Rosa-do-Deserto
1 Capítulo único
Inasa era um girassol. Desses grandes e vigorosos, que se levantam pela manhã repletos de energia, cumprimentando o dia com força, calor e amorosidade. Perto dele, Todoroki se sentia pequeno, uma dessas ervas daninhas rasteiras, de flores pequenas e sem graça.
Bem, não deixava de ser. Todoroki sabia que era uma pessoa desinteressante e muitas vezes complicada de lidar. Tanto que ele jamais entendeu muito bem o interesse que o outro rapaz demonstrava por si, aquela necessidade de trocar mensagens, e conservar, e marcar para saírem, passearem e visitarem lugares pouco ortodoxos, como este jardim botânico em que eles se encontram neste exato momento, ambos diante de aquele pé gigantesco de girassol, mais alto que o próprio Inasa.
Por mais que, com o tempo, o quieto rapaz tivesse aprendido a apreciar (e muito) a presença inquieta e barulhenta do gigantesco amigo – amigo? Sim, o próprio Inasa já havia se referido a ele utilizando esse termo – tê-lo por perto significava ser comprado com ele, e isso era quase humilhante. Era o que o meio ruivo pensava até ser surpreendido por um chamado animado:
—Ah! Vem ver, Shoto! Ela está florida! Vem ver!
O menor logo se aproximou de seu barulhento companheiro, já acostumado a ter todos os olhares ao redor voltados para si quando o grandalhão começava a falar alto demais e a apontar para as coisas que achava interessantes, exatamente como ele fazia agora diante de uma planta estranha e retorcida em um vaso de concreto.
Tinha não mais do que meio metro de caule grosso e raízes aparentes, algumas poucas folhas e por fim, bem no topo, uma única e pequena flor de pétalas matizadas entre o branco e o vermelho.
—Ela se parece com você. Não acha? –Aquela fala pegou Todoroki de surpresa e o fez olhar com mais atenção ainda para a flor. A semelhança com as cores de seus cabelos era óbvia demais, e por mais lisonjeiro que fosse ser comprado com uma flor, o elogio tomava tons de deboche quanto mais Todoroki olhava para aquela única flor, tão pequena e simples se comparada à imensidão de planta. –É uma rosa-do-deserto! Essa variedade específica, com essas cores, é bem rara, nativa do sul da Angola, bem no deserto do Kalahari mesmo. –Ele continuou a falar, e seu olhar era direcionado aquelas pétalas com tanto encantamento que o menor fez o mesmo, repentinamente interessado pela acanhada flor. –É uma das poucas plantas que consegue se desenvolver em um ambiente tão inóspito. Ela suporta a variação extrema de temperatura que se dá entre o dia que ultrapassa 50ºC e a noite congelante do deserto, abaixo de 0ºC. Ela só floresce se exposta a muito sol, mas também consegue aguentar geadas. Incrível, não?
Toda aquela fala genuinamente surpreendeu o menos, que jamais imaginou que Inasa detinha conhecimentos tão extensivos a respeito de botânica.
—Como você sabe isso tudo?
—Eu li aquela placa. – O moreno respondeu um pouco encabulado. Era impressão, ou suas bochechas estavam um tanto coradas?
—Você decorou todo o conteúdo da placa?
—É que essa é minha flor favorita.
—Por quê?
—Por que me faz pensar em você. – Ele respondeu com simplicidade, o tronco curvando-se para frente, a cabeça baixa, quase conseguindo esconder o rubor que agora se espalhava até por suas orelhas. –E você é a minha pessoa favorita. Por favor, saia comigo.
Surpreendido pelo pedido repentino, Todoroki observou o grande girassol que se erguia às costas de Inasa. Era impressão sua, ou o girassol estava olhando na direção da rosa-do-deserto? Será que ela conseguiria dar mais flores, agora que teria tanto sol a disposição?
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