Rosa dos Ventos
1 I • Rosa dos Ventos
Notas iniciais

TALVEZ FOSSE AS NUVENS passando rápido demais sobre minha cabeça, ou então a expectativa de começar numa nova escola (onde, diga-se de passagem, eu ficaria preso durante três anos), a verdade é que, quando olhei para a janelinha redonda na parte mais alta da entrada da escola, meu primeiro reflexo foi sentir vontade de vomitar. Ao olhar para os lados acrescentei aos motivos dos enjoos as duas estátuas de leões, na ponta do corrimão da escada de entrada, olhando pra mim mais vivas do que deveriam parecer feitas de mármore. Cerrei um pouco a vista para enxergar o nome do colégio Rosa dos Ventos logo acima da porta, brilhando com uma ofuscante letra dourada e com a frase "Compromisso com a Virtude, Valores e Disciplina" abaixo dele.
— Quer andar logo com isso? — Meu pai disse, enquanto passava por mim, visivelmente irritado com minha parada momentânea. Notei que continuava com a obsessão de conferir o celular no bolso da calça a cada cinco segundos.
— Tá, tanto faz.
Talvez nossos diálogos possam soar como grosseria ou falta de amor para alguns, mas a verdade é que... bem, a verdade é essa mesmo. Desde que eu me entendo por gente não vou com a cara dele, e eu considero que tenho muitos motivos pra isso, como o fato de ele ter se separado de minha mãe quando eu tinha só cinco anos e nossa família ter virado uma porção de cacos soltos desde então. Cada um seguiu sua vida: minha mãe em sua carreira de redatora pra uma revista importante; ele em seus negócios da montadora de carros que nem sei o nome. E eu sendo enviado a cada ano para um internato diferente por não conseguir me encaixar direito na agenda de ambos.
Enquanto eu estava ali, de pé na frente de minha escola nova, onde cursaria o Ensino Médio, uma etapa da vida normalmente considerada importante pela maioria dos pais, minha mãe muito provavelmente comia um bombom de licor espreguiçando-se no convés de um navio na costa da Itália.
Esperei as janelas do carro se fecharem sozinhas e, finalmente, o alarme soar anunciando o fechamento automático.
O desânimo no rosto de nós dois era deprimente.
Juntos, subimos as escadas do Internato Rosa dos Ventos.
✧
Não demorou muito, percebi que aquele devia ser um dia especial, pois um grande barulho vinha da quadra externa do colégio. Estava separada do bloco principal por um muro bem alto, o que não me permitiu ver o que se passava lá dentro. Uma centena de pessoas gritavam em comemoração e ouvi o som de cornetinhas de plástico.
A alça de ferro da porta se encontrava comicamente presa na boca de um leão, cuja cabeça ficava no lugar da fechadura e dentro de um outro símbolo em forma de estrela que reconheci dos livros de geografia, mas não lembrei seu nome.
O celular de meu pai emitiu um bipe, atraindo a atenção dele na mesma hora. Sem desviar os olhos da tela do aparelho, ele tocou a campainha.
As portas pesadas se abriram sozinhas magicamente. Fiquei pensando se Deus finalmente havia feito algo útil e me levado pra estudar em Hogwarts quando um funcionário da limpeza sorriu pra gente de trás delas. Tinha o rosto redondo, com um bigodinho ralo e olhos pequenos.
— Olá, bom-dia, vou avisar ao patrão que os senhores estão aqui.
E saiu apressado, carregando um esfregão molhado e deixando seu trajeto marcado à água no chão brilhante.
Quando olhei realmente para onde estava, o ar pareceu subitamente me faltar.
Uma escada imensa, como uma versão da que era vista na entrada em proporções gigantescas roubava a atenção sobre qualquer outra coisa no lugar. Parecia ter sido concebida realmente para ser enorme e suntuosa, erguendo-se do chão como um ser ctónico para o ar puro, e em direção ao céu. Eu quase podia sentir sua gravidade.
Abalado pela visão incrível da escada, demorei a perceber uma figura rotunda se aproximar pelo corredor à esquerda dela. O homem devia ter lá seus duzentos quilos, todos acumulados em sua barriga e bochechas. Assemelhava-se a uma almôndega móvel, e ele parecia mais engraçado ainda por usar um calção como os de jardineiro, só que cor de cocô e um crachá platinado que exibia seu nome.
— Senhor... Rondarolli? — Falou meu pai, tentando soar cordial ao observar o crachá. Percebi que na verdade ele queria rir do sobrenome do homem. Não discordávamos de tudo, afinal.
— Isso mesmo, meu jovem, isso mesmo. — Ele falou, e deu uma risada em muito parecida com a do Papai Noel. — Vocês devem ser os Pompeia.
— Meu nome é Roberto, muito prazer. — Disse meu pai, estendendo a mão. Manteve a outra segurando firmemente o celular, preparado para qualquer chamada.
— E você deve ser... — O gorducho olhou pra mim, fingindo fazer um esforço para lembrar meu nome. Era óbvio que ensaiara o encontro muitas vezes e já sabia meu nome bem melhor do que eu mesmo.
— Ulisses.
— Sim! Ah, muito bonito esse nome, tem origem grega, sabia disso? — Ele falou, como se aquela informação tivesse saído em última mão no jornal da noite.
— Ahn... é romana, na verdade.
Ao meu lado, o celular de meu pai emitiu mais um bipe. Ele leu rapidamente a mensagem e se aprumou.
— Minha nossa... eu estou muitíssimo atrasado. Importam-se de ver o colégio sozinhos? Até mais tarde. — Ele disse, sem esperar resposta e foi em direção à porta, já falando ao telefone e sem olhar para trás.
Tentei não ficar muito magoado com isso, pois, apesar de não nos darmos muito bem, era o mínimo ele pelo menos ver onde eu ia ficar trancafiado o próximo ano inteiro. Não pensei muito nisso, pois assim que ficamos a sós, o rosto que havia se tornado subitamente sombrio do Sr. Rondarolli me encarou.
— Na entrada de cada ala existe um mural de regras a serem seguidas. Caso eu tenha conhecimento que algumas pessoas faltaram com o que está escrito ali, a punição não vai ser nem um pouco saudável. — Ele falou, dando bastante ênfase em toda a frase.
Eu engoli em seco, algumas gotas de suor se formaram em minha testa.
— Seu quarto é o último da Ala Oeste. Suas coisas já estão lá. Agora vá. — Ele completou com a voz alterada que me fez sair andando na velocidade da luz.
O problema não foi achar o dormitório, a Ala, ou o quarto, o problema foi subir a escada.
Aquele monstro devia ter mais ou menos um milhão de degraus. Cada um dos corrimãos ricamente trabalhados separados por uns dez metros. Ela se bifurcava no meio do caminho, onde uma plaquinha me informou que um dos lados ia dar na Ala Leste e o outro, na direção exatamente oposta, na Ala Oeste. Me perguntei onde ficariam os outros dois dormitórios, Norte e Sul, pois a escada não levava a mais nenhum lugar.
Depois do que me pareceu uma escalada ao Kilimanjaro, e de recuperar o fôlego apoiado no final do corrimão por uns dois minutos, um enorme corredor apareceu à minha frente. Pendurada no portal de acesso, outra placa em madeira dizia:
ALA OESTE
Um cheiro de algo que me lembrou de um óleo usado para lustrar móveis invadiu meu nariz, trazido junto com a corrente de ar que saiu dali. O chão era todo forrado com um carpete verde escuro, que realmente ficava muito bonito com a decoração em madeira do lugar.
Como dito de forma muito simpática pelo senhor Rondarolli, o mural com as regras estava postado junto à parede. As letras pintadas em ouro listavam uma série de doze tópicos, cada um deles deixando bem óbvias as diretrizes autoritárias do internato. Entre elas, localizei uma que me pareceu particularmente irritante:
É expressamente proibido o trânsito pelos corredores e dependências do colégio sem a utilização do crachá magnético de identificação, que contém o nome, idade, ala e número do quarto do aluno.
Aquilo me deixou profundamente agoniado, porque, além de meu incrível dom de perder objetos importantes, era confortável andar por aí sem as pessoas saberem necessariamente o seu nome.
Deixando de lado a placa, olhei novamente para o corredor, e, numa análise rápida, estimei que houvesse mais ou menos dez portas em sua extensão Cada uma delas exibia um número em dourado, e as fechaduras traziam a mesma imagem do leão exibida na porta de entrada do internato. O primeiro quarto tinha a imagem de um número 1 inscrito numa seta que apontava para a esquerda, assim como o segundo quarto um número dois e assim sucessivamente.
Caminhei lentamente, admirando cada uma das portas. Era meio estranho pensar que, num dia normal, aquele lugar estaria esbanjando barulho e vida, pois nada mais do que silêncio saía das portas. O único som vinha da aparentemente-muito-animada festa na quadra lá fora.
6... 7... Eu contei, agora já muito mais perto da janela no fim do corredor. Lá fora, o céu brilhava intensamente em azul.
Percebi que a perspectiva de conhecer o lugar onde eu passaria o próximo ano estava me deixando meio nervoso, pois meu coração estava acelerando de uma forma esquisita.
Então a seta que apontava para a esquerda com um número dez dentro de suas linhas reluziu na altura de meus olhos. Tentei não tremer ao tocar a maçaneta e girá-la. A porta fez um clique delicado e se abriu com maciez.
Minha. Nossa. Senhora. Eu deixei escapar.
Eu não costumava me regozijar muito pela quantidade de dinheiro que meu pai dispunha, mas nesse momento só consegui pensar em como eu tinha sorte por isso.
O quarto, iluminado à meia-luz por conta da persiana abaixada, tinha quatro camas de solteiro e cada uma provavelmente custava umas cinco vezes um salário mínimo.
Tive a impressão de estar sentado no próprio céu quando meu corpo afundou graciosamente no colchão. Levantei-me, animado, e abri o guarda-roupa, onde as minhas roupas jaziam arrumadas, passadas, e com um leve cheirinho de... elegância.
Fiquei alguns minutos distraído com a beleza do lugar, em seus tons de marrom e verde, até que um barulho de tambores começou a soar por todo o quarto. A festa lá fora estava ficando boa.
Não demorei a localizar a porta da suíte em um dos cantos, e tomei um banho bem rápido. Resolvi arriscar a sorte e não usar o uniforme do colégio nesse dia, afinal as aulas ainda não haviam começado.
Saí apressado, com o som de uma música muito animada reverberando e meus sapatos roçando no carpete macio. Em poucos segundos alcancei o fim do corredor da Ala Oeste e o lance leste da escada gigantesca apareceu aos meus pés.
Por incrível que pareça, era quase divertido descê-la, apesar da quantidade exagerada de degraus. Era como se você estivesse vindo diretamente do céu, escorregando pelo Pé-de-Feijão, ou algo assim. O som dos meus passos ecoou pelo salão de entrada, e provavelmente não chegou aos ouvidos de ninguém. Estava tudo muito calmo. A realidade de ver aquele lugar apinhado de alunos ainda era meio distante do que eu podia imaginar.
Pisei no último degrau e corri na direção de onde vinha a música, à direita da escada. Quando mal comecei dar a curva pela sala que se localizava imediatamente vizinha à ela, meu coração parou por uns dois segundos, pois a regra que me deixara incomodado piscou em minha mente.
O meu crachá de identificação.
Eu havia me esquecido completamente. Onde diabos aquilo estaria? No quarto? Durante o tempo que eu ficara lá a existência dele nem passou pela minha cabeça. Resolvi dar meia volta na mesma hora.
Virei-me e comecei a correr novamente, então um corpo se materializou exatamente à minha frente. Atingi quem quer que fosse com muita força, e cada um de nós dois caiu para um lado. Soltei um urro de dor quando caí de costas no chão e o ar fugiu de meus pulmões.
— Aaargh... mas o que... ai minhas costas. — Gritei, profundamente irritado, tentando levantar o pescoço pra enxergar em quem eu havia dado um encontrão.
O garoto se levantou, igualmente abalado, e me olhou com um medo muito grande. Talvez mais do que o necessário.
— Eu... perdão. Você se machucou? — Ele perguntou, estendendo a mão pra que eu me apoiasse.
— É claro que me machuquei.
Ele pareceu se encolher, observando os lados com tensão no olhar, como se estivesse fazendo algo muito errado. Enquanto me ajudava a levantar pude ver seu nome no crachá que ele trazia no peito. Edgar.
O menino, o tal Edgar, saiu andando depressa assim que terminou de me ajudar, na direção da festa. Foi só quando ele desapareceu na pequena curva que percebi que, a menos que ele tivesse pulado do topo da escada até o último degrau, não teria como eu trombar com ele na volta sem ao menos tê-lo visto descendo a escada. Afastei o pensamento e tomei coragem para subir todos aqueles degraus de novo.
Meu crachá estava encaixado num suporte na parede, bem acima da minha cama. Fiquei alguns segundos olhando meu nome brilhando no platinado reluzente, quando descobri que ele possuía um mecanismo de broche para ser pendurado na camisa. Assim o fiz e desci novamente a escada.
Cheguei lá embaixo ofegante, mas não menos animado. Senti o sangue pulsar mais forte quando toquei na porta que, percebi pelo som que vinha do outro lado, me levaria até a quadra. Onde eu conheceria as pessoas que seriam meus colegas durante esse ano. Ou talvez até amigos.
Com um empurrão, abri a porta para meu futuro.
Fale com o autor