Notas iniciais
https://youtu.be/kM0a9REvLdI-Clary voz.

P.O.V. Romeu.

Ela chacinou a criatura. Escorregou pelo piso de mármore soltando aquela rajada de luz pela mão que transformou o monstro em poeira. Pude ouvir o som da criatura morrendo, agonizando, queimando.

Então, simplesmente se levantou, pegou as lâminas do chão, virou-se de costas e as lâminas sumiram por entre suas vestes.

Escalei o muro até a sacada e ouvi sua voz perguntar com melancolia:

—Ainda acha que sou um anjo brilhante? É a prova de que nunca viu um.

—E por acaso a senhorita já?

—Já. Mais de um. Eles são lindos, absolutamente perfeitos. Luminosos, quando aparecem em sua verdadeira forma há uma luz ao seu redor, as asas são majestosas, tão macias, porém duras. Para os Arcanjos elas servem como escudo.

Então, ela finalmente olhou para mim.

—Você ainda seria você se não fosse chamado Montecchio. O que há num nome? Se chamássemos uma rosa por outro nome ela ainda teria o mesmo perfume? Assim como Romeu. Disse Julieta a Romeu. Ou ela assim diria se eu não estivesse aqui. Se eu não estivesse aqui, você teria se enamorado dela, estaria no jardim da casa ai ao lado olhando a Julieta e escalando o balcão dela.

—Julieta Capuleto? Não. Nossas famílias são...

—Inimigas declaradas? A rixa existe desde que todos conseguem se lembrar? Esse é que é meio que o ponto. Você estaria lá, chamando ela de santa, ela se lamentando por você ser um Montecchio e ela uma Capuleto. E apesar de tudo isso, ela ainda amaria você e você a ela. O maior amor da história da literatura.

—Literatura?

—De onde eu venho, isso... tudo isso... incluindo você, são apenas personagens de um livro, uma peça de teatro. Mas, o que é a realidade? O que é a ficção? Obviamente, há mais de uma realidade. Einsten estava certo.

—Einsten?

—Um matemático, o cara... o homem era um gênio. Matemático, físico. Ele desenvolveu não apenas vários teoremas, mas a teoria do Multi-verso. Teoria das cordas. Existem vários universos, várias realidades diferentes, dimensões. Todas ocupando o mesmo espaço, porém como cada uma vibra numa frequência diferente... uma jamais vê a outra. Cada uma se passa num tempo diferente, opera dum determinado modo. Aqui não há vampiros, ou bruxas, ou lobisomens, ou híbridos, ou demônios. Ou Tribridas.

—E de onde vem, há?

—Estou aqui, não estou?

Comecei a imaginar um mundo daquele e não me parecia bom.

—Você imagina um mundo pós-apocalíptico. Não é bem assim. Se quer mesmo saber, esta casa ai ao lado, o balcão de Julieta, a cidade de Veneza... existem no meu mundo também, mas isso... tudo isso... lá não passa duma história. Uma lenda. A história de dois amantes mal fadados, duas famílias que cegas de ódio e orgulho... afogaram os filhos no próprio sangue. Seu sacrifício e o de Julieta... colocaram um fim á rixa duma vez por todas.

—Sacrifício?

Ela começou a explicar.

—Hoje, no baile de máscaras você foi atrás da Rosalinda, mas se eu não estivesse lá, teria se apaixonado pela Julieta, descoberto que ela era uma Capuleto e ela que você era um Montecchio e nada disso importaria pra vocês. Casariam-se em segredo, teriam uma curta lua de mel. Você acidentalmente acabaria matando o primo dela Teobaldo e sendo condenado ao exílio e é ai... meu caro Romeu que a coisa desanda.

—De que forma?

—O lugar pra onde você é mandado estaria sofrendo um surto de varíola, em quarentena. Então, Julieta forjaria sua própria morte. Assim ela poderia estar com você. Mas, o cara errado, entende a mensagem errada e vocês acabam mortos. Você envenenado e ela esfaqueada.

Bom, não soa muito bom.

—É porque não é. É uma tragédia. Quando seus familiares encontram seus corpos, mortos e abraçados... a rixa acaba.

A rixa acaba.

—Então, ainda bem que encontrei você.

Ela ri.

—Ainda é uma tragédia. Bom, suponho que seja o jeito da natureza encontrar o equilíbrio.

Disse ela deitando-se sob o balcão.

—Por Deus! Vai cair.

—E? Não vai me matar.

Os cabelos cor de fogo espalhados pelo balcão de mármore branco, assim como as vestes de dormir.

—Não vai?

—Ser parte vampira implica em imortalidade. Posso cair deste balcão, posso cair de um prédio de vinte andares e me estabacar, quebrar cada osso do meu corpo que eu me curo. Na verdade, como sou filha de minha mãe se eu cair daqui... caiu de pé. Se alguém tentar me esfaquear, eu não sinto nada. Tiros, lanças, é tudo insignificante.

Inacreditável. Então, ela começou a cantar.

E tinha a voz de um anjo.

—Sua prima não está cá?

—Na floresta. É a segunda vez dela hoje.

—Segunda vez?

—Hope é lobisomem. Meio lobisomem, ela ativou a maldição dela ano passado enquanto tava possuída pela bruxa mais malvada do nosso mundo. Agora, toda lua cheia ela tem que se transformar.

—Em que?

—Lobisomem. Meio lobo, meio homem. Bem, mulher. Mas, enfim.

Não podia crer numa coisa daquela. Uma dama que se transforma num lobo?

—Como isso é remotamente... possível?

—É uma maldição. A bruxa que tava possuindo ela no ano passado inventou. Hope é descendente dela e da primeira lobisomem do nosso mundo que era mãe da Inadu.

—Inadu?

—A bruxa.

—Mas que tipo de nome é este? Inadu?

—É indígena.

Eu toquei a sua bochecha mais uma vez. Sua face pálida e fria.

—Não me importa nada disso. Ainda é um anjo para mim. Meu amor.

—Você é doido.

Disse tocando o meu rosto e rindo. Porém, ela ouviu algo.

—Hope.

E então veio o uivo. Ela se preparou para correr.

—Espere. Vai me deixar tão insatisfeito?

—E que satisfação você teria aqui esta noite?

—A troca de seu voto de amor fiel por mim.

Clary sorriu.

—Eu te dei o meu amor antes mesmo de você me pedir. Antes de saber quem você era e depois disso. Meu doce Montecchio, fique aqui um pouco eu já volto.

Ela sumiu num silvo de vento.

P.O.V. Clary.

Atiraram nela com uma flecha.

—Porque demorou tanto?

—Desculpa. Tive que convencer o Romeu a me deixar vir te ajudar.

Logo haviam vários homens ao nosso redor armados com bestas e espadas e facas.

—Sodomitas!

—Levou um bom tempo, mas finalmente pegamos você, criatura.

—Ou talvez eu só tenha parado de correr.

Disse Hope. E nós começamos a mandar pau neles. Arrancamos os corações, mordemos, estraçalhamos.

P.O.V. Romeu.

Enquanto esperava, sentei-me no balcão.

—Temo que isto seja apenas um sonho. Muito doce e lisonjeiro para ser substancial.

Então, começo a ouvir gritos de pavor vindos da floresta. Com medo de algo estar acontecendo á Clary foi correndo até lá apenas para contemplar aquela cena pavorosa.

Os homens as cercando, atacando-as com bestas, lâminas e machados e sendo massacrados. Logo, algo inesperado aconteceu. Vi a garota que estava desnuda, transformar-se num enorme lobo branco. Ouvi o som inconfundível de ossos quebrando. E ela atacou os homens, estraçalhando-os.

Fiquei absolutamente chocado ao contemplar aquela cena. Elas não pararam até o último deles cair morto. Se moviam tão depressa que eu não as podia ver enquanto o faziam. Eram apenas borrões.

Quando finalmente acabaram... o traje antes imaculado de Clary agora estava manchado com o sangue daqueles pobres homens, sangue este que escorria por sua boca. Quando ela olhou para mim, seus olhos estavam vermelhos como o fogo do inferno e de suas escleras saiam veias negras horrorosas.

—Como eu disse. Não sou Julieta. Não sou donzela em perigo, sou uma predadora, uma assassina. Não sou um anjo. Meu nome é Clarissa Mikaelson e eu venho de uma longa linhagem de vilões das suas histórias. Sou filha de um dos primeiros vampiros do mundo e uma híbrida duplicata, descendente dos primeiros imortais, neta de uma bruxa malvada, uma mãe louca e desesperada que amava tanto seus filhos que não podia suportar a ideia de perdê-los, então os transformou em vampiros. E por mil anos os vem caçando, morrendo e retornado até agora. O sangue de anjo que eu tenho nas veias é o sangue do Primeiro e mais poderoso Arcanjo, o filho rebelde, o Primeiro caído, Lúcifer, o Portador da Luz. Também conhecido como Satã, entre outros nomes.

Aquela criatura ensanguentada estendeu os braços para mim e perguntou:

—Ainda acha que sou um anjo? Que sou a perfeição?

Seus olhos haviam voltado ao seu costumeiro tom de verde.

—Não. Presumo que não.

Ela tirou o robe e o estendeu para a outra.

—Veste ai. Vamos pra casa.

Dias e dias se passaram e eu vaguei por bailes, ruas, tabernas. Procurando por ela sem saber. Até conheci Julieta Capuleto. Sim, ela era bela, mas Clarissa apesar dos pesares possuía tanta beleza e suavidade que era mil vezes mais bela. Seus cabelos negros cheios de cachos eram belos, porém ordinários se comparados aos cachos cor de fogo de Clarissa Mikaelson, sua pele era alva e parecia macia, porém era nada comparada a pele de Clary que mesmo com aquela marca ainda era mil vezes mais linda. Os olhos castanhos eram doces, talvez doces demais. Os olhos verdes de Clarissa tinham algo de selvagem.

A Senhorita Capuleto começou a cantar, sua voz era bonita, mas a voz de Clarissa era suave, aveludada, angelical.