Roommates
4 College - Parte 1
Notas iniciais
Liz
Quando The 7th Element começou a tocar, meus olhos se abriram imediatamente, e me sentei na cama para desligar o alarme, feliz por ter descoberto algo eficaz para me acordar.
Figurei que se a primeira coisa que eu ouvisse pela manhã fosse o Vittas berrando, eu levantaria o mais rápido possível para desligar o alarme. Até agora estava funcionando.
Em outra ocasião eu teria bocejado e me dirigido ao banheiro a passos robotizados. Então, de repente eu estaria sentada na mesa tomando um Nescau e pensando em nada. Essas coisas acontecem comigo de manhã, quando estou com sono demais pra raciocinar: faço ações que não lembro e falo coisas sem sentido. Mas não hoje.
Era o primeiro dia de aula, e ninguém dorme bem na véspera do primeiro dia, isso é basicamente uma regra.
Levantei, me dirigindo ao banheiro, e lavei a cara na tentativa de parecer um pouco apresentável antes de ir tomar café. Luke já estava na mesa quando saí do meu quarto e entrei correndo na cozinha, pulando por trás dele e colocando as mãos em seus ombros.
— Feliz primeiro dia de aula! — exclamei, pegando uma tigela e me servindo de leite com sucrilhos. Luke resmungou alguma coisa que se pareceu muito com "Me dá uma fralda", mas com certeza não era isso, parecendo meio atordoado. Pelo jeito a regra de estar empilhado no primeiro dia não se aplicava a ele. Sorri, movendo as mãos para seus cabelos loiros, os bagunçando ainda mais. — Se anima, hoje é nosso primeiro dia de trabalho também!
Luke soltou outro resmungo, o que me fez pensar que lembrá-lo de nossa mais nova ocupação talvez não fosse o melhor jeito de anima-lo.
Logo estávamos prontos e cheirosos na porta do apartamento. Iríamos de a pé para a faculdade, já que não ficava longe dali. Enquanto caminhávamos e especulávamos sobre o que aconteceria no primeiro dia, eu olhava ao redor da vizinhança, ainda me surpreendendo com qualquer coisa, como um anão de jardim com cara de taxo ou um idoso de camisola. Fazer o quê.
Passamos pelo mercadinho de um senhor mexicano que conhecemos uns dias atrás e que havia nos dado desconto logo após descobrir que torcíamos para o mesmo time de basquete que ele: o Golden State Warriors, e o Sr. Ramirez nos ofereceu picolés, aos quais educadamente recusamos, apesar de meu estômago protestar.
Após cerca de dez minutos de caminhada, demos de cara com um arco de pedra, branco e que lembrou bastante o Arco do Triunfo da França, e que sinalizava a entrada para o Washington Square Park. Meus pés congelaram no chão, e o ombro de Luke bateu no meu com a parada repentina. Atrás do arco havia um pátio bege enorme, com bancos circundando toda a sua extensão, e bem no meio havia uma espécie de chafariz, com outros bancos ao redor. Várias pessoas já se encontravam ali, conversando animadamente com amigos e arrumando os materiais para as aulas.
Olhei ao redor, absorvendo a paisagem incrível o melhor possível. Incontáveis calçadas partiam de um ponto central com um chafariz, levando às mais diversas áreas do campus e da cidade de Nova York em geral. Eu lembrava de ter visto um documentário sobre esse parque, e ele era quase parte da faculdade mesmo, já que os alunos sempre estavam por ali nas horas vagas.
Só me dei conta que meu queixo havia caído quando Luke colocou a mão em meu rosto para fechar minha boca.
— Você ainda nem viu nada — ele disse em tom divertido, me puxando por um dos caminhos de pedra. Assumi que ele dizia a verdade, já que era seu segundo ano na universidade e conhecia muito mais do lugar que eu. No ano passado Luke tinha um dormitório na universidade, mas ele resolveu se mudar por falta de dinheiro e para poder ter mais espaço.
Caminhamos no meio de árvores, cuidando para não esbarrar em ninguém – o que era um pouco difícil, já que haviam muitos estudantes –, e chegamos a um prédio alto e branco, com vidraças enormes.
— Aqui é o prédio principal da universidade — Luke me explicou, assumindo a função de guia enquanto entrávamos pelas portas automáticas. — As diretorias, os professores e basicamente toda a parte administrativa fica aqui. Os alunos podem vir aqui pra relaxar, também.
Assenti, surpresa demais para falar alguma coisa. Uma escada enorme levava aos andares superiores ao que estávamos, que por sua vez possuía sofás confortáveis por toda a sua extensão, e alguns balcões ao fundo onde funcionários trabalhavam.
— Você vai ter tempo pra ver o que tem pra cima, mas não tem muita graça — comentou, me guiando para fora novamente. — Devíamos ir para o prédio de Mídia e Cinema. É lá que você vai passar metade do tempo, de qualquer forma.
— Sim! — falei, entusiasmada, e deixei Luke indicar o caminho pela multidão.
De repente um medo irracional e repentino me invadiu: será que eu iria me encaixar naquele lugar? Eram tantas pessoas, e eu me sentia uma pulga no sovaco de um gorila, pra dizer o mínimo.
Luke definitivamente não tinha esse problema: cumprimentava todo mundo que passava por nós, mesmo que nunca tivesse visto a pessoa na vida, e ainda me apresentava. Ele parecia super confortável e relaxado.
Logo estávamos entrando por um prédio bege e de vidraças compridas, onde ficavam todos os estúdios, teatros e salas de aula envolvidos com artes, e as preocupações inúteis vazaram da minha cabeça. Luke conhecia um pouco do prédio por fazer Jornalismo, mas confessou que haviam partes em que ainda não havia entrado.
Fomos subindo os andares, espiando salas e auditórios impressionantes e parando vez ou outra para pegar uma bala de algum pote pelo corredor. Vendo tudo aquilo, eu soube que iria adorar o curso, e que tinha escolhido certo.
Em um momento entramos em uma sala relativamente pequena, com carteiras enfileiradas minuciosamente e uma mesa destinada ao professor que estava cheia de livros. A um canto, havia uma máquina de café.
— Luke — chamei, balançando seu braço. — Eles têm café!
— Aham — ele me encarou, esperando por algum desenvolvimento. Revirei os olhos, porque era óbvio.
— Vamos provar? — Pedi, já me encaminhando para dentro. Luke, porém, olhou para dentro com hesitação.
— Tem certeza? E se nos metermos em encrenca? — falou, e tive vontade de dizer: "desde quando você liga pra isso?", mas me contive bem a tempo.
— Não vamos — o assegurei, e quando Luke não pareceu convencido acrescentei: — Se alguém vier nos xingar, nos fazemos de burros.
Resolvi ignorar a resposta que recebi ("nisso a gente nem precisa fingir"), e continuei.
— Além disso, vai ser uma boa história pra contar depois.
Com minha última constatação, ele pisou dentro da sala de aula, e começamos a tentar decifrar os botões daquela máquina de café.
Depois de algumas exclamações e de uma queimadura pequena no dedo, estávamos bebendo um café ótimo, e tentando adivinhar de que matéria era aquela sala. Foi mais ou menos nessa parte que ouvimos uma risada atrás de nós.
Eu e Luke nos viramos rápido em direção à porta, onde um homem que aparentava ter uns quarenta e cinco anos, com a barba rala e o cabelo começando a ficar grisalho bem aparado.
Por algum motivo, minha mente viajou para a época em que eu estava no Ensino Médio, e lembrei de uma frase particularmente sabia que meu ex professor de física costumava dizer:
"E é nesse momento, meus queridos, que você estufa o peito e diz com convicção: agora fodeu."
Me pareceu um bom momento para aplica-la, mas fiquei parada onde estava, o café a meio caminho da boca. Não podíamos ser expulsos por tomar café, podíamos?
— Gostaram do café? Eu comprei a máquina semana passada, mas ainda não tinha descoberto como usar — o homem comentou, entrando.
— Hã, sim senhor — respondeu Luke, e tive vontade de fugir para um buraco. — Não tivemos a intenção de incomodar, mas-
— O café estava ali, e eu olhei pra ele e não consegui me conter — Expliquei da forma mais resumida possível, mas o homem não parecia ligar muito. Ele tinha um sorriso na cara e parecia estar se divertindo com a situação.
— Relaxem — ele disse, e eu franzi a testa, não entendendo. — Podem vir beber café aqui quando quiserem. Aliás, me chamem de Richie, dou aula de leitura e escrita para os alunos de Cinema.
— Então você não vai nos ex- — Luke começou, mas o interrompi antes que ele terminasse a frase. O professor que estava na minha frente dava uma das aulas pelas quais eu estava mais ansiosa, e eu acabara de beber seu café e ainda fui incentivada a fazer isso mais vezes. Puta que pariu.
— Prazer, sou a Liz e esse aqui é o Luke. Ele faz Jornalismo, e eu vou começar Cinema esse ano — falei, animada. Richie deve ter ficado feliz com a notícia, já que apertou nossas mãos e começou a falar de diversos filmes e peças pelas quais era apaixonado. Quanto vi estávamos sentados na frente de sua escrivaninha, discutindo as relações de Jogos Vorazes com a vida real.
— Acho que devíamos descer, as aulas já vão começar — Luke avisou depois de um tempo, e era verdade. Eram 7:42, e a aula devia começar as 8:00 da manhã.
— Ah, é verdade! — Richie comentou, se levantando de sua mesa e se dirigindo à um armário no canto. — Mas esperem um pouco: quero dar isso aqui pra vocês — ele tirou dois saquinhos verde-berrantes e nos entregou. — Vão precisar disso para os próximos semestres.
Encarei o embrulho em minha mão, o rolando para um lado e para outro com uma pergunta estampada na minha cara.
— Isso é pra relaxamento? — Luke resolveu perguntar, e me toquei que aquilo era uma daquelas bugigangas de gente zen.
Richie pareceu muito feliz por um de nós ter adivinhado.
— Façam bom proveito, e podem me chamar quando precisarem de mais artigos desse tipo; Boa sorte!
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