Rookies Off-Campus
1 Uma questão de crescimento.
O cheiro de graxa de sapato e o reflexo fosco que teimava em não brilhar como o capitão exigia pareciam resumir o final de tarde de Leon Scott Kennedy. Sentado na beirada do beliche no alojamento dos yearlings da Raccoon State Military University, ele segurava a escova com um movimento mecânico, a mente vagando por pensamentos que não tinham nada a ver com regulamentos militares.
A porta do alojamento se abriu com um estalo seco, interrompendo o murmúrio abafado dos outros yearlings. Ada Wong cruzou o limiar. Vestida com a farda impecável de sargento do terceiro ano, ela trazia aquela postura altiva de quem parecia dona de metade da faculdade militar, o que, para todos os efeitos praxeológicos dentro daquele sistema de hierarquia rígida, ela quase era. Ela era a sargento cadete responsável por liderar aquele esquadrão, sob a supervisão direta do firstie Albert Wesker, capitão cadete do último ano.
Ada passou os olhos rápidos verificando a organização do alojamento, algo que era sua função. Como quem adorava quebrar um protocolo, com um sorriso dissimulado e um toque deliberado, os dedos finos passando casualmente pela gola da blusa dele, ajeitando o tecido de forma desnecessária, Ada quebrou a distância com uma facilidade desconcertante.
O gesto provocou uma onda imediata de murmúrios e cutucadas de cotovelo entre os rapazes espalhados pelo quarto. Leon sentiu o maxilar travar levemente, mais pelo barulho que aquilo gerava do que pelo toque em si. Logo atrás dele, bem na hora em que Wong se afastava com um piscar de olhos calculista, a voz de um dos colegas ecoou baixa, mas cristalina:
— O comandante já percebeu... vai dar ruim para os dois.
Leon engoliu seco, disfarçando enquanto voltava a focar na bota. Por dentro, era um misto de culpa e exaustão. Quase um ano se arrastando naquele, quase, relacionamento.
Conseguir uma vaga para aquela universidade militar, no ano anterior, considerada a melhor e mais rigorosa do país, tinha sido uma escolha que ele achava que tiraria sua vida da apatia, mas agora parecia mais um convite para o caos.
Era absurdamente difícil resistir ao mistério magnético de Ada Wong; ela era o tipo de perigo fascinante que atraía qualquer um para o abismo com um único sorriso. No entanto, enquanto esfregava o tecido da escova com mais força do que o necessário, uma ponta de lucidez o atingia. Ele sabia que precisava focar mais no porquê de estar ali, na disciplina que prometera manter, antes que as brincadeiras e os passos errados custassem a única chance que ele tinha naquele lugar.
No primeiro semestre, como calouro, Leon estivera sob o regime mais estrito da State: alojamento obrigatório sete dias por semana, sem direito de pisar para fora dos portões nem nos fins de semana. Era o teste de fogo para a sanidade de qualquer recém-chegado. Embora Ada Wong tivesse jogado seu charme sutil sobre ele desde os primeiros dias, a clausura pesada e a rotina exaustiva mantiveram Leon focado no que importava.
Mas a virada para o segundo semestre do primeiro ano mudou as regras do jogo. A liberdade finalmente bateu à porta com o passe livre para os fins de semana nas repúblicas alugadas fora do campus. E foi exatamente aí que o controle desandou. Com a permissão para circular, o que era apenas um flerte distante com Ada transformou-se em algo físico, intenso e caótico.
Entre as repúblicas lotadas de estudantes, as festas clandestinas que desafiavam o toque de recolher e os esconderijos nos arredores da base, eles sempre davam um jeito de burlar o sistema. No entanto, o custo cobrado por essa vida dupla não demorou a aparecer.
Enquanto andava pelo corredor em direção à sala do general, Leon refletia com honestidade. Ele sabia, sem precisar que ninguém apontasse o dedo, que seu rendimento acadêmico naquele final de ano letivo havia despencado. A carência e a distração magnética de Ada começavam a cobrar o preço.
Por isso, quando a ordem de comparecimento à sala do General Davis chegou, ele não hesitou e muito menos temeu. Fosse qual fosse a bronca ou a punição disciplinar, no fundo, Leon sentia um alívio secreto. Ele precisava de um empurrãozinho para se livrar da própria insensatez.
Após bater continência e perfilar-se com precisão, o general não perdeu tempo com rodeios:
— Kennedy? Direto ao ponto. Finalizamos o primeiro ano ontem e tenho observado seus relatórios com atenção agora que você se torna um yearling — começou o oficial, a voz cortando o ar abafado da sala como uma lâmina.
Leon manteve-se em silêncio absoluto. Ele nunca fora de bancar o injustiçado ou de dar desculpas vazias; era honesto demais consigo mesmo para negar o óbvio.
— Seu rendimento em simulação sempre esteve muito acima da média. Digo, sem sombra de dúvida, que você é nossa maior aposta entre os yearlings — o general pausou, apoiando as palmas calejadas sobre a mesa de mogno antes de fuzilar o rapaz com o olhar. — No entanto, certas distrações fazem o melhor soldado hesitar... e a hesitação, em campo real, custa a vida. Não existe espaço para dispersão quando se deseja vestir as insígnias de elite, Kennedy.
Leon assentiu uma única vez, a mandíbula travada, sem nada dizer.
— Você se contenta em ser apenas mais um cadete mediano ou quer ser o melhor? — inquiriu o superior, testando a resiliência do cadete.
— Quero ser o melhor, senhor — respondeu firme, sem pestanejar.
— Excelente. Sendo assim, estou determinando a sua transferência imediata de esquadrão.
Leon conteve um suspiro que beirava a gratidão. Por dentro, agradecia mentalmente por aquela intervenção providencial.
— A veterana Valentine assumiu o comando daquele setor dois meses atrás por alto rendimento — continuou o general, estreitando os olhos. — Ela é implacável, de uma disciplina quase cirúrgica. Posso te garantir, Kennedy: a sargento cadete Valentine não dará espaço para nenhuma espécie de distração, seja dentro dos quartéis ou nas repúblicas fora do campus.
Leon permaneceu em silêncio, apenas concordando com um aceno de cabeça. O nome ecoou em sua mente. Ele conhecia Jill Valentine apenas de relance, avistada de longe nos pátios de treinamento, e através do filtro venenoso das palavras de Ada. Para a sargento Wong, Jill não passava de uma moralista hipócrita, alguém que fingia uma perfeição intocável e uma frieza inabalável que, segundo Ada, escondiam fissuras profundas.
— Com a ascensão do cadete capitão Wesker, decidimos ascender a Wong a sargento do seu antigo esquadrão. Não acreditamos que será uma dinâmica adequada para vocês. — Ele observou a reação de Leon, que permaneceu totalmente sem emoções. — Não podemos perder seu potencial até que a experiência o faça se distrair menos...
Davis seguiu observando Leon, como se esperasse alguma objeção, mas Leon apenas comentou:
— Sei assumir quando o senhor tem razão. Acredito que será uma boa oportunidade para voltar a me focar.
— Muito bom, Kennedy. Faça toda essa mudança ainda neste fim de semana. Está dispensado.
Leon se despediu formalmente e saiu da sala. Agora, ele descobriria por conta própria se a veterana era realmente de ferro ou mestre em dissimulação, como Ada garantia.
Enquanto caminhava de volta para seu alojamento, Leon pensava nos últimos acontecimentos. Ele sabia que o lance com Ada era reflexo da própria carência e luxúria. Perdera os pais muito cedo, criado de lar em lar, sem nunca fincar raízes ou construir vínculos duradouros. Aceitava as próprias dificuldades e tentava compreendê-las, mergulhando em livros e mais livros, mas assumia que existia um abismo entre conhecer e saber aplicar. Ele dominava teorias, linhas de pensamento fascinantes, mas nem sempre conseguia traduzi-las para a prática da própria vida. Entendia que a sabedoria exigia um misto de conhecimento acadêmico e experiência real; a primeira ele já tinha buscado, a segunda viria com os anos.
Ada era sagaz, sabia usar das provocações como jogo de sedução. Ela fizera a leitura correta dele, ele gostava de ser desafiado e ela o desafiava a todo tempo. Aquele tipo de jogo que nenhum homem resistiria, mas que ele sabia que talvez não duraria muito tempo. Ela não era exatamente o tipo de mulher que ele admirava.
Quando chegou ao alojamento antigo para encaixotar suas coisas, observou de soslaio os colegas cochichando, provavelmente curiosos com a movimentação de Leon ou até achando graça da novidade. Leon, contudo, não estava nem um pouco preocupado com a opinião deles. Estava estranhamente seguro de que aquela mudança era o passo certo.
Era sexta-feira, e o alarme sonoro soou pelos alto-falantes, libertando os veteranos da disciplina rígida do quartel por dois dias. Leon achou melhor adiantar o transporte de seus pertences para o novo alojamento; assim, no domingo à noite, quando retornasse à base, tudo estaria em ordem para o início da nova semana.
Quando chegou ao setor do novo esquadrão, os yearlings e freshmen já haviam debandado sob o som da euforia de fim de semana. Ele empurrou a porta de entrada e percebeu uma figura solitária no interior. Antes de entrar, ajeitou a postura esperando a permissão da superior.
Bastou ele juntar os passos para que os olhos dos dois se encontrassem.
A tal Jill Valentine parecia esculpida em pedra. Os olhos azuis brilhavam com uma intensidade que mesclava beleza estonteante e uma frieza cortante.
— Pode ficar com o beliche 2B, cadete — limitou-se a dizer ela, apontando vagamente com o queixo para o canto do quarto.
Leon colocou a mochila e a caixa de mantimentos sobre a estrutura de ferro e já ia se retirando quando a voz dela o travou na porta:
— Uma última advertência do general, Kennedy. A ordem de transferência dele se estende à logística do off campus. A partir de agora, as folgas de fim de semana devem ser cumpridas junto ao perímetro operacional do nosso esquadrão na Zona Residencial.
— Entendido. Vou fazer a mudança essa noite — ele disse, embora levemente confuso.
Aquela reviravolta não estava nos seus planos; ele jamais imaginou que a mudança de esquadrão alteraria até mesmo sua liberdade aos fins de semana. Mas ele não questionou. Apenas engoliu a surpresa e seguiu caminho.
Quando chegou à antiga república — a casa alugada nos arredores onde dividia o teto com os colegas do antigo esquadrão —, começou a juntar o restante de suas coisas espalhadas pela sala.
Uma hora depois, ele olhava em volta conferindo se esquecia alguma de suas poucas coisas e, antes que pudesse atravessar a porta de saída com a caixa, foi interceptado por Ada. Ela vestia roupas civis, dispensando o uniforme, e bloqueava a passagem com os braços cruzados.
— Isso é ridículo. Nós podemos recorrer facilmente dessa decisão, Leon. Seus números na simulação são altos demais para te trocarem de setor... — argumentou ela, estreitando os olhos. — Bem agora que fui promovida...
— Eu não quero recorrer — ele respondeu, desprovido de qualquer emoção.
— Vai mesmo passar o ano sob a rotina torturante da Valentine?
— Qual é o problema? — retrucou ele, mantendo a postura firme. — Quem tem medo de um pouco de pressão?
Ada deu um passo à frente, fechando o espaço entre os dois, antes de deslizar os dedos longos e frios pelo colarinho da blusa dele, ajeitando o tecido com uma intenção de provocação pura.
— Pensando bem... Vai ser extremamente desafiador — murmurou ela, com um sorriso felino nos lábios. — E eu vou adorar assistir à expressão de pura decepção no rosto daquela santinha quando perceber que não consegue controlar todo mundo. Especialmente quando você escapar para vir me ver...
Leon engoliu seco. Para Ada, aquilo era apenas um jogo, uma aposta de ego. Para ele, no entanto, tornara-se um teste implacável de força e autocontrole. Talvez Ada estivesse certa e ele realmente não tivesse a disciplina necessária para se manter distante dela; afinal, tudo aquilo prometia ser um teste perigoso.
Mas, olhando nos olhos de Ada, Leon percebeu algo a mais: ela havia transformado a situação em um assunto estritamente pessoal. A nova sargento Wong estava mais do que pronta para provar ao mundo, e à própria Jill Valentine, que a veterana perfeita não era tão imbatível quanto fingia ser.
Antes que Leon pudesse falar qualquer coisa, Ada o puxou pelo colarinho, enfiando a língua na boca dele sem delongas. Leon retribuiu o beijo sem hesitar, saboreando o mel e o fel que derramavam daqueles lábios cheios de malícia e segundas intenções. Quando ela levou a mão à calça dele, ele se esquivou, porém.
— Não tenho tempo para isso, Wong. Tenho uma mudança para fazer...
Ela riu de lado, olhando-o por cima.
— Domingo te espero aqui de madrugada... É aquela nossa festinha...
Leon limitou-se a balançar a cabeça antes de sair caminhando em direção à casa no bloco da frente.
Ao chegar lá, foi recepcionado pelo cadete Vickers que saía.
— Kennedy. Bem-vindo. A Valentine deixou um lanche pronto pra você na geladeira...
Leon parecia perdido e, antes que agradecesse, o rapaz completou:
— Você fica no sofá essa noite, ok? Pode deixar suas coisas na cadeira ao lado — o rapaz disse, saindo pela porta.
A casa estava na penumbra, silenciosa; não parecia nada com a casa de onde acabara de sair. O som abafado de música e risadas vinha de longe, lá fora, na rua, mas a sala da casa do esquadrão parecia um refúgio seguro em meio à penumbra da noite. Ou pelo menos era o que Leon pensava.
Ele entrou em silêncio, carregando a caixa e a jaqueta nos ombros. Colocou a caixa na cadeira e, vendo o que parecia ser apenas uma grande manta cinzenta jogada displicentemente sobre o sofá da sala — um monte disforme que ele julgou ser apenas um edredom esquecido por alguém —, Leon não pensou duas vezes. Estava cansado demais para resistir.
Ele simplesmente deixou o peso do corpo cair, sentando-se com tudo bem no centro daquele volume fofinho.
O que se seguiu aconteceu em frações de segundo, com a precisão letal de quem treinava táticas de combate avançado todos os dias.
O "edredom" se agitou de forma violenta. Um grito abafado, feminino e furioso, irrompeu de debaixo do tecido, seguido por um reflexo puramente instintivo: um par de braços fortes agarrou o braço de Leon, aplicando uma chave relâmpago que o puxou para trás com tanta força que o ar abandonou seus pulmões em um som agudo.
Antes que Leon pudesse pensar em resistir, ele lembrou-se de que aquele lugar ainda era hostil; deveria se render para não criar inimigos logo de início. Era melhor perder a luta do que a guerra toda. O corpo o derrubou para o chão da sala com um baque surdo e, em menos de um segundo, a figura montou em cima dele, imobilizando-o com os joelhos travados em sua cintura e uma mão pressionada firmemente contra o seu peito, pronta para desferir um golpe corretivo.
— Quem ousa invadir o meu espaço?! — a voz de Jill soou rouca de sono, mas cortante como uma lâmina, enquanto ela sacudia a cabeça para jogar os cabelos castanhos para trás, piscando rapidamente para focar no invasor no escuro.
A manta escura tinha caído parcialmente, revelando o rosto dela ligeiramente corado pela raiva repentina, os olhos azuis faiscando na penumbra. Só que, ao reconhecer o rosto do yearling sob ela, a expressão implacável de Jill congelou.
O silêncio despencou na sala por um segundo inteiro.
Leon, respirando fundo com o impacto súbito e o baque contra o piso de madeira fria, olhou para cima, piscando confuso enquanto sentia o peso dela sobre si, a proximidade absurda fazendo o oxigênio sumir de vez. Por um instante, a veterana temida em todo o campus — a mulher de pedra que impunha respeito incontestável a todos no quartel — estava ali, acuada em cima dele no chão da sala vestindo um short confortável e uma camiseta leve, com uma mecha rebelde de cabelo colada na testa suada e o cenho franzido em pura irritação, tentando digerir o fato estapafúrdio de que o infeliz que acabara de desabar em cima dela era justamente o novato que ela havia jurado vigiar de perto.
— Mas que brincadeira é essa? — ela soltou, a voz cortante como vidro ao reconhecer as feições dele na penumbra.
— Desculpa — Leon levantou os braços em sinal de rendição, o coração disparado contra as costelas —, me mandaram entrar e eu jamais imaginaria encontrar a sargento cadete deitada debaixo dessa pilha de edredom no meio da sala.
Jill saiu de cima dele com uma agilidade calculada, ajeitando a gola da roupa e endireitando a postura com uma rigidez imediata antes de responder com um olhar faiscante e desafiador.
— Cuidado, Kennedy. Não queira causar uma primeira má impressão.
— Jamais, minha desculpa é honesta, sargento Valentine — ele falou com sinceridade crua, embora a situação quase o fizesse perder a compostura e rir diante daquela cena bizarra. Mas o olhar fixo e gélido dela o fez conter o impulso instantaneamente.
— Jill ou Valentine... Guarde a patente para o quartel — ela pontuou com rispidez, sentando-se novamente no canto do sofá, a silhueta recortada pela luz fraca da rua. — Aqui, sem formalidades, apenas respeito e cordialidade.
Ela puxou o cobertor volumoso para o canto do estofado, revelando alguns livros pesados e velhos espalhados pelo móvel. Em seguida, recolheu os exemplares com movimentos metódicos, colocando-os na mesinha de centro e liberando, aparentemente, um espaço vago para ele se sentar. Mas Leon não avançou; em vez disso, preferiu manter a cautela, avaliando o terreno como um animal desconfiado.
Então Jill fez um sinal breve com a mão, convidando-o para a proximidade.
— É... eu não havia entendido... — ele comentou, respeitoso. — O protocolo permite que eu sente tão perto assim?
— As cadeiras estão ocupadas e aqui, como acabei de dizer, sem formalidades — ela deu de ombros, indiferente ao nervosismo dele. — Não me sinto nada intimidada que você se sente tão perto, Kennedy. É intimidador para você?
Leon olhava atentamente para a feição dela, imóvel. Ela parecia não ter nenhum tipo de emoção palpável, embora ele conseguisse detectar, passando bem pelo canto dos olhos claros, um relance levemente divertido. Ela estaria rindo da timidez dele por dentro?
— De forma alguma — ele respondeu prontamente, arrastando os passos e se sentando logo ao lado dela, perto o bastante para sentir o calor radiante daquele corpo e o aroma marcante de canela que emanava sutilmente dela. — Vou me acostumar com o ambiente, só é estranho de início...
— Claro — ela balançou a cabeça em sinal de entendimento. — Acho importante te passar algumas de nossas regras de convivência. Aqui somos você, eu, Richard, Rebecca e Brad. Nada de bebida alcoólica excessiva, cigarro ou encontros íntimos nesse ambiente, sem o consentimento prévio do grupo. Se quiser fazer qualquer uma dessas coisas sem permissão, faça fora daqui e assim não precisa compartilhar detalhes com ninguém. Festas só são permitidas quando todos concordam, mas nossas festas não são como as clandestinas com o teor a que você está acostumado...
Aquela última frase o atingiu como uma pontada seca no estômago. Ele percebeu, com um incômodo repentino, que a sargento o colocava exatamente no mesmo patamar de seu antigo esquadrão, reputado como o mais irresponsável e descompromissado da base. Leon sabia perfeitamente que havia vacilado algumas vezes naqueles cinco primeiros meses iniciais do ano envolvido com Ada, mas ele ainda se considerava um rapaz culto, dotado de princípios e valores firmes.
— Sem problemas, Valentine. Saberei me adaptar a tudo isso muito bem.
— Outra coisa... Só temos três quartos disponíveis. E o General Davis me deu uma missão muito difícil: transferir alguém daqui para o esquadrão de onde você veio... se necessário — ela parou por um instante, parecendo ponderar o peso das próprias palavras.
— Isso seria um problema?
— Ninguém quer ir. Nem Rebecca, nem Brad, nem Richard. Brad e Richard já dividem o mesmo quarto e Rebecca precisa de um exclusivo para ela, pois é onde estuda seus livros de medicina — ela coçou a testa antes de continuar. — Por causa disso, você terá que dormir no sofá da sala até que eu consiga resolver esse impasse.
Leon arregalou os olhos em puro espanto; diabos, ninguém queria largar a rigidez da linha dura de Valentine para correr atrás do paraíso caótico e festivo de Ada?
— Eu sei o que está pensando, Kennedy — ela arqueou uma sobrancelha desafiadora. — Num cargo de liderança, podemos ser temidos ou respeitados. Diferente do que você e os outros esquadrões pensam por ignorância, os meus soldados me respeitam de verdade.
— É... — Leon quase engasgou com a própria saliva diante da franqueza cortante. — Eu não a subestimo, Valentine. Tanto que não ofereci nenhum tipo de resistência a essa transferência estipulada.
— Bom saber... Isso significa que não terá medo de me mostrar que é mais do que um rostinho bonitinho quando o alarme soar na segunda-feira de manhã.
Leon engoliu seco, sentindo a garganta apertar. Ela era extremamente intimidadora, no melhor e mais perigoso sentido possível. Mas ele não era un garoto tão impressionável quanto os outros pareciam supor.
— Estarei pronto, sargento. Sem recuar.
Ela então se inclinou levemente e deu um tapinha firme nas costas dele, um gesto inesperado de camaradagem marcial.
— Vá comer um lanche, Kennedy. Aqui cuidamos uns dos outros; tem um para você na geladeira.
— Obrigado — ele agradeceu timidamente, erguendo-se do sofá.
— Não me agradeça por cumprir o básico. Mas não se esqueça de que esses gestos você também poderá oferecer aos seus companheiros de república. Como eu disse, aqui cuidamos uns dos outros.
— Entendido — Leon respondeu, caminhando lentamente até a geladeira com o receio silencioso de pisar em falso típico de um recém-chegado.
Tudo ali era novo demais; o ambiente representava o oposto exato do que ele deixara para trás: havia um silêncio denso, uma ordem quase cirúrgica na organização da casa.
Enquanto abria a porta do eletrodoméstico, ele observou de soslaio Jill reunir os livros espalhados, ajeitar o cobertor no próprio sofá onde ele teria que dormir e se direcionar firmemente para a escada de madeira.
— Boa noite, Kennedy.
— Noite, Valentine.
Ela sumiu degrau acima, engolida pelas sombras do piso superior. Leon comeu o sanduíche em silêncio, mastigando devagar, e então arrastou os passos cansados até o sofá, deitando-se ali.
No mesmo instante, foi envolvido por uma onda densa do cheiro de canela que impregnava o tecido. O perfume suave invadiu todos os seus sentidos, fazendo-o fechar os olhos e imaginar, em meio ao breu da sala, como seria suportar e conviver dia após dia com aquela mulher durona que trazia, ironicamente, um persistente e suave aroma de canela. O contraste fascinante entre a rigidez implacável de seu posto e a doçura daquele cheiro o embalou para o primeiro sono na nova realidade.
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