Roots
6 Capítulo 5 - "Nevermind"
Notas iniciais
Capítulo 5 — "Nevermind"
A sensação de estar quase morrendo é algo muito ruim, eu não recomendo para ninguém, nem mesmo para o meu pior inimigo.
Minha consciência retornava aos poucos, assim como todos os meus sentidos. Minha visão voltava a ter foco gradativamente, como uma máquina digital. Meus pulmões ardiam com o ar que voltava a preenchê-los, e minha cabeça parecia a estar prestes a explodir de dor. Sentia minhas roupas coladas em meu corpo, e meu cabelo molhado sobre meus olhos.
Eu estava sendo observada por várias pessoas (que eu só conseguia identificar por murmúrios preocupados, já que não conseguia ver nada muito além de borrões), e havia uma luz forte do meu lado.
As pessoas que já estavam agitadas ficam pior quando percebem que eu estou acordando. Ouço a voz do meu pai pedindo para elas saírem, mas a sua voz estava muito estranha, como se eu estivesse dentro de uma redoma de vidro sem chance de escapar. Para a minha sorte, o pouco do meu lado lúcido me dizia que era só impressão, então fiquei mais tranquila.
Alguém se aproximou da maca para falar comigo. Sua presença exalava calor e segurança. Era o meu pai. Tive certeza assim que ele tocou meu braço. Naquele mesmo momento eu me senti muito melhor, como se tivesse tido um choque de saúde. Minha cabeça parou de doer e minha visão voltou ao normal. O mais estranho é que, quando olhei para ele, percebi sua aparência oscilando entre a de um mortal e a de um deus.
― O que houve com você? ― Perguntei um tanto preocupada. Ele apenas sorriu e me disse:
― Isso começou assim que você chegou aqui na enfermaria. Não se preocupe. Pode ser um bom sinal.
― O tanto quanto pode ser um mau sinal. Você precisa de ajuda. ― Eu estava realmente desesperada, cheguei até a me sentar na maca. Talvez uma reação aos possíveis remédios que me deram.
― A nossa prioridade agora é você. ― Ele segurou meus ombros com cuidado e fez um movimento para eu encostar novamente. ― Depois nós vemos isso. Preciso que você me conte exatamente o que aconteceu.
Respirei fundo e me ajeitei. Minhas lembranças estavam um tanto quanto confusas, mas eu conseguia organizar tudo em uma linha do tempo coerente.
— Bem... eu estava dormindo, até que eu ouvi a Melissa gritando por ajuda do lago. Na hora eu corri para ver o que estava acontecendo, mas, quando cheguei no lago não tinha ninguém. Mesmo assim eu mergulhei. Não me lembro exatamente porquê. Talvez intuição ou um mau pressentimento... enfim, assim que submergi mil vozes começaram a falar no meu ouvido. Consegui identificar algumas frases sobre alguém amaldiçoado pelos erros que cometeu, mas que fez tudo querendo proteger o filho, porém suas ações comprometerão o futuro de todos... eu não entendi muito bem, só queria sair da água o mais rápido possível. Tentei nadar, mas algo me puxava para o fundo e parecia retardar todas as minhas forças. A última coisa que lembro foi ser puxada para fora d'água. Desmaiei antes de ver quem me salvou, então acordei aqui. — A expressão de Apolo era de preocupação. Parecia tentar entender tudo que eu acabara de lhe contar. Ele então se virou para um dos meus irmãos e o pediu para levar para Quíron todas as informações que eu havia passado. Este concordou e saiu da tenda.
Consegui ouvir a voz de Melissa do lado de fora, e meu coração vacilou. Ela estava aqui, aparentemente sã e salva, o que também significativa que eu não tinha ficado desacordada por muito tempo, então ela não tinha ido para o Japão. Claro que havia a possibilidade dela ter adiado o voo depois que eu me afoguei, mas não importava. Eu só queria vê-la e ter certeza que ela estava inteira.
— Eu preciso ver a Melissa. — Disse, já me levantando. Claro que eu fui idiota e quase cai por estar tonta. Meu pai conseguiu me amparar antes disso, porém, na hora que ele me segurou eu senti uma dor inexplicável. No lugar que havia doido tinha uma tatuagem de um sol partido ao meio, e de dentro dele saía uma cobra que se enrolava até o final do antebraço. A "tatuagem" brilhava, como se por baixo da minha pele houvesse um sol aprisionado tentando sair.
— Essa marca... eu tenho uma vaga lembrança dela... Alguns dos meus filhos da Grécia Antiga tinham esse símbolo no braço. Tem algo a ver com os oráculos... eu só não consigo me lembrar sua relação. Merda de memória mortal. — Meu pai olhava para o meu braço tentando lembrar o significado daquilo.
— Podemos resolver isso depois? Eu quero ver a Melissa. — Ele suspira.
— Tudo bem, vamos. — Com sua ajuda consigo chegar até a frente da enfermaria sem cair no chão.
─ Amor! Fiquei tão preocupada! ─ Assim que eu apareci na entrada da enfermaria Melissa veio correndo me abraçar, o que quase me sufocou, mas eu não ligava, estávamos juntas novamente. Nós rimos e nos beijamos.
─ Eu estou bem agora, pode relaxar. ─ Melissa me solta ainda sorrindo. ─ Eu tinha ouvido sua voz antes de me afogar, achei que estivesse em perigo... Só a possibilidade de algo ter acontecido contigo já me deixou desesperada. Ainda não consigo acreditar que ficou tudo bem.
Sinto alguém colocar a mão no meu ombro. Era Sebastian. Ele tinha aquele seu sorriso típico no rosto que, para falar a verdade, até hoje não sei realmente o que significa.
─ Oi Sebastian. ─ Eu sorrio e o abraço.
─ Nós ficamos preocupados contigo. O que seria do Universo se você morresse?
─ Cecília! ─ Alguém exclamou. Era Arthur, e estava acompanhado de Kevin. Trazia algumas poções nas mãos, muito provavelmente do chalé de Hécate. ─ Que bom que acordou! Ficamos preocupados.
─ Criatura, tu tá doida é? Quer me matar do coração hein? Não fui feito para aguentar esse tipo de susto! ─ Kevin corre para me abraçar. ─ Nunca mais faz isso, tá entendendo? Se não te passo a navalha!
─ Tudo bem, eu prometo, pode deixar. ─ Digo rindo.
Meu pai sai da tenda da enfermaria e todos nós olhamos para ele. Aquelas mudanças em sua aparência pareciam ter se estabilizado em um meio termo, mas sua parte divina era um pouco amedrontadora.
─ Estou indo falar com o Quíron. Caso aconteça algo com a Cecília tragam-na o mais rápido possível para a enfermaria. A missão de vocês é protege-la até que tudo isso passe. ─ Fiz uma cara de "Alô, eu ainda estou aqui, tá? " ─ E você senhorita, me procure o mais rápido possível caso tenha qualquer tipo de presságio ou perceba algo estranho com a marca. Nós ainda vamos descobrir exatamente significado dela. ─ Afirmo com a cabeça e ele olha para a garota que havia me salvado. ─ Vamos? Ainda temos que resolver o problema do seu irmão.
─ Claro. ─ Antes dela sair, seguro seu braço de leve.
─ Espera. ─ Ela olha para mim. ─ Lana, não é?
─ Sim.
─ Obrigada por me salvar. ─ Sorrio.
─ Eu só te trouxe até aqui. Dê o crédito para seus irmãos, eles que realmente te salvaram. ─ Percebo uma troca de olhares perigosa entre ela e Melissa. ─ Eu tenho que ir. Cuidado com o lago. ─ Ela dá um leve sorriso de canto e sai.
Viro para Melissa e para Sebastian de braços cruzados depois da garota tomar uma certa distância.
─ O que houve?
─ Aquela garota... ─ Melissa começa a falar algo, mas desiste. ─ Eu não confio nela, nem um pouco.
─ Por que? O que ela te fez? ─ Melissa olha para Sebastian pedindo ajuda e ele dá de ombros.
─ Não acredito. Até você Sebastian? ─ Melissa faz uma cara de desapontada e ele responde com uma de "que foi? Eu não sei de nada". ─ Anda gente, para com essa conversa sem falas aí e expliquem o que houve. Agora!
─ Sebastian! ─ Antes que pudessem responder, Kevin o chamou. ─ Vamos resolver aquilo? ─ Ele e Arthur cruzam os braços esperando.
─ Claro, vamos. Depois eu falo com vocês meninas, tchau! ─ Os três saem correndo como se fossem tirar o pai da forca. Só Arthur conseguiu.
─ Espertinhos... VOCÊS NÃO VÃO ESCAPAR DAS MINHAS GARRAS, ESTÃO ME OUVINDO? ─ Suspiro e volto a olhar para Melissa. ─ E então?
─ Ah, esquece isso Cecília. É o nosso último dia juntas, você quer mesmo ficar se preocupando com essa garota? ─ Ela envolve os braços em volta da minha cintura e dá um beijo na curva do meu pescoço.
─ Okay, você venceu. ─ Eu rio e lhe dou um beijo.
***
― O que está desenhando?
― Aquele projeto do cliente que eu estava fechando contrato ontem.
— Entendi. Você vai buscar a Alex no colégio hoje?
— Sim.
— Okay. Estou atrasada, nos vemos às sete.
— Boa sorte lá. Eu sei que você vai conseguir.
— Mesmo assim, vou pedir uma ajudinha para Hermes, vai que ele me escuta dessa vez? Mas obrigada. Até mais tarde.
— Até. Eu te amo.
— Eu te amo.
***
— Tome cuidado com os monstros, e boa sorte com a faculdade. Mande cartas ou mensagens de Íris sempre que conseguir. E não esqueça de treinar. — Falava para Mel.
— Cecília! Eu virei sua filha agora, foi? — Ela ri.
— Eu só quero garantir que você ficará bem.
— Vai dar tudo certo, não se preocupe. — Ela me abraça.
— Impossível eu não me preocupar. — Nós beijamos por uma última vez. — Eu te amo Melissa.
— Também te amo Cecília. — Ela caminha até Sebastian olhando para mim antes de se virar para ele.
— Maninha... — Os dois se abraçam. — Vê se não arruma encrenca hein. A gente não vai poder salvar sua pele de tão longe. — Melissa concorda sorrindo. — Agora, falando sério, toma cuidado lá. Todo mundo vai estar torcendo por você daqui do acampamento.
— Obrigada Sebastian. E, antes que eu me esqueça, cuida bem da Cecília por mim.
— Ei, eu ouvi isso okay? — Eles me ignoram.
— Pode deixar. Boa sorte.
— Obrigada.
Eles se abraçam uma última vez ela se dirige até Kevin, Arthur e Wendy para se despedir.
— Melissa, está na hora. — Um tempo depois o guarda-costas (lê-se: um campista corpulento filho de Ares que já havia sobrevivido à três missões até então) que iria levá-la até o aeroporto avisou.
— Tudo bem. Adeus gente, boa sorte com tudo. — Nós cinco nos despedimos de Melissa e ficamos parados no topo da colina meio-sangue olhando observando o carro se afastar. Melissa ainda vira e olha para mim do banco de trás. Quando só resta na paisagem todos as árvores e uma estrada vazia eu começo a chorar. Todos os momentos que nós duas passamos juntas voltando de uma vez na minha cabeça e eu só querendo ficar um pouco sozinha. Sinto Kevin colocar o braço em volta do meu ombro e acariciar meu cabelo tentando me reconfortar.
Com o passar do tempo, cada um dos meus amigos vai indo resolver suas próprias vidas, até eu ficar sozinha observando a paisagem.
Fiquei horas parada ali, até todas as lágrimas que tinha acabarem. O sol já estava se pondo, e já era possível até ver algumas poucas estrelas no céu.
Senti uma brisa gelada tocar minha pele, me fazendo ficar arrepiada. Olhei para trás e, para a minha surpresa, quem estava ali era Lana, a garota que me salvara.
― Oi... ― Sua voz saiu calma.
― Olá... ― Ela fez um gesto perguntando se poderia sentar-se ao meu lado e eu confirmei com a cabeça.
― Está melhor?
― Fisicamente sim, já emocionalmente... ― Seco uma lágrima que escorria pelo meu rosto.
― Vocês se gostavam muito, não é?
―Demais... Só que ela foi viver o sonho da vida dela, então parte de mim consegue ficar feliz, mesmo que ela não esteja aqui do meu lado.
─ É, eu acho que também estaria me sentindo assim, caso estivesse em seu lugar. Mas, saiba que, se precisar de ajuda com algo pode me falar. Eu queria ter mais amigos sabe, e você parece uma pessoa legal.
─ Nesse caso, vamos começar isso direito. ─ Eu estendo minha mão. ─Muito prazer, me chamo Cecília, filha de Apolo.
Ela sorri e aperta minha mão.
─ O prazer é todo meu Cecília. Me chamo Lana.
─ Del Rey? ─ Nós rimos.
─ Quem dera... ─ Ela coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha.
─ Cecília! ─ Viramos para trás, quem havia chamado era Sebastian. ─ Te procurei pelo acampamento inteiro! Ah, e oi Lana.
─ Olá.
─ Pode falar Sebastian. O que houve?
─ Seguinte, vai ter uma reunião hoje as nove da noite nos túneis. Vocês duas precisam ir. ─ Ele tira um papel dobrado do bolso da calça e me entrega. ─ Esse é o mapa para chegar no local da reunião, partindo do chalé de Atena. Tem uma entrada escondida que te leva até os túneis que não dá para ver de dentro do chalé. Fica na parte de trás e tem umas tábuas de madeira para encobrir. Vocês vão descer mais ou menos uns três metros de escada. O penúltimo degrau tem um fundo falso. Lá tem duas lanternas carregadas. Depois disso vocês seguem o mapa e conseguem chegar no esconderijo sem problemas. Na parede do corredor que dá acesso à entrada tem um "X" vermelho, só para garantir que você foi para o lugar certo. Ah, e levem algo para comer. Mais tarde vamos fazer uma "festinha íntima".
─ E quem vai tanto nessa reunião/festinha íntima?
─ Eu, a Wendy, o Arthur, o Kevin (e talvez algum ficante dele) e vocês duas.
─ Ah, certo então. Nós vamos, pode deixar.
─ Ah, e, outra coisa: O treino de arco e flecha vai começar e seus irmãos querem sua ajuda lá na arena.
─ Nossa, a minha vontade de sair daqui é de quase zero, mas eu sou obrigada, então fazer o que né? ─ Eu me levanto e estendo a mão para Lana. ─ Você vem?
─ Ah, não tenho nada para fazer mesmo, pode ser. ─ Ela se levanta com a minha ajuda e nós vamos caminhando juntamente com Sebastian em direção à arena.
***
─ ...A minha irmã Cecília vai demonstrar o exercício. ─ Meu irmão Castiel, um dos veteranos do chalé sete que falava. Eu me aproximo, e ele me dá passagem, indicando o lugar que eu deveria ficar num ato de cavalheirismo.
Sem falar nada, posiciono-me, pronta para atirar, mirando o alvo, então algum idiota resolve se pronunciar.
― Cuidado princesa, pode quebrar a unha! ― Na mesma hora eu desarmo o tiro e me viro, olhando os outros campistas que tinham sede de treta, tenho uma ideia para a vingança.
― Realmente... eu não havia pensado nisso antes! Meus deuses, muito obrigada por se preocupar! Não sei o que faria caso a minha unha quebrasse... ― Falo no tom mais cínico que consigo. ― Acho que, nesse caso, como você preza tanto a integridade física das minhas unhas, poderia demonstrar o exercício! ― Lhe entrego o arco e a flecha que estava usando. ― Muito bem então turma, prestem atenção aqui no mais novo professor da equipe. Ele irá ensiná-los a como atirar do jeito certo.
Eu me afastei, cruzando os braços e esperando o (vamos chamá-lo de Idiota para não baixar muito o nível dessa história, né?) Idiota fazer alguma coisa. Ele ficou horas tentando segurar o arco da maneira certa, e demorou mais ainda para posicionar a flecha corretamente. Quando conseguiu essas duas "proezas", respirou fundo (estava claro que mais um tiquinho assim de esforço já o deixaria encharcado de suor) e atirou, porém, a flecha subiu e passou longe do alvo, chegando a obrigar algumas pessoas que estavam ali a se afastar, caso o contrário a flecha cairia na cabeça de alguém. Eu fiz a flecha parar no ar antes de cair (algo que estava treinando a um tempo. As vantagens de ser filha de Apolo -q) e depois a peguei, fazendo os alunos ficarem impressionados.
― Que pena, não é? Não foi dessa vez, infelizmente... Tadinho do seu ego e da sua masculinidade, devem estar tão afetados... estou morrendo de dó... deixe-me mostrar a maneira certa de realizar o exercício. ― Pego o arco da mão dele e posiciono a flecha com facilidade, já me posicionando para atirar. O primeiro alvo estava consideravelmente perto, então acertei o alvo com facilidade. Fiz o mesmo com os próximos alvos, que foram posicionados de uma maneira que iam se afastando gradativamente, até o limite da arena.
Para completar, Castiel, que agora estava ao lado do último alvo, joga uma maçã no ar e eu, sem olhar para a maçã, acerto em cheio. Todos vão correndo para conferir se eu realmente havia acertado, e tem a resposta clara como água diante de seus olhos: lá estava a maçã atravessada pela flecha caída no chão. Eu me aproximo em passos calmos, pego a maçã e limpo-a com a manga da blusa que vestia. Todos os meus movimentos acompanhados pelos olhos curiosos dos alunos. Estendo a maçã ainda atravessada pela flecha para o Idiota e falo:
― Pode ficar como lembrança. E, da próxima vez que for falar merda para uma mulher, ou para quem quer que seja, lembre-se disso aqui e fique com a boca fechada, Machão. ― Dou uns tapinhas no ombro dele (talvez com um pouco mais de força do que o necessário, já que ele teve que colocar um pé para trás para manter o equilíbrio e não cair de bunda no chão) e saio andando como se nada tivesse acontecido.
Depois de alguns segundos de silêncio todos que estavam ali fazem um "ôôôÔÔôôOÔ" geral, para acabar ainda mais com o cara.
É, talvez eu mereça uns óclinhos maneiros depois dessa.
***
― Cuidado onde põe as mãos. ― Eu e Lana estávamos descendo as escadas para os túneis. Eu conseguia brilhar um pouco, o máximo para conseguir enxergar tudo em uma distância de dois passos, o que estava ajudando a não cair naquelas escadas, porém, mesmo assim, era preciso ter cuidado.
― Tudo bem, qualquer coisa eu me apoio em você e nós duas rolamos escada abaixo. ― Nós rimos e continuamos a descer.
― Você está com as comidas aí? ― Eu pergunto. Porque assim, acho que ainda não contei, mas, sem tem algo que eu morro de medo (e não é um morro de medo da boca para fora, é tipo um "eu me cago toda") é do escuro. Eu só estava conseguindo não entrar em pânico porque a Lana estava lá. Mas, se vocês quiserem realmente me ver entrando em colapso me tranquem em uma sala sem nenhuma luz, sério. Claro que talvez seja um ato imprudente da minha pessoa revelar um dos meus maiores medos na internet, mas fazer o que né? Agora já foi...
― Estou, não se preocupe. ― Lana responde. E me desculpem se a minha viajada louca tirou vocês do foco e todo mundo teve que voltar e reler a minha pergunta, mas tem horas que eu não consigo evitar, é um habito meu desviar do assunto. Enfim, acho melhor eu parar com isso e voltar para a história.
Alguns degraus depois o piso range. Era o penúltimo pelo jeito, o que tinha o fundo falso.
― Finalmente! ― Lana desce para o primeiro degrau e eu pego as duas lanternas. Entrego uma para ela e nós ligamos. Era um alívio tão grande ter uma fonte de luz potente. Pelo jeito Sebastian tinha lembrado do meu medo do escuro e conseguiu arranjar duas lanternas poderosas. Tenho que agradecer a ele depois.
Eu tiro o mapa do bolso e analiso. Era uma boa caminhada, talvez de dez ou quinze minutos partindo de onde estávamos.
― Caraca, que lugar enorme! ― Lana, que observava o mapa ao meu lado fala.
― É como se fosse uma grande galeria. Cada chalé tem sua sala, porém pouca gente conhece essa parte do acampamento, então quase todas estão inativas. Há também algumas salas extras. Talvez quem construiu isso aqui já pensava na possibilidade de novos chalés antes mesmos deles existirem, mas talvez não contasse com a possibilidade de que todo o seu projeto (muito provavelmente de vida) não fosse conhecido. Então, mesmo depois que fizeram os novos chalés, as salas ficaram desocupadas.
― Talvez esse lugar não seja desconhecido à toa. Eu acho muito difícil alguém ter feito tudo isso apenas por fazer. Talvez exista um segredo obscuro por trás desses túneis e o decidiram não revelar para ninguém por questões de segurança. Nunca se sabe.
― Seria tão legal se nós descobríssemos um segredo tão grande assim. Mesmo estando a quatro anos aqui no acampamento nunca tive uma missão realmente importante. Nada que fizesse realmente a diferença... ― Eu suspiro. Bem, por enquanto a nossa única opção é seguir em frente, ou iremos nos atrasar.
― Tem razão, vamos. ― Nós começamos a caminhar, sendo guiadas pelo mapa que Sebastian entregara.
O silêncio ali em baixo era torturante, como se o lugar estivesse morto. Eu conseguia ouvir meus batimentos cardíacos reverberando no meu crânio com facilidade. O barulho que as sacolas com comida faziam acompanhando o movimento de Lana parecia três vezes mais alto do que o normal e os nossos passos ecoavam tanto que parecia que estávamos nessas quadras de escola que dá para ouvir os berros das crianças a dois km de distância (Aqueles gritos as vezes me dão medo, parece que as crianças estão sendo torturadas, eu hein!).
Algum tempo de caminhada depois (o suficiente para eu me acostumar com a energia muito brisa do lugar), paramos em frente à uma encruzilhada para descansar.
― O Sebastian não poderia ter nos mandado ir por um caminho mais curto? Isso é tortura! Tá parecendo o Labirinto de Dédalo... desnecessário.
― Não acha melhor continuarmos andando? Ainda temos alguns minutos de vantagem, mas quanto mais rápido sairmos daqui mais rápido chegaremos ao nosso destino.
― Tem razão. Vamos. ― Eu pego o mapa novamente e Lana para para observar os três caminhos.
― Não tenho um bom pressentimento, parece ter algo perigoso em dois desses túneis, só o do meio não tem nada...
― Mas no mapa diz para irmos no túnel da direita...
― Confia em mim Cecília, eu não sei explicar, mas algo me diz que se entrarmos em qualquer um desses dois túneis não iremos sair nunca mais. ― Iluminada apenas pela luz das lanternas, Lana fica ainda mais sombria que o normal.
― Tudo bem, já que é assim, vamos pelo túnel do meio.
Nós entramos no túnel, comigo à frente com o mapa na mão. O clima ali não estava muito propício a dar certo. Se aparecesse algum monstro eu seria a primeira a ser devorada por estar na frente, porém, se algo estivesse nos seguindo, Lana seria a primeira a dizer adeus para este mundo cruel. Mesmo assim, decidi confiar nela. Tem vezes que confiar na palavra de alguém é melhor do que confiar em um pedaço de papel com instruções confusas. Na pior das hipóteses ela poderia estar me levando direto para uma armadilha, mas preferi não cogitar essa possibilidade.
Quando saímos do túnel da bifurcação entramos em uma espécie de hall iluminado por algumas tochas. Mais à frente havia um enorme "X" pintado na parede, exatamente como Sebastian havia dito.
― É... Parece que chegamos no lugar certo.
― Contando com essa já é a segunda vez que eu salvo sua pele. Vou ter que colocar seu nome no meu caderninho. Você está me devendo em dobro mocinha. ― Lana diz como se fosse uma professora cobrando a lição de casa.
― Não quero nem ver no que isso vai dar... você as vezes me dá medo, mas deixa isso para lá, vamos.
Ela dá uma risadinha marota e me segue. Quando entramos no último túnel era possível ver seu fim iluminado com uma leve luz roxa. Também dava para ouvir vozes alegres e uma música de fundo.
― Pelo jeito eles começaram a festa sem nós, que injustiça...
Finalmente, chegamos na sala. Sebastian, Wendy, Arthur e mais um garoto gótico se divertiam jogando o que pareceu ser Uno. A música que tocava era "Pumped Up Kicks", do Foster The People. A sala tinha um cheiro bom de pó de café e livros antigos, o que me trazia uma certa sensação de segurança. Parei para observá-la melhor. Umas das paredes era pintada de preto, e tinha uma frase de "Breezeblocks", do alt-J na parede feita de grafite e um molde de letras de máquina de datilografia. Ao lado, uma coruja pintada à mão com tinta branca. Era um pouco estranho, mas parecia que ela estava me observando (no caso ela era Atena, o que não melhorava nem um pouco a situação). Naquela mesma parede estava encostado um sofá velho (o qual Sebastian estava sentado) e um tambor de ferro pintado de preto e sendo usado como criado mudo. Em cima dele, uma lamparina à óleo era a única fonte de iluminação além de algumas luzes de natal no teto e na parede e um lampião no chão ao lado da entrada. Na outra parede (essa pintada de azul) haviam três quadros: Em um deles tinha um gato vestido de terno e óculos redondos, o outro quadro era uma paródia da Monalisa, em que ela na verdade era um alien e estava usando uma máscara esse tempo todo e o terceiro era o autorretrato do Van Gogh, porém no lugar da sua cabeça tinha a cabeça daquele sapo dos Muppets. O chão era de madeira, e coberto por um enorme tapete vermelho desbotado. Também haviam algumas almofadas coloridas, onde Wendy, Arthur e Charlie estavam acomodados. A música vinha de uma vitrola/caixa de som com entrada usb e cd amarela, que estava em cima de uma estante de disco e cds verde água, onde também tinha a máquina de café, de onde saia aquele aroma criado pelos deuses. No canto tinha um violão e algumas pastas com partituras aparentemente, um cabideiro com alguns casacos e um depósito para armas fixado na parede. Além de tudo, na parede que restava havia uma estante de livros feita de tábuas de madeira e tijolos, que chegava a ficar um pouco curvada com o peso de todos aqueles romances, crônicas, coleções, e etc, e um varal de fotos tiradas por uma Polaroid. Era tudo perfeito, eu poderia morar ali sem problema algum.
— Gostou? — Sebastian surge do nada atrás de mim, me dando um susto que me faz pular, o que quase me mata de vergonha depois. — Fomos eu e a Melissa que fizemos toda a decoração, desde a pintura da parede até a máquina de café. Ela me pediu para te mostrar. Considere como se fosse uma lembrança. Ela pode não estar aqui no acampamento, mas parte de seu coração ela deixou com você, aqui nesse lugar.
Eu o abraço, emocionada. Tão pouco tempo sem a Melissa já me fazia morrer de saudade. Tinha passado o dia inteiro me concentrando no fato dela ter ido realizar o sonho da vida dela, o que evitou que eu caísse no choro em vários momentos.
— Obrigada. Obrigada por superar tudo o que aconteceu entre nós dois e conseguir ser meu amigo até nas horas mais difíceis, obrigada por ser o irmão perfeito para a Mel. Obrigada por ser você e obrigada por estar aqui. Enfim, obrigada por tudo. Não sei o que seria de mim sem você. — Ele coloca as mãos nos meus ombros e diz sorrindo:
― Hey, você fala isso como se ser seu amigo fosse um sacrifício e não uma dádiva. Eu sempre vou estar ali quando você precisar e você sempre vai poder contar comigo, porque, bem... somos uma equipe, não somos? O Universo depende de nós para não entrar em colapso, você sabe muito bem disso.
― É você tem razão. ― Eu rio secando as lágrimas. ― Mesmo assim, muito obrigada.
― Vai ficar tudo bem ok? Não se preocupe. ― Ele bagunça meu cabelo, mesmo sabendo que eu odeio isso. ― Vamos, você tem que conhecer o Charlie.
Nos sentamos no sofá velho e ele chamou Charlie para nos apresentarmos.
― Galeraaa, chegueiiii!!! ― Kevin entra carregando uma caixa enorme cheia de latinhas de Coca-Cola. ― Ai gente alguém segura isso aqui vai, eu sou filho de Afrodite, não sou obrigado a fazer nada não. Vocês já tem que agradecer de eu ter feito o favor de trazer essa caixa enorme até aqui S-O-Z-I-N-H-O.
― Eu vou cobrar depois hein. ― Arthur, que tinha levantado para ajudar Kevin, diz.
Depois que ele colocou a caixa no chão ao lado do frigobar todo mundo se levantou para pegar uma latinha de refrigerante e foram se senta em círculo no tapete.
Antes de me juntar à eles, eu vou até a vitrola/caixa de som e coloco para "Trouble", do Cage The Elephant para tocar. Uma música que, na minha singela opinião, combinava muito com aquele clima indie do QG.
Quando a música começou, abri minha latinha de refri e me sentei no tapete, fechando o círculo.
― Ótima escolha Cecília. ― Lana comenta, sorrindo.
― Obrigada. ― Eu retribuo o sorriso.
― Gente. ― Sebastian começa a falar e todos olham para ele. ― Eu queria aproveitar que estamos todos reunidos para, antes de começar a reunião propor um brinde. Esse QG representa alguém muito especial, que trabalhou muito para deixar esse lugar o mais incrível o possível. Claro que eu também ajudei, mas tem horas que é preciso deixar o ego inflado para lá. Nós só estamos reunidos aqui hoje porque a Melissa se deu de corpo e alma para fazer quase que uma segunda casa para nós. E temos que admitir que ela conseguiu. Se eu pudesse ficar aqui para sempre, principalmente com tão boas companhias, ficaria sem problemas. Claro que minha irmãzinha faz falta, e seria ótimo tê-la aqui para ver o seu projeto dando certo, mas temos que lembrar que ela agora está indo atrás de seus sonhos. Então, por esse motivo eu queria comemorar por ela ter finalmente conseguido realizar o sonho da vida dela, já que eu tenho certeza que fez a diferença na vida de cada um aqui, sendo uma ótima irmã, uma ótima namorada e uma ótima amiga. Um brinde à Melissa!
― Um brinde! ― Nós levantamos as latinhas de Coca-Cola sorrindo.
― Que ela seja sempre feliz. Seja aqui no acampamento, no Japão, ou em qualquer outro lugar. ― Eu digo com a sensação de dever cumprido.
Sebastian estava certo. Melissa fez a diferença na vida de todos presentes naquela sala.
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