Roommates
1 Pale Blue Eyes
Notas iniciais
Ela era tão boba. Hermione Granger não conseguia pensar em outra coisa quando a encontrava. Havia, é claro, certa graciosidade em toda aquela aura ingênua e Granger já tinha idade o suficiente para notar e aceitar, em partes, a beleza em pessoas substancialmente diferentes dela, mas ainda não conseguia lidar com toda aquela curva para fora da normalidade que significava – e resumia – Luna Lovegood.
Isso a deixava irritada; tanto com a colega de quarto quanto consigo. Porque sim, Luna bem que podia ser mais parecida com um ser humano regular, mas a verdade é que Hermione também podia se isentar do trabalho de se importar. No entanto, era só… difícil dividir um dormitório universitário com uma pessoa que se portava como se tivesse acabado de sair de um conto de fadas. Até o nome dela tinha um que de fantasia, por Deus. Quem se chamava lua? Não dava para ignorar algo assim. E havia todas aquelas outras coisas: o jeito vago de falar, os olhos saltados em permanente surpresa, a extensa coleção de insetos mortos, a dieta vegana restrita, todas aquelas dicas naturais que ela tinha para qualquer coisa e a autossuficiência em costurar, customizar e bordar as próprias roupas e sandálias de tiras. Algumas coisas eram assustadoras, outras eram admiráveis, mas todas, sem exceção, faziam com que Hermione desejasse que Luna recebesse doses cavalares de realidade para ver se perdia aquela atitude etérea e calma diante de tudo. Ela nunca admitiria em voz alta, mas uma parte sua gostaria que o mundo caísse com força em cima daquele espírito pleno e alternativo e a transformasse em algo mais tangível ou explicável. Isso nunca se concretizou. Em um ano inteiro de convivência, Hermione não viu Luna sair do controle ou ter um dia ruim sequer uma vez.
Assim, quando isso de fato aconteceu, foi impossível não sentir o fisgar doloroso da culpa, a sensação de que havia tido coparticipação naquilo.
Fazia uma manhã bonita e Granger estava voltando para o quarto apenas para pegar a publicação em papel do ensaio que havia esquecido. Ela tinha corrido pelo campus inteiro com a bolsa carteiro já estufada de material; qualquer coisa além do que estava carregando seria o suficiente para lhe causar danos incorrigíveis na coluna, de modo que ela entrou praguejando e falando sozinha no cômodo. O susto ao ver Luna deitada na cama como se estivesse doente a fez perder um pouco de senso espacial, topando com o cotovelo na quina da escrivaninha. O barulho chamou a atenção de Lovegood, e os seus olhos claros invernais se encontraram brevemente com os olhos escuros e momentaneamente confusos de Hermione. Foi quando Granger sentiu o peso alojar-se na base de sua consciência.
O remorso lhe fez perguntar:
— Você está bem? — ao que Luna, com o rosto sereno, embora apático, respondeu com um sonoro e muito educado "não".
— Ah. — Hermione se limitou a dizer, xingando-se mentalmente por ter iniciado uma conversa. Já era de se esperar que Luna não fosse agir como todo mundo e responder com um cordial "sim, obrigada por perguntar, como vai você?", mesmo que não estivesse tudo bem.
Era isso que as pessoas faziam. Caso contrário, tudo se tornava constrangedor. Como agora. Hermione não sabia o que fazer com as mãos, consciente como estava da presença física dela. Parecia errado simplesmente pegar o trabalho e sair, mas também parecia errado terminar um dialogo com uma expressão sonora que não significava nada. Além do mais, ali estava Luna, pela primeira vez agindo como se não fosse um maldito unicórnio. Ela merecia solidariedade, o equivalente simbólico de uma faixa com os dizeres "bem vinda ao mundo real".
Com cautela, Hermione sentou-se na beirada da própria cama. Ela não tinha nenhum compromisso urgente, de modo que podia ceder dez minutos de nariz-enfurnado-em-livros para uma interação-social-razoável com a pessoa que dormia ao seu lado.
— Você quer conversar sobre isso?
— Oh, não. — Luna franziu o cenho, mas seus olhos brilharam como se ela tivesse visto uma coisa fascinante. — Eu não saberia o que dizer e receio que o esforço te mataria.
Hermione não pode deixar de se surpreender e inconscientemente curvou os lábios (só um pouquinho) para cima numa aprovação sutil. Luna não havia sido maldosa, ela jamais seria, mas havia sido sincera de um jeito perigoso. De um jeito quase... Humorado? Sarcástico? Se era difícil de acreditar, imagina catalogar.
— É possível. — Hermione admitiu, já que estavam naquela zona franca. Luna sorriu, parecendo cansada demais para uma resposta verbal, e Hermione considerou que isso poderia ser um final de conversa razoável, um final em que ela não sairia sentindo como se tivesse negligenciado uma fada ou algo assim. Repentinamente aliviada, levantou-se, pegou o que precisava e desejou melhoras.
Elas não tornaram a conversar, mas aquela gentileza, aquele único momento sem desdém, foi o suficiente para abrir uma fresta social até então insuspeita entre as duas. Era como se, por conta desse dia, todo um mundo de possibilidades de interações sinceras pairasse agora sob suas cabeças. Um vestígio de conforto. Um ponto em comum. Uma suspensão no ar e uma impressão estranha de que, a qualquer momento, alguém poderia simplesmente se abrir porque agora havia um pequeno espaço para isso.
Além do mais, a bem da verdade, depois daquele dia, algo em Luna mudou. Não de todo. Ela ainda era a pessoa tranquila e complacente de sempre. Sua voz continuava doce, ela ainda cortava a própria franja semanalmente (Granger nunca saberia se ela deixava um pouco torta de propósito), seguia a mesma rotina e cantarolava quando acrescentava com um alfinete mais algum monstrinho minúsculo à sua coleção entomológica. Ainda assim… havia uma nota de tristeza nas entrelinhas. Hermione não sabia o que era e Hermione odiava não saber das coisas. Sua natureza – belicosa e curiosa ao mesmo tempo – certamente seria de grande serventia no seu futuro profissional como bacharel de Direito, mas, por enquanto, servia apenas para gerar uma série de impasses em sua vida pessoal. Ela não se importava com Luna, ou melhor, ela não queria se importar com Luna, então porque aquilo a incomodava como se fosse um problema seu? Não saber essa resposta apenas piorava as coisas.
Para Hermione, num mundo ideal, as pessoas seriam educadas e respeitosas umas com as outras, mas ninguém precisaria se preocupar com ninguém. Todo mundo seria razoável e racional e ela não precisaria lidar com todas aquelas contradições humanas que ela percebia nos outros e, pior, nela mesma.
— É até comovente. – Ron disse, depois que ela tentou explicar a ele o modo como se sentia de uma maneira concisa. Eles estavam sentados em um banco qualquer, dividindo um lanche enquanto esperavam Harry sair de uma aula.
— O que?
— Lembrar que mesmo você, a pessoa mais inteligente que eu conheço, tem pontos cegos.
Hermione encolheu os ombros, sem resposta, o que o fez rir de verdade.
— E sabe o que mais? – ele decidiu dizer quando Potter apareceu, andando em direção a eles. – Você e Harry sofrem do mesmo problema.
— Que problema? – Harry perguntou antes que Hermione tivesse a chance.
— Vocês tendem a ficar obcecados pelas coisas ou pessoas que intrigam vocês. E às vezes, acabam se apaixonando por elas. – Hermione engasgou com uma batatinha frita.
— Isso nem faz sentido. – Harry protestou na defensiva.
— Ah, por favor, não me faça falar sobre Malfoy. – Ron girou os olhos. – E você – virou-se para Hermione, antes que ela ousasse abrir a boca. – Não me faça falar sobre... Bem, eu mesmo.
Ela se recompôs com o resto de dignidade que tinha, pigarreando um pouco. Ela não estava apaixonada por ninguém. E ela definitivamente não estava apaixonada por Luna. Mas a coisa sobre ficar obsessiva... Bom, Ron tinha um ponto. E para todos os fins, ele nunca falaria por mal. Qualquer outro cara poderia dizer por implicância ou apenas para verbalizar alguma fantasia sexual esquisita. Mas Ronald não. Eles tinham um longo histórico de amizade. E até um namoro saudável no meio disso. Agora a relação atingira um nível fraterno sólido e, mesmo que ela não concordasse com ele (o que não era uma surpresa para nenhum dos dois), Hermione considerou o que ele disse sobre o modo como ela lidava com coisas que a intrigavam. E ele tinha razão, nem sempre era do jeito mais saudável. Isso a fez decidir que já que estava tão curiosa, ela poderia simplesmente perguntar, ser amigável, e então colocar Luna Lovegood e qualquer uma de suas bizarrices de volta ao fundo de sua mente.
E talvez essa tenha sido a razão para ela puxar assunto no final de uma quarta feira cansativa:
— Silence? — inquiriu de maneira distraída quando entrou no quarto e reconheceu Beetovhen.
— Moonlight. — Luna respondeu, abaixando o som.
Ela sempre fazia isso quando Hermione chegava, buscando fones logo em seguida. Uma vez ela havia dito algo sobre gostar de sentir a música reverberando pelo espaço. No entanto, tinha o bom senso de só fazer isso quando estava sozinha. O gesto educado era uma cortesia que Granger nunca pedira em voz alta, mas apreciava.
— Não, por favor – Hermione disse, fazendo um gesto para que ela não se levantasse – Pode deixar.
Luna a encarou por um segundo a mais que o necessário, com aqueles olhos enormes e desconcertantes.
— Tudo bem. – inconscientemente Lovegood começou a trançar uma mecha do próprio cabelo. Era uma mania. Hermione se assustou ao perceber que havia previsto o movimento dela antes mesmo que Luna começasse. A voz de Ron ecoou em sua mente por um segundo e ela dissipou o pensamento balançando a cabeça e se ocupando em organizar os livros na cômoda compacta ao lado da cama.
O seu lado do quarto era limpo e sóbrio. Suas coisas se resumiam a cama com a cabeceira de ferro pintado de branco e gavetões úteis, a cômoda que ela arrumava com precisão todos os dias, e as três prateleiras de vidro fixas na parede. As cores vibrantes só saltavam dali: das capas duras e bonitas das edições de seus livros favoritos.
E mesmo que nada além de sete retângulos de piso laminado separassem o “lado de Hermione” do “lado de Luna”, ainda assim parecia se tratar de outro cômodo: a arara de roupas de Lovegood era uma confusão de tecidos e paletas de cores. Havia um filete de luz de fada que se emaranhava por todos os lugares possíveis. A cama estava permanentemente coberta por colchas de retalhos que envolviam motivações florais ou estelares e ela tinha um armário antigo de duas portas que, embora não transportasse ninguém para Nárnia, devia ser considerado igualmente mágico por conseguir sobreviver ao peso de todas as coisas que ela entulhava lá dentro. Conchas e pequenas miniaturas ornavam o umbral de sua janela e havia muitas caixas de tamanhos e formas diferentes que ela guardava embaixo da cama. Luna também cultivava um mini terrário dentro de um bule de chá de vidro que mantinha em cima do aparador aos pés da cama, junto com uma caixinha de musica.
Apesar disso (e embora Granger não soubesse) ela também era metódica: era extremamente competente ao controlar seu microuniverso no espaço que lhe era destinado.
Quando Hermione terminou seu pequeno ritual doméstico, as notas do piano ainda estavam soando. Era triste e angustiante, mas, ainda assim, bonito. E parecia muito com Luna de algum modo.
— É um pouco perturbador. – Hermione se pegou dizendo.
Luna soltou um som pelo nariz. Parecia com um riso.
— Um pouco. – ela anuiu, antes de continuar – me faz pensar em um dia chuvoso. Um dia chuvoso fora de casa, sem agasalho adequado. Como faz frio, você tenta se aquecer de algum modo: entrando em um estabelecimento, comprando um chá ou se abraçando, não importa. O que importa é que quando você consegue isso... Digo, quando você consegue se aquecer um pouquinho... A sensação é dolorosamente gostosa. É isso que eu sinto quando escuto Moonlight.
— Isso foi... bem especifico. – Hermione murmurou, um pouco surpresa por entender o que ela queria dizer: o sentimento era ambivalente. A musica era bonita porque era triste. E vice versa.
— Você parece surpresa. – Luna constatou no tom gentil habitual.
— Acho que aturdida explica melhor. – ela foi sincera. – Eu nunca tive uma relação muito intima com música. – Luna a olhou como se um terceiro olho estivesse brotando de sua testa. Hermione sentiu um principio de irritação. De todas as coisas do mundo, era isso que a assustava?
– Eu gosto de musica, como qualquer pessoa. – explicou, na defensiva. – Eu apenas nunca parei para pensar sobre música. Não desse modo. E não com Beethoven.
A expressão de Luna voltou a ficar suave.
— Eu poderia dizer que eu entendo, mas... Eu não entendo. – Luna disse com cuidado, e Hermione não pode deixar de rir.
— Bem, isso nos deixa quites, não é?
— É. – Luna disse, depois de pensar por um tempo. – Não é estranho?
— Sim! – Hermione quase gritou de empolgação. – Agora você está começando a me entender.
E isso fez com que elas rissem juntas, pela primeira vez.
— Às vezes eu passo horas pensando em você. – Hermione disse no calor do momento, e sentiu o rosto esquentar na mesma hora ao perceber como a frase poderia soar. – Digo, no sentido de que você é muito diferente de mim e eu fico pensando como é possível que... – ela não conseguiu concluir por conta do constrangimento, mas Luna não pareceu se importar. Na verdade, ela sequer pareceu estranhar a frase. Seu rosto continuava plácido. Ela assentiu com a cabeça, por solidariedade.
— Eu entendo que isso pode ser um pouco incômodo. Mas é bom conversar com você. – Luna disse. – E talvez se nós fizéssemos isso mais vezes... Talvez você pudesse se sentir mais confortável.
Hermione duvidava, mas assentiu mesmo assim porque ela estava sendo tão gentil e, de certo modo, tão normal.
— Eu espero que sim. Seria bom comprovar que você não é uma bruxa ou algum ser mítico assim. – brincou.
— Eu sou uma bruxa. — Luna disse calmamente, e abriu um sorriso quando Hermione ergueu uma sobrancelha.
— Ah! Há-há. – Hermione revirou os olhos, se sentindo estúpida por ter considerado aquele absurdo por um segundo.
— Não, eu sou mesmo. Wicca. – Luna disse, ainda com o tom calmo.
— Oh. – As ondas de constrangimento começaram a atingir Granger em camadas. – Me desculpe, eu não quis, eu... – ela gaguejou, achando que seria um ótimo momento para ser enterrada viva. – Eu não quis desrespeitar a sua religião.
— Tudo bem. – Luna garantiu.
O silêncio que se seguiu foi agonizante para Hermione.
— Você tem? – Lovegood perguntou, ao perceber que aquilo estava sendo difícil para ela.
— O que? – Hermione olhou para todos os lados. Ela estava disposta a entregar qualquer coisa afim de aliviar o momento incomodo.
— Como é mesmo que você disse? Religião. – Luna não se importava de verdade. Essa era uma pergunta que nunca faria em outro contexto. Parecia muito pessoal. Era como querer saber a cor da roupa intima de alguém. Mas agora ela já sabia que esse era um tópico normal de discussão para as pessoas. E aparentemente era isso que as pessoas faziam: jogavam conversa fora quando não tinham mais nada que pudessem fazer. Ela nunca tinha entendido direito o conceito da coisa, mas entendia que Hermione estava se esforçando para falar com ela por alguma razão. E achava isso amável.
— Ah, não. – Hermione pareceu se recuperar um pouco. – Judia, mas ateia.
— Faz sentido.
— Faz? Você é a primeira pessoa a dizer isso.
— Faz sentido pra mim. – Luna se limitou a dizer, encolhendo os ombros.
— Obrigada. – Hermione sussurrou, sem saber bem pelo que estava agradecendo.
— Por nada.
A conversa só serviu para melhorar e para piorar as coisas. Assim, simultaneamente. Se por um lado Hermione conseguira descobrir – e apreciar – uma faceta de Luna que até então não conhecia, por outro lado, isso só serviu para que a inquietação aumentasse e ela se sentisse cada vez mais curiosa em relação à garota. Luna parecia um quebra-cabeça-mágico. Agora era difícil entrar no quarto e ignorar sua existência, como ela havia feito incontáveis vezes ao longo dos meses anteriores sem sentir peso na consciência.
Além do mais, quando elas se falavam Luna era amigável sem nunca ser intrusiva. O medo de Hermione – de que, se fosse legal, Luna criasse a expectativa de um laço intimo unilateral do qual ela não gostaria de participar e não saberia como desfazer – parecia cada dia mais incoerente. Na verdade (e isso lhe causava arrepios) era quase o contrário. Ela quem vinha sentindo ímpetos de conversa. Ela que de repente descobrira que estudar no quarto era tão produtivo quanto na biblioteca. Ela que queria descobrir coisas da vida de Luna por motivos ainda obscuros. E era ela quem agora, de repente, tinha elogios a fazer:
— Isso até que fica bem em você. Meio Leia Organa. – comentou uma vez, enquanto Luna amarrava pequenos coques no alto da cabeça.
— Leia Organa? – Luna franziu o nariz, parecendo momentaneamente perdida. – Ah! A moça dos donuts na cabeça. Star Wars, certo?
— “Star Wars, certo?” – Hermione repetiu, sem acreditar. – Você não pode estar falando sério!
Luna riu do horror estampado no rosto dela.
— Não sou fã de ficção cientifica.
— Então o que sobra pra ser fã? – Hermione perguntou, sinceramente na duvida.
— Fantasia histórica. – Luna nem piscou para responder.
— Isso envolve os contos de fadas?
— Porque não envolveria?
— Ah, deixa eu ver... – Hermione ironizou — Idade das trevas, moral dúbia, repressão feminina...
— Representações do inconsciente humano, força frente às adversidades... Dragões!
— Que podem te queimar viva.
— ...Analogias, castelos, magia. – Luna continuou, ignorando-a. – Tem muita coisa para se gostar, mas eu não vou discutir com uma advogada. — avisou, embora estivesse se divertindo.
— Quase advogada. – Hermione consertou, mas sua semi-indignação foi aplacada pela comoção de ter sido chamada pela sua futura profissão. – Tudo bem... Só não me diga você gosta de Cinderela.
— Oh, não, isso seria terrível. – Luna concordou. – A minha preferida é a Bela Adormecida.
Hermione girou os olhos.
— Isso não pode estar certo.
— Está, sim.
— Existem duas Belas e você escolheu a errada.
— É claro que você gosta da outra.
— Eu não disse que gostava. – Hermione se defendeu, rápido demais. – Mas se fosse para gostar, então não vejo que outra opção eu teria. – Isso fez Luna gargalhar. Hermione nunca tinha visto isso acontecer antes: Luna era, no que diz respeito a reações, extremamente contida a uma expressão de eterna calma. Havia algo de muito bonito no jeito que ela fechava os olhos e tombava a cabeça um pouco para o lado e o modo como o som irrompia por sua boca, fazendo seu peito subir e descer de um jeito convulsivo.
Hermione sabia que suas bochechas deveriam estar ficando perigosamente vermelhas, por isso continuou:
— Do que você está rindo? Você queria ser a Aurora! – Acusou, recompondo-se.
— De muitas maneiras, ainda quero. – Luna contou sem remorso algum. – Dormir para sempre seria o sonho, não?
— Agora eu não sei se você está sendo engraçada ou mórbida. – Hermione confessou ao que Luna encolheu os ombros, voltando a se concentrar no próprio cabelo.
A falta de resposta fez com que, naquela noite, Hermione perdesse o sono. Quando, no escuro, entre um pensamento convulsivo e outro, a voz de Luna pareceu sussurrar um “Hermione?”, ela já havia perdido as contas de quantas vezes havia rolado de um lado para o outro.
— Sim? – respondeu, no mesmo tom.
— Você precisa de ajuda? – O modo como ela foi gentil e preocupada fez com que uma onda de raiva irrompesse em algum lugar de Hermione.
— Não.— respondeu de maneira brusca. — E você?
— Sim.
Ela não esperava que Luna respondesse. Ela só estava tentando ser malvada. A resposta a desarmou e a fez ligar o abajur. Os pálidos olhos azuis de Luna pareciam vítreos. Hermione sentiu o coração comprimir.
— O que eu posso fazer por você? – perguntou, percebendo só depois de falar que estava realmente disposta a ajudar.
— Eu não sei, dizer faria parecer que somos amigas.
— Nós poderíamos ser.
Luna a encarou com cuidado.
— Eu escrevo músicas.
— Ok... – Hermione disse com cuidado, porque o tempo que ela demorou para revelar algo que parecia tão simples poderia ser o mesmo utilizado por uma pessoa prestes a confessar assassinato.
— Costumava ser uma coisa boba entre minha mãe e eu. E então ela morreu e deixou de ser uma brincadeira para se tornar uma homenagem. Uma obrigação, mas de um jeito bom. Naquele dia... No dia que eu não estava bem... Eu tinha acabado de perder o prazo de um concurso cultural. E eu havia dedicado muito do meu tempo e trabalho nisso. Se eu tivesse participado... Se eu tivesse participado e ganhado talvez eu soubesse o que fazer agora. Escolher entre zoologia e música. Talvez eu pudesse dormir. Dormir de verdade.
Hermione sentiu um nó na garganta por ela. Vasculhou no cérebro uma lista de coisas que poderia dizer e nenhuma pareceu boa o suficiente. Não adiantava nada ser inteligente se não podia dizer alguma coisa numa hora como aquela. Ela ergueu o braço, esperando que isso fosse o suficiente. Luna ergueu o dela também, de modo que as pontas dos dedos de ambas pudessem se tocar.
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