda afeição que já sinto por todos vocês. Leiam as regras no mural e procurem os líderes de cada Ala para saberem em qual delas você está inserido. Para concluir essa incrível festa de recepção do ano letivo, cito o lendário lema de nossa escola: Compromisso com a virtude, valores e disciplina.
Assim que ele terminou de dizer isso, percebi que uma quantidade considerável de pessoas abafou o riso. Um garoto negro de cabelos dread-lock, de pé ao meu lado, pôs a mão na frente da boca para sua risada não ficar muito óbvia, no que foi acompanhado por seus amigos, que se controlavam para não rir também.
Felizmente, o Sr. Rondarolli não pareceu perceber nada disso, pois, no mesmo instante que acabou o discurso, aquilo que parecia ser o hino da escola começou a tocar ensurdecedoramente nos alto-falantes. Uma mistura sem ritmo de trombetas com violinos e tambores fez as pessoas que, aparentemente, pensavam e continuar por ali conversando, se retirarem apressadas.
Resolvi acompanhar o fluxo, sem a perspectiva de que qualquer coisa interessante fosse acontecer. De fato, mais de meia hora depois de terminada a comemoração, o hino continuava a soar desafinado ao longe. Me perguntei se estavam repetindo ou era essa a torturante duração dele.
Como não conhecia praticamente ninguém ainda, resolvi andar pelas dependências do colégio, o que o Sr. Rondarolli disse que faria comigo ao meu pai. Ao invés disso, tive certeza que ele estaria em sua sala, tomando um escalda-pés, ou brincando de atirar dardos em retratos de alunos que não gostava.
As sombras do fim da tarde começaram a surgir, e o sol se pondo projetou a silhueta em forma de penumbra da escola sobre os alunos que ainda perambulavam pelos jardins que rodeavam o prédio principal e a quadra.
Vários grupos se amontoaram aqui e ali, todos sorrindo e aproveitando para colocar as conversas em dia depois do período das férias, quando provavelmente a maioria viajou. Geralmente eu nunca me senti muito inibido para fazer amizades, mas a divisão entre grupos estava me parecendo... óbvia demais. As fronteiras entre eles estavam muito claras.
Sentei em uma pedra, que logo depois percebi ser uma reprodução em alto relevo do símbolo da escola: a rosa-dos-ventos. Não imaginei como a sensibilidade estética poderia ficar pior depois disso. Tirei o celular do bolso e chequei coisas aleatórias na internet, simplesmente porque não tinha mais o que fazer.
Depois de alguns minutos, ouvi um farfalhar de folhas indicando passos vindo em minha direção. Não ergui os olhos, na esperança de que, caso não travasse contato visual, me deixassem em paz, mas não deu muito certo.
— Ora, ora, não é sempre que encontramos carne nova por aqui. — Uma voz grave e melodiosa falou, já bem perto de mim.
Tirei os olhos do celular e encarei o garoto musculoso e de cabelos loiros curtos à minha frente. Ele não devia ter mais de dezessete anos, e me olhava com as mãos nos bolsos, avaliando se teria misericórdia ou transformaria minha vida num inferno.
— Achei que todos os anos chegassem calouros. — Respondi, num esforço para a voz não parecer vacilante.
Ele deu um sorriso desdenhoso, seus olhos verdes muito brilhantes.
— Sim, mas geralmente eles não são dignos de se notar...
Fiquei alguns segundos constrangedores sem saber o que responder, até que fui salvo pela voz do senhor Rondarolli soando por todos os alto-falantes. Só nesse momento percebi que o hino da escola já havia terminado de tocar.
— Caso não queiram levar uma notificação no primeiro dia do ano letivo, vão agora mesmo para seus respectivos dormitórios. A hora da moleza acabou!
O menino loiro se voltou para o alto-falante ao nosso lado, e logo depois de volta pra mim. Seu rosto expressava desafio.
— Nathan. — Ele disse, e virou de costas pra mim, caminhando pra dentro da escola com seu grupo de amigos.
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Tentei me mover entre a multidão de alunos que se espremiam em frente à grande escada que levava aos dormitórios. Foi a primeira vez que tive a real noção da quantidade de gente que cabia ali.
Depois de muitas paradas no meio do caminho, cheguei à minha ala. A maioria dos garotos me encarou, como crianças que observavam um presente embaixo da árvore de Natal e imaginavam se foi endereçado a elas.
Evitando olhar qualquer um nos olhos, atravessei o corredor e cheguei à porta de meu quarto, imensamente envergonhado. A porta se abriu com um movimento simples na maçaneta.
E lá estavam eles, meus novos colegas de quarto.
— Iaê. — Um deles disse. Estava sentado na cama mais próxima à porta, e percebi que acabara de vestir a parte de cima do pijama. Ele tinha cabelos pretos cheios e a pele branca.
Respondi a ele com um aceno amigável de cabeça. Deitado na cama ao lado da dele, um garoto negro, já vestido para dormir, lia atentamente uma revista que me pareceu muito suspeita. Reconheci-o da quadra, por causa de seus dread-locks.
O meu terceiro e último colega de quarto estava de costas pra mim, penteava-se olhando-se no espelho usando apenas uma toalha branca amarrada na cintura. Ao ver o reflexo de seu rosto, engoli em seco. Era o garoto loiro que havia falado comigo lá embaixo. Ele olhou pra mim, ainda pelo reflexo, e acenou com o polegar pra mim como se nunca tivesse me visto antes.
Fui até a cama onde, mais cedo, havia encontrado meu crachá. Pendurei-o novamente no suporte acima da cabeceira, e me virei pra tentar ver se enxergava o nome de meus companheiros.
— Se quiser tomar banho, suas coisas já devem estar no guarda-roupa. E tem toalhas no armário aqui. — Disse o loiro, ainda passando lentamente a escova nos cabelos e mirando-se no espelho. Ele apontou o armário ao seu lado.
— Ah, obrigado. — Respondi, tentando chegar ao mesmo nível de disfarce na voz que o outro estava conseguindo.
Abri o guarda-roupa, selecionando um dos pijamas que havia trazido. Depois, andei até o armário, o carpete felpudo atritando nos meus tênis. Me abaixei pra abrir a gaveta de baixo onde se lia “Toalhas”, em uma letra dourada, evitando ao máximo encarar o garoto ao meu lado.
— Qual o seu nome? — Ele me perguntou, quando dei as costas para entrar no banheiro.
Hesitei em responder por meio segundo.
— ...Ulisses.
Ele fez um “hun”, como se a informação tivesse um mínimo de interesse. Sem esperar mais nada, entrei no banheiro.
...
Fiz o possível pra prolongar o banho o tempo que fosse possível. Tudo que eu menos queria era voltar lá e ter que passar na frente do tal Nathan de novo. Assim que a demora começou a ficar muito estranha, desliguei o chuveiro e me enxuguei. Vesti meu pijama lá dentro mesmo.
Quando saí, o garoto negro e o que falou comigo quando entrei já estavam deitados, possivelmente dormindo. A única luz vinha do abajur do meu criado-mudo e o de Nathan. Ele estava sentado na cama, encostado na cabeceira e a luz do celular iluminando seu rosto.
Passei velozmente pela cama dele, que era vizinha à minha, e praticamente me joguei no meu colchão. Desliguei meu abajur, me cobri e fiz o possível para não fazer barulho algum durante o resto da noite.
O sono me pegou logo depois, e embora eu só fosse admitir isso muito tempo depois, a última coisa que me lembro foi de como fiquei ruborizado ao ter a impressão de que ele me fitava pelo canto do olho de tempos em tempos.
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