Rosa De Sangue
7 Final
Notas iniciais
Em um momento, eu podia dizer com toda a certeza do mundo que iria morrer; em outro, quase no mesmo segundo de antes, já podia dizer que estava em perfeitas condições de batalhar e até mesmo de matar qualquer um. Transformações assim deviam ser ditas como normais quando se tem a alma de uma Deusa bastante poderosa aprisionada no corpo, mas Agnécia nunca fez algo parecido. Se ela fez, significa que a situação era mesmo muito séria.
Levantei-me do chão, minhas pernas estavam mais leves. Olhei para o meu corpo; minha pele estava incrivelmente mais clara e havia alguns desenhos na cor azul-celeste pintados nela. Também havia uma espécie de grande bracelete em meu punho direito. Mas o que mais me impressionou foram as grandes asas de anjo que se projetaram de minhas costas: uma branca e outra negra. Confesso que perguntei-me o por quê de uma das asas ser negra, mas eu não estava com tempo para descobrir isso. Resolvi então encarar o caçador.
Em um primeiro momento, pude perceber a perplexidade com que os olhos rubros me encaravam. Parece que até mesmo ele nunca tinha se deparado com tamanha transformação em tão pouco tempo, o que de certa forma me aliviou um pouco. Mas o alívio esvaiu-se ao perceber o sorriso que surgira no rosto do haros. Ele parecia mesmo gostar de um bom desafio, visto que não demonstrou medo algum.
– O que foi, Agnécia? Tentará salvar seu corpo humano? Não me faça rir.
Se perceber o muxoxo de desgosto de uma deusa mentalmente fosse possível, eu podia jurar que Agnécia estava nervosa.
Não esperei nenhuma outra provocação do caçador, apenas avancei. De alguma forma, eu sabia tudo o que eu podia ou não fazer. Voei até ele com toda a velocidade que conseguia e usando uma das mãos, lancei uma forte rajada de luz. Não era uma luz qualquer: era algo muito mais poderoso e com uma magia imensa. Foi algo repentino, mas bem óbvio; o caçador esquivou para o lado e pôs-se a atirar inúmeras vezes contra mim. Protegi-me com a asa branca; os tiros não causaram tanto dano como causariam se eu ainda estivesse normal.
Ele rolou para o lado e pude ver sua scarlet direita brilhar. Fui mais rápida e apenas apontei para o chão onde ele estava: uma rajada de luz o jogou para cima. Aproveitei para criar pequeno foco de raios exatamente no lugar onde ele iria cair. O caçador gritou de dor e em seguida se jogou para o lado oposto; algumas feridas suas começaram a sangrar. Levantou-se com alguma dificuldade, firmando as scarlets nas mãos; ele iria tentar algo ainda mais sério. Avançou contra mim e eu simplesmente não soube o que fazer. Esquivei-me para a esquerda mas ele parecia já saber que eu faria isso. Tudo o que fez foi curvar levemente seu próprio corpo, posicionando suas scarlets.
– Tempo da Bala!
O corpo do haros girou em uma velocidade incrível, espalhando balas para todos os lados. Eu estava perto demais, é claro que fui atingida em cheio pelas piores balas. Minhas asas não aguentaram tamanha violência, os tiros passaram rasgando elas e meu corpo. Caí no chão, sentindo uma dor enorme.
Não esperando eu me recuperar, o caçador apontou sua scarlet direita para mim e essa brilhou de certo jeito demoníaco.
– Delegar!
Uma bala com o triplo de força de um tiro normal fora alojada em minha barriga. Cuspi bastante sangue mas me levantei antes que ele pudesse atacar de novo. Eu não podia me render.
–
Juro por Ernasis que lutei com tudo o que tinha, mas aquilo já estava gastando tempo demais. O caçador estava ainda mais ferido: suas roupas estavam rasgadas, havia ainda mais cortes, machucados e hematomas de diversos graus espalhados por seu corpo. Mas ele em momento algum queria desistir e muito menos eu. Ele era persistente e eu já estava sentindo as minhas forças acabarem... Agnécia estava ficando sem poder. Fui obrigada a parar um pouco e a tentar recuperar algumas forças.
"Essa transformação é temporária, Lin. Acabe logo com isso."
Essa frase não foi nada animadora, principalmente pelo fato de Agnécia não se sentir segura ao pronunciá-la. Podia ser uma grande concentração de poder capaz de muitas coisas, mas tinha um terrível porém para a situação: era temporária.
Estava tudo muito quieto, apenas eu e o caçador ali parados. O silêncio nunca é um bom sinal. Eu ainda conseguia voar mas sabia que devia poupar energia; comecei a caminhar ao redor do caçador, que permanecia parado e de cabeça baixa, a procura de um ponto fatal que eu pudesse atingir. Não sabia o motivo de ele permanecer parado por tanto tempo; apesar disso, era uma boa chance e eu não podia deixar passar. Concentrei um fraco ponto de luz em minha mão e, mesmo receosa, avancei. Estava com um mal pressentimento.
Enquanto eu avançava, ele finalmente levantou a cabeça. Seu olhar era assassino, sua expressão extremamente séria; parecia ter perdido a paciência. Algo surgiu em seu punho esquerdo... Eram chamas... Azuis. Aquilo me apavorou o suficiente para que eu perdesse a coragem.
Abalada, mirei minha mão com o imenso poder acumulado para o rosto do caçador, mas ele abaixou seu corpo. E me acertou um soco na barriga, exatamente no lugar onde já havia um buraco feito pela bala que ele alojara em determinado momento da batalha.
...
A dor era descomunal, algo impossível de ser descrito com meras palavras. Senti as chamas azuis corroendo meu interior enquanto eu estava caída no chão, paralisada. A magia de Agnécia conseguiu fazer com que a paralisia passasse, me fazendo conseguir levantar. Ainda tinha condições de batalhar, mas estava assustada demais. Comecei a sentir-me incapaz.
Levantei a cabeça e fitei o oponente. Mesmo com todos os hematomas e sangramentos, voltara a sorrir daquela maneira demoníaca; as chamas libertadas pareceram ter ajudado-o a se recompor dos ferimentos. Ambas as mãos, apesar de estar segurando as scarlets, estavam tomadas pelas chamas; os olhos incrivelmente vermelhos refletiam a luz azulada, sedentos por sangue. Minhas pernas tremeram, um frio passou por minha espinha. Senti o pior pressentimento da minha vida.
– É o seu fim... — Sussurrou o caçador, com a voz fraca, enquanto invocava e jogava seis granadas ao ar. Meu olhar, incrédulo e medroso, apenas seguiu os projéteis.
– Disparo Final!
"Lin! Não!!"
...
As seis granadas explodiram praticamente ao mesmo tempo, destruindo tudo ao redor. Eram explosões quase impossíveis de serem descritas... Tanto poder em apenas um ataque. Resquícios das chamas azuis ajudavam a dar ainda mais poder de destruição às explosões... Ao fim delas, alguns tiros invadiram o campo de batalha, a fim de acertar mais algum inimigo. Mas eu já estava caída ao chão; não conseguia me mover, não sentia mais o corpo. A transformação de Agnécia permitiu que eu sobrevivesse a isso. Meus olhos queriam se fechar... Eu sabia que se fechassem, nunca mais iriam abrir.
Minha cabeça tombou, me fazendo olhar o chão ao meu lado; havia uma poça de sangue lá, meu sangue. Algo se materializou na poça... Era uma... Rosa. Uma rosa vermelha, banhada em sangue; exatamente como meus sonhos. Ela não parecia real... Tinha um brilho angelical, parecido com o da magia da minha transformação. Eu estava delirando...?
Um pé pisou na rosa, a fazendo desaparecer. Olhei para cima e vi o caçador, com a arma apontada para a minha cabeça. Se eu conseguisse falar, o imploraria que me matasse e que acabasse com a dor que eu sentia.
– Lupus... — Ele disse, colocando o dedo no gatilho.
Olhei-o sem entender o sentido da palavra.
– Meu nome é Lupus Wild.
E então eu só ouvi o barulho do tiro sendo disparado. Depois, tudo ficou preto.
–
"- Quem é você e de que inferno você brotou?
– Não se preocupe, revelarei segundos antes de te matar, reencarnação de Agnécia."
–
Não sabia exatamente o que tinha acontecido, mas eu estava imersa em algum lugar escuro. Tentei olhar para os lados e achar uma saída, mas em vão; estava tudo negro. Era como se eu estivesse presa no nada, tudo perdeu o sentido. Meus poderes, meus amigos, minha vida... Como se tudo isso nunca tivesse sentido algum. Lembrei-me de Mari, Azin, Sieghart. Também lembrei-me da minha vila, os sacerdotes que se sacrificaram para que eu pudesse viver. Senti ter decepcionado todos eles, pois só havia uma certeza: eu estava morta.
Foi quando eu tive essa certeza que uma mão me puxou e me tirou daquele "lugar".
– Você é bem teimosa, me deu um trabalho que eu não precisava ter tido. — O caçador revirou os olhos, estava diante de mim.
– Mas... O quê... — Antes que eu pudesse perceber o que estava acontecendo, ele me amarrou com algum fio que com certeza não era normal. Eu conseguia ver tudo de novo, tinha voltado ao mundo. Acabei vendo também o que eu não queria: meu corpo estirado e ensanguentado no chão.
– Eu... Estou mesmo morta? Sou um espírito?
– Não é óbvio? — Respondeu arrogante Lupus, que já me carregava para fora dali.
– Para onde está me levando?
– Você logo saberá.
Apenas me calei, não havia mais nada o que fazer. Ele tinha vencido, eu estava morta e agora era um espírito. Aquele era o fim da minha vida.
–
Atravessamos um portal e de repente tudo ficou diferente. Eu olhava para os lados assustada tentando reconhecer alguma coisa, mas não conhecia nada ali. Era o Submundo, a dimensão dos mortos.
O caçador me levou até o que parecia ser uma grande área de comércio. Estava presa e não entendia muita coisa, mas ele disse algo sobre a minha alma ser dupla; Agnécia estava fundida a mim. Ele parece ter negociado alguns preços e finalmente eu fui levada embora com a promessa de que seria uma boa fonte de energia e poder pela eternidade.
Então esse era o fim da minha vida? Sendo vendida feito mercadoria?
Depois de chegar ao que parecia ser uma grande casa, fui jogada e trancada em uma espécie de quarto. Um cubículo onde não há nada a não ser uma cama; o lugar é extremamente fechado e quase impossível de sair, pois quase ninguém tem acesso a não ser algumas empregadas da raça haros.
E é nesse ponto, caro leitor, em que eu me encontro agora. Escrevi esse diário pela necessidade de registrar tudo o que me aconteceu até eu me encontrar presa nesse recinto. Volta e meia alguém abre essa porta e me tira daqui, a luz chega a machucar meus olhos. Os haros me colocam em uma espécie de tubo e drenam parte do meu poder e do poder de Agnécia. E então, me jogam e isolam nesse minúsculo quarto novamente.
A única alegria que tenho é a hora da faxina. A mocinha que vem limpar esse cubículo é bem simpática e não grossa e idiota como os outros haros. Ela parece ter pena de mim; sempre conversa e perde um pouco de seu tempo comigo. Se não fosse por ela, eu já teria enlouquecido.
Como eu já disse para ela, um dia eu vou fugir daqui. Talvez com ou sem a ajuda dela, mas um dia eu certamente fugirei. Não deixarei que um maldito Caçador de Recompensas trace meu destino e acabe com minha vida, pois a única que tem o direito de fazer isso sou eu.
–
Este diário foi encontrado pela empregada de um dos senhores haros mais influentes da região, quatro meses depois de sua última anotação e do desaparecimento da alma de Agnécia. Muitos acharam a história fantástica, mas as buscas pelo espírito desaparecido não cessaram.
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