Rony Weasley e a Pedra Filosofal
13 A Decisão do Cavalo
Notas iniciais
CAPÍTULO TREZE
A Decisão do Cavalo
Rony, Hermione e Harry andavam o mais silenciosamente possível pelos corredores desertos do castelo, nervosos e trêmulos. Cada sombra de estátua fazia-os pularem achando que Filch se aproximava, cada brisa que tocava suas peles, fazia lembrar algum dos fantasmas. A tensão era enorme, também pudera, estavam indo praticamente para a morte.
A integridade da Pedra Filosofal de fato não era responsabilidade deles, mas eles eram os únicos que sabiam das intenções de Snape e no possível retorno de Você-Sabe-Quem, e simplesmente não poderiam esperar as coisas acontecerem. Então cheios de coragem e como bons grifinórios, estavam eles indo impedi-los sob a capa de invisibilidade em direção ao corredor proibido do terceiro andar. Harry andava mais à frente, guiando-os e Rony ia por último, cuidando da retaguarda. Não sabiam por quanto tempo Neville ficaria paralisado até que os delatasse, então precisavam ser rápidos.
Porém parece que a sorte começou a deixá-los na mão. Chegando no primeiro lance de escada encontraram Madame Norrra andando vagarosamente pelos cantos, esperando topar com algum aluno que passasse por ali. Os três esquivaram-se na parede oposta, para que não a tocassem e Rony teve que reprimir a vontade de dar um belo chute naquele animal asqueroso. Acharam que pararia por ali, porém quando chegaram na escadaria que levava ao terceiro andar, deram de cara com Pirraça, que balançava de um lado para o outro, cantarolando, seus olhinhos negros brilhando, esperando a primeira oportunidade de fazer maldade com alguém. Tentaram passar sem fazer nenhum movimento brusco, e quando já estavam debaixo dele, o poltergaist estacou no ar, virando a cabeça para todos os lados.
— Quem está aí? — perguntou com a voz esganiçada — Sei tem alguém aí, mesmo que não consiga vê-lo. Você é um vampiro, um fantasma ou um estudante nojento?
Ele ergueu-se no ar e flutuou.
— Eu devia chamar o Filch, eu devia, se alguma coisa está andando por aí invisível...
Deviam saber que a capa de invisibilidade não funcionaria com ele como funcionava com os professores e alunos. Os três entreolharam-se nervosos. Mas foi Harry que teve a grande ideia.
— Pirraça — disse num sussurro rouco. Rony e Hermione prenderam a respiração —, o barão Sangrento tem suas razões para andar invisível.
Pirraça parece ter levado um choque quando ouviu a voz. Por um momento acharam que ele não tinha caído na mentira, mas o Poltergaist voltou a planar à centímetros do chão, a expressão tão humilde que nem parecia o mesmo pestinha de sempre.
— Desculpe, Sua Sangüinidade, Sr. Barão, cavalheiro — disse, bajulador. — Falha minha, falha minha, não o vi, claro que não, o senhor está invisível. Perdoe o velho Pirraça essa piadinha, cavalheiro.
— Tenho negócios a tratar aqui, Pirraça — cochichou Harry, tentando manter a tonalidade da voz. Sorte o garoto já ter a voz rouca, forçando um pouco, ficava realmente parecida — Fique longe deste lugar hoje à noite.
— Vou ficar, cavalheiro, pode ter certeza de que vou ficar. Espero que os seus negócios corram bem, Barão, não vou perturbá-lo. — prometeu Pirraça, erguendo-se no ar outra vez, tratando de voar para longe.
— Essa foi boa, Harry! — cochichou Rony.
Finalmente alcançaram a porta onde ficava Fofo. Já estava entreaberta, então certamente Snape já estava lá dentro. Rony sentiu suas mãos suarem, era chegada a hora.
— Bom, aqui estamos — Harry sussurrou. —Se vocês quiserem voltar, não vou culpa-los. Podem levar a capa, não vou precisar dela agora.
Rony acertou um tapa no pescoço de Harry que chegou a estalar.
— Não seja idiota — bradou.
— Vamos com você — disse Hermione.
Eles terminaram de abrir a porta com cautela. Da última vez, Fofo quase os matou. Porém, ao contrário do que pensaram, o cão estava dormindo, mas seu sono era leve. Suas três cabeças estavam viradas para a direção deles, e farejavam devagar, sentindo o cheiro diferente deles no ambiente. Ele abriu os olhos devagar, soltando um rosnado preguiçoso.
— O que é isso nos pés dele? — sussurrou Hermione.
Próximo de uma de suas patas, havia um instrumento musical que entoava uma melodia harmoniosa que ficava cada vez mais baixa. Certamente a magia que fazia com que tocasse já estava acabando.
— Parece uma harpa — falou — Snape deve tê-la deixado aí.
— Ele vai acordar no momento em que ela parar de tocar. — Harry lembrou-os —Bom, aqui vai...
Harry havia ganhado uma flauta de Hagrid de Natal, e muito inteligente, ele levou-a para garantir que o cão permaneceria dormindo. O garoto soprou a flauta, dedilhando os furos aleatoriamente. Não era realmente uma música o que tocava, mas foi o suficiente para fazer os olhos de Fofo voltar a fechar, e os rosnados cessarem. O cão ajeitou-se, preguiçoso, e dormiu como um filhote.
— Continue tocando — Rony advertiu. Os três saíram de baixo da capa, e Rony foi para perto do cachorro, esticando o pescoço por cima do animal para ver se enxergava o alçapão. Por sorte Fofo não havia deitado por cima da entrada, e poderiam passar por ali sem maiores problemas.
— Acho que vamos conseguir abrir a porta... — Informou aos dois — Quer entrar primeiro, Hermione?
— Não, eu não! — Ela recuou, medrosa.
— Tudo bem. — Falou Rony. Ele tomou a frente e passou com cuidado por cima das patas do cachorro. Agarrou a alça do alçapão e puxou num único movimento. Era um pouco mais pesada do que pensou. Rony ajoelhou-se, tentando enxergar lá dentro, porém era escuro demais.
— O que é que você está vendo? — perguntou Hermione, ansiosa.
— Nada... Só escuridão... Não tem como descer, teremos que nos jogar.
Harry começou a acenar para lhe chamar a atenção, e Rony entendeu o que queria.
— Você quer ir primeiro? Tem certeza? — Perguntou — Não sei qual é a profundidade dessa coisa...
Mas ele continuou a gesticular, impaciente.
— Se você insiste... — Rony desistiu — Dá a flauta para Hermione manter Fofo adormecido.
Harry passou a flauta a ela. Não levou três segundos para Hermione pegar a flauta e começar a tocar, mas foi o suficiente para que Fofo rosnasse e se mexesse. Harry passou por cima de Fofo e espiou pelo alçapão, constatando o mesmo que Rony – ali só havia escuridão. Sem pensar duas vezes, abaixou-se pelo buraco, ficando seguro apenas pelas mãos. Harry era um pouco dramático e impulsivo as vezes, mas não tinha como negar o quanto era corajoso.
— Se alguma coisa acontecer comigo, não me siga. Vá direto ao corujal e mande Edwiges ao Dumbledore, certo? — Rony assentiu, agora começando a querer desistir. Aquilo era perigoso demais. — Vejo você daqui a pouco, espero...
Harry foi engolido pela escuridão no momento em que se soltou. Rony continuava olhando pelo buraco ansioso, querendo que seu amigo desse qualquer sinal de vida. Foram longos e tortuosos quinze segundos em que tudo que ouviam era o ronco abafado de Fofo e a música horrível e estridente que Hermione tocava.
— Tudo bem! — a voz de Harry saiu de longe pelo buraco e Rony suspirou aliviado — A queda é macia pode pular!
— Quer ir primeiro? — Ele perguntou a Hermione, que negou com a cabeça — Certo, assim que eu pular, espera alguns segundos e pula atrás. Não demora.
Ela assentiu e só então Rony pulou. Um vento frio e úmido passou rápido por ele enquanto caía. A queda foi longa e ele caiu esparramado em um baque surdo ao lado de Harry em uma superfície macia, úmida e escorregadia.
— O que é isso?
— Sei lá, uma espécie de planta. Suponho que esteja aqui para amortecer a queda. — Harry falou — Venha, Hermione!
A música distante parou. Ouviu-se um latido alto do cachorro, mas Hermione já pulara. Ela caiu do outro lado de Harry.
— Devemos estar a quilômetros abaixo da escola — comentou.
— É realmente uma sorte que esta planta esteja aqui — Rony falou aliviado, sentindo algo gelado tocar seus braços.
— Sorte! — gritou Hermione. — Olhem só para vocês dois.
Hermione, ligeira, levantou-se e correu para a parede úmida, onde não havia planta. Só então Rony viu o que estava acontecendo com ele e Harry. Seus braços e pernas estavam atados pelas plantas, que apertavam tão forte que já sentia sua circulação comprometida. No reflexo, tentou puxar, mas isso fez com que apertasse ainda mais. Outros galhos começaram a enrolar em sua cintura, mas sem os braços e pernas livres não conseguiu impedir. Harry estava do mesmo jeito, e segurava um galho que tentou enrolar no seu braço esquerdo.
— Parem de se mexer! — Hermione gritou. — Sei o que é isso. É visgo do diabo!
— Ah fico tão contente que você saiba como se chama, é uma grande ajuda — Rony bradou, enquanto tentava com dificuldade impedir que a planta se enroscasse em seu pescoço.
— Cala a boca, estou tentando me lembrar como matá-la! — mandou Hermione.
— Anda logo, não consigo respirar! — ofegava Harry, lutando com a planta que se enroscava em torno de seu peito.
Hermione estava aflita, seu rosto estava contorcido e ela tentava a todo custo pensar em meio toda aquela confusão. Porém cada segundo que ela levava para pensar, mais plantas se engalfinhavam nele. Agora seu peitoral inteiro estava envolvido pela planta, e ela começava timidamente a entrar por seu cabelo.
— Visgo do diabo, visgo do diabo... O que foi que a Professora Sprout disse? Gosta da umidade e da escuridão... — ela murmurava
— Então acenda um fogo! — Harry falou com dificuldade, pois a planta já começava a tapar sua boca.
— É... É claro... Mas não tem madeira... — choramingou Hermione, olhando em volta em busca de outra solução.
— VOCÊ ENLOUQUECEU? — Rony berrou, fazendo a garota se assustar — VOCÊ É UMA BRUXA OU NÃO É?
— Ah, certo! — falou Hermione sem graça, puxando a varinha, sacudiu-a, murmurou alguma coisa e despachou um jato daquelas chamas azuis que usara em Snape contra as plantas. Foi preciso poucos segundos para sentir as plantas afrouxarem e encolherem tentando fugir da luz que emanava da varinha da garota. Rapidamente, Rony e Harry levantaram-se e correram para junto da garota no canto da parede, ofegantes. Foi por pouco, por muito pouco.
— Que sorte que você presta atenção às aulas de Herbologia, Hermione — Harry elogiou, enxugando o suor do rosto.
— Sorte, claro...— Ironizou Rony —, sorte eu e Harry não perdemos a cabeça numa crise "não tem madeira", francamente.
Hermione fechou a cara, aborrecida. Ia retrucar, mas Harry a cortou:
— Por ali — disse apontando um corredor de pedra que era o único caminho que havia.
O único som que conseguiam ouvir ali eram pingos d’água que escorriam pela parede. O corredor que tomaram era uma descida, e quanto mais desciam, mais escuro e frio ficava. O caminho não era tão perto quanto imaginou, e depois de longos minutos em silêncio absoluto, Rony finalmente conseguiu ouvir algo. Ele parou bruscamente, segurando Harry pela capa e fazendo Hermione trombar atrás de si. Agora ele ouvia claramente, era um farfalhar de asas acompanhados de um ruído metálico. Harry e Hermione o olhavam sem entender.
— Vocês não estão ouvindo alguma coisa?
Harry e Hermione também apuraram os ouvidos.
— Você acha que é um fantasma? – Harry perguntou.
— Não sei... Para mim parecem asas. – Rony falou.
— Há luz à frente, estou vendo alguma coisa se mexendo. – Harry apontou.
Andaram apressados em direção à luz. Quando chegaram ao fim do corredor, entraram em uma câmara muito iluminada, ainda mais em contraste com a escuridão do corredor atrás. O teto era alto e haviam centenas de passarinhos brilhantes como joias esvoaçando pelo aposento. No lado oposto da câmara, havia uma grande e pesada porta de madeira.
— Você acha que nos atacarão se atravessarmos? — Rony perguntou.
— Provavelmente — respondeu Harry, — Eles não parecem muito bravos, mas suponho que se todos mergulhassem ao mesmo tempo... Bom, não tem remédio... Vou correr.
Harry cobriu o rosto e correu primeiro. Rony seguiu-o de perto, se protegendo com os braços, seguido por Hermione, porém os passarinhos brilhantes continuaram voando sobre suas cabeças, sem notar a presença dos três. Harry tentou empurrar a porta sem sucesso, Rony tentou ajudar unindo sua força à dele, porém a porta sequer se mexeu. Nem mesmo o feitiço Alorromora de Hermione adiantou.
— E agora? — Rony perguntou.
— Esses pássaros... Não podem estar aqui só para enfeitar — Hermione ponderou.
Eles observaram os pássaros voando no alto, brilhando, parecendo nervosos.
— Eles não são pássaros! — Harry exclamou de repente. — São chaves! Chaves aladas, olhem com atenção. Então isso deve querer dizer que temos que pegar a chave certa para abrir, mas como... — Então ele apontou para a outra parede — olhe! Vassouras! Temos que apanhar a chave da porta.
Hermione gemeu. Ela odiava voar, mas não tinha jeito, ia ter que superar. Rony examinou a fechadura, ele era bom nisso. Os gêmeos os ensinou a abrir fechaduras à moda trouxa, até mesmo sem chave. Sabia que isso não funcionaria ali, com magia, mas o seu conhecimento o ajudaria a reconhecer a chave pertencente àquela fechadura, pelo menos.
— Estamos procurando uma chave bem grande e antiga, provavelmente de prata, como a maçaneta. — informou.
Cada um apanhou uma vassoura e deu impulso no ar, voando para o aglomerado de chaves que voavam por todos os lados. Rony se empenhava em procurar sobrevoando bem alto, tentando apurar a vidao, porém eram muitas chaves, todas parecidas; difícil de distinguir. Hermione também se esforçava, mas ela não era rápida o suficiente, e estava com medo de subir muito. Tinha que providenciar as aulas particulares de voo para ela o quanto antes. Entretanto, não era à toa que Harry era o mais jovem apanhador do século; levou poucos minutos voando no meio das chaves e logo anunciou:
— Aquela ali! Aquela grandona... Ali... Não... Lá... Com as asas azul-forte. As penas estão todas amassadas de um lado.
Ela estava próxima à Rony, um pouco mais acima. O garoto não perdeu tempo e avançou na direção da chave, que mesmo com a asa amassada, era rápida demais, e desviou-se dele com facilidade, entrando no meio das outras centenas de chaves. Com isso, Rony não teve tempo de frear e acabou batendo de cabeça no teto, quase caindo da vassoura.
Rony se recompôs e viu Harry mirar a chave feito um gavião que escolhe a presa. Depois de alguns segundos, anunciou:
— Temos que cerca-la! — ele gritou sem desgrudar os olhos da chave — Rony, você cerca por cima. Hermione, fica embaixo e não deixa ela descer, e eu vou tentar pegar. Certo, AGORA!
Rony mergulhou de uma vez, Hermione disparou com dificuldade para o alto, a chave desviou-se dos dois e Harry partiu atrás dela, que correu para a parede. O garoto se curvou para frente e, com uma pancada feia, prendeu-a contra a pedra com a mão. Rony e Hermione comemoraram como se ele tivesse ganhado um campeonato.
Eles pousaram e correram à toda velocidade na direção da porta com a chave que se debatia desesperada nas mãos de Harry. Ele enfiou a chave com pressa na fechadura e deu certo, na mesma hora o trinco se abriu. A chave fugiu, voando debilitada para junto das outras.
A câmara seguinte era tão escura que não dava para ver absolutamente nada. Mas, ao entrarem nela, uma luz inesperadamente inundou o aposento, revelando uma cena surpreendente.
Estavam parados na borda de um enorme tabuleiro de xadrez atrás das peças pretas, que eram todas mais altas do que eles e talhadas em um material que parecia pedra. De frente para eles, do outro lado da câmara, estavam dispostas as peças brancas, que eram igualmente altas e não tinham feições, e atrás delas, estava a outra porta. Rony sentiu o coração acelerar na mesma hora. Estava claro o que deveriam fazer ali, e naquele momento, era o único capaz de conseguir avançar.
— Agora o que vamos fazer? — sussurrou Harry.
— É óbvio, não é? — Rony respondeu, impaciente — Temos que jogar para chegar lá do outro lado.
— Como? — perguntou Hermione, nervosa.
— Acho que vamos ter que virar peças.
Rony se dirigiu a um cavalo preto e esticou a mão para tocar seu cavaleiro. No mesmo instante, a pedra ganhou vida. O cavalo pateou o tabuleiro e seu cavaleiro virou a cabeça protegida por um elmo para olhá-lo.
— Temos que nos unir a vocês para chegar ao outro lado? — O cavaleiro preto confirmou com a cabeça. Suas mãos suavam e ele começava a querer tremer. Não era hora para isso, aquele jogo seria o mais importante de todos, a vitória valia parar Snape e impedir a ascensão do Lorde das Trevas.
— Isto exige reflexão. Suponho que a gente tenha que tomar o lugar de três peças pretas... — Murmurou olhando para as peças, cauteloso.
Rony começou a andar de um lado para o outro, analisando as possibilidades. Não podia arriscar Harry e Hermione, teria de escolher as peças mais fáceis de serem cobertas caso acontecesse alguma coisa. Bom, já tinha em mente o que fazer, só restava torcer para que tudo desse certo.
— Agora não vão se ofender, mas nenhum dos dois é tão bom assim em xadrez...
— Não estamos ofendidos — interrompeu Harry depressa — Diga o que vamos fazer.
— Bom, Harry, você toma o lugar daquele Bispo e, Hermione, você fica ao lado dele substituindo a Torre.
— E você?
— Vou ser o cavaleiro.
As peças pareciam estar escutando, porque ao ouvir isso um cavaleiro, um bispo e uma torre deram as costas às peças brancas e saíram do tabuleiro, deixando três casas vazias. Rony subiu no cavalo e Harry e Hermione tomaram os lugares das peças restantes.
— No xadrez as brancas sempre jogam primeiro — explicou Rony, observando o tabuleiro. — Olhem...
Um Peão branco avançara duas casas.
Rony começou a comandar as peças pretas. Suas pernas tremiam e seu coração parecia querer sair pela boca, não era fácil ter uma responsabilidade como aquela em suas mãos. Mas não podia deixar que o nervoso atrapalhasse sua concentração.
Começou com um jogo cauteloso, poupando ao máximo suas peças, com medo de arriscar. O problema é que se não fosse ofensivo, não riram terminar o jogo nunca. Rony ordenou que o outro Cavalo ficasse na direção da Rainha. Iria perde-lo, mas tinha uma estratégia boa em mente. Porém então aconteceu algo que não esperava. A Rainha, como planejou, veio na direção do Cavalo para comê-lo. Ela levantou o braço e com toda violência, esmagou a peça preta, atirando seus restos no chão, e empurrando-a para fora do tabuleiro, onde ficou deitado imóvel, de bruços. Rony estava trêmulo, segurando-se nas rédeas do cavalo. Como poderia arriscar seus amigos e a si mesmo daquela forma? Uma pancada daquelas em qualquer um dos três e eles poderiam ter sérios problemas.
Ele olhou para trás, Hermione tinha a mão na boca, horrorizada. Harry estava com os olhos arregalados. Rony sorriu, tentando demonstrar confiança.
— Eu tinha que deixar isso acontecer — sua voz saiu meio esganiçada, e ele pigarreou — Assim você fica livre para comer aquele Bispo, Hermione, ande.
Tentar ser ofensivo enquanto protegia não só o Rei, mas também um Bispo e uma Torre, fazia com que quase todas as suas estratégias fossem por água abaixo. Estava perdendo peões que não perderia normalmente e decidiu que deveria virar esse jogo ele mesmo. Percebeu duas aberturas possíveis no jogo do adversário, e se eles não previssem nenhuma das duas, a partida estaria ganha. Ia blefar. Rony avançou com seu cavalo na direção de uma das Torres que estava livre. Era intenção deles que se colocasse em perigo. Visto que Rony não fez o obvio, o jogo avançou para o outro lado, para uma possível abertura no lado em que Harry estava. Como esperava, eles caíram em seu blefe, e Hermione ficou livre para comer a Torre e ficar segura.
Mas eles não eram num um pouco amadores, e a jogada seguinte e que provavelmente lhe garantiria a vitória foi quebrada, e de uma forma que ele não tinha previsto. Ao mesmo tempo, eles abriram precedente para que Rony acabasse com a partida em outras duas jogadas, à certo preço. Ele avaliou tudo que era possível fazer, e até poderia haver outra possibilidade, mas decidiu que não podia mais adiar o término. Prosseguir com o jogo faria com que eles perdessem mais tempo do resgate da Pedra, e corria ainda um risco maior de ter que sacrificar um de seus amigos. Era Harry que deveria enfrentar Snape, ele sabia, e era do cérebro de Hermione que ele precisava para prosseguir. Já tinha tomado a decisão, e respirou fundo, tomando coragem.
— É o jeito... — Ele falou aos amigos — Preciso me sacrificar.
— Não! — Harry e Hermione gritaram.
— Isto é xadrez! — bradou. — A pessoa tem que fazer alguns sacrifícios! Dou um passo à frente e ela me come, isso deixa você livre para dar o xeque-mate no Rei, Harry!
— Mas...
— Você quer deter Snape ou não?
— Rony...
— Olhe, se você não se apressar, ele já terá apanhado a Pedra!
Não queria que eles tentassem o convencer do contrário. A segurança da Pedra Filosofal dependia deles, e essa era sua parte nessa aventura.
— Já sabe o que fazer, não é? — perguntou a Harry, tentando parecer firme. O garoto estava inconformado — Então vamos, agora, não se demore depois de ganhar a partida.
Virou-se para a frente, suspirando fundo e o cavalo avançou. Suava frio, suas pernas tremiam tanto que temeu cair do cavalo, mas não iria voltar atrás, por Harry, por Hermione, por Hogwarts. Ele parou de frente para a imponente Rainha, encarando-a como um guerreiro, e as últimas coisas que conseguia se lembrar era dela levantando o braço de pedra e abaixando o mesmo com violência, e da dor dilacerante da pancada violenta que levou na cabeça.
Fale com o autor