Room 93
5 V. Trouble
Notas iniciais
I’ve got my mind made up this time
‘Cause there’s a menace in my bed
Can’t you see his silhouette? Can’t you see his silhouette?
And I’ve got my mind made up this time
Go on and light a cigarette
Set a fire in my head
Set a fire in my head tonight, tonight
E eu estou decidida dessa vez
Porque há uma ameaça na minha cama
Você não consegue ver sua silhueta? Você não consegue ver sua silhueta?
E eu estou decidida dessa vez
Vá em frente e acenda um cigarro
Comece um incêndio na minha cabeça
Comece um incêndio na minha cabeça, hoje à noite
Halsey – Trouble
Quando Nicole vê quem está ligando, ela não deixa cair na caixa postal. Faz duas semanas desde a última vez em que viu Callum, e as coisas têm estado irritantemente normais, exceto pelo fato de que ela sente falta de seu melhor amigo e, às vezes, o odeia por isso. A última conversa entre eles não para de se repetir em sua mente, e parte dela se arrepende de ter sido tão dura. Não é que ela não estivesse sendo sincera. Mas, em retrospecto, talvez Nicole também merecesse ouvir um pouco de sinceridade.
Então, quando o nome Callum aparece na tela do celular dela, a ausência de apelidos carinhosos fazendo parecer o nome de um estranho, ela atende e espera que ele fale, sem dizer nada. Por um instante, os dois ficam em silêncio, e parece que vão continuar assim, até ele dizer:
— Uau. Eu não achei de verdade que você fosse atender.
Ela permanece muda.
— Eu só... Queria ver como você está. Sei que não estamos exatamente...
— Eu que devia fazer isso – interrompe Nicole.
— Isso?
— Te ligar pra ver como você está. – Não fui eu quem saiu chorando naquele dia. Pra variar. Ela faz uma pausa. – Eu estou bem. Você?
— Indo. Sinto sua falta – Nicole fecha os olhos e respira fundo, e algo no som deve alarmá-lo, porque ele acrescenta rapidamente: — E eu sei que eu não tenho o direito de dizer isso. Eu sei que eu sou o motivo pelo qual você não está aqui.
Ela não sabe o que dizer. Ele não está errado, mas, de certa forma, parece muito mais complicado do que isso.
— Você teve seus motivos – responde, por fim. – E eu tenho os meus.
Do outro lado da linha, Callum suspira. Nicole consegue imaginá-lo com clareza, das olheiras sob os olhos castanhos até as meias sujas que ele costumava usar para dançar sozinho no quarto deles. É um pensamento agridoce, perceber que ela o conhece bem o suficiente para isso, mas não tem a menor ideia de quem ele seja de verdade.
Quando ele torna a falar, o som é muito mais baixo, quase como se ele não quisesse ser ouvido.
— Eu ainda tô tentando entender quais motivos me levaram a perder você – Ele hesita. – Não que você já tenha sido minha.
Nicole acha que vai começar a chorar.
— Mas esse é o problema, Cal. Eu era.
Ela desliga o telefone antes que possa dizer algo ainda mais idiota, e passa um tempo encarando a tela, esperando para ver se Callum vai ligar de novo. Ele não o faz. Nicole deixa o aparelho de lado e se pergunta se é realmente assim que termina.
***
As semanas seguintes são de silêncio completo, e, no final do décimo quinto dia, Nicole sente uma saudade desesperada do que eles costumavam ser. Não desse Callum, perdido e despido de todas as ilusões que ela via nele. Não dessa Nicole, um pouco mais cética e um pouco mais cruel. Ela sente falta do jovem casal perdido em meio às luzinhas de natal em um quarto de hotel vazio, das constelações que eles fingiam ver no teto.
Mas ela sabe que isso não existe mais. Callum está chorando e sendo chamado para entrevistas de emprego, e Nicole – bem, se ela for sincera, precisa admitir que está indo bem melhor sem ele. Aquelas noites acabaram, e talvez esteja tudo bem. Em algum nível, ela sabe disso. Mas a saudade dói, e a tolerância à dor de Nicole sempre foi fraca; é por isso que ela se encontra parada à porta de um quarto de hotel em um sábado a noite, encarando os dois números escritos na madeira e tentando se convencer a dar meia-volta.
A situação é familiar, mas ela se sente uma estranha. A Nicole que assombrava esses corredores está perdida em algum lugar no fundo dos olhos de Callum, e essa nova Nicole não sabe o que quer encontrar do outro lado da porta. Ela não sabe qual versão de Callum vai estar ali, nunca soube – e nunca fez diferença, mas agora faz. É de Callum, seu amigo, que ela sente falta, não de Callum, o rei, o semideus, o fantasma. Do garoto que dança sozinho em suas meias listradas e tem o sorriso tão caloroso quanto mil sóis, e não daquele mais-ou-menos-homem que a encara com olhos esvaziados pela vida diária e sorri como se alguém o tivesse ensinado que deveria.
Por um instante, Nicole considera bater à porta, dar a Callum a chance de se preparar para sua entrada, mas decide que é um pouco tarde para isso. Você coloca o cinto de segurança antes da colisão, e não depois que tudo está em pedaços e o estrago é irreversível. Assim, ela respira fundo e abre a porta.
Callum está sentado na cama, virado para a porta, como se a estivesse esperando. Ela se lembra da última mensagem que recebeu dele, a que finalmente a convenceu de que valia a pena dar a ele uma última chance. Eu não quero te reconquistar, ele dissera, e antes que tenha tempo de pensar no assunto, Nicole se vê dizendo:
— Eu espero que você tenha sido sincero, porque eu realmente tomei uma decisão dessa vez, Cal.
A forma como ele olha para ela, como se ela tivesse acabado de estapeá-lo, é ao mesmo tempo enfurecedora e amável.
— E qual é essa decisão, se eu tenho o direito de perguntar?
Que eu preciso deixar de te amar como amo, Nicole quase diz. Que você não presta. Que você tinha razão desde o início, e nós nunca fomos bons um para o outro.
Ela diz:
— Eu decidi que nunca mais vou voltar a esse quarto.
Há um momento no qual as palavras ficam suspensas no ar junto com todas as memórias e a fumaça de todos os cigarros que eles já fumaram nesse quarto, então Callum solta um suspiro longo, como se estivesse prendendo a respiração.
— Uma decisão razoável, sem dúvida – diz ele, com aquele meio sorriso absurdo. — Você daria uma volta comigo, então?
Seria tão fácil dizer não. Nicole poderia dar um passo à frente, fechar a porta atrás de si e cair direto nos braços dele, beijá-lo até seus lábios sangrarem e seus joelhos estarem fracos demais para sustentá-la, fingir que eles nunca foram um problema. Ou ela poderia dar meia-volta e desaparecer. Uma dessas opções é mais tentadora que a outra, mas, pela primeira vez em sua vida, Nicole acaba decidindo pela opção mais razoável:
— Tudo bem.
Ambos dão uma última olhada ao redor do quarto, como se estivessem verificando se esqueceram alguma coisa antes de fazer o check-out definitivo. Pela última vez, Nicole olha para o teto branco e vazio onde eles costumavam imaginar estrelas, e se pergunta se algum dia verá um céu tão lindo e tão triste. As luzinhas de natal continuam piscando por trás de suas pálpebras, e a música de Callum ecoa em seus ouvidos.
Há tanto que eles estão deixando, de propósito ou por esquecimento, mas ninguém além dos dois nunca vai ser capaz de perceber isso. Na manhã seguinte, quando a camareira vier arrumar o quarto, tudo o que ela verá será um quarto de hotel branco e perfeitamente imaculado, vazio pela baixa temporada. O quarto 9, porque o quarto 9(3) agora só existe em um cantinho escondido do coração de Nicole, e ela pretende mantê-lo firmemente trancado por algum tempo.
Depois que a porta se fecha, Callum a encara por algum tempo, parecendo quase desnorteado. Então, ele tira uma caneta do bolso e se inclina para rabiscar por cima do 3 torto pichado na madeira, transformando-o em nada além de uma mancha irregular de tinta azul.
Nicole o observa com pesar, em silêncio. Eles não falam nada até estarem fora do hotel, na calçada. Há um momento de hesitação antes de eles começarem a caminhar, sem nenhum rumo ou objetivo aparente; pelo visto, vão terminar essa relação exatamente do mesmo jeito que a levaram até agora.
É Callum quem quebra o silêncio:
— Eu sei que não é justo, mas eu fico pensando em como chegamos até aqui.
— Eu quero dizer que é sua culpa – replica Nicole, em voz baixa. — Mas não vejo qual o objetivo disso.
Os ombros de Callum parecem cair um pouco.
— É disso que estou falando. Nós costumávamos ser amigos, certo? Quando foi que começamos a apontar culpados?
Nicole reflete um pouco sobre a pergunta. Ela sabe que há uma resposta fácil, uma que vai encerrar a conversa e permitir que eles sigam seus caminhos paralelos, mas não consegue encontrá-la.
— O problema não foi que nos tornamos mais do que amigos, o problema foi que nos tornamos unilaterais – diz, por fim. – Eu teria feito qualquer coisa por você, e nunca tinha certeza de que você faria nada por mim – Ela faz uma pausa, revisando as frases em sua cabeça. — Nada além de beijos, cigarros e momentos roubados. Isso era tudo o que nós éramos, porque era tudo o que você estava disposto a me dar.
Eles estão atravessando uma ponte agora, se aproximando de uma parte da cidade à qual eles raramente vão. Callum para, se recosta no parapeito e tira um cigarro e um isqueiro do bolso. Ele acende o cigarro da mesma forma que costumava acender sinais de alerta no cérebro de Nicole, com os mesmos dedos que costumavam fazer sua pele queimar e reduzir seu bom senso a cinzas.
— Eu sinto muito que eu não tenha demonstrado o quanto me importo com você – diz, e soa sincero, mas ele está olhando para a cidade lá embaixo, e não para ela. — Eu sempre achei que minha vida fosse complicada, mas acho que a única coisa complicada a respeito dela sou eu. Eu não sei o que há de errado comigo.
Se Nicole estivesse em um humor mais tempestuoso, essa seria sua deixa para dizer a ele para parar de se fazer de coitadinho, e que pessoas passam por coisas ruins de verdade na vida, e que ela não tem culpa do fato de ele odiar a si mesmo e ser incapaz de crescer, e que ela tem os próprios problemas e eles não deixam tempo para resolver os problemas de Callum. Nada disso seria mentira, e nada disso ajudaria caso fosse dito em voz alta. Callum continuaria sendo um menino perdido e partindo corações, e Nicole continuaria assombrando os quartos de outras pessoas, e os dois perderiam uma pessoa que os entende. Ela veio aqui para recuperar seu melhor amigo, não para brigar.
Então, ao invés disso, ela fala:
— E eu não sei o que há de errado comigo, porque eu achava que isso era exatamente o que eu queria – Nicole se inclina e toca gentilmente o rosto de Callum, fazendo com que ele se vire para fitá-la. Ele parece perdido e triste e tão dolorosamente familiar, e ela sente uma pontada de esperança. — Eu não estou tentando te dizer que você é um vilão, porque eu poderia ter ido embora… E eu tentei, acho que você sabe que tentei, mas eu nunca parecia ser o suficiente. Tinha tantas coisas que eu faria por você, mas não por mim mesma, e tantas coisas que você não sabia como fazer. Esse era o nosso problema desde o início, Cal. Nós não queríamos estar juntos. Nós estávamos juntos porque não sabíamos como ficar sozinhos, e porque nunca achamos que merecíamos coisa melhor.
Callum ouve em silêncio, e, quando Nicole termina de falar, acha que vê lágrimas se formando nos olhos dele antes de ele fechá-los, os cílios longos quase tocando as manchas escuras das olheiras permanentes.
— Seria horrível demais – começa ele, soando sem fôlego. — se eu pedisse pra você não me deixar?
O polegar de Nicole traça círculos na bochecha dele, suaves e carinhosos, e ela o ama tanto que é como uma dor física em seu coração. Esse é o xis da questão, ela acha – ela ama Callum, sempre o amou e sempre vai amá-lo, mas esse não era o motivo pelo qual se agarrava tão desesperadamente a ele. Callum nunca foi seu bote salva-vidas, nem uma ameaça, nem um deus, nem um fantasma. Ele era só um rapaz, em algum lugar entre homem e menino, e ela se agarrava a ele simplesmente porque não sabia como soltá-lo.
— Eu não conseguiria te deixar mesmo que você me pedisse – admite Nicole, e Callum deixa escapar uma respiração trêmula. Ela tenta manter a voz o mais suave possível, o tom íntimo de uma forma que parece deslocada em um lugar tão aberto. — Mas a gente não pode continuar dessa forma, Cal. Eu não vou ser só mais um dos seus casos, e você não vai ser minha forma de lidar com meus problemas. Nós dois precisamos dar um jeito de entender que merecemos mais do que isso.
Os olhos de Callum se abrem, tão cansados e castanhos quanto sempre, e, para a surpresa e o alívio de Nicole, ele sorri.
— Amigos, você quer dizer.
— Amigos – concorda Nicole, e é a vez dela de fechar os olhos quando Callum toca sua bochecha com os nós dos dedos, delicadamente.
— Você continua sendo a menina mais linda que eu conheço – murmura ele, e ela suspira.
— Bom saber. Assim, eu tenho certeza que você não vai me esquecer.
— Eu nunca poderia esquecer você – retruca Callum, e, após um momento de hesitação, acrescenta: — Eu sei que você acha que nós só existíamos naquele quarto, mas isso não é verdade. Eu sempre achei que existir era mais fácil com você, em qualquer lugar. Queria que você soubesse disso.
Nicole não tem muita certeza, mas, agora, discutir não parece ter sentido. Ela só assente, aproveitando a sensação dos dedos de Callum em seu rosto do mesmo jeito que sempre apreciou o toque dele, mas com muito mais determinação, agora. Ele faz com que ela se sinta fraca, mas, nas últimas semanas, Nicole percebeu que é mais resistente do que imaginava.
— E sobre todas as coisas que eu não faria por você, eu tentei – continua Callum, a voz frágil e suave e tão facilmente reconhecível. É uma voz para o quarto 9(3), e há certo conforto em saber que esse tom ainda pode existir, mesmo que o quarto não exista mais. — Não é uma justificativa, e eu sinto muito que não tenha conseguido. Mas eu queria que você soubesse que eu faria qualquer coisa por você. Mesmo que eu não seja bom nessas tais coisas.
Algo na forma como ele fala a última frase faz com que Nicole ria, abrindo os olhos para encontrar o sorriso dele.
— Qualquer coisa? Bem, acho que posso trabalhar com isso.
Callum revira os olhos, sua mão finalmente se afastando do rosto dela. O momento de intimidade passou, e ambos se viram para fitar a paisagem lá embaixo.
— Dá pra ver que você já tá trabalhando com as possibilidades.
Nicole franze os lábios, fingindo pensar.
— Vejamos. Assassinato? — Ela ergue uma sobrancelha. — Você sangraria por mim? Lutaria pela minha honra?
— Sem hesitação – Callum desenha um X sobre o coração com o dedo indicador, a expressão falsamente solene. — Juro.
Eles riem, e é a interação mais fácil que tiveram desde que aquela porta com o 9 de latão e o 3 rabiscado em caneta se abriu à frente deles. Nicole é inteligente o suficiente para saber que as coisas ainda vão demorar muito para ficar completamente bem – ela ainda quer desesperadamente tocar Callum, puxá-lo para um beijo, torná-lo dela porque não sabe como viver sem seus dias chuvosos e meias listradas –, mas ela também é esperançosa o suficiente para ver que há a possibilidade de que eles possam existir juntos e separados em um futuro próximo, e isso é tudo de que ela precisa agora.
Os dois caminham juntos por mais alguns minutos, suas mãos quase se tocando entre eles, antes de Nicole decidir que seu trabalho aqui está feito. Algumas coisas são melhores em pequenas doses; Callum é uma dessas coisas, pelo menos até ela descobrir como tomar uma dose maior sem cair na tentação de ter uma overdose.
Eles se despedem com um abraço que dura mais do que uma despedida normal entre amigos, mas menos do que um beijo entre amantes, e, no caminho de volta, ao passar pelo hotel pequeno e imponente com suas paredes descascadas, Nicole não hesita por mais do que um momento. Ela sabe que vai sentir falta do lugar, mas é libertador sentir que não faz mais parte do seu cortejo de fantasmas. Talvez agora que não está tão ocupada assombrando corredores e marcando encontros furtivos com Callum, ela finalmente tenha algum tempo para encontrar a si mesma.
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