Roommates
2 Uma música do Joy Division
Notas iniciais
–Alex? Oi? ALEX!!!
Acordei do transe com o grito de Nana. Eu estava completamente hipnotizado por aquele menino, mesmo com a minha cabeça avisando que eu deveria gostar de meninas. Era o que todos disseram para mim, então deveria ser a coisa certa. Mas era simplesmente impossível parar de olhar.
–Certo... — Nana me olhou desconfiada. — Esse é o Guilherme, ele trabalha numa loja de instrumentos aqui no bairro mesmo e é, até agora, o melhor candidato. Acho que você arranjou uma casa, amigo.
Todos olharam espantados para Nana e ela me deu um olhar sugestivo, indicando que ela percebeu o que eu estava sentindo. Meus pensamentos se resumiam em um "FODEU" gigante e com letras de neon. Tava tão na cara assim??
Percebi que Nana cochichou alguma coisa no ouvido de Camila, o que a fez rir e dizer:
–Nós vamos indo. Alex, mostre o apê pro Gui! Qualquer coisa é só chamar a gente aqui e... Bem-vindo!! — Camila chegou perto da porta e começou a fazer gestos insinuando alguma coisa entre eu e Guilherme.
Lembra o "FODEU" gigante e em letras de neon? Minha cabeça nesse momento.
Guilherme, que não viu os gestos de Camila, simplesmente olhava espantado para mim. "Ele percebeu tudo" foi o que eu pensei. Imaginei toda uma tragédia, onde ele falava que morar comigo não ia rolar, viraria as costas e sumia dali o mais rápido possível. Já fizeram isso comigo e com ele não seria diferente.
Mas não:
–Então, elas são sempre assim? Tipo rápidas, eficazes... firmes? Quer dizer, eu acabei de entrar e já vou morar aqui!
–Ahn... É... Sim, basicamente 99% do tempo.
–E o 1%?
–Esse é o tempo que elas ficam se pegando... — estranhei essa minha fala mas ele riu. Bastante.
–O amor é lindo mesmo! — ele disse, ainda rindo. – Então, você não vai me mostrar o apê?
–Bem, a sala você já conhece, mais um pouco e chegamos à cozinha. — dei mais dois passos — Aqui é o meu quarto. Esse lugar aqui do lado pode ser seu quarto, mas ele tá meio bagunçado e sem cama. E logo ali na frente o banheiro. Pronto!
–Uuuh, tem algum problema se eu não tiver mobília pra trazer? Na verdade, eu to morando na loja onde trabalho e dormindo num sofá horroroso. Só com uma mochila e um clarinete.
–Um... clarinete?
–Sim, um clarinete.
Ele falou isso na maior seriedade, mas tudo que eu consegui lembrar foi o Lula Molusco, o que me fez rir.
–Um clarinete. — parei de rir — Ok, tem o sofá e eu tenho uma cama dupla, você escolhe.
Me arrependi dessa frase 5 segundos depois. Eu simplesmente ofereci meu quarto, o lugar mais secreto que tenho, para o cara que me causa sentimentos estranhos. E o pior de tudo: ele escolheu dormir lá.
Voltamos pra sala e ele começou a olhar a minha estante de livros e cd's. Guilherme parecia tão interessado nas minhas coisas que, por um momento, pensei que ele estivesse interessado em mim. Ilusão é meu nome do meio, certeza.
Ele pegou um cd do Joy Division e começou a sorrir:
–Sabe, meu irmão me mostrou essa banda. E apesar das músicas serem incrivelmente tristes, só tenho boas memórias quando lembro delas. — ele ficou pensativo por um momento — Vendo seus gostos, assim de relance, eu poderia dizer que vocês dois seriam bons amigos.
Ele ficou quieto, então simplesmente ri e concordei. Senti que havia alguma coisa ali, tipo um drama familiar ou algo assim, mas não tinha coragem para perguntar. Acredito que ele percebeu o clima estranho e tentou puxar outro assunto. Um assunto bem estranho, digamos.
–Então... Namorada? Quer dizer, você tem namorada?
–Não... você tem?
–Não... — uma parte de mim se sentiu aliviado — Às vezes, rola alguma coisa aqui e ali, mas nada tão sério. E prometo não trazer ninguém aqui!
Ok, ele podia ficar com outras pessoas, ou melhor dizendo: com meninas. Mas, senti um pouco de ciúmes. Sei que estava lutando com meus sentimentos, que achava aquilo errado, só que o fato de Guilherme ficar com meninas significava que qualquer coisa que eu fizesse não iria importar para ele. Pelo contrário, só iria afastá-lo.
Novamente só ri e concordei. Guilherme percebeu que qualquer assunto que criasse ia acabar na mesma coisa, então resolveu ir ao banheiro. Aproveitei para ir ao meu quarto, deitar na cama e tirar todo pensamento que tivesse sobre ele.
Quando finalmente consegui relaxar, abri os olhos e vi Guilherme na porta do quarto. E foi tudo aquilo de novo: estômago embrulhado e sensação boa. Ia dividir o quarto com ele, e por tempo indeterminado. Teria que impedir aqueles sentimentos todos os dias e isso seria uma tarefa difícil.
Mas, sempre que via Guilherme minha vida virava uma música do Joy Division e eu perdia o controle de novo.
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