Romeu E Julieta
2 Noite de Natal perfeita
Sem nem se importar de ser grosseiro, Hans puxou-me pelo braço até a casa de vovó, o idiota era forte e por isso eu só fiquei lá, olhando Romeu com os olhos brilhando de desejo.
Hans já havia apertado a campanhinha quando consegui me soltar dele.
- Você me machucou! O que estava pensando?! — Perguntei.
Hans revirou os olhos dramaticamente e fez uma careta.
- O que eu estava...
Ele parou de sobressalto ao ver a figura de papai na porta. Nós olhamos para nosso progenitor e engolimos em seco, papai se afastou para que entrassemos e trancou a porta novamente. Já dentro da casa (mamãe e vovó estavam conversando sobre tricô de fronte à lareira), ele nos parou antes que pudessemos subir as escadas.
- E o motivo de discussão fraternal seria?
Eu e Hans trocamos olhares. O meu dizia claramente que, se ele contasse qualquer coisa, eu abriria meu trambone de trinta e dois dentes e também falaria sobre seu encontro mal sucedido com a holandesa.
Cruzei os braços e esperei que Hans falasse, afinal, eu era mulher e sempre tinha que esperar o primogênito homem falar. Que saco!
Hans pigarreou, visivelmente tentando arranjar uma desculpa.
- Hã... É que, é que...
Revirei meus olhos e bufei. Hans continuou:
- É que Julieta atirou uma bola de neve em mim e eu fiquei triste.
Eu fiz uma careta, visivelmente incrédula por essa desculpa tão ridicula, mas papai não notou esse fato e pareceu aceitar o desfalque de meu irmão. Eles nos mandou subir e nós subimos.
Eu dividiria o quarto com Hans, mamãe e papai. Sorte o quarto ter duas camas de casal, sorte? Fala sério, eu teria que dividir uma com meu irmão!
Quando já estavamos de pijamas e arrumando nossa cama, me virei para Hans e bufei outra vez.
Ele sorriu.
- Que foi?
- Que foi? Ah, que foi? Você foi um grosso lá em baixo.
Hans revirou os olhos.
- Está falando do alemãozinho?
Lhe mostrei a lingua.
- Quem te disse que ele é alemão?
- É preciso dizer?
- Certo, ele é alemão. Mais e dai? Por que me puxou daquele jeito?
Hans sentou-se de pernas cruzadas e olhou pela janela, afinal, a mesma ficava ao lado de nossa cama.
- Ju. — Começou ele — Você sabe que não pode. Você é judia, e ele alemão. Vocês são inimigos declarados.
- Por que está dizendo essas coisas? Até parece que estou apaixonada por Romeu... Quero dizer, nem ao menos conversei com ele.
Hans olhou-me nos olhos. Ele tinha um principio de sorriso nos lábios carnudos em forma de coração.
- Eu não disse nada sobre paixão, é você que está falando. E, por falar nisso, está na cara que você gostou do alemão. Deu para ver nos seus olhos.
Depois disso nós ficamos em silêncio, apenas...refletindo sobre tudo. Hans abriu sua mala e tirou de lá um pequeno rádio, ele ficou admirando o objeto.
Nós não falamos mais nada, enquanto Hans procurava uma estação boa de rádio, eu me virei e dormi. O rosto de Romeu ainda muito visivél em minha retina.
***
O dia de Natal foi até que agradavél.
Ganhei um bolo de morangos de vovó, um livro sobre mitologia grega (uma paixão secreta minha) de papai, uma encharpe de trico de mamãe e um caderninho de anotações de Hans.
Depois de todos abrirem os devidos presentes de fronte arvore de natal e comer os bolinhos de cereja de vovó Petronella, papai e mamãe permitiram que eu saisse um pouco para poder ler no ar fresco. Aceitei de imediato, é claro.
E sabe o melhor? Hans não queria ir, em parte porque era domingo e ele precisava começar sua maratona de exercicios, em parte porque temia ver o pai da holandesa novamente.
Sendo assim, peguei meu livro sobre os deuses da Grécia e sai para o ar gélido da manhã de natal em Amsterdã.
Sentei-me em uma pequena parte coberta de neve, ao lado de um dos meus anjinhos de neve feitos na noite anterior que continuavam quase perfeitos e abri o livro.
Eu estava tão absorta na história de como Zeus havia cortado seu pai, Cronos, em pedaços e o jogado no Tártaro que nem percebi a aproximação de uma segunda pessoa em meu espaço.
- Bom livro. — Disse uma voz grossa e suave ao meu lado.
Tive um pequeno sobressalto e olhei para o lado. Um sorriso brotou inconsientemente em meus lábios ao identificar quem era o dono daquela voz.
Marquei a página em que estava lendo e fechei o livro para poder admirar a sua capa. Era a imagem dos deuses no Panteon, com os três grandes em destaque no fundo do grande salão.
- Gosta de mitologia grega também, é? — Perguntei.
Romeu assentiu e, com delicadeza, retirou o pequeno livro quadriculado de minhas mãos.
- Sim, eu acho... interessante. Sabe? Todos os semideuses da história falam em como é perigoso ter a metade de um sangue divino e coisa e tal, mas, não sei... eu daria tudo que tenho para ser um herói como Hércules, por exemplo.
Eu assenti. Era estranho ele já estar falando dessas coisas comigo, nós ainda mal nos conheciamos. Isso não me impediu de falar também.
- Eu sei. Poder fazer algo que valesse a pena.
- Exatamente. — Concordou ele enquanto me devolvia o livro. — Acho que já vou indo, você estava tão envolvida...
- Não! — Gritei antes que me controlasse. Então, enquanto eu sentia o sangue chegar em meu rosto, sorri — Quero dizer, não vá. Eu gostei de conversar com você e te devo desculpas pelos xingamentos que proferi ontem.
Romeu sorriu e seus olhos brilharam enquanto ele se sentava outra vez ao meu lado.
E nós conversamos. Sobre absolutamente tudo que aparecia em nossas cabeças. Gostei de saber que nós combinavamos em muitas coisas, e também de saber que tinhamos opiniões diferentes em quase tudo. Foi bom até chegar na parte de Hitler e os judeus. Romeu acabara de notar a estrela de Davi em minha blusa.
- Oh, judia. — Disse ele um pouco surpreso.
- É. — Admiti. Colocando o cachecol em cima do desenho, procurando escondê-lo o máximo possivél. — E você alemão, certo?
- É. — Ele me imitou enquanto ajeitava a touca na cabeça — Que coisa.
- Que coisa. — Repeti. — Algum problema?
Romeu deu de ombros.
- Não para mim, mas para minha familia.
- Que tem ela?
- Todos os homens são filiados do partido Nazista e...
- E você pensa em se filiar também?
- Não! — Disse ele. — Sou obrigado. — Admitiu derrotado.
Infelizmente não pudemos continuar nossa conversa, Hans acabara de gritar da janela que era hora do almoço. Me despedi de Romeu um pouco angustiada e voltei para casa.
Por que tudo tinha que ser assim? Tão dificil? Por que nós, judeus, precisavamos ser condenados? Por que os alemães eram o povo puro e nós,judeus, o povo de sangue ruim? Essas eram as perguntas que rolavam em minha mente enquanto comia o espaguete com pure de batata. É claro que todos perceberam minha quietude, afinal, sou sempre tachada de tagarela entre os van Daan e os Gies.
- Algum problema, minha querida? — Perguntou vovó carinhosamente.
Dei de ombros e engoli o que eu estava mastigando.
- Nada. Hã... eu já acabei. — Dizendo isso me levantei e, ignorando o que papai dizia, levei o prato até a cozinha e o lavei. Depois, ainda ignorando todos, voltei para meu quarto.
Aquilo não parecia eu... parecia que eu estava sendo controlada por alguém com uma depressão em estado grave.
Romeu teria que se filiar ao partido Nazista quando completasse dezoito anos... Eu era uma judia. Ah, Julieta, pare de pensar em como seria bom estar envolvida por seus braços fortes e ser olhada com carinho por seus olhos azuis faiscantes... pare com isso, Ju. Vocês são de raças diferentes, são de classes diferentes. Nada nunca irá dar certo.
Eu passei a tarde inteira lendo o meu novo livro (e, infelizmente, acompanhando os exercicios de meu irmão. Sorte que ele ficava mudo nessas horas) e toda hora que alguém aparecia para me incentivar a descer, escutar o rádio ou qualquer outra coisa do tipo eu sorria e balançava o livro, dizendo sempre a mesma coisa:
- No momento Teseu e o Minotauro me interessam mais. Obrigada.
Lá para a hora do jantar, eu já estava terminando "Os Deuses e seus Dons Tenebrosos", assim como Hans acabara de terminar seus exercicios e entrara agora no quarto, totalmente vestido de preto e vermelho (a estrela de Davi amarela não combinava muito) e me olhando de um jeito estranho.
- Que é? — Perguntei à ele enquanto colocava o livro no criado mudo e começava e me aprontrar para a minha vez do banho.
- Se você não quer me dizer, tudo bem.
Revirei meus olhos e sai do quarto para tomar meu delicioso e relaxante banho.
***
Depois de um jantar bem servido e de eu me encontrar extremamente bem alimentada e quente, mamãe, papai, Hans e vovó me perguntaram se eu gostaria de ir até a região central de Amsterdã, para que pudessemos ver o espetáculo de natal e para rezarmos um pouco.
Eu aceitei e segui com eles até nosso destino.
Chegando lá, mamãe e papai foram para um lado, para poderem namorar um pouquinho. Hans acionou seu alerta de garotas e começou a procurar novas presas indefesas. Vovó ficou do meu lado, nós conversávamos sobre como dava para ver que o papai noel tinha uma barba falsa quando eu o vi.
Romeu estava olhando para mim angustiado, depois ele olhava para o lado e depois para mim novamente. Virei-me para vovó.
- ´Vó, acho que vi uma amiga minha ali, eu já volto.
Quando percebeu que eu ia em sua direção, Romeu virou a esquina e eu pude entender o que ele pretendia completamente.
Quando ambos chegamos à nosso destino, nós nos encaramos.Romeu se aproximou cautelosamente de mim e pegou em minhas mãos.
- Preciso lhe confessar uma coisa.
- Confesse.
Ele parecia estar nervoso.
- Desde... desde a noite passada, eu... eu, ah, Julieta van Daan, eu não consigo tirá-la de minha cabeça. Vou dormir com a visão de seu rosto e suas covinhas em minha retina e acordo com essa mesma visão.
Eu não podia acreditar no que eu estava ouvindo.
- Eu também... eu também. — Repetia eu sem parar.
Romeu e eu encostamos nossas testas uma na outra, nossos narizes se roçavam levemente. Ambos estavamos de olhos fechados.
- Eu não sei o que está aconteçendo comigo Julieta.
Eu sabia.
- Acho que... acho que estamos... — Tentava dizer ele.
Então, em parte para calá-lo, em parte porque não achei jeito melhor de expressar meu sentimento. Eu simplesmente me inclinei e o beijei.
Foi meu primeiro beijo e foi maravilhoso!
Nossos olhos se encontraram e então nos abraçamos. Eu lhe disse que era minha última noite ali e ele assentiu.
- Me promete uma coisa? — Perguntou ele.
- Qualquer coisa. — Respondi.
Ele me beijou novamente.
- Fui o primeiro a beijar seus lábios e quero ser o único a fazê-lo. Me promete isso?
- É uma promessa dificil. Me promete que vamos nos ver outra vez?
- É uma promessa dificil, mas, eu prometo, afinal, tenho certeza que vamos nos ver de novo. — Então ele me olhou com intensidade — Eu não conseguiria viver em um mundo sem suas covinhas.
Sorri para ele.
- Certo. Eu lhe faço minha promessa.
Depois tivemos que voltar para os braços de nossas familias. Aquela noite de Natal iria ficar para sempre gravada em minha memória.
A MELHOR NOITE DE NATAL DO MUNDO!
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