Rosa De Sangue - O Retorno
1 Minha Fuga
Notas iniciais
Finalmente... Consegui fugir daquele lugar. O tempo confinada naquele mísero e infeliz quarto estava começando a me enlouquecer. Minhas forças... Creio que demorarei para recuperar tudo o que me foi sugado injustamente. Mas agora sei que posso ficar mais tranquila, não estou mais nas mãos daqueles demônios; agora sim posso dizer que estou livre.
Ah sim, estou escrevendo outro diário. Descobri que preciso de alguma coisa que contenha todos os meus pensamentos, isso me ajuda a raciocinar. A única diferença é que escreverei as coisas na mesma cronologia, ou seja, não faço a mínima ideia do que me aguarda e todas as minhas inseguranças e alegrias serão registrados aqui. Bem, se em um diário se contam coisas úteis e inúteis sobre a vida, acho melhor eu começar contando de onde parei: a minha fuga.
–
Era um dia como outro qualquer: escuro e infeliz. Eu estava sentada na pequena cama, aproveitando o raro momento de sossego e escrevendo em meu diário. Sim, tudo aquilo que vocês leram foi escrito nesse cenário: uma Lin jogada em uma cama minúscula aproveitando um livreto e caneta que achou perdidos ali mesmo aproveitando a pouca luz que a pequena janelinha deixava entrar no quarto.
Enquanto escrevia, escutei algum barulho vindo do lado de fora e imediatamente escondi o diário e a caneta no fino cobertor, — por sorte, eu já havia acabado a anotação — cruzando as pernas e esperando ser puxada para mais uma das cessões de experimentos. Creio não ter comentado sobre isso ainda, leitor.
Imagine tudo o que há de mais maligno no mundo. Agora converta isso em aparelhos e bugigangas de um laboratório: era para esse lugar que me levavam pelo menos uma vez ao dia. Eles mediam minha pressão, verificavam o status da minha energia. E depois me jogavam em uma cúpula totalmente fechada e lá drenavam toda a energia que conseguiam; certas vezes eu chegava a desmaiar. Não sei ao certo, mas minha magia estava sendo usada para a criação de algo... Creio ser uma arma, bem, isso não importa mais. Quando estavam satisfeitos, me jogavam novamente naquele cubículo.
Voltando ao que eu estava contando, a porta se abriu e a frágil criatura entrou.
– C-Com licença? Senhorita Lin?
Era apenas a empregada de quem estava me mantendo presa, a haros de quem falei antes. Seu nome era Régia e, ao contrário do que muitos devem estar pensando, ela não se parecia nem um pouco com o caçador a não ser pelo tom de pele e orelhas pontudas. Seus cabelos eram brancos e seus olhos amarelos, tinha baixa estatura e uma expressão muito gentil. Mesmo sabendo que ali eu era apenas uma cobaia usada para experimentos, ela sempre me tratou muito bem e por isso ganhou minha simpatia.
– Ah... É você, Régia. — Deixei escapar um sorriso ao vê-la, sempre fazia isso.
– Como a senhorita está hoje? — Ela tinha um belo sorriso bondoso e involuntário no rosto. Confesso que antes de conhecê-la, eu pensava que todos os haros eram malignos e não tinham amor no coração.
– Como sempre... Se eu dissesse que estou bem, estaria mentindo. — Respondi enquanto observava-a limpar o recinto.
– Eu queria poder ajudar... S-Sinto muito, senhorita... — Suspirou insatisfeita, como se estivesse se condenando por não poder fazer nada.
– Não se preocupe com isso, eu vou fugir desse lugar um dia. Você vai ver, Régia! — Essa esperança era uma das poucas coisas que ainda me faziam ter vontade de levantar da cama todos os dias, por mais infernais que eles fossem ali. A humilde empregada sempre me olhava com seu melhor sorriso quando me escutava dizer isso.
– Ah, você vai sim, senhorita. Eu acredito no seu potencial, você é muito determinada!
– Mas ele não foi o suficiente para evitar que o caçador me pegasse, não é? — Suspirei, derrotada. Aquilo sempre me incomodara, desde o primeiro momento em que estive ali.
– Não se culpe, esses Caçadores de Recompensas são muito bem treinados... — Hesitou por alguns momentos. — Ahn, se me permite saber, quem era o caçador que te pegou? Sabe, você nunca comentou isso e é uma curiosidade minha...
– O nome dele era Lupus Wild. — Disse imediatamente, aquele nome nunca mais saiu da minha cabeça.
– L-Lupus... Wild? — Gaguejou Régia. Pude ver o espanto expresso em seus olhos.
– Sim... Você o conhece?
– M-Mais ou menos... — Gaguejou ela por uma segunda vez, engolindo em seco. — Já o vi fazendo seu trabalho. Eu estava em uma feira do vilarejo comprando alguns mantimentos quando o barulho dos tiros tirou toda a calma dali. As pessoas começaram a gritar e algumas até correram desesperadas, foi quando ele saltou por cima da minha cabeça. Trajava roupas vermelhas e segurava um par de armas de fogo... Estava correndo atrás de um espírito fugitivo e conseguiu encurralá-lo ali mesmo. O espírito ajoelhou-se, suplicando por uma segunda chance... O caçador nada disse, apenas exterminou-o ali mesmo. Tinha o olhar mais frio do que o gelo... As pessoas até desviaram o olhar quando ele virou e começou a fitar todos os presentes. Ouvi dizer que ele era Lupus Wild, o melhor e mais temido Caçador de Recompensas de Hades. — Ela olhou para os lados e aproximou-se um pouco para cochichar algo. — Até os que já estão mortos o temem. Não se culpe tanto por ter sigo pega por ele.
– Eu entendo o por quê...
– Ah! Eu tenho que voltar para a cozinha. — Suspirou Régia. — Mais tarde eu volto aqui, vou tentar trazer-lhe um chá bem fresquinho, certo? — Sorriu ela, correndo para fora do quarto enquanto acenava de costas e carregava sua vassoura com a outra mão.
Mal sabia ela que essa era a última vez que ia me ver.
O tempo passou e escureceu, estranhamente nesse dia não tinham me levado para nenhum tipo de experimento. Eu estava sentada na cama, abraçada às minhas próprias pernas. Escutei leves batidas na porta e olhei, temendo o pior.
A porta abriu-se levemente e dela caiu um embrulho. Em seguida porta se fechou; isso foi o suficiente para me deixar curiosa. Fui até o embrulho e o abri; para minha surpresa, era meu leque. Minha arma que eu tinha perdido quando morri... Não pude deixar de sorrir. Junto dele havia um bilhete:
"Senhorita Lin, encontrei isto no meio das coisas do meu Senhor e creio que seja seu. Estava junto de alguns papéis que diziam respeito a você, pensei em devolvê-lo. Desculpe por não voltar mais tarde, não consegui sair da cozinha pois estava sendo vigiada. Espero que isto te ajude!"
– Régia... — Cochichei. Uma lágrima desceu de meu rosto.
O que dizia no bilhete realmente tinha sentido: lembro-me de algumas partes da discussão de Lupus com o haros que queria me comprar. O haros exigia ter também a minha arma, por acreditar que nela também há resquício de magia, ou se não o caçador não recebia o pagamento completo. Lupus deve ter voltando ao lugar onde me matou e recolhido meu leque.
Aquela era a oportunidade perfeita; estava escuro e não havia mais nenhum guarda lá fora. Mas o quarto era todo revestido de magia e não tinha como sair dali... Eu tinha que pensar em alguma coisa. Foi aí que olhei com certa malícia para a janela.
Usando o leque e rezando mil preces a Ernasis, lancei uma forte rajada de vento contra a janela encantada. Esta se rachou, o que arrancou um sorriso do meu rosto; então eu conseguia mesmo quebrar a magia com os meus ventos. Nada mais justo, afinal Agnécia também ajudou.
Mais algumas rajadas e a janela finalmente se quebrou e eu não perdi tempo. Pulei-a e saí correndo, rindo satisfeita com o que tinha feito. Finalmente estava livre... E um dia voltaria para buscar Régia. Ela não merece viver naquele lugar.
–
E essa foi a emocionante — ou não — história da minha fuga. O que estou fazendo agora? Fugindo de todos os Caçadores de Hades e procurando um portal para Ernas. Preciso encontrar o meu corpo e arrumar alguma maneira de voltar para ele... Se é que isso é possível. Se não for, farei que seja. Mas primeiro preciso sair daqui ainda existindo... O que não vai ser nada fácil.
Aliás, você leitor deve estar se perguntando onde infernos eu estou escrevendo já que esqueci o meu primeiro diário no cubículo onde eu estava. Bem, eu só sei que enquanto fugia entrei em uma loja de conveniências e lá furtei um outro livreto e uma caneta quando percebi que havia esquecido o meu antigo diário.
Sim, talvez eu seja mesmo louca.
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