Romitri - La Passione Della Roza
2 Eu não sou um maldito soldado
Notas iniciais
Eu tive uma semana pra me recuperar daquele maldito evento beneficente que Victor Dashkov oferecia todos os anos, para arrecadar fundos para sua instituição de caridade a qual ele apoiava, e qual ele usava descaradamente como fachada para seus negócios corruptos. Minha mãe fingia que não sabia desses negócios “por fora” que Victor fazia, porque pra ela enquanto ele estivesse usando do seu bom dinheiro para apoiar os seus eventos sociais, tudo estava certo. Era vergonhoso admitir que minha mãe era uma interesseira, aliás ela se casou com meu padrasto por puro interesse, tenho certeza. Pedro era um homem bom, na maioria das vezes era ele que me salvava de algum aperto quando eu me metia em um, e isso acontecia com frequência. Eu me dava muito melhor com Pedro do que com Janine, que era minha mãe. Outra que me incomodava bastante era Katharine, minha irmã mais nova que insistia em querer arrumar um par pra mim, como se eu precisasse de um cupido com o dedo podre como o dela, que só me arrumava encontros às escuras daqueles que você sai traumatizada e decide virar freira. Segundo Janine, Katherine era um exemplo de caçula, mas na verdade minha irmã mais nova era pior do que eu. –se é que isso pode ser possível – Só não era uma cópia escarrada da minha mãe, por sorte.
- Rosemarie já são quase sete horas, não deveria estar de pé há uma hora? –disse Janine assim que me viu descendo as escadas de nossa casa.
- Estou de pé agora mamãe! –ironizei como sempre só pra encher, o saco.
- Tome seu café, depois arrume esse cabelo direito. Você vai pra uma escola de grande nome, tente se portar de acordo. –retrucou ela enquanto eu seguia rumo a sala de jantar.
Joguei minha mochila no lado da cadeira e me sentei logo me atracando na mesa do café. Enquanto a empregada servia meu café bem quente e bem forte como eu gostava, eu me servia com um pedaço farto de bolo de laranja, meu favorito feito por Brida nossa cozinheira gorducha que eu adorava apertar desde pequena só pra sentir seu cheirinho de rosas misturado com menta.
- Precisa comer tanto assim? –reclamou Janine escorada na porta.
- Estou em fase de crescimento mamãe! –acordei com um desejo enorme de atormentar Janine naquela manhã.
- Estou de ótimo humor Rose, assim como vejo que você também está! –ela se aproximou de mim e tocou o encosto da cadeira. – Não vai conseguir me incomodar com seu sarcasmo! –então ela depositou um beijo no topo da minha cabeça. – Termine seu café, depois arrume esse cabelo, Gaspard está a sua espera para levá-la até o St. Vladimir. –ela se referia ao motorista.
Revirei meus olhos, e continuei comendo tranquilamente sem pressa, afinal estávamos a pouco tempo da escola e Gaspard costumava dirigir feito um louco, não sei como não se matava com aquela limusine e comigo dentro ainda. – Ah sim, eu adorava pegar carona com ele por este mesmo motivo. – Adorava sentir o vento batendo com força na minha cara enquanto eu colocava o rosto pra fora da janela. Gaspard era bem legal, aliás, todos os empregados daquela casa enorme eram gentis e agradáveis, as únicas pessoas irritantes eram minha mãe e Katherine.
Terminei meu café abençoado e apanhei minha mochila saindo da sala de jantar e andando até o corredor onde dei uma boa olhada no relógio antigo que ficava no final do mesmo depois segui as pressas para a rua, onde o motorista já me esperava escorado na porta do carro jogando as chaves para o alto.
- Buongiorno Gaspard! –eu sorri falando em sua língua natal.
- Quanto mancherà questa mattina? –ele perguntava como eu estava naquela manhã.
- Molto bene! –respondi dizendo que estava bem enquanto entrava no carro depois que ele abrira a porta.
- Spettacolare Ragazza Rose! –disse ele sorrindo e jogando as mãos pra cima.
- Andiamo, perché pensi che sono in ritardo. – eu pedi que andássemos logo, pois eu já estava em atraso.
- Si, si certo!
Então Gaspard fez um gesto com o dedo indicador para mim como se me desse um tiro certeiro e piscou os lindos olhos verdes antes de fechar a porta e seguir para o seu ponto. Me ajeitei no banco de trás e procurei algo de comer dentro do bar que havia no canto da limusine onde eu sempre encontrava maravilhas de chocolate. Catei o que cabia na minha mochila e joguei tudo lá dentro, já que naquela maldita escola não tinha nada de saboroso para se comprar na cantina, embora as refeições italianas sempre fossem muito saborosas e recheadas eu ainda sentia falta das gorduras do fastfood da América e das porcarias que se encontra em cada esquina. A propósito eu nasci nos Estados Unidos, mas quando completei treze anos minha mãe decidiu vir para a Itália, onde Katherine e eu teríamos uma educação digna dos Hathaway como Janine costumava dizer. – Como se nossa família fosse melhor do que as outras, ou tivesse sangue azul.
Assim que chegamos a frente aos portões enormes do St. Vladimir. Gaspard estacionou a limusine e abriu o vidro que separava a sua cabine da cabine do passageiro e me desejou uma boa semana de aula. – Ah sim, era uma segunda-feira e as aulas eram em tempo integral, portanto eu passava uma semana fora de casa. O que pra mim era uma benção, pelo menos não teria que aturar nem Katharine nem Janine até o final de semana.
Catei minha mochila, abri eu mesma a porta do carro, já que Gaspard sabia que eu detestava quando ele fazia tudo por mim, e me despedi passando pela sua janela com um cumprimento rotineiro exatamente como o que ele fez pra mim quando me pegou em casa. Passei pelos portões de ferro que tinham as letras S de um lado e V do outro em seu centro que ao se fechar uniam-se, e segui rumo ao prédio enorme que ficava a quase km/s de distancia. Não havia ninguém àquela hora no pátio, já que todos deveriam estar seguindo para suas respectivas aulas naquele momento, e pra variar eu era a única atrasada, como sempre. Pra mim é claro, isso não era problema, costumava ser meu charme, todos me conheciam pelos meus atrasos, e os professores raramente ligavam, na verdade eles pararam de se importar quando perceberam que as horas não se aplicavam a mim. É, pode me chamar de rebelde...
Levei meus fones de ouvido aos mesmos e segui calmamente até o interior do prédio que mais lembrava um castelo antigo. Às vezes era divertido adentrar aquele lugar, eu me sentia como se estivesse em Hogwarts. –Eu sei isso é ridículo, mas eu tenho dezesseis anos, o que esperavam de mim? Seriedade? [risos].
Acabei encontrando alguns alunos pelos corredores internos, que assim como eu estavam atrasados, mas diferente de mim eles corriam como se suas vidas dependessem disso. Já eu não, estava tranquila com meus fones, e com meu tênis all star azul e minha mochila em um ombro só. Meu cabelo estava do mesmo jeito que deixei quando sai do meu quarto, trançado porcamente sobre meu ombro direito, e preso com uma borrachinha quase invisível. Estava com meu moletom favorito azul marinho com o logo de uma banda qualquer que eu deixei de gostar depois que meu ex-namorado me traiu com uma vadia de peito grande no show dos mesmos no ano passado. Eu deveria ter queimado o moletom e jogado as cinzas no lixo, como uma ex-namorada furiosa faria no meu lugar, mas o pobre moletom não tinha culpa do meu ex ser um babaca de marca maior, além do mais ele era bem confortável. – O moletom, não o babaca.
Dei um giro pelos corredores tentando lembrar onde seria minha primeira aula daquele dia e então me lembrei de que seria no ginásio: Educação Física. Inocentemente, eu segui até o local e encontrei um grupo de alunos correndo ao redor da quadra como se fosse uma espécie de exercito em treinamento. Achei engraçada a cena, assim que vi Mason botando os bofes para fora. –ele odiava correr, aliás, àquela hora da manhã era castigo pra qualquer um – me aproximei da arquibancada onde retirei minha mochila de sobre os ombros e deixei sobre um dos primeiros bancos retirando meus fones em seguida das orelhas e desligando o mp3 e guardando o aparelho em um dos bolsos pequenos da mochila. Enquanto eu fazia isso calmamente, notei uma sombra logo as minhas costas que me pareceu enorme, e então me virei dando de cara com um prédio de quase dois metros, cabelos lisos compridos que estavam presos em um meio rabo de cabelo, vestindo calças de moletom preto e uma camiseta cinza clara. Seus braços estavam cruzados sobre o peito, e um apito pendurado em seu pescoço alongado me fez recordar de quem se tratava: Meu novo professor de Educação Física.
- Está atrasada. –disse ele antes, de mais nada.
- Teoricamente. –respondi. – Na América ainda são cinco da manhã! –e sorri descaradamente.
- Você vive na América? –perguntou ele com aquele olhar frio.
- Vivi até os meus treze!
- Você tem treze anos agora?
- Não, tenho dezesseis...
- E estamos na Europa... –ele me interrompeu antes de eu continuar. – Eu vivi na Rússia até algumas semanas atrás, e meu relógio já está certo com o horário desta escola. Pelos meus cálculos você teve três anos a mais do que eu pra fazer o mesmo. Estou certo? –disse com aquele ar irritante de tenente.
- Foi mal. Não vai acontecer de novo... –disse desviando dele enquanto revirava meus olhos.
- Não está com o uniforme... –disse ele me obrigando a parar.
- Eu esqueci que tinha educação física há essa hora... –respondi enquanto os outros corriam perto de nós.
- Imagino que também não teve tempo pra providenciar seus horários! –disse ele em um tom irônico.
- Eu tenho cara de pinico, pra tá levando mijada a essa hora da manhã? –reclamei, aquele cara era muito chato.
- Vejo que uma língua comprida você tem... –disse ele dando passos em minha direção depois de descruzar seus braços. – Eu quero ver se sua disposição pra correr é tão boa quanto a sua disposição pra retrucar seu professor. –disse parando ao meu lado virando para a quadra e fazendo gesto para que eu me unisse aos outros.
- Quer que eu corra? –eu fiz a pergunta mais obvia só pra irritar aquele metido a besta.
- Não, eu quero que você dê aula no meu lugar. –respondeu com sarcasmo.
- Posso fazer isso! –eu sorri e dei alguns passos rumo à quadra.
- Você está, quinze minutos atrasada. –ele disse olhando seu relógio. – Isso dá dez voltas.
- O que? –franzi a testa. – Eles estão correndo desde que chegaram?
- Eles já completaram noventa por cento do tempo, se eu fosse você me apressaria... –disse se virando e voltando para perto das arquibancadas onde se plantou de pé com os braços cruzados novamente.
Bufei de raiva, e então decidi atravessar a quadra e me juntar aos outros condenados que corriam já sem animo nenhum, e quase sem vida. Me uni a fila de Mason, tomando meu lugar e logo reclamando com o mesmo enquanto encarava aquele idiota de cabelo comprido que não tirava os olhos de mim.
- Que tipo de idiota já chega ao primeiro dia de aula te colocando pra correr?
- Ele te deu uma bronca? –perguntou Mason.
- Metido. –retruquei desviando o olhar do russo antipático.
- Eu soube que ele foi um dos melhores alunos da faculdade da Rússia. Na melhor delas. –disse Leonard que vinha logo atrás de Mason e eu.
- Grande coisa. –retruquei.
- O cara é genial. –disse Leo.
- Pra mim ele parece mais um fronhinha. –respondi. – Um almofadinha.
- Rose tem razão, ele me colocou pra correr. –reclamou Mason com um sorriso cansado. – Motivo suficiente pra eu odiar o cara!
- Ele colocou a turma toda pra correr Mason. –respondeu Felicite, uma menina que sempre forçava conversa com Mason.
- As meninas estão dizendo que ele é um deus! –riu Lia, outra garota da turma com quem eu falava raramente.
- Ele não é tão bonito. –retrucou Leo que era considerado o garoto mais bonito da turma.
- Calma Leo, ninguém vai roubar seu posto! –eu ri dando um tapinha no ombro dele.
Nesse momento notei que o “deus” deu uns passos até a beirada da quadra e soprou seu apito logo em seguida dando uma ordem em alto e bom som:
- Tudo bem, já chega de correr, venham até aqui.
Todos ergueram as mãos pro céu dando graças a um Deus de verdade, e se arrastaram pela quadra feito zumbis famintos indo em direção ao professor, eu dei dois passos antes dele apontar o dedo pra mim e dizer:
- Menos você... Rose. Você ainda tem nove voltas pra dar...
- O que? –bufei mais uma vez, ele não podia tá falando sério.
- Se você achar ruim, nove voltas eu posso aumentar pra vinte.
- Uh. –resmunguei. – Babaca... –retruquei em tom baixo, mas eu acho que ele tinha ouvido biônico porque franziu a testa e prensou os lábios como se fosse xingar até a minha quarta geração.
Me aproximei de novo da linha que circundava a quadra e voltei a correr olhando aquele idiota com meu olhar mortal, que parecia bater direto naqueles olhos gélidos dele e morrer no caminho. Acabei correndo todas as nove malditas voltas, sozinha me sentindo uma idiota enquanto os outros faziam exercícios leves com bola. Me senti totalmente injustiçada naquele momento, mas tive que continuar até completar minhas voltas ou aquele imbecil me faria ficar até depois do horário. Quando finalmente acabei os garotos já estavam jogando basquete na quadra, enquanto as garotas formavam times pra jogar no pátio. Me aproximei da arquibancada onde o idiota, digo professor conversava com Leo e mais dois garotos, e tirei meu moletom que naquele momento estava grudando até na minha alma e joguei sobre minha mochila com toda minha raiva querendo jogar nas fuças daquele enjoado. Ele por sua vez me encarou com a mesma cara de paisagem assim como os meninos que se viraram pra me observar. Fiquei apenas com minha blusa preta regata de baixo enquanto me dirigia a ele.
- Eu to cansada, posso beber água?
Por alguma razão os garotos se afastaram e subiram até o terceiro banco da arquibancada enquanto Dimitri, simplesmente me ignorava e revirava um saco preto que estava do seu lado esquerdo.
- Você ouviu? –insisti.
- Dois minutos. –disse ele. – É o tempo que você leva pra ir até o bebedouro e voltar. Entendeu? –disse me encarando.
- Sim, capitão! –eu bati continência batendo os pés no chão como um soldado e me virei.
- Rose...
- O que? –me virei e o encarei de novo depois de revirar os olhos.
- Se fizer isso de novo, vai ficar sem água. –disse erguendo uma sobrancelha.
Revirei meus olhos mais uma vez e depois me virei seguindo até a saída. Atravessei o corredor fazendo a coisa mais infantil que uma pessoa da minha idade poderia fazer, imitei meu professor e sua falta de humor. Bebi minha água, depois retornei para a aula de tortura.
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