Naquela pele branquinha, coberta pelo suor; nos cabelos loiros e brilhantes, espalhados pelo sofá, a tiara que antes os enfeitava jogada ao chão; nos olhos azuis que podiam ser tão inocentes e sonhadores, mas também tão provocantes e maliciosos... nos traços que compunham o rosto meigo e nas curvas que formavam aquele pequeno corpo, Kagamine Len encontrou seu anjo da perdição.

Aquela garota que o levou a desobedecer os próprios pais, que fazia-o sentir uma deliciosa sensação de desejo e ansiedade ao tocar na pele acetinada. Embora, é claro, ambos tivessem hesitado um pouco a se entregar aos sentimentos, mesmo que no fim tenha se mostrado impossível fugir do que causavam um no outro.

O loiro ainda se lembrava de quando se conheceram. Mesmo que naquela época não tivesse sentido desejo, nem uma vontade quase esmagadora de tocar aqueles lábios finos e rosados com os seus próprios. Não, na época eram apenas crianças de seis anos de idade, que brincavam de pique-pega enquanto os pais discutiam furiosamente na sala ao lado.

Eles eram primos, e os pais de Rin tiveram um grande desentendimento com os de Lne. Nunca lhes foi dito mais do que quê eram problemas financeiros, porém fora-lhes proibido terminalmente de se encontrar, e até mesmo pronunciar os nomes 'daquele lado da família'. Por isso, ambos cresceram sem os tios, e sem falaram-se mais uma vez.

Não que isso tivesse muita importância, naqueles tempos. Para Len, Rin fora apenas uma companhia para brincar, por um dia. No seguinte, já com Kaito, um garoto mais velho, amigo do loirinho, Len simplesmente a esquecera, como qualquer outra criança teria feito. E tinha certeza que quando Rin voltou para suas amigas Miku e Gumi, deixara-o totalmente de lado. Eles não sentiram nem um pouco de saudade.

Mas aquilo não foi para sempre. Nove anos depois, quando ambos entraram para o ensino médio, voltaram a se ver. No primeiro dia de aula da nova escola, naquele clima consideravelmente agradável de outono, a professora de Filosofia decidiu que todos os alunos deviam se levantar e fazer uma breve apresentação para ela e seus colegas de turma.

"Hatsune Miku, adoro alho-poro e cantar. Ah, também amoo sucos de legumes e vegetais!" pronunciou-se uma garota de cabelos longuíssimos, em tom verde-água, presos com muito bem-feitas marias-chiquinhas. Len ignorou a careta de seu amigo Kaito, que repetira a sétima série, por isso estava na mesma classe que ele, e observou a menina. Ela era realmente linda, não podia negar. Miku sentou-se, mantendo na face um leve sorriso.

"Megpoid Gumi, eu gosto de cenoura, de verde, de cinema, revistas, cantar... meu cabelo é natural, tá gente?" começou uma outra menina, também bem bonita, de cabelos verdes curtos, com duas mexas mais longas na frente. Um enorme sorriso alegre bailava em seu rosto. "... também adoro tocar violão, e ao gatinhos, cachorrinhos, coelhinhos..." continuou, e não parecia disposta a parar, porém imediatamente o fez quando um punho cerrado lhe atingiu, sem muita força, no topo de sua cabeça.

E foi então que Len reparou. Estava na mesma sala que ela, a menina que seus pais proibiram de dirigir a palavra. Ela estava ali, levantando-se com um sorriso perfeito, seus grandes olhos azuis refletindo uma animação bem semelhante ao das duas meninas anteriores, porém que aos olhos de Len parecia mais especial e contagiante. A faixa branca, com um pequeno laço, preso aos cabelos dourados...

"Sou Kagamine Rin, eu gosto de laranja, e de amarelo..." pensou um pouco. "E também, adoro as histórias 'Cinderela' e 'Roemo & Julieta', é isso." assim, direta, sem medo de rirem dela por ela gostar de uma história considerada infantil, como Cinderela. O tom contente, mas decidido, aquilo fazia Len sorrir discretamente, a observando.

As apresentações seguiram-se, mas o loiro já não prestava mais atenção. Afinal, passava por um dilema interno: falar ou não falar com Rin? Por isso, precisou que Kaito o cutucasse para perceber que já era sua vez.

Levantou-se, ainda um pouco aéreo, disfarçando o nervosismo por ter tantos olhares sobre sim com um sorriso sereno, pensando por meros dois segundos em como começar. Respirou fundo antes de falar.

"Kagamine Len, gosto de Shakespeare, principalmente Hamlet e Rei Lear." Falou apenas isso, mantendo como disfarce os modos calmos, mesmo depois de se sentar. Seus olhos azuis percorreram a sala, distraidamente, congelando-se no rosto de Rin.

Ela virara a cabeça para trás, encarando Len com o rosto perplexo, os olhos arregalados, incrédulos, lhe pareciam dizer com toda certeza que Rin não se esquecera da feição de seu primo com quem não falava a tanto tempo. E aquele hesitar, misturado a descrença e curiosidade, diziam-lhe que ela também fora proibida de falar com ele, e agora provavelmente pensava no azar que era cair justamente em sua turma.

A primeira semana se passou com eles mandando ocasionais e discretos olhares um para o outro, curiosos e ansiosos, esperando para ver quem seria o primeiro a desobedecer os pais. E a segunda semana, já ficavam minutos se encarando durante as aulas, desafiando-se com os olhos a tomar uma iniciativa. E na terceira semana, Kaito resolvera falar com Miku, chamando-a para ir ao cinema, arrastando Len, Rin, Gumi e um garoto quase tão animado quando a última, porque quem Gumi aparentemente tinha uma quedinha.

O detalhe de que estavam praticamente saindo entre casais passou despercebido aos loiros, até que se vissem em uma sala de cinema, vendo uma comédia romântica, com Miku com a cabeça repousada no ombro do ais velho e Gui e Gumiya, o tal garoto, flertavam descaradamente e dividiam uma pipoca. Os olhos azul-claros se encararam por quase 10 minutos, ignorando o filme e os outros quatro.

"Então... é bom te ver de novo, Rin." Finalmente falou o loiro, pronunciando a primeira das muitas frases que diria a ela. E Rin sorriu. Larga e belamente.

"Sim, igualmente. Sabe, você não mudou muito, Len." Disse o nome dele com deleite, por saber que estava descumprindo ordens, e isso a excitava.

"Nem você, na verdade." Len riu baixinho. "Não acha que ficamos muito parecidos?" a loira também riu de leve, fazendo coro com o restante do cinema, que ria animadamente de algo que acontecia no ignorado filme.

"É, ficamos. Os genes da família devem ser bem fortes." e voltaram a olhar para o filme, não trocando mais palavras.

Felizmente, nenhum dos dois considerou aquilo um primeiro encontro, pois se assim fosse, teria sido um desastre. Poucas conversas entre si, uma pontada de tédio e falta de assunto, e, enquanto comiam após o filme, o melhor que tiveram para fazer foi ouvir Gumi falar, e como ela falava!

Mas foi aquela ida ao cinema que derrubou uma enorme barreira entre os dois. Agora, não precisavam mais se preocupar em quem desobedeceu primeiro, já estava feito, era só seguir o curso. E o romance de apenas um mês e meio de Miku e Kaito, mesmo que não tenha durado muito, foi o que fez eles se sentarem juntos nos horários de intervalo. E isso acabou por se tornar uma agradável rotina.

Foi pouco depois que Miku e Kaito romperam que Len começou a perceber que as palavras de Rin raramente chegavam a seus ouvidos, e tudo que seu cérebro captava era o movimento dos pequenos e rosados lábios. Mas... puxa, ela era tão linda e divertida que Len não teria conseguido afastá-la de si nem que quisesse. E ele não queria.

Por isso, passou a mostrar de forma discreta seu interesse especial por ela, avançando aos poucos com cada resposta positiva da loira. Até que em algum momento se via pensando seriamente em contar sobre como se sentia a prima. E demorou-se uma bom tempo para tomar coragem. Tanto que quando finalmente disse, estavam de férias, dando uma volta pelo parque, muito bem agasalhados contra o frio.

Esperava que Rin arregalasse os olhos e o encarasse com incredulidade até ele desviar o olhar, e então a loira diria que não gostava dele daquele jeito e iria embora. De fato, foi por essa possibilidade que demorou tanto em tomar coragem para se declarar.

Mas Rin apenas sorriu, com as bochechas coradas, e ajeitou nervosamente o cachecol antes de se inclinar um pouco para frente, deixando as pálpebras cobrirem os bonitos olhos cor de céu de inicio de tarde. E Len engoliu em seco, ansioso, permitindo-se que seu rosto transformasse em nula a distância de seus lábios com os de Rin. Ainda se lembrava de suspirar pesadamente, de satisfação e deleita, toda vez que ele e Rin se beijaram naquela tarde.

Isso porque nas seguintes, teve que se segurar para não continuar tendo esse tipo de reação todas as vezes que os lábios se colavam. Não pensava que um dia eles realmente ficariam juntos. Na verdade, a alguns meses atrás, sequer imaginava que encontraria a loirinha de novo. O destino realmente pode reservar surpresas maravilhosas.

E tal como veio, o inverno se foi, e a primavera tomou seu lugar, enfeitando as ruas com flores e pétalas que se soltaram de suas árvores de origem. Foi nesta magnífica estação que Len voltou a casa de seus tios. Não pela porta da frente, é claro. Na verdade, nem sequer fora por uma porta. Por mais apaixonados que estivessem, os loiros sabiam que seus pais se detestavam e não aceitariam o romance com facilidade.

Mas Rin queria mostrar seu quarto a Len, e não é como se ele pudesse negar algo para aquela menina de voz aguda e meiga, sorriso encantador, olhos hipnotizantes e bochechas coradas. Rin era praticamente um "argumento incontestável" em pessoa. Por isso Len escalou as plantas da sacada da garota, sendo recebido por um lardo sorriso de uma loira de camisola.

Aquilo era golpe baixo.

Será que Rin fazia ideia do quanto ele se segurou naquela noite? Não, ela não devia imaginar. Como Len sabia disso? Nas vezes seguintes ela continuava usando camisolas, baby dolls, mas nunca um pijama comum e sóbrio.

Ele teria continuada a achar que Rin não tinha más intenções, se certa noite, quando já havia dado o horário que os adultos iam dormir, subiu pela sacada e encontrou a loira com uma camisola negra que mal cobria dois palmos de coxa, e tinha um tecido levemente transparente, permitindo-o ver as roupas intimas, igualmente negras. A garota se sentou na borda da cama, o rosto ardendo como nunca antes, engolindo em seco enquanto observava Len se aproximar.

O loiro a derrubou de costas no colchão macio, sorrindo em um misto de gentileza e desejo, fazendo Rin sentir os nervos a flor da pele. Por mais que tivesse planejado aquilo, era inevitável sentir-se um pouco hesitante. Sabia bem o que estava fazendo, sabia que seus pais não queriam sequer que dirigisse a palavra ao primo, e agora... estavam prestes a...

E foi por ter a mente transbordando pensamento que se encolheu e fechou os olhos com força quando Len tocou-lhe o rosto com delicadeza. Relaxou ao ouvi-lo dar algumas risadinhas, deixando de ocultar suas belas orbes azuladas. Respirou fundo uma vez e entrelaçou seus braços no pescoço do garoto. Um sorriso travesso brincando em seus lábios e os olhos não pareciam conter nenhuma vergonha, embora as maçãs muito vermelhas contradissessem-nos. Era uma combinação incrível. A feição mais linda e perfeita que um ser humano podia mostrar.

"Deixe-me mostrar-te meu..." e quando a garota terminou de falar, o loiro entreabriu os lábios, um bocado surpreso. Mas acabou sorrindo também. Como não fazê-lo? Sua Rin era uma deslumbrante caixinha de surpresas.

Sim, sua Rin. Ela era sua, os gemidos que escaparam de ambos, naquela noite, seu nome sendo clamado por aquela boca, quando esta não estava colada a sua, o corpo pequeno se contorcendo nos lençóis, os arranhões em suas costas e ombros, as marcas no pescoço da loira; tudo isso servia de prova. E não iria deixar ninguém separá-los. Nem mesmo seus pais. Foi isso o que Len pensou no dia seguinte, enquanto sentado na mesa de café da manhã, observando o pai e a mãe conversando amenamente sobre algum lugar bonito em alguma parte da America, que a mulher tinha vontade de visitar.

Tudo no namoro corria surpreendentemente bem, e parecia que nada poderia atrapalhar. Isso até chegar o fim do ano letivo e ocorrer uma reunião de pais. E os pais de Rin e Len se encontrarem. E descobrirem que eles estavam na mesma classe. E que faziam os trabalhos juntos. Não foram precisas muitas outras perguntas para os Kagamine perceberem que seus filhos estavam namorando.

Puxando Rin pelo pulso com brusquidão, fazendo Len ir correndo ver o que acontecia, a mãe da loira a arrastava para fora da escola, e assim que se aproximou, o pai da garota lhe deu um tapa forte o suficiente para quase jogá-lo ao chão. Quando tentou alcançar a mão estendida da loirinha, seu pai o segurou pelos ombros com firmeza, enquanto sua mãe berrava com afinco sobre aquela desobediência.

Mudaram Len de escola, e a única forma que os loiros encontraram de se comunicar foi mandando mensagens por Kaito, que parecia realmente contente por poder ajudar, mesmo que quisesse muito poder fazer mais do que apenas levar e receber recados.

Foi no quarto mês de separação forçada que, não aguentando mais ver a tristeza refletida nos olhos da amiga, Miku teve uma ideia simples e inteligente. Len arranjou um emprego em um pequeno café, e Rin saia de casa todos os dias, dizendo aos pais que ia aprender a desenhar. E, para conseguir convencer os pais, a esverdeada a ensinava a desenhar durante os intervalos entre uma aula e outra, na escola. Então, quando sua mãe pediu para ela desenhar algo, não tinha grandes problemas.

— No que você está pensando? – indagou Rin, curiosa, depois que o jovem loiro, de agora 19 anos, passara vários minutos apenas a olhando, pensativo.

— Em como nos conhecemos... – respondeu vagamente, tomando os lábios da loira com os seus próprios em seguida.

— Pois pare de pensar nisso! – exclamou, irritada, assim que o beijo se rompeu. – Nós temos várias caixas pra desempacotar, uma casa pra organizar e você ainda fica perdendo tempo!

— Desculpe. – a beijou novamente e se ergueu, indo até uma caixa de papelão.

Rin o abraçou por trás, com o rosto enterrado na curva do pescoço do primo. Estava tão feliz! Finalmente conseguiram empregos para se sustentar sem terem que parar de estudar, e finalmente havia saído da casa dos pais, puderam morar juntos, sem ter que se esconder ou temer.

— Vamos arrumar o quarto primeiro, Romeo? – falou em tom zombeteiro, beijando a parte de Len mais próxima de seus lábios.

— Romeo? – Len riu, virando-se de frente para a namorada. – Então você é a Julieta?

— Não! – também riu. – Eu sou Cinderela... – completou, antes de capturar os lábios alheios, dando uma leve mordidinha na parte inferior. – Então... não quer mesmo ir começar a "arrumar o quarto"?

"Não vou deixar que meu amor seja como a tragédia de Julieta. Por isso serei Cinderela. E vou buscar meu felizes para sempre, mesmo que para isso tenha que lutar e me ferir. Tudo bem, se estiver ao lado de quem amo."

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